domingo, 23 de julho de 2017

ágoa de piás

crianças brincando na indonésia -desconheço autoria-

 minina corre a largo n’ágoa toda estrela, toda-toda
porque é feitio de minina fazer vento com o corpo pra acariciar ágoa
e a ágoa toda responde afago com festinhas no rosto, nos pés da minina
gotas e gotas brilhando no corpo negro
porque é feitio de ágoa faze negrume co’as mininas
até as mais brancas e índias, piás
em afogamento assim de pele sabem
o negrume, o colorido todo é uma alegria bonita

o minino também corre co’as ágoas
os mininos todos, até os mininos verdes
se minino se pintar menino pode ser verde
verde é a cor mais verde
azul a mais azul, vermelho a mais encarnada
piá é d’ágoa, cor de tudo
 cor de tudo que corre e é negrume e é colorido

piá que é piá sabe da ágoa boa até a tormenta
um fiapim de rio que corre da língua
até os beiço quando vê doce de fruta viva
um toró de inverno nordestino

piá se lambuza n’ágoa
a poça que encontra os pés até a lama colorida toda
o corpo chei’ quando escorrega a saliva doce pra garganta
ah! um rio todim de se jogar

essa ágoa toda só ágoa de piá chover
*

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Brenda Ríos - deliciosa tradução

trecho de 'rutina'/ 'rotina'

saiu na última edição da Germina - Revista de Literatura e Arte, traduções minhas pra alguns poemas do livro inédito de Brenda Ríos - "Domésticos".

só gratidão & alegriaimensa pela honra de poder atravessar essa poesia-poetência ♥

sexta-feira, 2 de junho de 2017

una cosa y otra cosa son las mismas


amor, iv

para a bruna e a yasmin

um dia o amor bate em sua porta
um dia o amor te beija a cara
um dia o amor bate com a porta na sua cara

uma música toca no rádio
o galo que cacareja galinha choca
é o homem que grita menina histérica

lembro os versos dos anjos
o beijo amigo é a véspera do escarro
e só um homem louco perguntou

pra onde vai a porra do amor
quando o amor acaba
a saudade de nós sufoca

lavo a boceta em busca do amor
e ele está de abraços com o talarico
que me flerta apalpa e geme

eu li os diários xexelentos da maria
eu escrevi os seus cadernos-goibada
o seu medo é um lugar seguro

- a mais alta literatura prescinde a vida real
é uma transcendência é uma metafísica
o poema é uma alegria!

com as mãos tão bonitinhas
as mãos que foram minhas

um dia o amor corta a sua aorta

desterro, 2016
***



vulcão espelho

para a angélica

um homem se sente
bem ao meu lado

ele me quer porque o deixo
todas rédeas como ela

ele pensa que sou
dele eu gosto

o sim e o não
veronika, véronique

deserto, 2014
***

DE VOLTA AO MUNDO, A POEMA:



"[...] Eu disse a N. que este livro, lateral ao tempo e à
História, resultado de sua dissociação radical em relação
ao regime de luzes e à trama de invisibilidades que
conforma realidade ao mundo, descrevia um esvaziamento
- fotografava cidades arruinadas, silêncios holocáusticos,
vozes soterradas e lágrimas na chuva – desde
uma negatividade não catatônica, que era também a cartografia
de um êxodo. Que a carne destes poemas era
a contranatureza precariamente viva que se impunha
à duração do deserto, ousava existir o vácuo, a morte,
o desespero e o isolamento para aprender a habitar catástrofes,
atravessando-as; e procriar errâncias, desintegrar
as geografias na trilha de novas terras. Caminhada de
pés que só não são estrangeiros à diáspora."

- Jota Mombaça, atravessandabrindo A Duração do Deserto

ATRAVESSE O DESERTO! inteiro e completo, aqui na germina:

http://www.germinaliteratura.com.br/2017/ninarizziaduracaododeserto.pdf

terça-feira, 23 de maio de 2017

13 poemas de 'fetiche', de antonio risério -- versión

"A cada mês a Vallejo&Co publica poetas brasileiros, em edição bilíngue (português-espanhol). Em maio o destaque são os poemas de Antonio Riserio, na excelente tradução de Nina Rizzi. A edição é de Mario Pera." - Curadoria de Fabrício Marques





VIA PAGU

dios y el diablo
crías casi perfectas
desean lo que deseo:
almas elegidas

islas de fantasia
no me verán
en la estación  del carnaval
estaré en delirio
en un outro ritmo
ultimo istmo del real

entre el cuerpo y la mente
los más antiguos clichés
clinchanse doraduramente

**
Leia todas as versões em espanhol e os originais aqui!

quarta-feira, 17 de maio de 2017

[terá sido o 2010 um bom ano?]

met4pl4g!o:
alô, saudade!

tarcísio sardinha toca agora
pra nina rizzi, da praia do futuro,
vibrações, de jacob do bandolim.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

incêndio a bordo

[breve, brevíssimo]

segunda-feira, 13 de março de 2017

1. escuta

vagabundo não baixa cabeça pra otro 
doze hômi só escapa dois
é neguim pai de santo desde pivete
já fique escamoso 
de vintedois pra trintanove
dá dezassete 
jão cambão 
elemento perverso
resgatava pra cela 
é lá no enforcado que se aprende a fumá
e quando pára todomundo
já se deita que é fuzil
e tome pau proteja os ovo 
duas pisada na cabeça 
só a titela
policia é foda 
só na piçarra 
mas quando nóis volta pra rua desgraçado
é só ferro na cara
e o caba só dá o que ele ganha 
separa lava e venha areia 
só a papa 
bota o valim pra ver se ele come 
o sal fervente 
agora é eu e tu vamo só seu covarde  
e num alise não que agora é peia é pancadão

[chorá é difícil no rap]



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

'onde queres revólver, sou coqueiro'

há facilidades em estar cego
rastros de bombas obus
rasgam do poema mil nuvens
de paz – e o sol amarelo!
STOP também quer dizer
napalm já não é tão raro
feito sorrir ao ver pai & filho
de skate a caminho da escola
ou as meninas-monstras
que transformam os meninos
em variegadas frutas na corrida
recreativa – e o contrário também

há facilidades em ter a garganta
vermelha de ódio e disparates
vulgaridades posses – tanta dor
escorre junto ao vômito nas vielas –
cobrem as gotas – tão brilhantes!
da chuva que cintila o chão

as gentes extinguem irmandades
e há facilidades para quase tudo
até à trégua, amor - um ser
vivente que cresce, nasce y me abraça
: há trégua em estarmos vivos
enquanto morre o mundo lá fora

william turner: 'fire at a sea', óleo sobre a tela 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

todas as minhas caras são feias

todas as minhas caras são feias 
eu rio e os meus dentes amarelos são feios

eu rio e os meus dentes amarelos são feios
eu reclamo a brisa seca das manhãs
eu reclamo ter que acordar todas as manhãs
eu reclamo não foder todas as manhãs
eu reclamo as flores arrancadas do meu jardim

todas as minhas caras são feias
[eu tento fazer um poema, cara]
eu bebo dou cambalhotas
viro estrelas
tiro a camisa
[não, mãe, não tira]
e todas as minhas caras são feias

te digo beibe melhore
mas nada melhora 
[não bebe, mãe
]
eu vou trabalhar
eu vou estudar
[não bebe, mãe]
eu não quero ler nenhum livro
entendi
eu vou trabalhar
vou fazer tapioca com sal demais
vou fazer bifum com sal de menos
está sempre um frio a mais

todas as minhas caras são feias
e não importa se eu corro rio morro
todas as minhas caras são feias
a minha filha dorme [...]

As Enterradas Vivas, na 'modo de usar & co.'

a revista modo de usar & co. começou série no ano passado, chamada "As enterradas vivas", convidando diversos poetas brasileiros contemporâneos a lançaram seus olhares sobre mulheres importantes de nossa História que frequentemente acabaram soterradas pelo silêncio.

na última semana, escrevi para a série, homenageando Carolina Maria de Jesus  (1914 – 1977), autora dos livros Quarto de despejo (1960), Casa de Alvenaria (1961), Pedaços de fome (1963), Diário de Bitita (1982), Meu estranho diário (1996), Onde Estaes Felicidade (2014), entre outros.


onde estaes, negra?

1.
nasci antes da poesia
sacramento é como terra cerrada
como canindé ou qualquer canto
aborrotado de negros
lamento encontrado nos lixo
o menino jesus tá veno
vê que muita gente faz as coisa ruim
em causa de frio e fome
até os penico de merda que me jogam
das veiz inveja também
mal compreensão
magine se num sabem nem lê
queria mesmo é ser cantora e atriz
sei escrevê e sei dizê a boa língua sim
mas bão é assim fagulha na língua
português gostoso sem contrato e casamento

tenho fome
tenho frio
as criança geme
sei mais que dizê não
u’a dor no estômgo
engole toda outra
ugolino e seus fio
fome de tudo dona
o amor faz bem
uso droga não
eu sou a palafita
a lata e os papelão
o rio e o rato
‘saiam ou eu vou colocar vocês no meu livro’

2.
a negra é ruas
as palafitas bonitinhas
escandalosa em seu silêncio de cárcere
uma ondinha vinda com um cargueiro
e caranguejinhos cheios de febre
você viu os mosquitinhos invisíveis no ano-novo?
picavam
pica o fumo
pica a fome

a negra é sem caso
sem casa e a penquinha de filhos
escorrendo o sangue
uma casinha tão bonitinha de palha
de porquinho que leva a vida na flauta
instrumento barato esse
o outro não
piano de cauda 
virtuose e concreto
sabe o que faz
sabe o mérito?

a negra é a selva aberta na pele
com os espinhos e os bichos 
paraíso e inferno
aqueles tantos sem nome feito negra
pequeninos imundos
gigante a besta fera & sono
você já sentiu hoje qualquer coisinha
como formiguinhas carnívoras nos dedos?

a negra é um terreno baldio
cova rasa mais que cemitério
e essa voz de fantasma insistente 
que não te mete medo
fotos carcomidas pelo tempo bom deus
carcomidas germidas co’s entulhos
e sacolinhas de mercado jogadas do alto
do hollyday ao são pedro
rasura na paisagem
já quis ser a faca que pudesse agradecer
ter sido largada ensanguentada
junto à ferrugem dos dias?

a negra é toda livros
empilhados de qualquer jeito 
sem estante e muitos olhos
em branco
no barraco na calçada
bordas enegrecidas
uns lombos lombadas de se fazer poema
amassados rasgados usos muitos
esquecidos raros
já foi da escritura a própria pele
atravessada pela tinta e o mau-cheiro?

a negra é carolina 
mares se abre
salto
afogamento
as entranhas da mulher
a barba do homem
maria
de jesus 
*

Leia a série toda aqui!

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

'pra pular



noturno da avenida jaguarari

quando fui a ser-te
deixei de dançar aos passos do sul

a doença como virtude em si mesma.
sem explicação.

se eu fosse arquiteta, poderia ser arquiteta, mas não
enfurnada numa casa que deram por minha
no salto que me fizeram areia entre os dedos

tenho brincado de muitas coisas, um empreguinho de vilanias
ainda e de novo, convale-sendo, me enganado e ao outro.

quando não podia a palavra dizer, dançava

agora olha, eu minto. eu não sei esse nada
as colagens, a pintura,  o concerto, a partitura

digo - te amo, a tudo que é parede, elas me sabem. eu não
tenho saudade de nenhum parente, mas de tudo o que não pude ter sido
o tempo que não passou, os dentes furados da escavação e a geografia afetiva.

eu sei o banho e as baratas. eu sei o acordar, abrir os olhos
eu sei a lembrança persistente de alguma extinta irmandade quando capotava.

TEMOS DEIXADO MUITAS COISAS PRA DEPOIS

o arroz mofado por jogar fora, os cacos do cinzeiro por juntar, fazer amor
encontrar um rio pra ter o filho com fluidez, se afogar e se deixar a-

deus,

desnorteada, que vim a ser-me?
*

artaudniana nº2

espero frente aos táxis o homem que virá me buscar.

não é filho, pai, amante, irmão
um homem que vem em lugar do outro
que não poderia, da mulher que não quereria.

isso não é um escape
eu o espero

com a calcinha rasgada e suja da noite passada na bolsa
peça que querem, riem, escarnecem.

ele não. talvez sim.

poderia um homem diferir tanto dos demais
e ver além o que mostro sem-querer por insistência
dos meus pés em roda de samba, do vento macho?

espero-o ao passo que penso definhar e relembro
as auroras enlouquecidas, a caipirinha e o óleo em abuso.

que fazer, camarada, pra acabar com o juízo de deus
enquanto espero cerrar os lábios findos, enfim anoitecer?
*

pra acabar com o freudianismo, balada pra o bastardo que dança em meu ventre

empresto meus ovários, doo
meus melhores cromossomos ipsilones

mamãe não me dá dinheiro, há que sobrar
para as pedras dos amantes, a dança da cópula
e o esmalte pra o ranger dos dentes

faço tudo
um container de lixo, caixas eletrônicos
semi-acordada, disléxica

tenho muitos anos e poucas rugas
ou o contrário

não me lombro

podia ter um filho
grande, enorme
de onde me sairia mais ainda

jamais faria uma cesariana
descia de cócoras às minhas margens
e bebia meu sangue pra nunca
deixar de ser encarnada

mas é sorte dele não ter nascido
quereria voltar, expulso do mundo
voltava e pisava em meu câncer
até doer o útero, e eu gostava

pego com os dedos a maravilha
e quase posso crer na divindade das coisas
ele é miúdo, miúdo, contrário
à gravidez, quinhentas vezes mais

enfio as mãos dentro de uma mulher
eu não sou misógina
eu quero machucar mamãe

prometi escrever ao filho
ou nunca mais escrever

sem resposta, matei o carteiro
mendiguei, dormi atrás das grades
pra me manter viva de verdade

o aborto, o concebo, o amo

monossilábicas, monólogos
ao pé do próprio ouvido
\\\\

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

andarilhando...

Nina Rizzi - cantares poéticos
perfil e poesia, pesquisa e edição de Elfi Kürten Fenske para o Templo Cultural Delfos.

10 autoras f*das que te introduzem à nova poesia brasileira - Elas vêm criando novas possibilidades, tanto para a poesia quanto para nossas noções de feminino. No M de Mulher.

Dez poetas necessários da nova literatura - No Letras in.verso e re.verso.

25 escritoras negras brasileiras que você vai adorar conhecer - No M de Mulher

37 poetas para serem traduzidos no Brasil - Quem são os poetas não lidos no Brasil? E quais aqueles que deveríamos já ter traduzido? Pedimos a Adelaide Ivánova, Ricardo Domeneck, Ricardo Aleixo, Nina Rizzi, Carlito Azevedo e Paulo Henriques Britto para indicarem nomes que eles gostariam de ler em português. A lista é ampla e diversa, mas unida pela necessidade de dar visibilidade a vozes dissonantes. No Suplemento Pernambuco.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

thank you for your love


verteu-se puro ácido meu bebê, seus olhinhos
tão pequenos ainda, estilhaçados no berço de ouro
que preparei com as flores as mais selvagens. mais ternas.

crueldade de um útero, triste útero do mundo que perdeu
todas arcaicas cantigas, incantáveis. meu pequeno
bebê, desmoronou-se de mim em sangre.

Nina Rizzi, Girassol morto pra Schiele. Grafite sobre canson,

sábado, 9 de julho de 2016

pequena canção de inocência



é preciso agradecer sempre - todas as manhãs
o humor |   o sabor amargo do bolo, das rosas


é preciso não esquecer nunca - todas as manhãs
o amor |        ainda sob um céu de bouganvilles


[sempre e nunca é muito tempo & ainda]
o rumor |                               tudo é ruína