segunda-feira, 22 de junho de 2020

moraesiana/ - desvario

3.
eu não sei o que você pensa
- ou isto ou aquilo ou seu revés
bordas e margens e fronteiras
mas olha eu quero ver você
de novo e de novo e de novo
dentro da beleza a beleza na beleza
uma sensação de além mais longe
infinito / imensa e tua vastidão
[moraesiana]

(arte: Layza Pereira / foto original: Rhaiza Oliveira)

poema e arte originalmente publicadas na Revista Desvario. leia a série completa e conheça a revista toda que é maravilhosa aqui!

quinta-feira, 11 de junho de 2020

estar sem estar sendo

quando o mundo parar de acabar
algumas coisas não vão mudar
vou bater na sua porta
e sair correndo

te deixar poemas
fotografias
garrafas de água
frutas
- tangerinas
- caquis
- mangas
essas frutas que nos lambuzam

[outras vão]
às vezes eu também
bem nua
bem nua

será leve o amor
pesado só o meu hálito a cigarro
minhas mãos encontrando seus ossos
e as delias 
as flores todas grandiosas
que poderemos inventar
com nossas línguas

poderemos? 

ilustração de alice dote
poema e ilustração originalmente publicadas na antologia "escritas em pandemia", com escritas de 24 mulheres cearenses, organizada por alice dote, glória diógenes e lara denise silva. leia os demais textos e ilustrações gratuitamente, clique aqui!

sexta-feira, 5 de junho de 2020

#escrevacomoumamulher





















Está no ar: As 13 mulheres de ArapiracaAs lobas do morro vermelhoAs pernas de Dona KêniaJardins das Vulvas e Macyrajaras do Delta. Mais de 500 páginas escritas por mulheres negras, indígenas, brancas, jovens, velhas, gordas, magras, brasileiras, estrangeiras, periféricas, cis, trans... as publicações são resultado dos laboratórios de escrita criativa com mulheres que fiz no ano passado pelo projeto Arte da Palavra do SESC em Porto Velho, Arapiraca, Parnaíba, Belo Horizonte e Montes Claros. 

Só gratidão por tanto y tanto, a essas mulheres incríveis e tão poderosas pelas discussões, escuta, aprendizado, revolução, poesia e afeto! 

Para ler as zines é só baixar: 


Leiam Mulheres! 

terça-feira, 26 de maio de 2020

amanece que no es poco

 viajar con el puntero del ratón sobre las nubes ‘como una luna en el agua’... cambie mi nombre a selva. algo verde y muy latinoamericana. para acercarse a las nubes, la sensibilidad más sensible, te doy mis ojos. llamo tus manos, como la brisa a las hojas. hasta la hermandad de los huesos con la tierra. mientras invento todo de nuevo, las sendas, ensueños, el portuñol selvage, el chinitar, el amanecer. no es poco.


segunda-feira, 25 de maio de 2020

Petits Furts - M'eugo. 4 poemes de Nina Rizzi [in catalão]


"M'eugo. 4 poemes de Nina Rizzi"
Del llibre quando vieres ver um banzo cor de fogo. São Paulo: Patuá, 2017
Traducció de Josep Domènech Ponsatí
Petits Furts [2020-32]

amor, pobre amor 

o que eu vou fazer 
quando não restar sequer 
as paredes de te me esfregar?


amor, pobre amor 

què coi faré 
quando no em quedin ni tan sols 
les parets on te'm refregues?

§

do amor, sou onírica musa 

: fartas ancas, largos dentes; brusca, 
eguo-me


de l'amor, soc onírica musa 

: malucs potents, dents grosses; brusca, 
m'eugo 
§

antipoema

pra porra co’ lirismo! 
poesia concreta 
é teu pau ereto por entre 
minhas gretas e becos


antipoema

a la merda el lirisme! 
la poesia concreta 
és la teva cigala erecta per entre 
les meves vies i clivelles 

§


a menina e o cocô, o cocô e a menina 

hoje eu fiz um cocô tão lindinho 
era bem pequenininho 
parecia uma nuvem 
caindo do céu 
aí quando ele caiu espirrou 
que nem as lágrimas da chuva 
numa poça d’água 

gato diz que vamos voar


la nena i la caca, la caca i la nena 

avui he fet una caca tan bonicoia 
era ben petitoneta
semblava un núvol
que queia del cel
aleshores quan ha caigut 
ha aixecat un xàfec d'esquitxos 
com llàgrimes de pluja 
en una bassa d'aigua 

el gat diu que volarem

*

domingo, 26 de abril de 2020

trajetória - leitura & escrita

no ano passado fui convidada por duas iniciativas diferentes e maravilhosas para gravar um vídeo contando minha trajetória com os livros e a escritura:

- uma de alunos da escola CEJOL - Centro de Ensino em Tempo Integral João Francisco Lisboa, de São Luís do Maranhão, para um trabalho sobre poesia em que falavam sobre minhas poemas <3
- a outra da Lourdes, bibliotecária maravilhosa do IFES de Piúma, que em razão da Semana Nacional do Livro e da Biblioteca fizeram uma homenagem a escritoras negras brasileiras.

deixo agora pra todes o vídeo :)



segunda-feira, 30 de março de 2020

hair love/ amor de cabelo - um amor de tradução!


Muita alegria e emoção! <3

Hairlove de Matthew A. Cherry, com ilustrações de Vashti Harrison agora em português brazuca com tradução minha!

Amor de cabelo narra a linda história de um pai que precisa superar o medo dos muitos cremes e elásticos e ajudar a filha a fazer um penteado para uma ocasião super especial. O livro é inspirado no curta animado Hairlove que foi vencedor da categoria no Oscar 2020. Jajá nas livrarias pela Galera Record.

Vejam a sinopse da editora:

O livro inspirado no filme vencedor do Oscar de melhor curta metragem de animação. O cabelo de Zuri é mágico. Ele pode ser trançado e enrolado para combinar perfeitamente com uma tiara de princesa ou uma capa de super-heroína. E Zuri sabe que seu cabelo é lindo! Mas um dia superespecial pede um penteado mais especial ainda. A mãe de Zuri está voltando para casa depois de um tratamento médico. E, embora ainda tenha muito o que aprender quando se trata de cabelo, o pai da menina é o responsável por ajudá-la a montar o penteado perfeito para receber a mãe. Ele fará qualquer coisa para deixar a filha feliz, até mesmo aprender a diferença entre trança nagô e trança twist. Comovente e empoderador, Amor de cabelo enaltece o carinho ao próprio cabelo, o amor entre pais e filhas e a felicidade que preenche aqueles que podem se expressar livremente.

Saiba mais sobre o libro aqui!

E curta o curta:

  

domingo, 29 de março de 2020

ainda a queda do céu



oi, mãe te escrevo do norte, tô na amazônia
na vinda cruzei o interior do ceará
e passei em frente um rio chamado chorozinho
parece uma metáfora tão triste pra estes tempos
sei que não é boa hora pra falar de tristezas
que deveria te escrever e acalmar seu coração de mãe
que é importante amar e rir e gozar e espalhar flores
eu lembro a vendedora de flores que você foi
ainda sinto o cheiro das roupas da lavadeira que você foi
lembro o cheiro gostoso da doceira que você foi
sim eu sei que a alegria é uma resistência eu sei sim
mas mãe, eu fico aqui olhando as rasuras
eu conto doismilidezenove três anos de golpe
quinhentos e dezenove anos de golpe
eu ouvi aqui que cada dormente é uma alma
dormente, mãe, são aqueles paus que ficam debaixo 
dos trilhos das ferrovias e os indígenas iam à noite arrancar
os dormentes porque a estrada de ferro era construída
em suas terras e então os donos do poder colocavam coisas 
pra dar choques nos indígenas e de manhã 
eles estavam agarrados nos dormentes 
todos mortos 
cada dormente uma alma, mãe
e agora eu te escrevo essa cartinha e tem uma tv ligada
e o governador tá falando de boca cheia que precisam desapropriar 
as terras indígenas porque eles não plantam e as pessoas precisam comer 
e ele tem sangue nas mãos e no bigode, mãe
os padres e as caravelas de há quinhentos e dezenove anos 
são a bancada evangélica e da bala de hoje 
ah sim, mãe vou te contar uma coisa bonita
um feitiço indígena os cabelos de betânia o cheiro dos cabelos de betânia
todas essas mulheres juntas e nadando fundo contando suas histórias
e foi muita sorte eu ter conseguido ver o rio madeira porque 
a construção da hidrelétrica fez tudo desbarrancar 
não seria mesmo lindo se o rio lavasse tudo, mãe?
*

domingo, 20 de outubro de 2019

VIII PARADA PELA DIVERSIDADE SEXUAL DE MESSEJANA - TODAS AS VIDAS DAS PERIFERIAS IMPORTAM!




No dia 29 de setembro aconteceu a VIII Parada pela Diversidade Sexual de Messejana, em Fortaleza/ Ceará, com o tema "Todas as vidas das periferias importam!". 

Fui convidada a ser Madrinha da Parada. Nunca na vida me senti tão honrada e feliz. Dificilmente me sentirei. Nem mesmo se um dia for convidada a ser madrinha da parada de SP, da parada de São Francisco, me sentirei tão honrada e feliz como neste dia: na minha quebrada e com esta bandeira: "Todas as vidas das periferias importam!". 

Quando recebi o convite escrevi este pequeno texto em minhas redes sociais: 


em alguns momentos da história estadunidense poetas foram convidados para ler poemas nas sessões de posse de mandatos de presidentes (posso estar enganada, mas no brasil, fora temer!)- robert frost leu “the gift outright” em 1961 (jfk). maya angelou leu em 1993 “on the pulse of the morning” e em 1997 miller williams leu “of history and hope” (ambos nas sessões inaugurais de bill clinton). em 2009 barack obama convida a poeta e professora elizabeth alexander que lê “praise song for the day”; em seu segundo mandato, convida o poeta de ascendência cubana e homossexual assumido richard blanco que faz a leitura de um dos maiores poemas da história (que logo mais publico na @escamandro), escrito propositadamente para a cerimônia.

é claro que eu não recebi convite de presidentes. minha presidente é uma mulher negra, sapatão, com maus dentes e que passa a vida em filas: em busca de emprego, saúde, educação e moradia. sou uma poeta periférica e anárquica. a analogia é: me sinto tão imensa quanto esse último poeta: de um país alvo de embargos, dito comunista e gay na escadaria do capitólio - no meu caso, uau: na messejana, resistindo e celebrando o orgulho de ser quem somos e poder amar quem amamos nessa terra em transe. uma poeta, numa festa. de nós, por nós! 🌈💕


E assim foi! Uma festa linda, de resistência, re-existências, afirmação e amor! Deixo abaixo a poema que li quando recebi a faixa e algumas fotografias desse dia histórico. Viva! 
*

Minha história é a história das quase 400 mil pessoas
Que vivem em favelas em Fortaleza
Minha história é a história das Mães do Curió e da Messejana
De todas as mães que perderam seus filhos
Pelas mãos assassinas da polícia e seu estado
É a história das meninas que cedo aprendem que têm que fechar as pernas
A ter medo de andar sozinha, de uber, a ter medo de homem e de farda
E que a cor da pele é passe e é passagem
Minha história é a história de Carol, espancada até a morte por ser lésbica
É a história de Dandara, apedrejada, humilhada, executada.

Minha história é a história das 10 mil pessoas que estão aqui hoje
Nossa história foi filmada pelo Barra Pesada, pelo 190
Numa narrativa que nos colocam como culpadas, culpadas, culpadas!
Dieguim da Serrinha diz bem:
“Quero ver filmar um sarau e botar em rede nacional”
Não somos assassinas!

Enquanto a parte alta da cidade é consumidora de tudo
As periferias são produtoras de tudo:
Hortas, batuques, bibliotecas, dança, poesia
Somos tudo o que quisermos ser!

Crianças fazendo dramaturgia e teatro
Na Biblioteca Livro Livre Curió
Brincando de bila, pipa, estrela-canastra, esconde-esconde nos campinhos
Lendo nas praças, num clube de leitura ou no silêncio do quarto
As donas Marias vendendo coco na praia, roupas pras vizinhas
Ou fazendo as unhas das amigas, de Dona Conceição Evaristo

Somos tudo o que quisermos ser
Arquitetas, advogadas, médicas, faxineiras, putas
Minas, Manas, Monas, Sapatonas, Bixas, Travas, Mariconas, Mariquinhas
Loucas, Travessas! Transviadas! Somos Gente! Somos Nossas!
Nunca mais desgraçadas, nunca mais açoitadas,
Nunca mais marginalizadas, nunca mais destruídas!

Eu poderia explodir o mundo com a fúria que carrego no corpo
Fúria legítima por séculos de violência com nossa gente, com nossa história
Somos gente, somos nossas e nossas vidas importam sim!
Todas as vidas das periferias importam!
E vamos lutar por elas com as unhas, com os dentes, com poemas, com festa!















<3 

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Toni Morrison - 'conta tua história!

"Nós morremos. Esse talvez seja o sentido da vida. 
Mas nós fazemos linguagem. Essa talvez seja a medida de nossas vidas."




Em janeiro de 2016 a jornalista Carol Almeida estava escrevendo uma matéria sobre Toni Morrison para o Suplemento Pernambuco e me procurou, e a outras escritoras, para fazer uma entrevista e compôr a matéria.

Hoje Toni Morrison encantou-se. Deixo em sua homenagem parte de minha história que se entrelaça à sua: a entrevista a Carol Almeida que, é claro, só pode ser usada em parte.
§


Que livros da autora você leu, se os leu recentemente (se alguém te indicou) e o que poderia destacar neles?  É uma pergunta muito sobre o impacto que a obra de Toni Morrison teve em você. 
“O olho mais azul”, “Amada”, “Jazz”, “Paraíso” e o infantil “Quem leva a melhor” (que escreveu junto com o filho Slade). O primeiro, na verdade, foi uma adaptação de “O olho mais azul”, que infelizmente não lembro a autoria, ainda na pré-adolescência. Nesta época eu morava na zona rural, no interior paulista. Não me identificava com ninguém na escola além da bibliotecária – coisa da idade, mas principalmente por causa da minha aparência, uma carapinha imensa e rebelde que minha mãe prendia com elásticos de cores berrantes e eu arrancava no caminho para a escola, as calças sempre muito surradas, algumas com remendos, os tênis quase sempre cheios de barro, e um comportamento ‘urbano’ que todo mundo parecia ter, menos eu. Apesar de as pessoas, inclusive as crianças, poderem ser muito cruéis com o diferente, o isolamento estava mais em mim que nos ‘outros’, não me achava inferior (não sempre, não sempre), mas gostava de estar lá na biblioteca onde tudo parecia incrivelmente mais ‘real’ que no recreio lá fora. Essa bibliotecária, a Teresa, me apresentou um mundo de maravilhas “reais”, ali eu via que existem sim realidades muito piores e muito melhores e que sim, não estamos sozinhos com nossas verdades e sentimentos. Eu devia ter uns onze/ doze anos quando ela começou a me emprestar livros de mais ‘sustança’ e um deles foi a adaptação d“o olho mais azul”. Fiquei profundamente impactada, o sentimento de que nos livros eu estava finalmente em comunhão com alguém alcançava neste livro o superlativo: ali estava uma história de vida que podia ser a minha, uma criança que queria ser a Shirley Temple com seus olhos azuis, muito embora nesta adaptação Shirley fosse uma coleguinha de escola e a ‘minha’ Shirley e seus olhos fossem outros. Certamente essa obra, cujo original li já com uns vinte anos, deu a mim olhos de olhar os “outros” com mais empatia e continua reverberando ainda hoje, quando entro em lojas de brinquedos e ainda são unânimes as bonecas brancas de olhos azuis, quando leciono, quando conto histórias para crianças e até mesmo em meus próprios escritos: há um poema no meu livro “A Duração do Deserto” que reverencia diretamente “O olho mais azul”: O aroma do barro sob a neve// Enquanto cai a neve/ ela chora sua cor.// Com nacos de tijolos arrancados da parede/ esfrega-os na pele até ser encarnada/ como os brancos,/ horas sob o sol a pino.// Chora, feliz:/ quando estancar o sangue não/ sobrará essa cor de menino carvoêro// [o professor disse que essa é a pior/ forma de energia, e esses meninos/ escravos sem dono]// será apenas ela, quase como quase/ todas suas bonecas. Assim como me reverberam e fazem de mim o que sou muitas outras obras, nem todas de conteúdo social tão pungente. 
 “Amada” li pouco depois. “Paraíso” e “Jazz” foram mais recentes e a última leitura “quem leva a melhor”, que saio por aqui e acolá lendo em formações, para crianças em escolas e projetos, para a minha filha e uns amigos privilegiados. Este livro é incrível, fábulas são atualizadas e nos pegamos a refletir, crianças e adultos, sobre questões éticas e morais, mas sem maniqueísmo, lembrando muito o nosso Paulo Freire: “liberto o oprimido, também liberto está o opressor”.

Em uma de suas entrevistas, Toni Morrison fez essa declaração: "I’m writing for black people. In the same way that Tolstoy was not writing for me, a 14-year-old coloured girl from Lorain, Ohio. I don’t have to apologise or consider myself limited because I don’t [write about white people] – which is not absolutely true, there are lots of white people in my books. The point is not having the white critic sit on your shoulder and approve it". A questão da representatividade de minorias políticas é uma das mais caras à literatura ocidental. Você também pensa em para quem você escreve quando escreve?
Às vezes sim, às vezes não. Há livros que falam sobre nada (sob a superfície, aparentemente nada, e descendo encontramos entranhas tão humanas quanto se pode ter) e são muito bons; e o contrário também, livros que se pretendem apenas um panfleto podem não ser nada além disso, não carregar, para mim, certa literalidade que me tire o chão e me dispare para um lugar de confronto com o eu e o mundo. Mas é claro que o livro me acertando por usar as palavras muito exatamente e ainda ter um conteúdo social com o qual me identifique pode ser um petardo ainda mais poderoso; não é mesmo por isso que a própria Morrison me alcança? me sinto implicada em sua obra. Então sim, às vezes tenho uma motivação de confronto, meu primeiro livro “tambores pra n’zinga” carrega já no título uma mulher negra, guerreira e diplomática; então neste livro, em quase todo ele, tenho uma motivação não só estética, mas um lugar ético dentro da literatura, um lugar de confronto, uma escrita feita para mulheres, para pessoas negras, mas não só; o “caderno-goiabada” tem uma motivação toda feminista, escrevi pensando em mulheres que sofrem abusos no casamento, construído como um caderno de receitas é permeado com anotações cotidianas de uma mulher que, conforme vai escrevendo, se liberta cada vez mais, até que começa a engendrar poemas, todos eles combativos.  Meu próximo livro, “geografia dos ossos” (a sair ainda este semestre pela editora portuguesa ‘douda correria’), foi também motivado por questões que confronto através da literatura; ao escrever essas obras assumindo uma voz-mulher-negra, sinto ampliar o significado da escrita feminina negra. Noutras vezes, entretanto, quero apenas escrever sobre a moça que um dia alisei as coxas com timidez, ou sobre a minha filha, ou até sobre o ar quente que sobe do chão quando vai chover no Ceará. Mas escrevendo isso agora, reflito e me pergunto, se meu sócius interno é feito de um olhar muito específico sobre toda paisagem que vejo, sinto e me afeta, com uma infância e adolescência tão doloridas que me deixam marcas tão profundas, como seria possível, ainda que eu não quisesse, não deixar vir à tona todo esse sócius, esse olhar e esse modo de estar no mundo? Por fim, Toni tem razão: “a linguagem é meditação”.

Existe algo na dicção dessas escritoras que você consiga reconhecer como próprio e exclusivo de um lugar de fala da mulher negra?
Com certeza. Toni Morrison diz “Conta-nos a tua história”, e é isto, só você pode contar a sua história. Se me permito neste momento contar que ao ter a pele clara, mas os cabelos encarapinhados e os traços negros e como isso me colocou em um ‘não-lugar’, ou um lugar de se apontar o dedo ‘não é negra!’/ ‘não é branca!’, é porque só eu posso dizer isso; do mesmo modo só eu posso dizer que dormi na rua e como isso estilhaça minha memória. E, ainda que eu goste de “Os oito odiados”, por exemplo, não posso me identificar com sua personagem Daisy, nem nenhuma mulher que tenha sido oprimida pode (e não conheço uma única mulher que não tenha sido oprimida), porque ela é a voz do Tarantino, um homem, na verdade essa personagem nem tem voz (riso amarelo)... quero dizer que só essas mulheres podem escrever com representatividade esse lugar de fala da mulher negra; ainda que mulheres brancas, homens, ou um E.T. escreva muito bem sobre questões que não são de sua vivência, não se trata, portanto, de uma experiência da mulher negra. Só Alice Walker poderia ter escrito “the color purple”, este é o lugar dela, o lugar da periferia, de mulheres negras que não são mudas, mas que não falam. Os registros de mulheres escritoras negras são muito recentes, mas isso significa que elas não escrevessem? E que, então, precisamos de um centro para falar sobre a periferia? É a mesma dimensão histórica das conquistas e o genocídio de índios e a escravidão, eu quero ler e ouvir a voz das pessoas implicadas diretamente nesses processos, eu quero ouvir a história das periferias, ditas (e escritas) por elas mesmas. Então, quando lemos uma história de cunho social, de gênero, de raça, escrita por elas mesmas, as ‘sujeitas viventes’, ela nos acerta muito mais exatamente. Enfim, quando a voz da escrita é uma mulher negra, percebemos que ela, a mulher negra, sempre esteve no “lugar do silêncio”, na fala do outro; a maioria, senão todas, mulheres negras que leio carregam na escrita esse lugar e nos permitimos, no ato da leitura, enfim, ouvi-las.

 O quanto da tua identidade enquanto mulher negra está marcado naquilo que você escreve?
Tudo! Eu sou a mão que escreve e a mão é negra. Apesar de a minha pele não ser escura, desde que consegui elaborar essa questão já me sabia como uma mulher negra, ou talvez mais apropriadamente: uma mulher-de-cor; quando a minha mãe me conta que meu avô materno, Joaquim Januário, era ‘nêgo-zulu’ de tão negro significa muito saber das minhas raízes, mas eu não preciso desse documento; somos todos miscigenados de tudo com mais um tanto e quando eu digo ‘sou negra’/ ‘sou preta’/ ‘sou uma mulher-de-cor’, isso é uma fala política, revela não só minha condição, mas o meu estar nesse mundo para além da ‘mulata gostosa’; é um escolher estar no mundo fora da zona de conforto e para a zona de confronto sem, contudo, protagonizar um lugar que não pode ser meu: sei que mulheres de pele mais escura que a minha sentem os grilhões muito mais pesados e é só delas o protagonismo desse lugar de fala. Então, se o meu estar nesse mundo é tão confrontador e quer ouvir essas mulheres negras (e não só as negras, e não só as mulheres, mas índios, mendigos, e toda a gente que é jogada para escanteio), e se eu tenho tão marcada essa identidade negra, é claro que, como disse antes, ainda que eu não quisesse – às vezes só preciso deixar o vento falar, o vento que acerta a mão negra -, ela se reflete no que escrevo. crepúsculo sobre a iracema// sobre meus olhos, umidez./ sobre meu sexo, uma flor./ acredite, nos labirintos, umidez e uma flor./ [ancestral. negra, negra.
Quem são as escritoras negras que você lê e admira?
Começo por citar a poeta Auta de Souza, que descobri no Rio Grande do Norte - pense num celeiro pra dar boas e bons poetas, parecem brotar do chão potyguar (risos)! - , que conseguiu expressão ainda em vida e teve seu livro “O Horto” prefaciado por Olavo Bilac (e então precisa ter prefácio e aval de poeta homem pra ter expressão? No século XIX sim. Hoje, oxalá, essas mulheres estão descobrindo suas próprias vozes, encontrando em outras mulheres forças para falar, e até mesmo por causa das redes sociais que nos aproxima muito e da internet, essa maravilha sem a qual eu não poderia citar um terço das mulheres a seguir). Ainda as ‘ancestrais’, Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus que, apesar de classes sociais, condições e oportunidades distintas, revelam a mulher negra me acertando como um soco no estômago. Gosto e leio bastante a poeta são-tomense Conceição Lima, seus poemas mostram a riqueza não só da história, mas da linguagem africana, seus títulos já são poemas inteiros “A dolorosa raiz do Micondó”, “O útero da casa”, “O país de Akendenguê”. Temos as incríveis brasileiras Conceição Evaristo, Miriam Alves, Elisa Lucinda e Lia Vieira. De outros países li as bem conhecidas Chimamanda Adichie (esta conheci através da palestra maravilhosa no Ted “O perigo de uma história única” e depois fui buscar livros), Léonora Miano e Paulina Chiziane. A africana Paula Tavares, que tem uma linguagem muito apurada, além de a mulher permear toda sua obra. Escritoras brasileiras contemporâneas que tenho lido, Jarid Arraes, Clarissa Lima, Carina Castro, Eliane Marques, Lubi Prates, Cristiane Sobral, dentre muitas outras que descubro com a Bianca Gonçalves e a Aline Ramos (via facebook), essas moças são verdadeiras escavadoras de preciosidades da literatura feminina negra! E tem ainda o projeto #leiamulheresnegras onde conheço escritoras de tudo que é lugar e tempo, uma maravilha! J Dentre as escritoras de livros infantis, destaco a Carolina Cunha que tem uma coleção belíssima de livros sobre orixás. Lia Zatz tem um livro maravilhoso: “Luanda, filha de Iansã”, sobre uma menina negra e candomblecista que sofre preconceito na escola; Fátima Miguez e Stela Barbieri também trazem em suas obras questões raciais para ser lidas por crianças de toda idade. Também gosto bastante de Caroline Desnoëttes (francesa) e Graziella Favaro (italiana), que embora não sejam negras, ocupam esse lugar político em livros infantis.
 Onde posso achar textos teus? (talvez eu intercale esse texto com trechos das autoras com quem estou conversando):
Escrevo no blogue www.ninaarizzi.blogspot.com; lá tem os links para baixar gratuitamente o “tambores pra n’zinga” e o “caderno-goiabada”, além de  publicações minhas em outros espaços e textos que vez e outra coloco lá.
§

 matéria no Suplemento Pernambuco pode ser conferida aqui
*

quarta-feira, 31 de julho de 2019

tradução, quebra & alegria: minha dança tem história, bell hooks


Meninos gostam de dançar, de correr e de pular, isso todo mundo já sabe. Mas, eles podem também gostar de abraços, de rimar ou até de ficarem quietinhos? Conheça a história do Bibói, um garotinho que arrasa nas batalhas e nas rimas e, está descobrindo quem ele é.

Na batida do break, a renomada educadora e ativista bell hooks traz uma história vibrante que capta a energia do que é ser um menino dentro da cultura do hip-hop. Mostrando de forma sensível todas as contradições que permeiam a vida dos pequenos em busca da própria masculinidade, a autora amplia o leque de possibilidades para o que significa ser um menino.
Minha dança tem história é a segunda obra infantil de bell hooks publicada pela Boitatá e traduzida por nina rizzi. A educadora também escreveu Meu crespo é de rainha, que celebra a beleza e a diversidade dos cabelos crespos e cacheados.

bell hooks é o pseudônimo da aclamada escritora, educadora, feminista e ativista social estadunidense Gloria Jean Watkins, nascida em 1952, na cidade de Hopkinsville, Kentucky. Ela investiga questões relativas à raça, classe e gênero na pedagogia, na história e no feminismo.
Chris Raschka é um premiado ilustrador e escritor estadunidense. Nascido em Huntingdon, Pennsylvania, em 1959, foi criado em Chicago, Illinois, e se formou na St. Olaf College. Atualmente, vive em Nova York.

Ficha técnica
Título: Minha dança tem história
Título original: Be Boy Buzz
Autora: bell hooks
Ilustrador: Chris Raschka
Tradução: Nina Rizzi
Páginas: 32
Preço: 37,00
Formato (largura x altura): 17,5 x 20,5 cm
ISBN: 978-85-7559-713-2
Editora: Boitatá

Compre aqui: https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/minha-danca-tem-historia-884
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