terça-feira, 6 de agosto de 2019

Toni Morrison - 'conta tua história!

"Nós morremos. Esse talvez seja o sentido da vida. 
Mas nós fazemos linguagem. Essa talvez seja a medida de nossas vidas."




Em janeiro de 2016 a jornalista Carol Almeida estava escrevendo uma matéria sobre Toni Morrison para o Suplemento Pernambuco e me procurou, e a outras escritoras, para fazer uma entrevista e compôr a matéria.

Hoje Toni Morrison encantou-se. Deixo em sua homenagem parte de minha história que se entrelaça à sua: a entrevista a Carol Almeida que, é claro, só pode ser usada em parte.
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Que livros da autora você leu, se os leu recentemente (se alguém te indicou) e o que poderia destacar neles?  É uma pergunta muito sobre o impacto que a obra de Toni Morrison teve em você. 
“O olho mais azul”, “Amada”, “Jazz”, “Paraíso” e o infantil “Quem leva a melhor” (que escreveu junto com o filho Slade). O primeiro, na verdade, foi uma adaptação de “O olho mais azul”, que infelizmente não lembro a autoria, ainda na pré-adolescência. Nesta época eu morava na zona rural, no interior paulista. Não me identificava com ninguém na escola além da bibliotecária – coisa da idade, mas principalmente por causa da minha aparência, uma carapinha imensa e rebelde que minha mãe prendia com elásticos de cores berrantes e eu arrancava no caminho para a escola, as calças sempre muito surradas, algumas com remendos, os tênis quase sempre cheios de barro, e um comportamento ‘urbano’ que todo mundo parecia ter, menos eu. Apesar de as pessoas, inclusive as crianças, poderem ser muito cruéis com o diferente, o isolamento estava mais em mim que nos ‘outros’, não me achava inferior (não sempre, não sempre), mas gostava de estar lá na biblioteca onde tudo parecia incrivelmente mais ‘real’ que no recreio lá fora. Essa bibliotecária, a Teresa, me apresentou um mundo de maravilhas “reais”, ali eu via que existem sim realidades muito piores e muito melhores e que sim, não estamos sozinhos com nossas verdades e sentimentos. Eu devia ter uns onze/ doze anos quando ela começou a me emprestar livros de mais ‘sustança’ e um deles foi a adaptação d“o olho mais azul”. Fiquei profundamente impactada, o sentimento de que nos livros eu estava finalmente em comunhão com alguém alcançava neste livro o superlativo: ali estava uma história de vida que podia ser a minha, uma criança que queria ser a Shirley Temple com seus olhos azuis, muito embora nesta adaptação Shirley fosse uma coleguinha de escola e a ‘minha’ Shirley e seus olhos fossem outros. Certamente essa obra, cujo original li já com uns vinte anos, deu a mim olhos de olhar os “outros” com mais empatia e continua reverberando ainda hoje, quando entro em lojas de brinquedos e ainda são unânimes as bonecas brancas de olhos azuis, quando leciono, quando conto histórias para crianças e até mesmo em meus próprios escritos: há um poema no meu livro “A Duração do Deserto” que reverencia diretamente “O olho mais azul”: O aroma do barro sob a neve// Enquanto cai a neve/ ela chora sua cor.// Com nacos de tijolos arrancados da parede/ esfrega-os na pele até ser encarnada/ como os brancos,/ horas sob o sol a pino.// Chora, feliz:/ quando estancar o sangue não/ sobrará essa cor de menino carvoêro// [o professor disse que essa é a pior/ forma de energia, e esses meninos/ escravos sem dono]// será apenas ela, quase como quase/ todas suas bonecas. Assim como me reverberam e fazem de mim o que sou muitas outras obras, nem todas de conteúdo social tão pungente. 
 “Amada” li pouco depois. “Paraíso” e “Jazz” foram mais recentes e a última leitura “quem leva a melhor”, que saio por aqui e acolá lendo em formações, para crianças em escolas e projetos, para a minha filha e uns amigos privilegiados. Este livro é incrível, fábulas são atualizadas e nos pegamos a refletir, crianças e adultos, sobre questões éticas e morais, mas sem maniqueísmo, lembrando muito o nosso Paulo Freire: “liberto o oprimido, também liberto está o opressor”.

Em uma de suas entrevistas, Toni Morrison fez essa declaração: "I’m writing for black people. In the same way that Tolstoy was not writing for me, a 14-year-old coloured girl from Lorain, Ohio. I don’t have to apologise or consider myself limited because I don’t [write about white people] – which is not absolutely true, there are lots of white people in my books. The point is not having the white critic sit on your shoulder and approve it". A questão da representatividade de minorias políticas é uma das mais caras à literatura ocidental. Você também pensa em para quem você escreve quando escreve?
Às vezes sim, às vezes não. Há livros que falam sobre nada (sob a superfície, aparentemente nada, e descendo encontramos entranhas tão humanas quanto se pode ter) e são muito bons; e o contrário também, livros que se pretendem apenas um panfleto podem não ser nada além disso, não carregar, para mim, certa literalidade que me tire o chão e me dispare para um lugar de confronto com o eu e o mundo. Mas é claro que o livro me acertando por usar as palavras muito exatamente e ainda ter um conteúdo social com o qual me identifique pode ser um petardo ainda mais poderoso; não é mesmo por isso que a própria Morrison me alcança? me sinto implicada em sua obra. Então sim, às vezes tenho uma motivação de confronto, meu primeiro livro “tambores pra n’zinga” carrega já no título uma mulher negra, guerreira e diplomática; então neste livro, em quase todo ele, tenho uma motivação não só estética, mas um lugar ético dentro da literatura, um lugar de confronto, uma escrita feita para mulheres, para pessoas negras, mas não só; o “caderno-goiabada” tem uma motivação toda feminista, escrevi pensando em mulheres que sofrem abusos no casamento, construído como um caderno de receitas é permeado com anotações cotidianas de uma mulher que, conforme vai escrevendo, se liberta cada vez mais, até que começa a engendrar poemas, todos eles combativos.  Meu próximo livro, “geografia dos ossos” (a sair ainda este semestre pela editora portuguesa ‘douda correria’), foi também motivado por questões que confronto através da literatura; ao escrever essas obras assumindo uma voz-mulher-negra, sinto ampliar o significado da escrita feminina negra. Noutras vezes, entretanto, quero apenas escrever sobre a moça que um dia alisei as coxas com timidez, ou sobre a minha filha, ou até sobre o ar quente que sobe do chão quando vai chover no Ceará. Mas escrevendo isso agora, reflito e me pergunto, se meu sócius interno é feito de um olhar muito específico sobre toda paisagem que vejo, sinto e me afeta, com uma infância e adolescência tão doloridas que me deixam marcas tão profundas, como seria possível, ainda que eu não quisesse, não deixar vir à tona todo esse sócius, esse olhar e esse modo de estar no mundo? Por fim, Toni tem razão: “a linguagem é meditação”.

Existe algo na dicção dessas escritoras que você consiga reconhecer como próprio e exclusivo de um lugar de fala da mulher negra?
Com certeza. Toni Morrison diz “Conta-nos a tua história”, e é isto, só você pode contar a sua história. Se me permito neste momento contar que ao ter a pele clara, mas os cabelos encarapinhados e os traços negros e como isso me colocou em um ‘não-lugar’, ou um lugar de se apontar o dedo ‘não é negra!’/ ‘não é branca!’, é porque só eu posso dizer isso; do mesmo modo só eu posso dizer que dormi na rua e como isso estilhaça minha memória. E, ainda que eu goste de “Os oito odiados”, por exemplo, não posso me identificar com sua personagem Daisy, nem nenhuma mulher que tenha sido oprimida pode (e não conheço uma única mulher que não tenha sido oprimida), porque ela é a voz do Tarantino, um homem, na verdade essa personagem nem tem voz (riso amarelo)... quero dizer que só essas mulheres podem escrever com representatividade esse lugar de fala da mulher negra; ainda que mulheres brancas, homens, ou um E.T. escreva muito bem sobre questões que não são de sua vivência, não se trata, portanto, de uma experiência da mulher negra. Só Alice Walker poderia ter escrito “the color purple”, este é o lugar dela, o lugar da periferia, de mulheres negras que não são mudas, mas que não falam. Os registros de mulheres escritoras negras são muito recentes, mas isso significa que elas não escrevessem? E que, então, precisamos de um centro para falar sobre a periferia? É a mesma dimensão histórica das conquistas e o genocídio de índios e a escravidão, eu quero ler e ouvir a voz das pessoas implicadas diretamente nesses processos, eu quero ouvir a história das periferias, ditas (e escritas) por elas mesmas. Então, quando lemos uma história de cunho social, de gênero, de raça, escrita por elas mesmas, as ‘sujeitas viventes’, ela nos acerta muito mais exatamente. Enfim, quando a voz da escrita é uma mulher negra, percebemos que ela, a mulher negra, sempre esteve no “lugar do silêncio”, na fala do outro; a maioria, senão todas, mulheres negras que leio carregam na escrita esse lugar e nos permitimos, no ato da leitura, enfim, ouvi-las.

 O quanto da tua identidade enquanto mulher negra está marcado naquilo que você escreve?
Tudo! Eu sou a mão que escreve e a mão é negra. Apesar de a minha pele não ser escura, desde que consegui elaborar essa questão já me sabia como uma mulher negra, ou talvez mais apropriadamente: uma mulher-de-cor; quando a minha mãe me conta que meu avô materno, Joaquim Januário, era ‘nêgo-zulu’ de tão negro significa muito saber das minhas raízes, mas eu não preciso desse documento; somos todos miscigenados de tudo com mais um tanto e quando eu digo ‘sou negra’/ ‘sou preta’/ ‘sou uma mulher-de-cor’, isso é uma fala política, revela não só minha condição, mas o meu estar nesse mundo para além da ‘mulata gostosa’; é um escolher estar no mundo fora da zona de conforto e para a zona de confronto sem, contudo, protagonizar um lugar que não pode ser meu: sei que mulheres de pele mais escura que a minha sentem os grilhões muito mais pesados e é só delas o protagonismo desse lugar de fala. Então, se o meu estar nesse mundo é tão confrontador e quer ouvir essas mulheres negras (e não só as negras, e não só as mulheres, mas índios, mendigos, e toda a gente que é jogada para escanteio), e se eu tenho tão marcada essa identidade negra, é claro que, como disse antes, ainda que eu não quisesse – às vezes só preciso deixar o vento falar, o vento que acerta a mão negra -, ela se reflete no que escrevo. crepúsculo sobre a iracema// sobre meus olhos, umidez./ sobre meu sexo, uma flor./ acredite, nos labirintos, umidez e uma flor./ [ancestral. negra, negra.
Quem são as escritoras negras que você lê e admira?
Começo por citar a poeta Auta de Souza, que descobri no Rio Grande do Norte - pense num celeiro pra dar boas e bons poetas, parecem brotar do chão potyguar (risos)! - , que conseguiu expressão ainda em vida e teve seu livro “O Horto” prefaciado por Olavo Bilac (e então precisa ter prefácio e aval de poeta homem pra ter expressão? No século XIX sim. Hoje, oxalá, essas mulheres estão descobrindo suas próprias vozes, encontrando em outras mulheres forças para falar, e até mesmo por causa das redes sociais que nos aproxima muito e da internet, essa maravilha sem a qual eu não poderia citar um terço das mulheres a seguir). Ainda as ‘ancestrais’, Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus que, apesar de classes sociais, condições e oportunidades distintas, revelam a mulher negra me acertando como um soco no estômago. Gosto e leio bastante a poeta são-tomense Conceição Lima, seus poemas mostram a riqueza não só da história, mas da linguagem africana, seus títulos já são poemas inteiros “A dolorosa raiz do Micondó”, “O útero da casa”, “O país de Akendenguê”. Temos as incríveis brasileiras Conceição Evaristo, Miriam Alves, Elisa Lucinda e Lia Vieira. De outros países li as bem conhecidas Chimamanda Adichie (esta conheci através da palestra maravilhosa no Ted “O perigo de uma história única” e depois fui buscar livros), Léonora Miano e Paulina Chiziane. A africana Paula Tavares, que tem uma linguagem muito apurada, além de a mulher permear toda sua obra. Escritoras brasileiras contemporâneas que tenho lido, Jarid Arraes, Clarissa Lima, Carina Castro, Eliane Marques, Lubi Prates, Cristiane Sobral, dentre muitas outras que descubro com a Bianca Gonçalves e a Aline Ramos (via facebook), essas moças são verdadeiras escavadoras de preciosidades da literatura feminina negra! E tem ainda o projeto #leiamulheresnegras onde conheço escritoras de tudo que é lugar e tempo, uma maravilha! J Dentre as escritoras de livros infantis, destaco a Carolina Cunha que tem uma coleção belíssima de livros sobre orixás. Lia Zatz tem um livro maravilhoso: “Luanda, filha de Iansã”, sobre uma menina negra e candomblecista que sofre preconceito na escola; Fátima Miguez e Stela Barbieri também trazem em suas obras questões raciais para ser lidas por crianças de toda idade. Também gosto bastante de Caroline Desnoëttes (francesa) e Graziella Favaro (italiana), que embora não sejam negras, ocupam esse lugar político em livros infantis.
 Onde posso achar textos teus? (talvez eu intercale esse texto com trechos das autoras com quem estou conversando):
Escrevo no blogue www.ninaarizzi.blogspot.com; lá tem os links para baixar gratuitamente o “tambores pra n’zinga” e o “caderno-goiabada”, além de  publicações minhas em outros espaços e textos que vez e outra coloco lá.
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 matéria no Suplemento Pernambuco pode ser conferida aqui
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quarta-feira, 31 de julho de 2019

tradução, quebra & alegria: minha dança tem história, bell hooks


Meninos gostam de dançar, de correr e de pular, isso todo mundo já sabe. Mas, eles podem também gostar de abraços, de rimar ou até de ficarem quietinhos? Conheça a história do Bibói, um garotinho que arrasa nas batalhas e nas rimas e, está descobrindo quem ele é.

Na batida do break, a renomada educadora e ativista bell hooks traz uma história vibrante que capta a energia do que é ser um menino dentro da cultura do hip-hop. Mostrando de forma sensível todas as contradições que permeiam a vida dos pequenos em busca da própria masculinidade, a autora amplia o leque de possibilidades para o que significa ser um menino.
Minha dança tem história é a segunda obra infantil de bell hooks publicada pela Boitatá e traduzida por nina rizzi. A educadora também escreveu Meu crespo é de rainha, que celebra a beleza e a diversidade dos cabelos crespos e cacheados.

bell hooks é o pseudônimo da aclamada escritora, educadora, feminista e ativista social estadunidense Gloria Jean Watkins, nascida em 1952, na cidade de Hopkinsville, Kentucky. Ela investiga questões relativas à raça, classe e gênero na pedagogia, na história e no feminismo.
Chris Raschka é um premiado ilustrador e escritor estadunidense. Nascido em Huntingdon, Pennsylvania, em 1959, foi criado em Chicago, Illinois, e se formou na St. Olaf College. Atualmente, vive em Nova York.

Ficha técnica
Título: Minha dança tem história
Título original: Be Boy Buzz
Autora: bell hooks
Ilustrador: Chris Raschka
Tradução: Nina Rizzi
Páginas: 32
Preço: 37,00
Formato (largura x altura): 17,5 x 20,5 cm
ISBN: 978-85-7559-713-2
Editora: Boitatá

Compre aqui: https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/minha-danca-tem-historia-884
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sexta-feira, 12 de julho de 2019

leituras íntimas - sereia no copo d´água

Ana Pérola Veloso
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Mikaelly Andrade
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Penso também em Sara Síntique, que fala de águas (enquanto Nina trata de sereias: a liquidez é feminina, igualmente). Suas poemas me chegaram na mesma data – quero dizer, na mesma dia – e tive em mãos aquela peça – Concha – que, tendo-a lido antes, já se tornara minha preferida:

fecho em torno do ouvido a mão

e a outra

disseram que há um mar em nós

um mar

isso que ouço?

instável quanto?

desbravável? ou

impossível a um navegante?

pacífico? ou

impossível a um navegante?

queria invenção duma bússola

pra isto que ouço

quem trouxesse uma agulha

magnetizada



um norte?



fecho em torno do ouvido a mão

e a outra



algo ecoa



(já é muito)



Temos mares em nós. Ah!

Grata, Nina e Sara – pela vogal de força que vocês carregam. Com ela, não fica necessariamente mais fácil (mas com certeza se torna aprazível) navegar.

Tércia [Montenegro, em sua página Livros e bichos]
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quarta-feira, 12 de junho de 2019

sereia no copo d'água

prólogo

‘quem já viu um coração de perto sabe que se parece com um punho ensanguentado.
e um estômago. e um útero.

[toda mulher é uma poema]
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[e finalmente toda areia se deita a se perder no mar, faz sua cama de noiva, se casa com ela, a palavra primordial -- aquela água toda ♀

com orelha de Luci Collin -- que transcrevo abaixo --, posfácio de Estela Rosa y ainda junta comigo, todas as mulheres antes, todas as mulheres juntas y as que ainda virão, dentro e agarradinhas. vem também!]


Água e vastidão e fluxo

Água e vastidão e fluxo. Água e vastidão do tornar-se, do modificar-se, do mover-se – por brenhas da história, por sendas do corpo e do incorpóreo, por brechas das luzes – vir-se e servir-se.
No alarido de fantasmas e na folia das línguas, as palavras de Nina Rizzi se abrem em busca e atravessam sorridentes mas solenes a casa em chamas. Num molejo que remonta à livre precisão do prosaico em melodia, esse Sereia traz urgências e as apascenta, cogita caudais devastadores e cicatrizes já pele regenerada; esse Sereia espalha a lindeza de cretas, de magus, das mansas loucuras e agonias ora feito águas.
E entramos no mar. Vamos ao mar e ao sal da essência. Tocamos o fundo, após vigílias e fomes. Requisitamos silêncio e permanecemos silêncio e todos os gritos que também fomos. E fazemos dormir os antigos fantasmas ora acalentados por metáforas (não serão mais segredo).
Sangues de antes, sóis de antes, camas e jaulas de um real de antes e de agora. Reino de bichos sagrados no gesto ancestral dos riscos. Claire, aqui se diz que há muita beleza a ser dita. Dizer Sim. Sim é reflexão e refração que vem colada a todos os lustres. Sim é vivíssimo e igualmente sortilégio de quem quis voar. De quem se quiser/fizer o próprio imenso, na dimensão que as palavras de Nina inauguram, o copo d’água vira virou oceano.


Luci Collin

segunda-feira, 22 de abril de 2019

DAS VEZES QUE ME TORNEI BRANCA

Michelle Kingdom, The Dressing Room (sold). Bordado, 2016.



da primeira vez
não dei por isto ou aquilo
uma pá de cal
tão branquinha
atirada pelas criancinhas
como flecha
cabelo de repolho bozo
esquisita suja fedida

e a vez de querer muito muito forte
esfregar o tijolo na cara até a carne se saber a sangue
sangue azul sangue branco

cresce cresce cresce

nove aninhos
ai ai ai
que peitinhos mais lindinhos
ai ai ai
que bunda tão grande como pode sem celulite
ai ai ai
já pode aprender usar a boca
ai ai ai
que virgindade mais apertada
ai ai ai
que mulatinha tão gostosa
ai ai ai
você é tão inteligente pra sua idade
ai ai ai

pode pode pode
você quer leitinho?
olha que branquinho

cresce cresce cresce

as vielas na periferia
o campinho de futebol
a goela seca

não cotas não
sim samba sim
sim chapinha sim
não raiva não

cresce cresce cresce

oi amiga
não hoje não
oi joana
sim hoje sim

uma luta maior que a outra
uma lata mais vã que a outra
bares caçambas papel picado absorvente

cresce cresce cresce

NOTÍCIA DE JORNAL
hoje na jornada de arte negra
a poeta x
a novíssima literatura negra
pra ser lida nas escolas

SOU NEGRA
SOU NEGRA?
SOU NEGRA!

cresce cresce cresce

os beiços imensos roxos
os bicos dos peitos pretos
o pixaim armado
a vulva roxa
os bisavós escravos
o avô fugido da servidão
uma avó tão branca

neta de quem?

se me querem por fêmea
NEGRA
se me querem por intelectual
MULHER?
se me querem por profissional
HETEROCISGÊNERA
se me querem por escritora
BRANCA
se me querem
COSPEM OS LÁBIOS LIVRES

cresce cresce cresce

o homenzinho violenta a mulher
digo porque sim ela é mulher
ele diz ninguém estava dentro do quarto
sou negro sou negro você é racista
poetisazinha de versos de merda

e ainda uma índia a voar
paloma negra

PELOS ARES COM SEUS SANGUE PODRE

cresce cresce cresce

da múltipla vez
não dei por mim
estava a gaguejar um verso que me martela
TERESA TERESA TERESA
uma avó esquecida de tão negra
um poema tão macho um poema tão arraigadinho
que qualquer poema só sabe dar bandeira

a filhinha chora
meus beiços meus pelos meus cabelos meus peitinhos minha história
e essa maldita pele tão branca

a poeta x negra é invisível pra todos os machos
a poeta lésbica branca é alvejada por todos os machos
as mulheres são odiadas por todas as instâncias
ó por todas as feministas

da última vez
disse sim

mulher
mulher negra coberta das poemas mais ternas das poemas mais raivosas das poemas mais poemas porque sim eu quis assim
a poeta negra
A IMENSA POETA NEGRÍSSIMA

sexta-feira, 29 de março de 2019

sereia no copo d'água, teaser 1

aprendizado para o canto, sereia tomando forma.

sexta-feira, 15 de março de 2019

'quando vieres ver um banzo cor de fogo' LIVRE



viver me dá vontade de escrever.

quando vieres ver um banzo cor de fogo foi um livro que quis escrever. depois de muito tempo protelando sua materialização - não sua escritura.

quando comecei a publicar poemas, e ainda mais especificamente publicar em um blogue chamado putas resolutas (com as divas Roberta Silva Pinto e Líria Porto), parecia muito natural para as pessoas (fuck men!) me lerem "num puteiro em joão pessoa". mais que natural: há uma monografia - sem qualquer rigor teórico ou a mínima pesquisa - sobre prostitutas que escrevem liricamente sobre suas experiências onde o blogue é citado. é só ir no oráculo-google.

e por causa das centenas de milhares de convites e abusos - virtuais, mas não só -, eu exitei muito em abrir as pernas e dar ao mundo essas poemas. que boba. ainda bem que passou, risos.

[e ainda bem que tive comigo no processo de edição Eduardo Lacerda, Ricardo Escudeiro e Leonardo Mathias.]

eu quis escrever este livro. um livro que tematiza o amor erótico em tempos sombrios. todos os tempos são sombrios, mas esses são loucos porque eu estou aqui. quis materializar neste tempo este livro que ama e goza. materializar-me a mim, escritura/ ferida funda e encarnada, me lançar ao mundo como uma mulher que deseja e ama sim. sim, escrevo. assim é a poesia toda: política.

e as poemas vem a mim. como um salto ao infinito, como abertura na carne que se não escrita dói. dói o corpo que se escreve a poema. me abro às poemas, a poesia inteira como me abro ao amor. arranco as vestes para o amor, me deito, me entrego, "me sucumbo, me abismo". assim é a poesia toda: erótica.

essa lenga-lenga é só pra dizer que essas poemas estão todas se abrindo ao mundo, o livro inteiro aberto pra download - lá na Germina - Revista de Literatura e Arte, só clicar aqui!

e claro, se vc ainda não tem a edição física, é só ir lá na loja da Editora Patuá, que além desse, tem centenas de outros livros incríveis!

e se quiser ainda quaisquer dos meus livros anteriores, estão todos livres pra download, aqui no quandos!

e viva a poema! <3

5 corpos negros na sèrieAlfa



foi publicado o número 81/ março, 2019, da revista catalã sèrieAlfa.art i literatura - com curadoria de de Lubi Prates e edição de Joan Navarro

"5 corpos negros"
poemas de Conceição Evaristo, Miriam Alves, Lívia Natália, Nina Rizzi e Lubi Prates em português, catalão, espanhol, francês e inglês - traduções de Lubi Prates, Dolors Català, Joan Navarro, Sheyla Miranda, Mariana Correia Santos, Ana Meira e Maíra Mendes Galvão.

e que a poesia seja a flor sobre o corte profundo nos tempos sombrios!

Leia aqui!

domingo, 10 de março de 2019

monólogo a duas, segunda variegação



alguma disformidade no cotidiano
olha ao lado
tão escancarada, mas não o bastante

você viu as folhas que saltam do papel-parede?
como descasca a pele bem de va ga ri nho?
[d ó i ]a cada dia o fim da festa
*

domingo, 27 de janeiro de 2019

rapsodia, quasi una fantasia



                              Poemacolagem de Samuel: 'desconcerto para rizzi ávida e os cães frenéticos da rua', 2017.

"óperas silenciosas, tímpanos estilhaçados" - jota mombaça

 prelúdio pra rapsódia

saudades tenho de um qualquer que me habitasse;
de toda terra ou pedra, terrivelmente linda, real, dorida.

saudades dessas que me ficam assim, solidão mais fora que dentro;
dos mitos que ficam existindo dentro de mim.


1º movimento, l'istesso tempo

era o aniversário dela, a moça que já foi de bienal. depois ela quis ser travesti e eu comi chantilly sem leite e sem gordura em sua homenagem, pra comemorar. com mostarda, pimenta e um pouco de sangue que consegui espetando os joelhos com o garfo. eu lembrei do dia de seu trigésimo aniversário, as flores amarelas e o poema de dylan thomas. comi as flores porque ela não é bondosa, nem deveria. é um modo de celebrar as idas ânsias, hoje um peso morto como partidos políticos, superávit primário, uma escola conservadora. ela não respondeu, comi com esse pensamento, quanto bem-me-quer cabe em mal-me-quer, o quanto me havia de impraticável. 

eu não pensava em nada disso. eu era assistente social tecnicista e utilitarista. Ou era educadora ou poeta mainstream. aí que eu encontrei o 'take the power back' e fiquei com pena de ter aprendido algum inglês como laugh and laughing a cultura dominante, nessas outras coisas que missy elliot não dizia em settle for nothing. é bonito o som dessas palavras pra muito além de concretismo, mas só isso. nem era meu aniversário apesar de ver àquela, ó presente de ano em ano. eu tenho alguém que me presenteia, nos esbofeteamos quase toda manhã como um jeito de buscar a mágoa em lugar de nuvens, como a vida deve ser ou não, aqui é que é assim viver a vida.

não importa o resto, só isso. a indicação de alguém que já me admirou - não hoje, não depois de eu beijar uma mulher quando todos os homens me disputavam e se ofereciam e eu só pensava e bebia o homem que não estava com a salsinha ou talvez fosse coentro, o coentro que em suas mãos pra minha boca, só assim das suas mãos pra minha boca é que podia ser bom e é maravilhoso, foi -. sim, não depois de eu beijar a mulher quando era o homem distante e aquele ali que já me admirou sabia. sabia e me chamou de falsa. fake, na verdade, que é como ele tem sido depois de ter descoberto em sua poesia - aquela poesia precisa, articulada, que não se desperdiça e é indispensável -, ter descoberto que a poesia flui e é fluída, sincopada como seus rios ao gosto de ungaretti. a indicação desse homem fez o outro escrever, depois de lembrar de outro dizer, sóis, tanta gente diz e eu repito: nome é destino.

tudo era poema, não isso. era o aniversário da mulher que comi as flores e as flores e o seu nome.


2º movimento, adágio com esprezione

era preciso dizer, quase como um rito, como uma premonição de catástrofe, todo o tempo quase e o tempo quando. ainda com a  insegurança da repetição. eu queria gritar sim, com aquela vozinha da joanna ou da rachael que me tocam tanto tanto. vê, as repetições, são próprias do meu discurso que preciso todo o tempo lhe dizer. assim como não sei conjugar os verbos, é e não era. e não é que você não saiba, mas é que além do tempo é agora. a colher que estala a farinha d'água alheia ao meu não gostá-la. e eu gosto quando minha gata mais arisca se derrama em minhas folhas. grávida, se contorce e amontoa, ronrona. o homem me disse que gostoso só pode ser comida ou sexo, porque eu dizia que era gostoso o alto-mar e a gata. talvez ele não fosse mergulhador e uma pessoa que não gosta de gatos não entende nada de sensibilidade e gostar. e é gostoso quando chega a outra gata e massageia minha cintura e sexo com as unhas. a vida eterna, amor, disse ele. e lembrei dessa que era a boa vida. a ala das baianas amarelas. as flores amarelas não restituem teus lábios. é uma fera selvagem e eu nunca os vi, mas encontrei no lixo uma mala cor-de-rosa-choque pra carregar toda disritmia. e o homem, sim, você é o homem, nunca mais me escreveu uma linha. uma linha era o que separava minha alma da tua. te viram numa livraria acompanhado de uma mulher, poeta. eu não lembro quando fui mulher e tenho medo de esquecer teus olhos brilhantes. todos olhos são brilhantes você disse, mas não é verdade que todos olhos brilham como o seu brilhava quando era um cavalo domado sob meu corpimenso. a mulher ao seu lado ali na livraria, amarela como teus olhos hepáticos. só um girassol ou o miolo das margaridas podem ser verdadeiramente amarelos, belos. e as baianas de todos os santos. um riso puro e solto a contaminar cada um dos dentes até os olhos e garfos e então tudo ser uma só gargalhada. era boa a vida, uma pequena morte todo dia. e você não veio buscar meu fígado ensanguentado. ao invés de te esquecer, lambo do choro às feridas, mostro a faixa litorânea e rio ao homem que diz me querer. ele é amarelo como meu riso. mas aí eu fiquei ríspida, dizia o homem que era você quando eu parecia te amolar, faca de dois gumes. era preciso dizer que te amo, todo tempo. é preciso dizer, você sabe, mas te amo é preciso dizer, que além do tempo é agora. gostoso é o que gosto, araim.


3º movimento: andante

então descruzou as pernas e recostou-se na cadeira. ficou ali mirando as pessoas como se lhes lesse, daquele jeito em que olhar atravessa as gentes sem ver. um minuto ou outro vinha a imagem de dois dedos displicentes a brincar com um lóbulo de orelha ou um lábio superior. a dorzinha do tédio que lhe pressionava a testa em pouco passava, estaria sentada na padaria e chegaria àquela das práticas assustadoras, assim lhe parecia. coisa com coisa era a lembrança dessa; o dia em que a mãe lhe deu um vestido branco e longo como tapa na cara; quando o pai bêbado bolinou suas cobertas; as cobertas e o sujeito a morder os ombros da moça. ah, lamber a mulher e morder até que seu corpo seja uma mancha no seu. a mulher, esparramar-se a mancha. a moça sem mancada a relerrelerrelerreler os diálogos de duras pra hiroshima, mon amour. sem mancada com sua sabinada e aquela mulher ancestral, a mulher ancestral e o tempo em que fazia poesia. agora não, perde os olhos como quem pega piaba. talvez os peixes morram gozando e isso explicava seus olhos. os olhos da moça atravessando as gentes no nada. fica assim amando as coisas que insistentemente existem à sua volta como a virgem maria e, ai, essa virgindade. ali amando o tempo em que só podia amar o etéreo e irrealizável. aqui ardendo pelo em pouco, um enfim, efêmero, fractal e palpável arder, arder, arder. una pequeña viajera.


4º movimento, allegro vivace

parece até uma sessão masoquista, eu aqui sentada nesse banco imundo de rodoviária, as pessoas chegando pros encontros com risos e vindimas e esse calor infernal e tantos letreiros que me dizem tanto de nós. devia ser lindo a gente a se enroscar num canto de nome olhos d'água. ou talvez esse seja o meu lugar e não o nosso, ou só teus olhos d'água.

caridade, motorista? não, as estradas é que deviam me ter caridade. eu aqui, impregnada de tudo que te é (não motorista, já não te falo, não é você que vejo, que não me leva daqui), esses livros e essas cartas e poemas impublicáveis que imprimi na memória e na língua e que me dói a cabeça. esses teus radicalismos que carrego na bolsa pra distribuir nos assentamentos.

um mundinho tão casca de nós e a gente não ter se esbarrado de novo, nesses letreiros e bancos imundos e em meus poemas pra dentes, ó, absurdidade. fazemos inveja aos pregões novaiorquinos. é isso, muita especulação, investimentos de risco e a gente nem gosta de apostas e roletas, só dos russos que dizem desse frio que nos encharca.

ah, menino, me viciei tão baixinho em teus hábitos estúpidos, em teus lábios sujos de me falar e ter e me amarrar e rasgar cada pedacinho e comer, hay que comer, que me pergunto cadê os poemas que te enviei? por que não podia simplesmente devolver cada um dos pelos e pentelhos que te entreguei em histeria? é muito calor, é muito calor e eu tiro os cabelos que me tapam os olhos e me engasgam e a minha cabeça continua a doer. pra onde será que esses ônibus vão se não me levam? de onde vem tanta gente? o nordeste inteiro e a gente nem sol.

você gostava tanto das minhas sandálias de cangaceiro, a gente fazendo moda de sertão alegre e pirilampo e aquelas frutas lindas, com uns nomes de se abocanhar em pelo. pelo apelido, mas era o nome real que me pegava o gosto, mas que agora não lembro de tanto que me dói a cabeça de tanto te lembrar esses pelos que isaías falava que de tão escarlate o pecado, derretia branquinho como a neve. três quilômetros morro abaixo a centetrinta por hora, em menos de um minuto se chegava ao destino e nós nem esqui. sputinik, bolchevique, tecnicolor e eu e você nem lua. minhas pupilas dilatadas e quem sabe também as tuas.

o sujeito da princesa dos inhamuns veio lá de seu guichê à minha plataforma e fica aqui me cortejando e me olhando e me querendo ler tudo e você precisa fazer um transplante e esse meu rim desgraçado tinha que doer justo agora? e essas biomédicas apolíneas e meigas maledetas que não me aceitam a carne mijada. os ônibus lotados, o asfalto derretendo, o pneu furado, o motor arreado, a porra hipócrita da família pequeno-burguesa e feliz, tudo isso no meio do nosso encontro, liquefazendo o rim que devo te entregar, mas que não consigo, não consigo e não me depilo que teus pelos vieram assim, meio que por acaso dentro daquele livro roubado de supermercado e desde então quantas mil vezes minha compulsão me levou a te reler PALAVRA, LETRA escArlate e RaINHA no tabuleiro. você já comeu biscoitos de farinha d'água? é a falácia dos pães-de-queijo que vem sem beijo. quantas bonecas de mestre vitalino, quantas jangadas e eu e tu e eles nem aurora, sei que vou morrer não sei o dia e talvez você nem saberá que os sete orelhões são da rua que não ladrilhei, meu amor, e posso findar qual anunciação do apocalipse se não te entrego esse rim.

por que esse cara insiste tanto que eu lhe compre os óculos e relógios? é assim tão óbvio que meus olhos d'água precisam secar, isso dói mais em mim que nele, pode acreditar e que esse meu rim tá atrasado até ele já sabe que tá escorrendo sangue pelas minhas mãos calejadas de esperar a safra do algodão doce, mas isso não ajuda, não ajuda, assim como não ajuda esse cartão de sorrento que tenho na carteira vazia. claro que na itália fazem docinhos deliciosos de frutas azedas e ESPINHENTAS! sim, feito pequi com arroz, com frango não que detesto frango, digo, sou sensível demais pra detestá-los e não posso comê-los a não ser que te entregasse meu rim a tempo e pudéssemos fazer um charque de galinha, um steak até, nem que fosse lá, naquela minha esquina vizinha, a que me fugiu com a família feliz e netos e onde sua pele brilhava como a de um escravo à venda no mercado de olinda e seu nariz anguloso e eu lá nu em vermelho modinha gli ochi per te. você devia ter me escutado contr'alto:

volevo dirti solo che
sei sempre tu la mia allegria
che quando parli insieme a lei
diventa folle gelosia
per tutto quello che mi dai
anche quando non lo sai
questo io volevo dire a te

di come quando non ci sai
io mi perdo sempre un po'
poi mi accorgo che non so
più divertirmi senza te
invece quando stai con me
anche il grigio intorno a noi
i colora della vita che gli dai

com'è difficile dire tutto questo a te
che d'amore non parli mai
non ne parli mai con me...
hai paura come me...

os ônibus não vêm do carnaval, do natal e eu viro duna, maresia, ruína, olhos d'água. faço cantilhenas, grito e choro e esperneio que nem uma criança cricrinclame com toda força e as estradas interditadas e esse rim em minhas mãos de concha virando ostra. porra... eu encaro o sol. encaro sim. recoloco as pernas que te dei naquela feita gloriosa e vou. cuspo e vou a nado se preciso, é preciso! voltando de canindé via tabapuá é calor eu sei, mas é preciso sonhar sabendo a hora de partir. não tenho cavalo, nem burro brabo ou pau de sebo, mas a princesa dos inhamuns vem, tem que vir, tem que vir e aí sim: rícino, rim, rir, ô sertão sanguidolente.

fortaleza, 2008-9
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