domingo, 6 de maio de 2012

ABSOLUTO, 2


Embora a razão seja comum a todos, cada
um procede como se tivesse um pensamento próprio.
[...] O caminho que sobe e o caminho que desce
 são o único e o mesmo. - Herakleitos


Nada sei do absoluto. Quase.

Um ponto entre a mobilidade e o silêncio em toda carne, nem só carne. Sei que o absoluto é um deus que me escuta e enxerga. O passado me repele em saltos ao desconhecido.

Sei também das noites em que repousava lentamente, e apertava com força descomunal, uma mão na outra. Movimento encarnado, encontro do que não poderia ter sido e foi. A existência reconciliada. Perpétua possibilidade.  Estender-se, ser-se.

 Invita-me palavras desusadas – amiúde, derna muito – como um lugar criado na linguagem, um lugar metafísico em que possa caminhar sem que seja estrangeira, como tudo. Exatamente livre. Ecos epifânicos, partícipe de sua Bondade e o indelével, o inefável.

Sinto. O silêncio que flui sobre nós, como o mormaço sobre o oásis, o orvalho sobre a terra. Como coisa profética, como toda calma para o transe, saliva sobre a ferida.

Sei que o busco, em vigília, com tudo - imersa de agoras e o tempo-quando. Sei que o absoluto é um caminho, e que sou a sua morada.
*

3 comentários:

Anônimo disse...

Nina,que doce dizer "Nada sei do absoluto.Quase" Uma sensibilidade lúcida!todo um poema belo!Graça

Lalo Arias disse...

É o que eu sempre digo: é uma benção ler você. Um beijo, ninotchka.

Marcelo Novaes disse...

Nina,





Teu movimento encarnado, do quase ao tudo, ao mesmo tempo morada e caminho, é o reverso da nostalgia: saudade do que poderia ter sido e não fora. Encontro consigo.




Um beijo, amiga!