sábado, 10 de outubro de 2020

traduzir "atrás dos olhos" das mulheres

no último dia 03/10, fiz uma oficina de tradução com a Sarah Rebecca Kersley promovida pela Leia Mulheres Feira de Santana e foi muito massa! 

um dos exercícios propostos foi verter para outro idioma o poema de Ana Cristina César “Atrás dos olhos das meninas sérias” (em 07 minutos, hahaha), fiz minha versão em espanhol cometendo as transgressões que amo e que costumo chamar “em lugar de tradução”, quando traduzo de outro idioma pro brasileiro tentando captar coisas que não estão ali “exatamente”; o resultado foi “detrás de los ojos de las dueñas de casa”. 

gostei tanto de brincar com a menina séria branca que esta manhã, em lugar de traduzir as urgências aqui, fiz outras duas versões (mujeres negras/ indígenas), com aquele desejo de sempre sempre ler mulheres negras, indígenas, laterais à história e ao cânone, escritas ou não, e que sempre escreveram através dos tempos. 



Atrás dos olhos das meninas sérias


Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão, por injunções

muito mais sérias, lustrar pecados que jamais repousam?


Ana C.

__________



Detrás de los ojos de las dueñas de casa


¿Pero puedo decirte que se atreven? ¿O se vayan, por imposiciones

mucho más hogareñas, pulir pecados que nunca descansan?


*


Detrás de los ojos de las mujeres negras


¿Pero puedo decirte que se callan? ¿O se vayan, enlazadas

mucho más que atrapadas, resistir a la brancura transatlántica?


*


Detrás de los ojos de las mujeres indígenas


¿Pero puedo decirte que lanzan flechas? ¿O se vayan, enamoradas

mucho más acultaradas hacer niños mestizos, crear heridas que nunca se pulen?


***



quarta-feira, 30 de setembro de 2020

dia internacional da tradução - no verso/ diário do nordeste


saiu hoje no caderno verso/ diário do nordeste uma matéria de Diego Barbosa muito bacana sobre o dia internacional da tradução. eu e outras pessoas comentamos um pouco sobre esta que é uma das coisas que mais amo fazer.

leia a matéria completa aqui!

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

tradução y entrevista a Sergio Ernesto Ríos, en ViceVersa/ México

 há algumas semanas tive a feliz surpresa de ler algumas de minhas poemas traduzidas para o idioma que tanto amo por Sergio Ernesto Ríos y publicadas no site mexicano ViceVersa (leia aqui!).


depois o Sergio entrou contato comigo perguntando se podíamos conversar, porque uma entrevista é uma conversa.


descubro y aprendo muitas coisas todo dia. descobri y aprendi também que quando respondo uma entrevista, quando converso, descubro y aprendo sobre minha linguagem y poesia.


a entrevista também foi publicadas no site mexicano ViceVersa (leia aqui!)


 gracias, Sergio Ernesto Ríos! gracias! 💕


sábado, 22 de agosto de 2020

hughes, em lugar de tradução


PEQUENA-MORTE 


A calma (esse furor),

A face quente (toda água que cabe aqui)

Não canso de te pedir um beijo.


- nr

*






sexta-feira, 21 de agosto de 2020

à imagem da lua, metatradução pra Federico García Lorca

Autorretrato em Nova Iorque, Federico García Lorca


"[...] No aguardes la embestida

del toro que es un hombre y cuya extraña

forma plural da horror a la maraña

de interminable piedra entretejida.

No existe. Nada esperes. Ni siquiera

en el negro crepusculo la fiera".


Não espere pelo ataque

do touro que é um homem cuja estranha

forma plural se emaranha no horror

da interminável pedra entretecida.


Não existe. Nada espere. Nem mesmo

a fera no negro crepúsculo.


- Monte a besta preta, crave a língua presa, te seja lua.

terça-feira, 21 de julho de 2020

canção, song

Cecília Paredes

canção, em lugar de tradução 

você se pergunta se estou sozinha:
sim, estou sozinha
como a menina solitária e descalça 
em suas roupas ganhadas, suas carnes lanhadas
sonhando com o através os canaviais
em cima de seu cavalo
que logo já não seria mais seu.

você quer me perguntar, se estou sozinha?
sim, claro, sozinha
como uma mãe com sua cria
uma mãe-polvo que não pode deixar nada para trás
porque a cria grita e grita e grita
e os tentáculos nunca podem dar conta
porque uma mãe sempre está sozinha, até na morte

se estou sozinha
a solidão é mulher, é preta, e é tão bonita e é além
acordar, respirar o fumo olhando a janela
como se pudesse atravessar janelas
dormir e acordar 
em uma casa-oca com pajaritos fazendo festinhas

se estou sozinha
una hojita despencando lenta
no meio da floresta
tantas árvores, tantos bichos
una hojita, solita
despencando lenta
neste país onde queimam florestas.

- nr

*

Cecília Paredes


Song

You’re wondering if I’m lonely:
OK then, yes, I’m lonely
as a plane rides lonely and level
on its radio beam, aiming
across the Rockies
for the blue-strung aisles
of an airfield on the ocean.

You want to ask, am I lonely?
Well, of course, lonely
as a woman driving across country
day after day, leaving behind
mile after mile
little towns she might have stopped
and lived and died in, lonely

If I’m lonely
it must be the loneliness
of waking first, of breathing
dawn’s first cold breath on the city
of being the one awake
in a house wrapped in sleep

If I’m lonely
it’s with the rowboat ice-fast on the shore
in the last red light of the year
that knows what it is, that knows it’s neither
ice nor mud nor winter light
but wood, with a gift for burning.

- Adrienne Rich

segunda-feira, 22 de junho de 2020

moraesiana/ - desvario

3.
eu não sei o que você pensa
- ou isto ou aquilo ou seu revés
bordas e margens e fronteiras
mas olha eu quero ver você
de novo e de novo e de novo
dentro da beleza a beleza na beleza
uma sensação de além mais longe
infinito / imensa e tua vastidão
[moraesiana]

(arte: Layza Pereira / foto original: Rhaiza Oliveira)

poema e arte originalmente publicadas na Revista Desvario. leia a série completa e conheça a revista toda que é maravilhosa aqui!

quinta-feira, 11 de junho de 2020

estar sem estar sendo

quando o mundo parar de acabar
algumas coisas não vão mudar
vou bater na sua porta
e sair correndo

te deixar poemas
fotografias
garrafas de água
frutas
- tangerinas
- caquis
- mangas
essas frutas que nos lambuzam

[outras vão]
às vezes eu também
bem nua
bem nua

será leve o amor
pesado só o meu hálito a cigarro
minhas mãos encontrando seus ossos
e as delias 
as flores todas grandiosas
que poderemos inventar
com nossas línguas

poderemos? 

ilustração de alice dote
poema e ilustração originalmente publicadas na antologia "escritas em pandemia", com escritas de 24 mulheres cearenses, organizada por alice dote, glória diógenes e lara denise silva. leia os demais textos e ilustrações gratuitamente, clique aqui!

sexta-feira, 5 de junho de 2020

#escrevacomoumamulher





















Está no ar: As 13 mulheres de ArapiracaAs lobas do morro vermelhoAs pernas de Dona KêniaJardins das Vulvas e Macyrajaras do Delta. Mais de 500 páginas escritas por mulheres negras, indígenas, brancas, jovens, velhas, gordas, magras, brasileiras, estrangeiras, periféricas, cis, trans... as publicações são resultado dos laboratórios de escrita criativa com mulheres que fiz no ano passado pelo projeto Arte da Palavra do SESC em Porto Velho, Arapiraca, Parnaíba, Belo Horizonte e Montes Claros. 

Só gratidão por tanto y tanto, a essas mulheres incríveis e tão poderosas pelas discussões, escuta, aprendizado, revolução, poesia e afeto! 

Para ler as zines é só baixar: 


Leiam Mulheres! 

terça-feira, 26 de maio de 2020

amanece que no es poco

 viajar con el puntero del ratón sobre las nubes ‘como una luna en el agua’... cambie mi nombre a selva. algo verde y muy latinoamericana. para acercarse a las nubes, la sensibilidad más sensible, te doy mis ojos. llamo tus manos, como la brisa a las hojas. hasta la hermandad de los huesos con la tierra. mientras invento todo de nuevo, las sendas, ensueños, el portuñol selvage, el chinitar, el amanecer. no es poco.


segunda-feira, 25 de maio de 2020

Petits Furts - M'eugo. 4 poemes de Nina Rizzi [in catalão]


"M'eugo. 4 poemes de Nina Rizzi"
Del llibre quando vieres ver um banzo cor de fogo. São Paulo: Patuá, 2017
Traducció de Josep Domènech Ponsatí
Petits Furts [2020-32]

amor, pobre amor 

o que eu vou fazer 
quando não restar sequer 
as paredes de te me esfregar?


amor, pobre amor 

què coi faré 
quando no em quedin ni tan sols 
les parets on te'm refregues?

§

do amor, sou onírica musa 

: fartas ancas, largos dentes; brusca, 
eguo-me


de l'amor, soc onírica musa 

: malucs potents, dents grosses; brusca, 
m'eugo 
§

antipoema

pra porra co’ lirismo! 
poesia concreta 
é teu pau ereto por entre 
minhas gretas e becos


antipoema

a la merda el lirisme! 
la poesia concreta 
és la teva cigala erecta per entre 
les meves vies i clivelles 

§


a menina e o cocô, o cocô e a menina 

hoje eu fiz um cocô tão lindinho 
era bem pequenininho 
parecia uma nuvem 
caindo do céu 
aí quando ele caiu espirrou 
que nem as lágrimas da chuva 
numa poça d’água 

gato diz que vamos voar


la nena i la caca, la caca i la nena 

avui he fet una caca tan bonicoia 
era ben petitoneta
semblava un núvol
que queia del cel
aleshores quan ha caigut 
ha aixecat un xàfec d'esquitxos 
com llàgrimes de pluja 
en una bassa d'aigua 

el gat diu que volarem

*

domingo, 26 de abril de 2020

trajetória - leitura & escrita

no ano passado fui convidada por duas iniciativas diferentes e maravilhosas para gravar um vídeo contando minha trajetória com os livros e a escritura:

- uma de alunos da escola CEJOL - Centro de Ensino em Tempo Integral João Francisco Lisboa, de São Luís do Maranhão, para um trabalho sobre poesia em que falavam sobre minhas poemas <3
- a outra da Lourdes, bibliotecária maravilhosa do IFES de Piúma, que em razão da Semana Nacional do Livro e da Biblioteca fizeram uma homenagem a escritoras negras brasileiras.

deixo agora pra todes o vídeo :)



segunda-feira, 30 de março de 2020

hair love/ amor de cabelo - um amor de tradução!


Muita alegria e emoção! <3

Hairlove de Matthew A. Cherry, com ilustrações de Vashti Harrison agora em português brazuca com tradução minha!

Amor de cabelo narra a linda história de um pai que precisa superar o medo dos muitos cremes e elásticos e ajudar a filha a fazer um penteado para uma ocasião super especial. O livro é inspirado no curta animado Hairlove que foi vencedor da categoria no Oscar 2020. Jajá nas livrarias pela Galera Record.

Vejam a sinopse da editora:

O livro inspirado no filme vencedor do Oscar de melhor curta metragem de animação. O cabelo de Zuri é mágico. Ele pode ser trançado e enrolado para combinar perfeitamente com uma tiara de princesa ou uma capa de super-heroína. E Zuri sabe que seu cabelo é lindo! Mas um dia superespecial pede um penteado mais especial ainda. A mãe de Zuri está voltando para casa depois de um tratamento médico. E, embora ainda tenha muito o que aprender quando se trata de cabelo, o pai da menina é o responsável por ajudá-la a montar o penteado perfeito para receber a mãe. Ele fará qualquer coisa para deixar a filha feliz, até mesmo aprender a diferença entre trança nagô e trança twist. Comovente e empoderador, Amor de cabelo enaltece o carinho ao próprio cabelo, o amor entre pais e filhas e a felicidade que preenche aqueles que podem se expressar livremente.

Saiba mais sobre o libro aqui!

E curta o curta:

  

domingo, 29 de março de 2020

ainda a queda do céu



oi, mãe te escrevo do norte, tô na amazônia
na vinda cruzei o interior do ceará
e passei em frente um rio chamado chorozinho
parece uma metáfora tão triste pra estes tempos
sei que não é boa hora pra falar de tristezas
que deveria te escrever e acalmar seu coração de mãe
que é importante amar e rir e gozar e espalhar flores
eu lembro a vendedora de flores que você foi
ainda sinto o cheiro das roupas da lavadeira que você foi
lembro o cheiro gostoso da doceira que você foi
sim eu sei que a alegria é uma resistência eu sei sim
mas mãe, eu fico aqui olhando as rasuras
eu conto doismilidezenove três anos de golpe
quinhentos e dezenove anos de golpe
eu ouvi aqui que cada dormente é uma alma
dormente, mãe, são aqueles paus que ficam debaixo 
dos trilhos das ferrovias e os indígenas iam à noite arrancar
os dormentes porque a estrada de ferro era construída
em suas terras e então os donos do poder colocavam coisas 
pra dar choques nos indígenas e de manhã 
eles estavam agarrados nos dormentes 
todos mortos 
cada dormente uma alma, mãe
e agora eu te escrevo essa cartinha e tem uma tv ligada
e o governador tá falando de boca cheia que precisam desapropriar 
as terras indígenas porque eles não plantam e as pessoas precisam comer 
e ele tem sangue nas mãos e no bigode, mãe
os padres e as caravelas de há quinhentos e dezenove anos 
são a bancada evangélica e da bala de hoje 
ah sim, mãe vou te contar uma coisa bonita
um feitiço indígena os cabelos de betânia o cheiro dos cabelos de betânia
todas essas mulheres juntas e nadando fundo contando suas histórias
e foi muita sorte eu ter conseguido ver o rio madeira porque 
a construção da hidrelétrica fez tudo desbarrancar 
não seria mesmo lindo se o rio lavasse tudo, mãe?
*

domingo, 20 de outubro de 2019

VIII PARADA PELA DIVERSIDADE SEXUAL DE MESSEJANA - TODAS AS VIDAS DAS PERIFERIAS IMPORTAM!




No dia 29 de setembro aconteceu a VIII Parada pela Diversidade Sexual de Messejana, em Fortaleza/ Ceará, com o tema "Todas as vidas das periferias importam!". 

Fui convidada a ser Madrinha da Parada. Nunca na vida me senti tão honrada e feliz. Dificilmente me sentirei. Nem mesmo se um dia for convidada a ser madrinha da parada de SP, da parada de São Francisco, me sentirei tão honrada e feliz como neste dia: na minha quebrada e com esta bandeira: "Todas as vidas das periferias importam!". 

Quando recebi o convite escrevi este pequeno texto em minhas redes sociais: 


em alguns momentos da história estadunidense poetas foram convidados para ler poemas nas sessões de posse de mandatos de presidentes (posso estar enganada, mas no brasil, fora temer!)- robert frost leu “the gift outright” em 1961 (jfk). maya angelou leu em 1993 “on the pulse of the morning” e em 1997 miller williams leu “of history and hope” (ambos nas sessões inaugurais de bill clinton). em 2009 barack obama convida a poeta e professora elizabeth alexander que lê “praise song for the day”; em seu segundo mandato, convida o poeta de ascendência cubana e homossexual assumido richard blanco que faz a leitura de um dos maiores poemas da história (que logo mais publico na @escamandro), escrito propositadamente para a cerimônia.

é claro que eu não recebi convite de presidentes. minha presidente é uma mulher negra, sapatão, com maus dentes e que passa a vida em filas: em busca de emprego, saúde, educação e moradia. sou uma poeta periférica e anárquica. a analogia é: me sinto tão imensa quanto esse último poeta: de um país alvo de embargos, dito comunista e gay na escadaria do capitólio - no meu caso, uau: na messejana, resistindo e celebrando o orgulho de ser quem somos e poder amar quem amamos nessa terra em transe. uma poeta, numa festa. de nós, por nós! 🌈💕


E assim foi! Uma festa linda, de resistência, re-existências, afirmação e amor! Deixo abaixo a poema que li quando recebi a faixa e algumas fotografias desse dia histórico. Viva! 
*

Minha história é a história das quase 400 mil pessoas
Que vivem em favelas em Fortaleza
Minha história é a história das Mães do Curió e da Messejana
De todas as mães que perderam seus filhos
Pelas mãos assassinas da polícia e seu estado
É a história das meninas que cedo aprendem que têm que fechar as pernas
A ter medo de andar sozinha, de uber, a ter medo de homem e de farda
E que a cor da pele é passe e é passagem
Minha história é a história de Carol, espancada até a morte por ser lésbica
É a história de Dandara, apedrejada, humilhada, executada.

Minha história é a história das 10 mil pessoas que estão aqui hoje
Nossa história foi filmada pelo Barra Pesada, pelo 190
Numa narrativa que nos colocam como culpadas, culpadas, culpadas!
Dieguim da Serrinha diz bem:
“Quero ver filmar um sarau e botar em rede nacional”
Não somos assassinas!

Enquanto a parte alta da cidade é consumidora de tudo
As periferias são produtoras de tudo:
Hortas, batuques, bibliotecas, dança, poesia
Somos tudo o que quisermos ser!

Crianças fazendo dramaturgia e teatro
Na Biblioteca Livro Livre Curió
Brincando de bila, pipa, estrela-canastra, esconde-esconde nos campinhos
Lendo nas praças, num clube de leitura ou no silêncio do quarto
As donas Marias vendendo coco na praia, roupas pras vizinhas
Ou fazendo as unhas das amigas, de Dona Conceição Evaristo

Somos tudo o que quisermos ser
Arquitetas, advogadas, médicas, faxineiras, putas
Minas, Manas, Monas, Sapatonas, Bixas, Travas, Mariconas, Mariquinhas
Loucas, Travessas! Transviadas! Somos Gente! Somos Nossas!
Nunca mais desgraçadas, nunca mais açoitadas,
Nunca mais marginalizadas, nunca mais destruídas!

Eu poderia explodir o mundo com a fúria que carrego no corpo
Fúria legítima por séculos de violência com nossa gente, com nossa história
Somos gente, somos nossas e nossas vidas importam sim!
Todas as vidas das periferias importam!
E vamos lutar por elas com as unhas, com os dentes, com poemas, com festa!















<3