domingo, 27 de janeiro de 2019

rapsodia, quasi una fantasia



                              Poemacolagem de Samuel: 'desconcerto para rizzi ávida e os cães frenéticos da rua', 2017.

"óperas silenciosas, tímpanos estilhaçados" - jota mombaça

 prelúdio pra rapsódia

saudades tenho de um qualquer que me habitasse;
de toda terra ou pedra, terrivelmente linda, real, dorida.

saudades dessas que me ficam assim, solidão mais fora que dentro;
dos mitos que ficam existindo dentro de mim.


1º movimento, l'istesso tempo

era o aniversário dela, a moça que já foi de bienal. depois ela quis ser travesti e eu comi chantilly sem leite e sem gordura em sua homenagem, pra comemorar. com mostarda, pimenta e um pouco de sangue que consegui espetando os joelhos com o garfo. eu lembrei do dia de seu trigésimo aniversário, as flores amarelas e o poema de dylan thomas. comi as flores porque ela não é bondosa, nem deveria. é um modo de celebrar as idas ânsias, hoje um peso morto como partidos políticos, superávit primário, uma escola conservadora. ela não respondeu, comi com esse pensamento, quanto bem-me-quer cabe em mal-me-quer, o quanto me havia de impraticável. 

eu não pensava em nada disso. eu era assistente social tecnicista e utilitarista. Ou era educadora ou poeta mainstream. aí que eu encontrei o 'take the power back' e fiquei com pena de ter aprendido algum inglês como laugh and laughing a cultura dominante, nessas outras coisas que missy elliot não dizia em settle for nothing. é bonito o som dessas palavras pra muito além de concretismo, mas só isso. nem era meu aniversário apesar de ver àquela, ó presente de ano em ano. eu tenho alguém que me presenteia, nos esbofeteamos quase toda manhã como um jeito de buscar a mágoa em lugar de nuvens, como a vida deve ser ou não, aqui é que é assim viver a vida.

não importa o resto, só isso. a indicação de alguém que já me admirou - não hoje, não depois de eu beijar uma mulher quando todos os homens me disputavam e se ofereciam e eu só pensava e bebia o homem que não estava com a salsinha ou talvez fosse coentro, o coentro que em suas mãos pra minha boca, só assim das suas mãos pra minha boca é que podia ser bom e é maravilhoso, foi -. sim, não depois de eu beijar a mulher quando era o homem distante e aquele ali que já me admirou sabia. sabia e me chamou de falsa. fake, na verdade, que é como ele tem sido depois de ter descoberto em sua poesia - aquela poesia precisa, articulada, que não se desperdiça e é indispensável -, ter descoberto que a poesia flui e é fluída, sincopada como seus rios ao gosto de ungaretti. a indicação desse homem fez o outro escrever, depois de lembrar de outro dizer, sóis, tanta gente diz e eu repito: nome é destino.

tudo era poema, não isso. era o aniversário da mulher que comi as flores e as flores e o seu nome.


2º movimento, adágio com esprezione

era preciso dizer, quase como um rito, como uma premonição de catástrofe, todo o tempo quase e o tempo quando. ainda com a  insegurança da repetição. eu queria gritar sim, com aquela vozinha da joanna ou da rachael que me tocam tanto tanto. vê, as repetições, são próprias do meu discurso que preciso todo o tempo lhe dizer. assim como não sei conjugar os verbos, é e não era. e não é que você não saiba, mas é que além do tempo é agora. a colher que estala a farinha d'água alheia ao meu não gostá-la. e eu gosto quando minha gata mais arisca se derrama em minhas folhas. grávida, se contorce e amontoa, ronrona. o homem me disse que gostoso só pode ser comida ou sexo, porque eu dizia que era gostoso o alto-mar e a gata. talvez ele não fosse mergulhador e uma pessoa que não gosta de gatos não entende nada de sensibilidade e gostar. e é gostoso quando chega a outra gata e massageia minha cintura e sexo com as unhas. a vida eterna, amor, disse ele. e lembrei dessa que era a boa vida. a ala das baianas amarelas. as flores amarelas não restituem teus lábios. é uma fera selvagem e eu nunca os vi, mas encontrei no lixo uma mala cor-de-rosa-choque pra carregar toda disritmia. e o homem, sim, você é o homem, nunca mais me escreveu uma linha. uma linha era o que separava minha alma da tua. te viram numa livraria acompanhado de uma mulher, poeta. eu não lembro quando fui mulher e tenho medo de esquecer teus olhos brilhantes. todos olhos são brilhantes você disse, mas não é verdade que todos olhos brilham como o seu brilhava quando era um cavalo domado sob meu corpimenso. a mulher ao seu lado ali na livraria, amarela como teus olhos hepáticos. só um girassol ou o miolo das margaridas podem ser verdadeiramente amarelos, belos. e as baianas de todos os santos. um riso puro e solto a contaminar cada um dos dentes até os olhos e garfos e então tudo ser uma só gargalhada. era boa a vida, uma pequena morte todo dia. e você não veio buscar meu fígado ensanguentado. ao invés de te esquecer, lambo do choro às feridas, mostro a faixa litorânea e rio ao homem que diz me querer. ele é amarelo como meu riso. mas aí eu fiquei ríspida, dizia o homem que era você quando eu parecia te amolar, faca de dois gumes. era preciso dizer que te amo, todo tempo. é preciso dizer, você sabe, mas te amo é preciso dizer, que além do tempo é agora. gostoso é o que gosto, araim.


3º movimento: andante

então descruzou as pernas e recostou-se na cadeira. ficou ali mirando as pessoas como se lhes lesse, daquele jeito em que olhar atravessa as gentes sem ver. um minuto ou outro vinha a imagem de dois dedos displicentes a brincar com um lóbulo de orelha ou um lábio superior. a dorzinha do tédio que lhe pressionava a testa em pouco passava, estaria sentada na padaria e chegaria àquela das práticas assustadoras, assim lhe parecia. coisa com coisa era a lembrança dessa; o dia em que a mãe lhe deu um vestido branco e longo como tapa na cara; quando o pai bêbado bolinou suas cobertas; as cobertas e o sujeito a morder os ombros da moça. ah, lamber a mulher e morder até que seu corpo seja uma mancha no seu. a mulher, esparramar-se a mancha. a moça sem mancada a relerrelerrelerreler os diálogos de duras pra hiroshima, mon amour. sem mancada com sua sabinada e aquela mulher ancestral, a mulher ancestral e o tempo em que fazia poesia. agora não, perde os olhos como quem pega piaba. talvez os peixes morram gozando e isso explicava seus olhos. os olhos da moça atravessando as gentes no nada. fica assim amando as coisas que insistentemente existem à sua volta como a virgem maria e, ai, essa virgindade. ali amando o tempo em que só podia amar o etéreo e irrealizável. aqui ardendo pelo em pouco, um enfim, efêmero, fractal e palpável arder, arder, arder. una pequeña viajera.


4º movimento, allegro vivace

parece até uma sessão masoquista, eu aqui sentada nesse banco imundo de rodoviária, as pessoas chegando pros encontros com risos e vindimas e esse calor infernal e tantos letreiros que me dizem tanto de nós. devia ser lindo a gente a se enroscar num canto de nome olhos d'água. ou talvez esse seja o meu lugar e não o nosso, ou só teus olhos d'água.

caridade, motorista? não, as estradas é que deviam me ter caridade. eu aqui, impregnada de tudo que te é (não motorista, já não te falo, não é você que vejo, que não me leva daqui), esses livros e essas cartas e poemas impublicáveis que imprimi na memória e na língua e que me dói a cabeça. esses teus radicalismos que carrego na bolsa pra distribuir nos assentamentos.

um mundinho tão casca de nós e a gente não ter se esbarrado de novo, nesses letreiros e bancos imundos e em meus poemas pra dentes, ó, absurdidade. fazemos inveja aos pregões novaiorquinos. é isso, muita especulação, investimentos de risco e a gente nem gosta de apostas e roletas, só dos russos que dizem desse frio que nos encharca.

ah, menino, me viciei tão baixinho em teus hábitos estúpidos, em teus lábios sujos de me falar e ter e me amarrar e rasgar cada pedacinho e comer, hay que comer, que me pergunto cadê os poemas que te enviei? por que não podia simplesmente devolver cada um dos pelos e pentelhos que te entreguei em histeria? é muito calor, é muito calor e eu tiro os cabelos que me tapam os olhos e me engasgam e a minha cabeça continua a doer. pra onde será que esses ônibus vão se não me levam? de onde vem tanta gente? o nordeste inteiro e a gente nem sol.

você gostava tanto das minhas sandálias de cangaceiro, a gente fazendo moda de sertão alegre e pirilampo e aquelas frutas lindas, com uns nomes de se abocanhar em pelo. pelo apelido, mas era o nome real que me pegava o gosto, mas que agora não lembro de tanto que me dói a cabeça de tanto te lembrar esses pelos que isaías falava que de tão escarlate o pecado, derretia branquinho como a neve. três quilômetros morro abaixo a centetrinta por hora, em menos de um minuto se chegava ao destino e nós nem esqui. sputinik, bolchevique, tecnicolor e eu e você nem lua. minhas pupilas dilatadas e quem sabe também as tuas.

o sujeito da princesa dos inhamuns veio lá de seu guichê à minha plataforma e fica aqui me cortejando e me olhando e me querendo ler tudo e você precisa fazer um transplante e esse meu rim desgraçado tinha que doer justo agora? e essas biomédicas apolíneas e meigas maledetas que não me aceitam a carne mijada. os ônibus lotados, o asfalto derretendo, o pneu furado, o motor arreado, a porra hipócrita da família pequeno-burguesa e feliz, tudo isso no meio do nosso encontro, liquefazendo o rim que devo te entregar, mas que não consigo, não consigo e não me depilo que teus pelos vieram assim, meio que por acaso dentro daquele livro roubado de supermercado e desde então quantas mil vezes minha compulsão me levou a te reler PALAVRA, LETRA escArlate e RaINHA no tabuleiro. você já comeu biscoitos de farinha d'água? é a falácia dos pães-de-queijo que vem sem beijo. quantas bonecas de mestre vitalino, quantas jangadas e eu e tu e eles nem aurora, sei que vou morrer não sei o dia e talvez você nem saberá que os sete orelhões são da rua que não ladrilhei, meu amor, e posso findar qual anunciação do apocalipse se não te entrego esse rim.

por que esse cara insiste tanto que eu lhe compre os óculos e relógios? é assim tão óbvio que meus olhos d'água precisam secar, isso dói mais em mim que nele, pode acreditar e que esse meu rim tá atrasado até ele já sabe que tá escorrendo sangue pelas minhas mãos calejadas de esperar a safra do algodão doce, mas isso não ajuda, não ajuda, assim como não ajuda esse cartão de sorrento que tenho na carteira vazia. claro que na itália fazem docinhos deliciosos de frutas azedas e ESPINHENTAS! sim, feito pequi com arroz, com frango não que detesto frango, digo, sou sensível demais pra detestá-los e não posso comê-los a não ser que te entregasse meu rim a tempo e pudéssemos fazer um charque de galinha, um steak até, nem que fosse lá, naquela minha esquina vizinha, a que me fugiu com a família feliz e netos e onde sua pele brilhava como a de um escravo à venda no mercado de olinda e seu nariz anguloso e eu lá nu em vermelho modinha gli ochi per te. você devia ter me escutado contr'alto:

volevo dirti solo che
sei sempre tu la mia allegria
che quando parli insieme a lei
diventa folle gelosia
per tutto quello che mi dai
anche quando non lo sai
questo io volevo dire a te

di come quando non ci sai
io mi perdo sempre un po'
poi mi accorgo che non so
più divertirmi senza te
invece quando stai con me
anche il grigio intorno a noi
i colora della vita che gli dai

com'è difficile dire tutto questo a te
che d'amore non parli mai
non ne parli mai con me...
hai paura come me...

os ônibus não vêm do carnaval, do natal e eu viro duna, maresia, ruína, olhos d'água. faço cantilhenas, grito e choro e esperneio que nem uma criança cricrinclame com toda força e as estradas interditadas e esse rim em minhas mãos de concha virando ostra. porra... eu encaro o sol. encaro sim. recoloco as pernas que te dei naquela feita gloriosa e vou. cuspo e vou a nado se preciso, é preciso! voltando de canindé via tabapuá é calor eu sei, mas é preciso sonhar sabendo a hora de partir. não tenho cavalo, nem burro brabo ou pau de sebo, mas a princesa dos inhamuns vem, tem que vir, tem que vir e aí sim: rícino, rim, rir, ô sertão sanguidolente.

fortaleza, 2008-9
*

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

exercício pra os teus gestos, 1

Helena Almeida S.T., 1996, sete fotografias, 126x179cm. Col. Reina Sofia, Madri



seu gesto mais bonito
aquele que se ausenta

dia a dia

olho as gentes 
um dos casais tem o tempo
ancorado nos ombros

não se olham
para frente
                         o nada

eu sinto tanta pena 
por um triz não lembrar 

nossos gestos os mais bonitos 

olha eu lembro
lembro que você pode ter o tom
mais doce pra tudo 

como se todo amor coubesse
apenas no intervalo

entre tua voz e gestos
meus olhos ouvidos 

parece muito triste
um gesto que se perde na memória

como se nunca tivesse existido
um gesto

um gesto e poderia ainda me tirar
um cisco que lacrimeja

um gesto e ainda podíamos ser

não sei o quê                       
antes
                                                       depois 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

assombro, traduções #2

folhagravura pra mamãe, lavínia rizzi


depois de versões de poemas minhas por Tom Jones em inglês, Luciano Dutra em islândes e João Victor Cheng em chinês (que podem ser lidas aqui!), eis que a poesia dá seu salto à linguagem de babel:

1. Antologia Palavras andantes 1 (uma rede ibero-americana de poesia) Org. Sergio Cohn, Pedro Rocha e Érica Casado. Editacuja, Azougue, 2018. "palavbras andantes" - 'revista de poesia iberoamericana com edição e distribuição nos diversos países da região, criando uma rede ampla, descentralizada e afetiva de poetas, tradutores, leitores e editores. Bilíngue e quadrimestral, a cada número traz uma ampla antologia da poesia contemporânea de um dos países da rede, além de um ensaio introdutório. em cada edição teremos em torno de 18 poetas que estrearam em livros nos últimos 25 anos, além de dois poetas especialmente homenageados.' Levada a cabo-poesia por Érica Casado e Sergio Cohn, esta primeira edição, brasileiríssima, tem tradução Teresa Arijón, Andrea Sanchez Valencia e Jerónimo Pizarro. para conhecer o projeto e ler a revista, anda logo pra cá: http://palavbrasandantes.com/

2. La jaula y el silencio. 7 + 1 poemas de Nina Rizzi - traduzidos por mim e Cândido Rolim, publicados na revista peruana Vallejo & Co. Leia aqui!

3. desglutição em outras línguas II - onze poetas brasileiras em português/inglês. Ricardo Escudeiro faz versões em inglês para poetas contemporâneas brasileiras, eu tô lá! Leia na Revista de poesia e arte contemporânea mallarmargens.

Vivas! :)

É ISTO UMA MULHER?

Ilustração de Xeh Magrini

Mulheres que escrevem me ajudam a pensar 10 questões:

1. O ambiente doméstico é exatamente recoberto de chá onde as mulheres escovam o chão e se penteiam os cabelos?

2. Por que escrever uma narrativa autobiográfica? Um texto autobiográfico feminino terá sempre tom doce, com mulheres submissas que anseiam pelo príncipe encantado?

3. Uma mulher nunca irá escrever sobre um tema “masculino” como, por exemplo, fertilização de vacas?

4. Uma mulher sempre vai representar a maternidade como ideal de realização e felicidade?

5. A mulher sempre terá um papel de submissão e resignação diante das opressões? Seus heróis serão sempre modelos masculinos?

6. O amor e o erótico, quando escritos por uma mulher, serão sempre com rimas fáceis, metáforas bobas, descrições melosas?

7. Uma mulher é uma coisa pura? O que é uma mulher pura?

8. Uma mulher só pode escrever sobre si?

9. Por que se mete uma mulher a escrever? O que é um texto de mulher?

10. É isto uma mulher?

LEIA NA ESCAMANDRO!

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

anna b. nas alturas

uma moça. na descrição, uma moça bonita.

tinha um riso dentro do esquadro:
seus olhos fechados, quase sempre
e o além, muito além o que ia. ria.

muito além via também o ombro tatuado
nas alturas, segundo fragmento da flor

eu gostava.

nas alturas o riso no esquadro
asa delta. arregalada ao encanto além:
cellie negra e nua e a vietnamita

a menina e a menina
híbridas. como quem faz amor.

domingo, 14 de outubro de 2018

27 dias,

aquela listra vertical continua
na barriga ainda imensa
os mamilos negríssimos
que nunca jorraram leite

tudo continua
o terrivelmente absurdo
real real real
ainda e ainda e ainda

a mulher que já é mãe me pergunta
já tá boa da cabeça?
o corpo [... pausa dramática]
tá na de emagrecer, né?


terça-feira, 28 de agosto de 2018

[um girassol nos teus cabelos]

toco teu rosto
tão lindo tão seu

inominável teu rosto
jamais tocado

inominável teu rosto
cravejado por nove balas

toco teu rosto
e sei o que diz

inominável um rosto
cravejado por nove balas

- mulher não saia de casa
- mulher não à essa hora
- mulher não favelada e negra
- mulher não mãe de rua
- mulher não metida em política
- mulher não com outra mulher
- mulher não com outras
e outras e outras e outras e tantas
- mulher não com todo esse poder

toco teu rosto
inominável inatingível

sejam balas ou canhões
além o tempo e qualquer homem

- mulher seu rosto marielle
- mulher enfim

inominável
me toco


[barcarola mulher]
*

Publicado na Antologia "Um girassol nos teus cabelos: Poemas para Marielle Franco" - Quintal Edições, em parceria com o Mulherio das Letras, com curadoria de Cidinha da Silva, Eliane Mara e Marilia Kubota, orelha assinada por Áurea Carolina e 50 autoras homenageando Marielle. O lançamento aconteceu no dia 27 de julho, na Casa do Desejo, como parte da programação paralela da Flip 2018.

domingo, 26 de agosto de 2018

Tradução-poesia à beira do silêncio

Finalmente um tango argentino!


Da esquerda para direita, a banca: Yuri Brunello, Saulo Lemos, eu, Gleyda Cordeiro, Orlando Araújo (coordenador da PPGLetras/ UFC) e Cid Ottoni Bylaardt, meu orientador
Defendi na última sexta-feita (24/08/2018), minha dissertação de mestrado: “Tradução-poesia à beira do silêncio: tradução integral da obra poética de Alejandra Pizarnik” - aprovada, com alegrias, amor e indicação de publicação -, mas, é claro, que minha história com piknik não termina aqui <3

O vídeo abaixo foi apresentado durante a defesa:



TRADUÇÃO-POESIA À BEIRA DO SILÊNCIO:
Tradução Integral da Obra Poética de Alejandra Pizarnik


Pesquisa, tradução, voz, edição e montagem:
Nina Rizzi

Vídeo-apresentação de Dissertação
Mestrado em Literatura Comparada
UFC - Universidade Federal do Ceará
Programa de Pós-graduação em Letras

Orientação:
Cid Ottoni Bylaardt
agosto, 2018
Fortaleza

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

tradução, empoderamento & alegria: meu crespo é de rainha, bell hooks



Menininha,

Nossa história começa na África de rainhas lindas, de princesas lindas, de plebeias lindas! Todas menininhas e mulheres são lindas. A história nadou, nadou oceanos inteiros com seus cabelos caracóis, dançou nos Estados Unidos e agora chega até aqui. A trança dança!

Uma história dos nossos cabelos, de diferentes texturas, comprimentos, mas todos cheios de prazer e orgulho; uma história de celebração e beleza. Nosso cabelo é uma alegria! Doce e divertido, faz pirueta e dança, coroa de rainha!


Lá na África, os penteados que vemos em aquarelas vibrantes nessa história, têm muitos símbolos: indicam se a pessoa é menininha ou mulher, solteira ou casada, em qual comunidade vive e até detalhes de sua vida pessoal. Mas o principal é que significam seu poder vital, sua energia! E se os cabelos crespos são tão macios dançarinos, permitem tantos penteados, sua força é imensa e única!

Quando chegam na América, essa nossa casa gigantesca que dividimos com americanos, índios, latinos e tanta gente diferente, os cabelos crespos carregam essa história, a deixa mais viva, divertida e poderosa! Não precisamos domar, disciplinar nossos cabelos, nosso crespo é de rainha! Sou feliz com frizz!

A história do cabelo lindo e poderoso que veio nadando não parou. É passada de mães e pais para as filhas e filhos quando penteiam os cabelos. E cada menininha quando observa as irmãs, amigas e quando é penteada, aprende também a trançar e perpetuar nossa história!

Cuidar do cabelo é cuidar da cabeça, cuidar da gente inteira! É um aconchego para todas menininhas sentar entre as pernas da mamãe ou das irmãs, da titia ou da vovó, sentindo o calor de seu corpo que penteia nosso cabelo, cuidando da gente nesse momento de festinhas e amor!



A escritora bell hooks, que começou a contar essa história lá nos Estados Unidos, disse que ama “as cálidas lembranças dela e suas irmãs fazendo o cabelo umas das outras enquanto conversam, riem, contando histórias e curtindo a companhia”.

E se a gente gosta do colinho de pentear, imagina as mamães, as vovós, todas aquelas que cuidam da gente! Elas adoram pentear e amar as menininhas! São mãos de sabedoria e amor! Guardam as memórias da África na palma das mãos!  Quando criam os penteados, recontam a história de nossas ancestrais, e criam a nossa que depois também serão contadas!

E você, já tocou seu cabelo? Assim de manhãzinha, quando acorda e se espreguiça ainda na cama? 
Ou quando o afasta pra lavar o rosto? Quando quer prender para correr e sentir o vento? Nosso cabelo é uma delícia de brincar!

Quando a água cai e vai entrando nos fios o cabelo adora! Repleto de estrelinhas miúdas como cristais coloridos! O cabelo vai deslizando entre os dedos, girando... mexemos pra um lado e ele vai pro outro, igualzinho as menininhas correndo pra lá e pra cá cheias de energia! O cabelo tem senso de humor! E nessa brincadeira de pentear podemos fazer criações incríveis! Como bichinhos que inventamos pra brincar: um gatinho com molas, uma zebrinha de listras coloridas, um ursinho elétrico! O cabelo é cheio de travessuras e imaginação! O cabelo quer ser ele mesmo, o cabelo é livre!

Menininha, o seu crespo é de rainha! Vamos brincar juntas nessa história de beleza, alegria e liberdade? É só virar a página! 


  • autor: bell hooks
  • ilustrações: chris raschka
  • tradução:  nina rizzi
  • páginas: 32
  • ano: 2018
selo:
Boitatá/ Editora Boitempo 


Compre aqui: https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/pnld2018-meu-crespo-e-de-rainha-773

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

em lugar de exame



pergunto a un enfant terrible
se tudo que move é sagrado
o que é o que não se move

ouço plantinhas insultadas
pego na concha das mãos
plantinhas y plantinhas

pergunto a un enfant terrible
como um corpo que não aguenta mais
como ser desde a imobilidade

meu ventre vai mal, alagoas vai mal
o jaburu vai mal, ladeirabaixo é o pixo
mas olha, ondas de amor me invadem

brinco de estátua e digo
se mexe rauuullll

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

saibro pele de vaca [Flanzine nr. 16 – PELE]

Segundo consta em seu site, a revista portuguesa Flanzine é "Uma revista inspirada nos velhos fanzines, idealizada no Facebook, por dois amigos virtuais, João Pedro Azul e Luis Olival, unidos na ressaca de uma geração que resiste, sobrevivendo através de humor negro. Com alguma ousadia, foram contagiando um conjunto de autores e artistas de diferentes quadrantes e linguagens que se foram juntando à FLANmília (literatura, ilustração, cinema, música, fotografia, poesia, teatro). O design retro de Filipa Campos encerra a santíssima trindade conceptual deste pudim cultural."

Com edições regulares, impressas e temáticas, o conjunto da Flanzine é sempre de uma belezura :) Recebi no ano passado o feliz convite para publicar na edição 16, cujo tema é pele. O resultado é que saiu-me uma escritura totalmente diversa da até então minha mão. Que bom poder experimentar e abandonar territórios; que bom redescobrir o corpo. 

Recebi ontem a revista impressa com um carimbo de 05/12/2017 da alfândega portuguesa. O atraso (sucateamento) dos correios brasileiros não diminuíram minha alegria de estar junto da beleza. Na imagem abaixo, "saibro pele de vaca", minha poema conforme consta na revista; as demais imagens são da capa, contracapa e a fotografia de Ana Teresa Vicente, todas também desta edição.





Se quiser adquirir esta e outras edições, e claro conhecer mais o projeto, é só acessar aqui! ;-)



sábado, 14 de abril de 2018

geografia dos ossos - completo na rede


ao mundo, a poema <3


dois anos após publicar esta micropolítica louca e vocal em doudas terras portuguesas (com edição primorosa de Nuno Moura, projeto gráfico de Joana Bagulho & capa + ilustrações de Hélder Ventura), eis que o livro finalmente encontra morada na casa que tem abrigado todos meus filhos-livros; minhas filhas-poemas (gracias siempre, Silvana Guimarães <3)

pra ler, para baixar e imprimir, pra mandar às favas, inteirinho e completo - 'geografia dos ossos', na Germina - Revista de Literatura e Arte:
http://www.germinaliteratura.com.br/2018/ninarizzigeografiadosossos.pdf

comentários, leituras, fotos e vídeos do lançamento, aqui: https://doudacorreriablog.wordpress.com/2016/02/24/geografia-dos-ossos-nina-rizzi/

segunda-feira, 9 de abril de 2018

autorretrato de priscila

olhame ainda se pareço jardim mino luas e esporas
olhame sem ruídos soy una hilda en la casade frieda azul amarela e de novo jardim
olhame ainda o fuzil dois olhos que lambe o cussaruim quando vê o caçador
olhame sem olhos o tato puro mármore sim é calor sim esse frio de digo não digo
olhame ainda menos fogo menos descalça menos cor menos úmida menos letra
olha um espelho

domingo, 18 de março de 2018

sortilégios pra matar o meu benzinho



 tenho uma escova de cerdas macias, como nuvem, como pixaim. agradáveis ao toque como meu corpo quando dói e a cai a água fria.

a escova guarda muito dos meus fios. toda sexta-feira junto-os todos, fazendo um grande cocoruto de pêlo algodoado.

sexta-feira é também o dia que o pai chega de viagem. é caminhoneiro e nunca escova os cabelos. gosta de se dizer o homem da família, ri bem alto demarcando sua existência na casa, em nossas vidas.

sento na beira da cama. o quarto não tem porta. da poltrona da sala me olha como me olham seus amigos quando aparecem para beber, como me olha o professor e o médico. o mecânico da bicicletaria e o padeiro.

aperto as pernas bem firmes e tento manter no rosto a suavidade de cada escovada. penteio até que o braço doa, até que o couro da cabeça doa.

uma escova cheia dos meus pêlos.

quando já é tarde da noite e a mãe deixou toda a louça limpa, chão limpo, carne curtindo nas bacias com banha, alho e sal, do jeito que o pai gosta, viro para dar boa noite, mãe.

o pai ronca alto e um cheiro acre de álcool envolve a asa pequena.
agora todos já dormem.

retiro um a um meus pêlos da escova, enrolo meu cocoruto. o maior que já fiz. o pai sempre diz que uma mulher com pêlos é uma mulher nojenta.

pego a lâmpada que escondi entre as calcinhas e a esmigalho firmemente, enquanto ouço na cabeça de choros abafados de mamãe, o som grave do punho do pai em suas costas e o engasgo profundo e seco.

esmigalho até que seja puro pó em minhas mãos que sangram, puríssimas.

arranco a carne da bacia e estraçalho um pedaço, recheando-a com meu cocoruto de pêlos e vidro moído.

recito baixinho as palavras mágicas de mamãe: só teremos paz quando ele morrer.
fecho a carne, como costurando a minha.
beijo o pedaço ensanguentado.

eu sou judas.
salomé.
me beija.
me come, papai.
*


[fiz esse texto  no laboratório de escrita criativa para mulheres (cis e trans), que aconteceu na caixa cultural em fortaleza, de 06 a 10 de março/2018. a imagem que  aqui ilustrada é a capa da zine que fizemos como culminância do curso; o título faz parte do caderno-goiabada (livro de prosa poética que publico ainda este ano pelo selo aliás) e usado num dos exercícios propostos.]