domingo, 14 de outubro de 2018

27 dias,

aquela listra vertical continua
na barriga ainda imensa
os mamilos negríssimos
que nunca jorraram leite

tudo continua
o terrivelmente absurdo
real real real
ainda e ainda e ainda

a mulher que já é mãe me pergunta
já tá boa da cabeça?
o corpo [... pausa dramática]
tá na de emagrecer, né?


terça-feira, 28 de agosto de 2018

[um girassol nos teus cabelos]

toco teu rosto
tão lindo tão seu

inominável teu rosto
jamais tocado

inominável teu rosto
cravejado por nove balas

toco teu rosto
e sei o que diz

inominável um rosto
cravejado por nove balas

- mulher não saia de casa
- mulher não à essa hora
- mulher não favelada e negra
- mulher não mãe de rua
- mulher não metida em política
- mulher não com outra mulher
- mulher não com outras
e outras e outras e outras e tantas
- mulher não com todo esse poder

toco teu rosto
inominável inatingível

sejam balas ou canhões
além o tempo e qualquer homem

- mulher seu rosto marielle
- mulher enfim

inominável
me toco


[barcarola mulher]
*

Publicado na Antologia "Um girassol nos teus cabelos: Poemas para Marielle Franco" - Quintal Edições, em parceria com o Mulherio das Letras, com curadoria de Cidinha da Silva, Eliane Mara e Marilia Kubota, orelha assinada por Áurea Carolina e 50 autoras homenageando Marielle. O lançamento aconteceu no dia 27 de julho, na Casa do Desejo, como parte da programação paralela da Flip 2018.

domingo, 26 de agosto de 2018

Tradução-poesia à beira do silêncio

Finalmente um tango argentino!


Da esquerda para direita, a banca: Yuri Brunello, Saulo Lemos, eu, Gleyda Cordeiro, Orlando Araújo (coordenador da PPGLetras/ UFC) e Cid Ottoni Bylaardt, meu orientador
Defendi na última sexta-feita (24/08/2018), minha dissertação de mestrado: “Tradução-poesia à beira do silêncio: tradução integral da obra poética de Alejandra Pizarnik” - aprovada, com alegrias, amor e indicação de publicação -, mas, é claro, que minha história com piknik não termina aqui <3

O vídeo abaixo foi apresentado durante a defesa:



TRADUÇÃO-POESIA À BEIRA DO SILÊNCIO:
Tradução Integral da Obra Poética de Alejandra Pizarnik


Pesquisa, tradução, voz, edição e montagem:
Nina Rizzi

Vídeo-apresentação de Dissertação
Mestrado em Literatura Comparada
UFC - Universidade Federal do Ceará
Programa de Pós-graduação em Letras

Orientação:
Cid Ottoni Bylaardt
agosto, 2018
Fortaleza

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

tradução, empoderamento & alegria: meu crespo é de rainha, bell hooks



Menininha,

Nossa história começa na África de rainhas lindas, de princesas lindas, de plebeias lindas! Todas menininhas e mulheres são lindas. A história nadou, nadou oceanos inteiros com seus cabelos caracóis, dançou nos Estados Unidos e agora chega até aqui. A trança dança!

Uma história dos nossos cabelos, de diferentes texturas, comprimentos, mas todos cheios de prazer e orgulho; uma história de celebração e beleza. Nosso cabelo é uma alegria! Doce e divertido, faz pirueta e dança, coroa de rainha!


Lá na África, os penteados que vemos em aquarelas vibrantes nessa história, têm muitos símbolos: indicam se a pessoa é menininha ou mulher, solteira ou casada, em qual comunidade vive e até detalhes de sua vida pessoal. Mas o principal é que significam seu poder vital, sua energia! E se os cabelos crespos são tão macios dançarinos, permitem tantos penteados, sua força é imensa e única!

Quando chegam na América, essa nossa casa gigantesca que dividimos com americanos, índios, latinos e tanta gente diferente, os cabelos crespos carregam essa história, a deixa mais viva, divertida e poderosa! Não precisamos domar, disciplinar nossos cabelos, nosso crespo é de rainha! Sou feliz com frizz!

A história do cabelo lindo e poderoso que veio nadando não parou. É passada de mães e pais para as filhas e filhos quando penteiam os cabelos. E cada menininha quando observa as irmãs, amigas e quando é penteada, aprende também a trançar e perpetuar nossa história!

Cuidar do cabelo é cuidar da cabeça, cuidar da gente inteira! É um aconchego para todas menininhas sentar entre as pernas da mamãe ou das irmãs, da titia ou da vovó, sentindo o calor de seu corpo que penteia nosso cabelo, cuidando da gente nesse momento de festinhas e amor!



A escritora bell hooks, que começou a contar essa história lá nos Estados Unidos, disse que ama “as cálidas lembranças dela e suas irmãs fazendo o cabelo umas das outras enquanto conversam, riem, contando histórias e curtindo a companhia”.

E se a gente gosta do colinho de pentear, imagina as mamães, as vovós, todas aquelas que cuidam da gente! Elas adoram pentear e amar as menininhas! São mãos de sabedoria e amor! Guardam as memórias da África na palma das mãos!  Quando criam os penteados, recontam a história de nossas ancestrais, e criam a nossa que depois também serão contadas!

E você, já tocou seu cabelo? Assim de manhãzinha, quando acorda e se espreguiça ainda na cama? 
Ou quando o afasta pra lavar o rosto? Quando quer prender para correr e sentir o vento? Nosso cabelo é uma delícia de brincar!

Quando a água cai e vai entrando nos fios o cabelo adora! Repleto de estrelinhas miúdas como cristais coloridos! O cabelo vai deslizando entre os dedos, girando... mexemos pra um lado e ele vai pro outro, igualzinho as menininhas correndo pra lá e pra cá cheias de energia! O cabelo tem senso de humor! E nessa brincadeira de pentear podemos fazer criações incríveis! Como bichinhos que inventamos pra brincar: um gatinho com molas, uma zebrinha de listras coloridas, um ursinho elétrico! O cabelo é cheio de travessuras e imaginação! O cabelo quer ser ele mesmo, o cabelo é livre!

Menininha, o seu crespo é de rainha! Vamos brincar juntas nessa história de beleza, alegria e liberdade? É só virar a página! 


  • autor: bell hooks
  • ilustrações: chris raschka
  • tradução:  nina rizzi
  • páginas: 32
  • ano: 2018
selo:
Boitatá/ Editora Boitempo 


Compre aqui: https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/pnld2018-meu-crespo-e-de-rainha-773

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

em lugar de exame



pergunto a un enfant terrible
se tudo que move é sagrado
o que é o que não se move

ouço plantinhas insultadas
pego na concha das mãos
plantinhas y plantinhas

pergunto a un enfant terrible
como um corpo que não aguenta mais
como ser desde a imobilidade

meu ventre vai mal, alagoas vai mal
o jaburu vai mal, ladeirabaixo é o pixo
mas olha, ondas de amor me invadem

brinco de estátua e digo
se mexe rauuullll

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

saibro pele de vaca [Flanzine nr. 16 – PELE]

Segundo consta em seu site, a revista portuguesa Flanzine é "Uma revista inspirada nos velhos fanzines, idealizada no Facebook, por dois amigos virtuais, João Pedro Azul e Luis Olival, unidos na ressaca de uma geração que resiste, sobrevivendo através de humor negro. Com alguma ousadia, foram contagiando um conjunto de autores e artistas de diferentes quadrantes e linguagens que se foram juntando à FLANmília (literatura, ilustração, cinema, música, fotografia, poesia, teatro). O design retro de Filipa Campos encerra a santíssima trindade conceptual deste pudim cultural."

Com edições regulares, impressas e temáticas, o conjunto da Flanzine é sempre de uma belezura :) Recebi no ano passado o feliz convite para publicar na edição 16, cujo tema é pele. O resultado é que saiu-me uma escritura totalmente diversa da até então minha mão. Que bom poder experimentar e abandonar territórios; que bom redescobrir o corpo. 

Recebi ontem a revista impressa com um carimbo de 05/12/2017 da alfândega portuguesa. O atraso (sucateamento) dos correios brasileiros não diminuíram minha alegria de estar junto da beleza. Na imagem abaixo, "saibro pele de vaca", minha poema conforme consta na revista; as demais imagens são da capa, contracapa e a fotografia de Ana Teresa Vicente, todas também desta edição.





Se quiser adquirir esta e outras edições, e claro conhecer mais o projeto, é só acessar aqui! ;-)



sábado, 14 de abril de 2018

geografia dos ossos - completo na rede


ao mundo, a poema <3


dois anos após publicar esta micropolítica louca e vocal em doudas terras portuguesas (com edição primorosa de Nuno Moura, projeto gráfico de Joana Bagulho & capa + ilustrações de Hélder Ventura), eis que o livro finalmente encontra morada na casa que tem abrigado todos meus filhos-livros; minhas filhas-poemas (gracias siempre, Silvana Guimarães <3)

pra ler, para baixar e imprimir, pra mandar às favas, inteirinho e completo - 'geografia dos ossos', na Germina - Revista de Literatura e Arte:
http://www.germinaliteratura.com.br/2018/ninarizzigeografiadosossos.pdf

comentários, leituras, fotos e vídeos do lançamento, aqui: https://doudacorreriablog.wordpress.com/2016/02/24/geografia-dos-ossos-nina-rizzi/

segunda-feira, 9 de abril de 2018

autorretrato de priscila

olhame ainda se pareço jardim mino luas e esporas
olhame sem ruídos soy una hilda en la casade frieda azul amarela e de novo jardim
olhame ainda o fuzil dois olhos que lambe o cussaruim quando vê o caçador
olhame sem olhos o tato puro mármore sim é calor sim esse frio de digo não digo
olhame ainda menos fogo menos descalça menos cor menos úmida menos letra
olha um espelho

domingo, 18 de março de 2018

sortilégios pra matar o meu benzinho



 tenho uma escova de cerdas macias, como nuvem, como pixaim. agradáveis ao toque como meu corpo quando dói e a cai a água fria.

a escova guarda muito dos meus fios. toda sexta-feira junto-os todos, fazendo um grande cocoruto de pêlo algodoado.

sexta-feira é também o dia que o pai chega de viagem. é caminhoneiro e nunca escova os cabelos. gosta de se dizer o homem da família, ri bem alto demarcando sua existência na casa, em nossas vidas.

sento na beira da cama. o quarto não tem porta. da poltrona da sala me olha como me olham seus amigos quando aparecem para beber, como me olha o professor e o médico. o mecânico da bicicletaria e o padeiro.

aperto as pernas bem firmes e tento manter no rosto a suavidade de cada escovada. penteio até que o braço doa, até que o couro da cabeça doa.

uma escova cheia dos meus pêlos.

quando já é tarde da noite e a mãe deixou toda a louça limpa, chão limpo, carne curtindo nas bacias com banha, alho e sal, do jeito que o pai gosta, viro para dar boa noite, mãe.

o pai ronca alto e um cheiro acre de álcool envolve a asa pequena.
agora todos já dormem.

retiro um a um meus pêlos da escova, enrolo meu cocoruto. o maior que já fiz. o pai sempre diz que uma mulher com pêlos é uma mulher nojenta.

pego a lâmpada que escondi entre as calcinhas e a esmigalho firmemente, enquanto ouço na cabeça de choros abafados de mamãe, o som grave do punho do pai em suas costas e o engasgo profundo e seco.

esmigalho até que seja puro pó em minhas mãos que sangram, puríssimas.

arranco a carne da bacia e estraçalho um pedaço, recheando-a com meu cocoruto de pêlos e vidro moído.

recito baixinho as palavras mágicas de mamãe: só teremos paz quando ele morrer.
fecho a carne, como costurando a minha.
beijo o pedaço ensanguentado.

eu sou judas.
salomé.
me beija.
me come, papai.
*


[fiz esse texto  no laboratório de escrita criativa para mulheres (cis e trans), que aconteceu na caixa cultural em fortaleza, de 06 a 10 de março/2018. a imagem que  aqui ilustrada é a capa da zine que fizemos como culminância do curso; o título faz parte do caderno-goiabada (livro de prosa poética que publico ainda este ano pelo selo aliás) e usado num dos exercícios propostos.]

autorretrato de renata


se quase imóvel são os passos
tão ligeiros correm os olhos
sim e não fazem a minha mão

sereia no copo d´água
'com o oceano inteiro para nadar'
deslizo alucinada a boca cheia d'alga

o tudo e o nada          meus seios       céuinferno
jorram leite                 vazam cor       ardem poemas
como uma garrafa vazia         ~~~     inflamável

Tradução: Vicente Huidobro - Poemas Árticos e Equatorial


Vicente Huidobro

acaba de ser publicada a edição de primavera da revista portuguesa de artes, religiões e ciências TRIPLOV. a edição homenageia o poeta chileno Vicente Huidobro [mira: http://triplov.com/revistaTriplov/
]

dentre os diversos textos, escritos pelo poeta e sobre/ para o poeta, constam alguns poemas deu seu livro POEMAS ÁRTICOS, traduzidos por mim [aquí: http://triplov.com/revistaTriplov/poemas-articos/
]

a tradução é um projeto de publicação de suas obras completas em terras brasis, levado a cabo por mim e a Martelo Editorial, do aguerrido/querido Miguel Jubé, com apoio da Fundación Huidobro que me deu esta alegria y presente ❤️
as primeiras obras já aparecem no início do segundo semestre - "EQUATORIAL" e "POEMAS ÁRTICOS", em comemoração aos 100 anos da publicação de ambas.
e é isso, continuar a vida, pela beleza, contra o horror.
com as gratidões de sempre a Mario Meléndez Muñoz, Silvana Guimarães, Miguel Jubé é e claro, à poesia, esta insubmissa.


Helicóptero, Vicente Huidobro

Laboratório de Escrita Criativa para Muheres - Escola Estadual 02 de maio


Na última segunda, 12/03, tivemos uma edição especialíssima do Laboratório de escrita criativa com mulheres - cerca de 60 alunas do ensino médio da escola estadual 02 de maio, no Barroso/ Fortaleza. 
Só a história da escola já valia uma carta de amor: era uma instituição de detenção para menores. As mulheres do bairro, iniciaram uma luta nos anos 1980 para que essa instituição se tornasse uma escola; o nome da escola é alusivo à data quem que conseguiram o feito. Sim, uma luta de mulheres que tanto teve êxito que eu estive lá 💃🏿
A atividade foi a convite do Moita Brava, como parte de seu projeto sobre Consciência Negra: uma vez por mês eles comemoram/ relembram as lutas com alguma atividade, e a desse mês foi o laboratório de escrita criativa para as garotas.
Em uma tarde, valorizando a história e literatura de cada uma, fortalecemos vínculos e, claro, o amor à leitura e à escrita. Só mulheres fantásticas e escritura de peso! 🧜🏿‍♀️




Laboratório de Escrita Criativa para Mulheres - Caixa Cultural



Aconteceu na semana passada na Caixa Cultural em Fortaleza/ CE, mais uma edição do Laboratório de Escrita Criativa para Mulheres (cis e trans).

Com 20h de duração, o laboratório, espaço de experimentação de escrita, fundamentou-se na leitura de textos teóricos sobre diversas vertentes do feminismo, além de textos literários de gêneros variados (carta, relato, romance, contos, poemas), e discussões em grupo. A partir das leituras e discussões, foram sugeridos exercícios de escrita, onde cada participante escreveu textos variados em diversas linguagens. Ao final do curso, produzimos uma zine com alguns dos textos escritos no laboratório.





Coração y mente repletos. Conheci e fiz arte com mulheres maravilhosas! Que experiência extraordinária! ❤️

Cada vez mais plena a alegria de estar com as minhas pares e ímpares.
DEUSA, as mulheres são incríveis, são poemas, são fantásticas! 🧜🏿‍♀️

não, com mirtha dermisache. arte caligráfica a partir de exercício proposto

logo já ensaio e zine na rede!
y que venham breve as próximas :)

domingo, 4 de março de 2018

laura & beatriz

            work in progress pra adelaide ivánova

semana passada neymar fissurou o pé
e desfalcou o paris saint-germain
o jornal de ontem com a foto do craque
em tamanho natural na capa
cobria o corpo de laura & beatriz

laura & beatriz namoravam há três anos
estavam juntando dinheiro pra comprar
uma casinha só delas e nunca mais precisar
se esconder fora de casa

ontem, 5 homens estupraram
laura & beatriz perto do canal
semana passada a polícia matou
laura & beatriz quando disse
que a culpa era delas
há 3 meses os ex-maridos mataram
laura & beatriz quando as espancaram

ontem toda a gente matou laura & beatriz
quando filmavam a violência transformada
em cena pra upar no youtube em troca de likes

a vida inteira homens e juízes mataram
laura & beatriz


e vocês?

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

geografia dos ossos no LetrasPretas


"[...] Essa exposição não busca limitar as variadas formas de se perceber e receber a obra Geografia dos Ossos, mas apresentar nuances de um inquestionável e sólido trabalho literário. Essa obra não participa inconscientemente da engrenagem uniformizadora; ao invés disso, assume uma postura de resistência ao “fluxionismo” dos contrassensos comuns disseminados na sociedade. Rizzi não perfaz sua obra apenas por uma representação sociocultural: ela vai muito além disso, ao fazer uso de uma linguagem de dicção marcante e bem trabalhada, unindo habilmente forma ao conteúdo, o que delineia seu projeto como arte. [...]"
Yasmin Soares faz um ensaio incrível sobre meu livro transatlántico. O texto está no blogue LetrasPretas, projeto do professor Henrique Marques Samyn com alunes da UERJ. 
só amor, potência y poesia.



leia o texto completo AQUI!

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

tambores pra n'zinga n'As vírgulas pelo caminho

Livro disponível para baixar. Clique para fazer o download! <3

"[...] a poesia de Nina retumba nesse livro, ritmíca e ritualística. A poeta aqui não é musa, é voz. É corpo atuante e substitui a lira, pelo batucar dos tambores.
Faz da poesia um ritual de passagem de um momento a outro, em que se percebe algo que antes não havia sido notado, e então o instante se faz poema. O instante pode ser na noite das ruas embriagadas, pode ser na pele dos amores (rizzíveis), pode ser um momento de silêncio, sozinha.

[...] A poesia de Nina me chegou de forma muito intrigante, digna de muitas releituras e escavação. Abrir o livro de Nina é escavar poesia com as unhas. Não é deleite. Não é contemplação. É deslocamento."

Nádia Camuça faz uma resenha massa sobre tambores pra n'zinga em seu blogue As vírgulas no caminho! Leia texto completo aqui!


sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

livros escritos por mulheres que inspiraram 2017, portal margens

saiu na portal Margens, capitaneada pela diva maravilhosa Jéssica Balbino uma lista de livros escritos por mulheres que inspiraram o ano que se finda, os livros foram indicados por mulheres que também estão marcando presença nas artes, nas mídias e em todo canto. quando vieres ver um banzo cor de fogo aparece lá. alegria pouca é bobagem <3

clique na imagem pra conferir!

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

15 livros incríveis lançados por mulheres em 2017 - AzMina!



viver me dá vontade de escrever.

'quando vieres ver um banzo cor de fogo' foi um livro que quis escrever. depois de muito tempo protelando sua materialização - não sua escritura.

quando comecei a publicar poemas, e ainda mais especificamente publicar em um blogue chamado 'putas resolutas' (com as divas Roberta Silva Pinto e Líria Porto), parecia muito natural para as pessoas (hello, guys!) me lerem "num puteiro em joão pessoao" aka. Ana Farrah Baunilha. mais que natural: há uma monografia sobre prostitutas que escrevem liricamente sobre suas experiências e nos citam. é só ir no oráculo-google.

e por causa das centenas de milhares de convites e abusos - virtuais, mas não só -, eu exitei muito em abrir as pernas e dar ao mundo essas poemas. que boba. ainda bem que passou, risos.

eu quis escrever este livro. um livro que tematiza o amor erótico em tempos sombrios. todos os tempos são sombrios, mas esses são loucos porque eu estou aqui. quis materializar neste tempo este livro que ama e goza. materializar-me a mim, escritura/ ferida funda e encarnada, me lançar ao mundo como uma mulher que deseja e ama sim. sim, escrevo. assim é a poesia toda: política.

e as poemas vem a mim. como um salto ao infinito, como abertura na carne que se não escrita dói. dói o corpo que se escreve a poema. me abro às poemas, a poesia inteira como me abro ao amor. arranco as vestes para o amor, me deito, me entrego, "me sucumbo, me abismo". assim é a poesia toda: erótica.

essa lenga-lenga é só pra dizer que MANHÊÊ, meu livro saiu num dos sites mais massas do Brèsil, quiça do mundo! AZMINA! entre tudo e tanta maravilha, '... um banzo cor de fogo' é incrível! <3

e viva a poema! <3

sábado, 11 de novembro de 2017

petit récit à blanchot, variations - une théorie en transit



"Escreverei livremente, certo de que esta narrativa só diz respeito
 a mim mesmo. Na verdade, ela poderia caber em 
dez palavras. É o que a torna tão medonha"


prosas do suícidio. a morte que não verificamos em obituários:

uma mulher estava a morrer. vivia. morria. em vias de

caminhava para o nada. conservava-o onde a poema pode(rá) aparecer

não estávamos lá. não sabemos oquecomo foi. não podemos esquecer


colagem: Diego Max

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

salmo negro

                     para m.

ninguém viu além a foto do poeta
publicada na revista duzamigus

em festa um milhão de exemplares
grátis pra fazer vibrar até feministas

a mulher recolhida num arrozal em neve
de grão em grão recitava em seu silêncio

eu sei porque o pássaro engaiolado canta

nenhum trovão
nenhum perdão

os sinos das catedrais continuam
a badalar todo dia à hora do ângelus

25 horas de festa

o mundo condecorava o grande poeta
quando mais uma mulher morria




sábado, 21 de outubro de 2017

no esquerda diário


Gabriela Farrabrás escreve no esquerdadiário que "Nina usa umas palavras bonitas que ninguém mais coloca nas poemas [...] As palavras que Nina Rizzi usa e a sua poema são deliciosas, tão deliciosas quanto lamber os beiços e todo o resto da fruta preferida que tu come até os fiapos grudados na semente. São tão deliciosas as palavras que Nina escolhe que queremos tirá-las da poema e sair usando em todos os lugares."

a verdade é que escrever sobre poemas também é uma poema. e eu fico todatoda ancha quando uma mulher me escreve coisa bonita poema <3

vê se num é! continue a ler aqui!

sábado, 7 de outubro de 2017

sereia no copo d’água


leio ‘changing diapers’
cada verso me detém tua visão bebê nadador
– nadadora? nunca terá um sexo que te definha
o índio geronimo me aparece enquanto agonizo tua visão antes da queda

por que voa, tupã?
pra onde quer ir tão fundo n’água
se meu corpo te prende todo líquido?

voaríamos muito além essa cidade submersa
casinhas com jabuticabeiras, bancos cimentados
galinhas que ciscam a generosidade e nos dão seus filhos-ovos

te dei meus melhores ovários
- o melhor é o desejo, essa vontade e potência

me foge água, sangre
pedaços por entre as pernas
essa dor mais dilacerante que o parto da tua irmã

nada por entre os meus fundos num rasante até o fundo da privada
tão longe parece o esgoto e visto daqui em nada parece uma roseira
meus olhos são seu líquido amniótico
seu mergulho que me dói o corpo torna real o dilaceramento que brota
do coração. rasga o ventre da tua mãe, tupã!
rasga esse corpo ex-prenhe que te prende!

“ausência de batimentos cardíacos”
o que faz teu coração que não bate
e me bate, me bate?

ponho as mãos no coração
só posso escutar o naufrágio correndo pelos olhos
- escuta! minhas pernas bambas te esperam

te vejo o mergulho, bebê translúcido-encarnado
tem o tamanho da palma da minha mão mais bonita
teus braços e pernas incompletos dão forma
ao último painel do jardim das delícias
se fecho o tríptico o mundo se me fecha
fecho os olhos
choro tão alto a convulsão
mãe no copo d’água

afundo a mão no sangue
minha vagina dói tanto
- oxalá pudesse conceber a poema mais feliz de se dizer boceta
te afundo a mão no sangue
até as mãos o todo sangre
bebê na palma da minha mão mais bonita
te mergulho nessas lágrimas o copo mais cheio

não te dou a vida
também me a perco
os peitos se me derramam
ardo, rasgo a noite, atravesso o dia
e você é o pássaro que me foge o corpo-jaula
eu-jaula não me converto pássaro
abro a boca

tupã. tupã. tupã.

por que me voa se tenho os pés pegados na terra árida?
por que me voa se a jaula se me fecha?
ardo, rasgo a noite, atravesso o dia
e deliro que frutos muito amargos se misturam às minhas vísceras em maus-augúrios
abro a boca

tupã. tupã. tupã.

metade de mim morre quando homédico me diz aborto
metade de mim morre com tua visão de mergulhador da privada

e voa, voa pássaro coração-de-pedra. nada desse corp’água
nada mais que até o fundo
nada mais que longe das crianças que sonham leites
nada mais que ao largo da palavra mãe

você me deixa. você me deixa. você me deixa.

o delírio me cobre os olhos
estou dormindo?
não temos a casinha, as jabuticabeiras, as cabrinhas

não te seguro mais
mergulha e voa até o fim
nada mais que até o fundo
desaparece o corpo, eu também sou essa dissolução
a sombra da tua sombra

a grande mãe da noite vem me visitar
estou dormindo, mãe?
que posso ser agora se não posso te ser a mãe?
a mãe imensa abre a boca da noite
é um copo
eu sou sua mulher

sereia no copo d’água
*

[publicado originalmente no Mulheres que Escrevem]

reprodução de desenho de rupi kaur