traduzi os três poemas fabulosos abaixo para o 7º número da revista despacho editada pela corsário-satã e com curadoria de fabiano calixto. deixo os poemas aqui e o convite neste link para que leiam a revista completa. tá peso.
Ode à gentrificação
Samantha Thornhill
Moradores coroas desse
bairro branqueado-qboa dão a letra:
a coisa mais autêntica
dessa rua reinventada
na madame branquela
e no seu yorkie
é o couro da coleira
que os acorrenta.
Seu próprio nome, um estilhaço
de vidro profundamente enraizado na banha
do nosso vernáculo. Gentrificação,
justamente confundida
com justaposição:
cults bacaninhas com arrogância,
grilagem de terras,
arranha-céus depressivos,
bodegas suspirando soja.
Meninas e moleques peruanos engordam
geladeiras com puríssima água Fiji entre
uma e outra tarefa de casa, enquanto papai
prepara e reparte tudo e mamãe
se preocupa com os registros de energia.
Fazendo fita pra tua gratificação,
O nascimento é gratidão – irmã
gêmea do arrependimento.
Me chama de arrependida.
Foi mal aí te agradecer
pelo jeitinho que
participo da sua cruel
e conveniente, mágica.
Por remover
as famílias que sonharam
onde minha cabeça hoje descansa.
Ontem, as roupas voltaram da lavadeira
mais límpidas que sinos, lingeries
acariciadas pelas mãos
de outra mãe.
Sento em cima da cara
seu lado da moeda,
bebendo a escória azul do céu
enquanto os adolescentes que ensino,
e as vóinhas pretas
duronas que dou um salve
e ofereço um banco,
beijam o asfalto.
*
Carvão
Audre
Lorde
Eu
A
suprema pretura, que fala
Das
profundezas da terra.
Existem
muitas maneiras de se abrir.
Como
um diamante se abrindo num nó em chamas
Como
um som se abrindo numa palavra, colorida
por
quem assume os riscos para falar.
Algumas
palavras são abertas
Como
um diamante em vidraças
Cantando
na cadência do sol que as atravessa
E
também há palavras como desafios grampeados
Em
blocos-de-notas – listar, comprar e descartar –
Aconteça
o que acontecer, todas as possibilidades
O
canhoto permanece
Um
dente mal-arrancado com uma borda lascada.
Algumas
palavras vivem na minha garganta
Se
reproduzem como víboras. Outras conhecem o sol
Buscando
como ciganas sobre a minha língua
Explodir
pelos meus lábios
Como
jovens pardais explodindo sua casca.
Algumas
palavras
Me
atormentam.
Amor
é uma palavra que inaugura outra maneira de se abrir.
Como
um diamante se abrindo num nó em chamas
Sou
preta porque venho das profundezas da terra
Segura
a minha palavra, como uma joia aberta em sua luz.
*
MALCOLM X
Gwendolyn Brooks
Para Dudley Randall
Primordial.
Tipo puído-puro,
Tipo poderoso-parrudo.
Seus olhos eram de homem-falcão.
Ficamos perplexos. Vimos a virilidade.
A virilidade varrendo tudo, tornando o ar gutural
E nos impulsionando contra as muralhas.
E num momento sereno e essencial
Um sortilégio piedoso e vertical
Seduziu o mundo.
E nos abriu pra sempre porque -
Ele era
palavra-chave
Ele era o cara.
*

1 comentários:
Prezada Nina,
Me chamo Roziane, adoro poemas e poesias, comecei a ler Tambores pra n’zinga, lendo, relendo, ora compreendendo ora não.
me dar uma luz neste poema:
kabuki
com a força de um hímem
os pés apertados de gueixa
me recolho
lanço
bênçãos e espadas.
amores rizzíveis
a gente não transou no papicu aquele dia.
todos nos olhavam. perplexos
você só queria uma fotograia
eu, poesia.
maracatu
sou grande, todo o largo.
imensa pra qualquer canto.
danço
como setenta pombas-gira.
na bandeja,
a cabeça de joão batista.
modinha pra trompete em si bemol
à hora do banho
cartola me derrama
como quando corto cebolas
a noite, invisível
estirada no chão frio, ico a contemplar
a cadeira de balanço em seu vai-e-vem infantil.
a solidão de fora não é maior que a de dentro.
quantas crianças assim adormecem
a esperar os pais, as mães, virem da lida?
a velha, olhos lacrimejantes, revira caçambas.
os passantes, nem lhe vem, nem um vão.
o lixo sim: brinquedo, comida.
quantos corpos ao imenso, ao vazio
pra o indar da guerra?
titãnzinho
eu gosto do afogamento.
de olhos bem abertos, lá no fundo
sentir a força das ondas
que vêm e encaldam, maremoto.
eu tenho medo, claro:
de nunca mais querer voltar
e voltar.
rozziane@outlook.com
rozianemichielini4@gmail.com
Preciso entender o que você quer dizer nestes poemas, por favor.
Agradecida
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