£ Cenas de nossa história coletiva: Diáspora não é lar, de Nina Rizzi, transforma em poesia a sensação de desperecimento — Ewerton Ulysses Cardoso, O Odisseu
£ O que a poesia fez por mim: Nina Rizzi conversa com Bruna Beber sobre como a leitura transformou sua vida de menina na zona rural e sobre a mistura de línguas nos poemas de Diáspora não é lar — Revista Quatro cinco um
£ Em carta para Nina Rizzi, Calila das Mercês reflete sobre diáspora, poesia e corpo como territórios de memória, desejo e resistência — Jornal Rascunho
euzinha no provador de uma loja experimentando esse lindo vestido que nunca irei comprar, só pra fazer essa foto de fim de ano! :))
eu gosto de fazer retrospectivas.
lembro de quando eu era bem pequena e meu pai contava causos bíblicos que não tinham nada a ver com a gente; minha mãe tentava tatear seu próprio passado sem poder contar com nada além de uma memória fragmentada por traumas.
depois, quando comecei a escrever, fazia listas dos livros que li durante o ano como uma forma de lembrar meus caminhos junto das leituras e tudo o mais que acontecia fora do mundo que era meu ideal.
hoje, na verdade há uns três anos, eu já posso fazer minhas restropectivas a partir de coisas que ‘realizei’ durante o ano.
a maioria das traduções que fiz e que foram publicadas este ano, foram feitas no ano passado e até bem antes; assim como meu livro "Elza" que escrevi em 2021-22 e mesmo os eventos e textos que publiquei em sites e revistas não foram concebidos esse ano; é preciso tanto pra se escrever...
quer dizer, “há o tempo de plantar e o tempo de semear”, ou ainda “quem vê close, não vê corre”. ou como disse Conceição Evaristo, num dos melhores momentos que vivi este ano "quem vê a gente vendendo livro hoje, acha que a gente nasceu no glamour".
portanto, camarades, sem julgamentos, estamos plantando ;)
minhas retrospectivas foram de realizações, embora voltando para o mundo (sim, é o mundo de diversas maneiras e em diversas dimensões que me possibilita “fazer”).
não foram reflexões, digamos, mais espirituais, sentimentais ou “essenciais”.
venho de uma família e de um tempo onde fazer análise é um ~luxo~ e a verdade é que tudo que fazemos, seja na vida pública ou privada, está totalmente intrincado.
“mas agora eu também resolvi dar uma queixadinha/ porque eu sou um rapaz latino-americano/ que também sabe se lamentar.”
esse ano eu engordei 15 quilos!
no segundo semestre tive uma misteriosa infecção nos olhos que se estendeu por muito mais tempo do que imaginávamos eu e a equipe médica; quando voltava de uma viagem à SP no início desse mês tive covid e alguns sintomas (ó, meu pai, não vamos dizer sequelas) ainda passeiam pelo corpo, especificamente uma estranha dor nos pés.
“quem vê close, não vê corre”, risos.
eu acredito que isso tenha a ver com os anos de pandemia, quando não sai de casa nem pra fumar um cigarro e me enfiei no trabalho como se fosse minha tábua de salvação (além, é óbvio, daquele medo que todas as pessoas que foram muito pobres têm de voltar à miséria material. dizer não é algo muito difícil quando você é uma mulher negra, periférica, mãe-solo e podem nunca mais te oferecer trabalho e aí lascou).
e depois, findada à quarentena, lidei com o fim de um longo relacionamento, mudança de trabalho, mudança de casa, questões familiares, pessoas que amo com inúmeros problemas de saúde mental e tentando abreviar suas vidas… lidei com tudo isso com a força descomunal do meu orì e: trabalhando muito - parece coisa de maluco, mas sim, o trabalho me centra e me torna à mim.
então, eu acredito que isso aconteceu com meu corpo - o alargamento, as doenças respiratórias e dos olhos, como um abracadabra que me diz: hey, olha pra dentro, mulher!
e eu tô olhando, olhando bem muito. daqui de dentro já até fiz pela primeira vez minha resolução de fim ano:
fazer pilates, yoga e natação
meditar
ficar mais quieta
não consumir substâncias que sei que me fazem mal.
que seja um bom lugar, esse lugar que não conhecemos mas que estamos plantando, o futuro.
dia desses conversava com minino que me disse com cara de bocó “estava pensando nas coisas que você perdeu”.
por estes dias também conversava com um editor e amigo e ele disse “vc não sabe o quanto me fez bem te ouvir. resgatar a esperança que a gente pode se sentir em paz mesmo com tudo ao redor acontecendo”.
e embora tantas coisas perdidas no fogo, embora tanto afogamento (palavra bunita), me sinto com o corpo tão aberto (e fechado).
sou uma pessoa muito aberta pra sorte.
sorte não é privilégio, não é agência, não é direito.
também já escrevi pra minino: “sorte. que os caminhos estejam abertos. dádiva. que se chover eu fique molhada y se o sol torar os cornos que estejamos aquecidos… a verdade é que sou uma pessoa aberta pra sorte.”
tenho a sorte, por exemplo, de conseguir escrever, até no meio do fogo e da água toda.
a sorte de ter conseguido alcançar línguas, quando na infância/ adolescência, parecia a coisa mais distante do mundo e reservada a raras pessoas ~por herança~ divina, ou de classe/ raça/ gênero, ou whatever, imagina tudo junto.
sei que tive sorte de atravessar uma bolha quase instransponível e que isso não se deve apenas ao meu estudo, trabalho e esforço: óura, tanta gente estaria aqui agora, mas não estão.
*
um dos maiores aprendizados que tive durante o processo de leitura/ tradução deste livro foi sobre a “voz” - se vivo e convivo em ambientes e com pessoas específicas; se tenho minha maneira única de pensar e agir no mundo, é evidente que minha “voz”, será única.
nos quinze contos desse livro, podemos perceber a voz própria de toni cade bambara dando unidade ao livro, ao mesmo tempo que cada voz narradora, em cada um dos contos, é única, por mais que tenham semelhanças sociais ou até psicológicas.
aprendi, como um reconhecimento, que nossas condições não nos determinam e não devemos ser vistas ~apenas~ como sujeitas da coletividade (“o mundo-dentro é tão real quanto a execução de kadafi” escrevi na “duração do deserto”).
e ainda que, ao narrar, mesmo com toda implicação social, um fato que existe e ponto; junto dos mundos-dentro, junto de algo tão único. parem de nos matar e de nos definir: não queremos e nem precisamos de suffering-porn (“o tecido de nossa pele não é nosso único orgão”, diz marcelo ariel; e bell hooks “não é só minha pele que me define”; e meu irmão poderia ter dito “estou preso, não sou preso”).
somos únicas, únicas. e maravilhosas, produzindo, fazendo e acontecendo. em coletividade.
*
(depois de toni cade bambara)
aquele tipo de mulher
que atravessa o delta
esgarça poemas meu bem
arregalase meu bem
goza junto meu bem
sangra junto meu bem
estou sangrando meu bem
e é água encarnada like dark
e é una montana
e é una playa
mango leaves meu bem
lambo meus lábios
atravesso o delta
sangro junto meu bem
nessa onda nessa onda
de calor meu bem
de va gar de va gar
soy una gorila meu bem
*
é tanta coisa, que não caberia nunca post, por mais que me ilumine.
quem é a melhor mãe do mundo? para cada criança sua própria mãe; para mim todas (ou quase)! mas essa Mamma Bird é mesmo muito especial, ainda mais ouvindo assim, da sua cria! 🧚🏿♀️
"Minha mãe é a melhor mãe do mundo! / Quando eu digo isso assim, de supetão, todo mundo duvida, / tiram onda comigo, entram em arenga..."
quem ou quê seria a melhor mãe do mundo?
a minha, a sua? algo escrito e jamais sido?
pra maioria das crianças são as suas sim, não importa como sejam ou como a sociedade espera que elas sejam. lembro muito de quando iniciei minha jornada como mãe e, cheia de culpas e incertezas, minha sábia amiga @robertasilvapinto me aconselhava: “calma, quer saber se tá acertando? é só ver sua filha tá feliz” <3 porque obviamente até quando a pequena dormia na rede da praia tinha gente pra dizer que: ó que mãe horrível.
obviamente esse livro não é apenas sobre frufru, não sobre “lugar comum”, não é mela-cueca, risos. é um livro que toca em privações, mas reflete muito mais sobre nossa comunidade de afetos, sobre se movimentar e, mais que uma maternidade, uma vida em que acredito: comunitária, livre.
quero muito, muito, que crianças e pessoas de todas as idades, gente de toda a idade e todo canto, leia esse livro. talvez a coisa escrita mais bonita que já fiz, e que ganhou uma nova vida e novo sentido, aliás deu sentido à comunidade, com as ilustrações de @veriscarpelli🧚🏿♀️
digo sem medo de exagero: o livro mais incrível que escrevi está vindo ao mundo! meu primeiro livro infantil! 🥳
gracias, eternas gracias a todes que acreditaram e fizeram possível. olive, como diz a minha cria 🖤
traduzi os três poemas fabulosos abaixo para o 7º número da revista despacho editada pela corsário-satã e com curadoria de fabiano calixto. deixo os poemas aqui e o convite neste link para que leiam a revista completa. tá peso.
Ode à gentrificação
Samantha Thornhill
Moradores coroas desse
bairro branqueado-qboa dão a letra:
a coisa mais autêntica
dessa rua reinventada
na madame branquela
e no seu yorkie
é o couro da coleira
que os acorrenta.
Seu próprio nome, um estilhaço
de vidro profundamente enraizado na banha
do nosso vernáculo. Gentrificação,
justamente confundida
com justaposição:
cults bacaninhas com arrogância,
grilagem de terras,
arranha-céus depressivos,
bodegas suspirando soja.
Meninas e moleques peruanos engordam
geladeiras com puríssima água Fiji entre
uma e outra tarefa de casa, enquanto papai
prepara e reparte tudo e mamãe
se preocupa com os registros de energia.
Fazendo fita pra tua gratificação,
O nascimento é gratidão – irmã
gêmea do arrependimento.
Me chama de arrependida.
Foi mal aí te agradecer
pelo jeitinho que
participo da sua cruel
e conveniente, mágica.
Por remover
as famílias que sonharam
onde minha cabeça hoje descansa.
Ontem, as roupas voltaram da lavadeira
mais límpidas que sinos, lingeries
acariciadas pelas mãos
de outra mãe.
Sento em cima da cara
seu lado da moeda,
bebendo a escória azul do céu
enquanto os adolescentes que ensino,
e as vóinhas pretas
duronas que dou um salve
e ofereço um banco,
beijam o asfalto.
*
Carvão
Audre
Lorde
Eu
A
suprema pretura, que fala
Das
profundezas da terra.
Existem
muitas maneiras de se abrir.
Como
um diamante se abrindo num nó em chamas
Como
um som se abrindo numa palavra, colorida
por
quem assume os riscos para falar.
Algumas
palavras são abertas
Como
um diamante em vidraças
Cantando
na cadência do sol que as atravessa
E
também há palavras como desafios grampeados
Em
blocos-de-notas – listar, comprar e descartar –
Aconteça
o que acontecer, todas as possibilidades
O
canhoto permanece
Um
dente mal-arrancado com uma borda lascada.
Algumas
palavras vivem na minha garganta
Se
reproduzem como víboras. Outras conhecem o sol
Buscando
como ciganas sobre a minha língua
Explodir
pelos meus lábios
Como
jovens pardais explodindo sua casca.
Algumas
palavras
Me
atormentam.
Amor
é uma palavra que inaugura outra maneira de se abrir.
Como
um diamante se abrindo num nó em chamas
Sou
preta porque venho das profundezas da terra
Segura
a minha palavra, como uma joia aberta em sua luz.
*
MALCOLM X
Gwendolyn Brooks
Para Dudley Randall
Primordial.
Tipo puído-puro,
Tipo poderoso-parrudo.
Seus olhos eram de homem-falcão.
Ficamos perplexos. Vimos a virilidade.
A virilidade varrendo tudo, tornando o ar gutural
E nos impulsionando contra as muralhas.
E num momento sereno e essencial
Um sortilégio piedoso e vertical
Seduziu o mundo.
há algum tempo recebi o feliz convite da Bienal do Livro Rio para dizer qual a cidade imaginária da literatura onde iria morar. deixo minha resposta abaixo, não sem convidar todo mundo para acessar a página da Bienal e conhecer as outras 4 cidades elegidas por Ana Maria Machado, Luisa Geisler, Raphael Draccon, Paula Pimenta :)
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Quando eu era piveta gostava muito de ler (e assistir) obras de ficção científica e fantásticas, como Viagem ao centro da terra, Eu, robô, Crônicas marcianas, Blade runner, A ilha do dr. Moreau, Admirável mundo novo, 1984, Metrópolis, A invenção de Morel, Cem anos de solidão… Não sei dizer bem como assimilava essas obras na infância, para além da ideia de fuga da realidade banal e possibilidades de outras narrativas, então foi já um pouco mais velha que comecei a me questionar: “Qual é o lugar das pessoas negras nessas obras? O futuro não tem lugar para as pessoas negras?”. O único livro do gênero que li que tinha uma personagem negra foi já na adolescência avançada, e na verdade era uma personagem “híbrida”, meio como a Mística dos X-Men: uma branca que ficava negra nas noites de lua cheia, em O cheiro de Deus, de Roberto Drummond. Por isso escolho morar numa cidade afrofuturista, onde as pessoas negras resistiram e sobreviveram à violência policial, às desigualdades, à falta de oportunidades, ao racismo institucional e estrutural. Um futuro no qual existimos não como pessoas escravizadas. A cidade que escolho tem gente preta criando e produzindo cultura — com altíssima tecnologia, aliás. Vou para essa cidade na “nave” Afrofuturista, de Ellen Oléria com Elza Soares. Esta cidade que é também Pajubá, da MC Linn da Quebrada. É Wakanda fazendo fronteira com as cidades de Octavia Butler, N. K. Jemisin e Tomi Adeyemi. É a cidade de A cientista guerreira do facão furioso, de Fábio Kabral, e das histórias da maravilhosa Lu Ain-Zaila. Nos vemos lá, onde o futuro é glorioso.
Estreou no 13 de março de 2021 no canal do youtube da Casa das Rosas o vídeopoema diáspora não é lar #tbtdofuturo
O vídeo faz parte da programação "Expresso Poesia", já em seu quarto ano, o projeto continua oferecendo doses altamente concentradas de poesia nas tardes de sábado. A cada encontro, um poeta é convidado a estabelecer contato direto com o público, apresentando sua obra em até trinta minutos. Nesta edição, eu fui a convidada <3
Os ventos da Babilônia redemunham sobre esta nação-doente de Deus-acima-de-todos O último comunista relaxa em estado de graça O espírito do capitalista cavalga o camelo da morte pelo buraco da agulha - e da bala
[em “War Poems”, organizado por Diane di Prima, 1968/ The Poets Press Inc.; tradução minha]