sexta-feira, 26 de agosto de 2016

andarilhando...

Nina Rizzi - cantares poéticos
perfil e poesia, pesquisa e edição de Elfi Kürten Fenske para o Templo Cultural Delfos.

10 autoras f*das que te introduzem à nova poesia brasileira - Elas vêm criando novas possibilidades, tanto para a poesia quanto para nossas noções de feminino. No M de Mulher.

37 poetas para serem traduzidos no Brasil - Quem são os poetas não lidos no Brasil? E quais aqueles que deveríamos já ter traduzido? Pedimos a Adelaide Ivánova, Ricardo Domeneck, Ricardo Aleixo, Nina Rizzi, Carlito Azevedo e Paulo Henriques Britto para indicarem nomes que eles gostariam de ler em português. A lista é ampla e diversa, mas unida pela necessidade de dar visibilidade a vozes dissonantes. No Suplemento Pernambuco.


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

thank you for your love


verteu-se puro ácido meu bebê, seus olhinhos
tão pequenos ainda, estilhaçados no berço de ouro
que preparei com as flores as mais selvagens. mais ternas.

crueldade de um útero, triste útero do mundo que perdeu
todas arcaicas cantigas, incantáveis. meu pequeno
bebê, desmoronou-se de mim em sangre.

Nina Rizzi, Girassol morto pra Schiele. Grafite sobre canson,

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

a pedra glória de um deus-coyote


1.
uma pedra e tudo muda, querido
não tinha agora essa faca tão bem ajustadinha na garganta
e são tantas essas facas que me marcam em aviso
eu também sou outra, eu também
do alto dos cinco metros de andaime enferrujado
só uma pedra, um elevador, sua mão tremendo na minha
e tudo mais, esse silêncio e as frases tão bem
arranhadas como o joelho que lambe, lambe
esgalamido. não haveria nada a dizer

2.
tenho perdido muitos reinos com o se
percebe a minha irresponsabilidade com tudo
os crisântemos que murcharam, os pescoços que não
eu não lambi, me disseram ontem, eu chorava pescoços, amor
- porque ele está tão aos longes e também aquela toda outra
olho as criancinhas e meu coração se aumenta em batimentos
tantos. tenho pavores deste mau-tempo, senhor 

3.
rosinhas tão bonitinhas se despetalam
enquanto uns putos se desnorteiam
essa casa já foi uma teia de pedras e foices
e a tina d’água imensa em que me afogar
essa casa qualquer coisa de imunda
como esses meus lábios que aceito
é verdade, nada nada santos, louquíssimos
e prontos a próxima hora de abandono. ó.
você gostava desse ó tão triste que terminam
os poemas. como levantar pedras pra u’a casa sem ó?

4.
uma cartinha depois e já não era esse tanto.
incendiava toda sua quebrada e olha, eu sou
só mato, visse, minino?
e a palavra escuta. escuta

5.
já não perco a respiração enquanto caminho sozinha
sinto cheiro de cachimbo e o passado é uma coisa tão
inexistente quanto a espera. esperar o quê, querido?

6.
quebrar co’as unhas estalactites, morder cenouras duas
que trazes pra o almoço. brincar y brincar de fazer filhinhos 

7.

e já te amo desde sempre. e

sábado, 9 de julho de 2016

pequena canção de inocência



é preciso agradecer sempre - todas as manhãs
o humor |   o sabor amargo do bolo, das rosas


é preciso não esquecer nunca - todas as manhãs
o amor |        ainda sob um céu de bouganvilles


[sempre e nunca é muito tempo & ainda]
o rumor |                               tudo é ruína

segunda-feira, 6 de junho de 2016

sem título, em lugar de lágrima



- para tom jones

uma fina delicadeza me cobre
o canto dos olhos
transparência - luz

con demasía y despacito
dime tu voz
esa textura innombrable

y abrázame
y es un poema entero
el llanto más salvaje

agua claridad coyote
'par delicatesse
toi dans 'ma vie

autoria desconhecida

domingo, 5 de junho de 2016

untitled for m., 1



i don't know you think
- this and its setback
borders and borders
but i want see you
again and again
the beauty in the beauty
a sense of beyond
infinite/ boundless

 

sábado, 28 de maio de 2016

m. disse, 1


disse que não me conhece
disse que o coração é uma ave sem plumas
disse que o poema é uma coisa tão nua
- a se confundir a vida coisa uma e coisa outra
disse que já não podia me ver
disse que tenho uns olhos de louca
- olhos de quem nunca existiu
disse uma palavra exata duas
está morta

sexta-feira, 27 de maio de 2016

sem saber dizer,

 olho a sarjeta mais suja
qualquer um podia saber que não há menina 
nesse chão sem ter sido um rastro de violência

olho a sarjeta mais suja
e sei que não posso voltar a pisá-la
dormir sob dejetos, restos de obras e cimento

a menina pisada é ainda outra e outra
a menina quem poderá dizer se nunca mais sair
da sala de psicopatologia – isto que é

chama, pedra, mãos, iml
é fraco dizer alguém
é fraco dizer animal

é tão fraco dizer os rasgos de toda história

2.
uma sarjeta é o lugar onde se deixar uma menina
uma menina é um ser vivente, um ser vivente é
esse que se atravessa e mata e nunca existiu

não vou mais pisar a sarjeta de quando era uma menina
sob as mãos do pai, do outro e do outro
todo e qualquer desconhecido

um senhor me pergunta se foi um poema que se salvou
como sede de qualquer morada
o claustro, senhor, não pisar qualquer chão

ser encarcerada é um ótimo ataque, lê-se numa vala

3.
a rua lá de casa é um aguaceiro pronto
a pisar, cair, uma abertura pra o fim do mundo
o fim do mundo acontece

cinco vezes por hora a cada onze minutos
é quando um ser vivente se converte em menina na sarjeta
sob as mãos de um, qualquer um ou trinta que é mais que gente

mais que gente não é um monstro
um monstro é mito ou é beleza
não existe beleza quando uma menina está na sarjeta

eu nunca mais vou à sarjeta, mas olha:
está cheia a sarjeta de outras meninas
eu sou ainda outra, uma menina que não pode ser mais


atravessamento- violência-- fim---