quinta-feira, 28 de abril de 2022

"A melhor mãe do mundo" tá nazárea!


quem é a melhor mãe do mundo? para cada criança sua própria mãe; para mim todas (ou quase)! mas essa Mamma Bird é mesmo muito especial, ainda mais ouvindo assim, da sua cria! 🧚🏿‍♀️

 "Minha mãe é a melhor mãe do mundo! / Quando eu digo isso assim, de supetão, todo mundo duvida, / tiram onda comigo, entram em arenga..."


quem ou quê seria a melhor mãe do mundo?
a minha, a sua? algo escrito e jamais sido?
pra maioria das crianças são as suas sim, não importa como sejam ou como a sociedade espera que elas sejam. lembro muito de quando iniciei minha jornada como mãe e, cheia de culpas e incertezas, minha sábia amiga @robertasilvapinto me aconselhava: “calma, quer saber se tá acertando? é só ver sua filha tá feliz” <3 porque obviamente até quando a pequena dormia na rede da praia tinha gente pra dizer que: ó que mãe horrível.

obviamente esse livro não é apenas sobre frufru, não sobre “lugar comum”, não é mela-cueca, risos. é um livro que toca em privações, mas reflete muito mais sobre nossa comunidade de afetos, sobre se movimentar e, mais que uma maternidade, uma vida em que acredito: comunitária, livre.

quero muito, muito, que crianças e pessoas de todas as idades, gente de toda a idade e todo canto, leia esse livro. talvez a coisa escrita mais bonita que já fiz, e que ganhou uma nova vida e novo sentido, aliás deu sentido à comunidade, com as ilustrações de @veriscarpelli 🧚🏿‍♀️


digo sem medo de exagero: o livro mais incrível que escrevi está vindo ao mundo! meu primeiro livro infantil! 🥳


gracias, eternas gracias a todes que acreditaram e fizeram possível. olive, como diz a minha cria 🖤


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terça-feira, 19 de outubro de 2021

3 despachos - despacho nº 7

traduzi os três poemas fabulosos abaixo para o 7º número da revista despacho editada pela corsário-satã e com curadoria de fabiano calixto. deixo os poemas aqui e o convite neste link para que leiam a revista completa. tá peso.


Ode à gentrificação

Samantha Thornhill

 

Moradores coroas desse

bairro branqueado-qboa dão a letra:

a coisa mais autêntica

dessa rua reinventada

na madame branquela

e no seu yorkie

é o couro da coleira

que os acorrenta.

 

Seu próprio nome, um estilhaço

de vidro profundamente enraizado na banha

do nosso vernáculo. Gentrificação,

justamente confundida

com justaposição:

cults bacaninhas com arrogância,

grilagem de terras,

arranha-céus depressivos,

bodegas suspirando soja.

 

Meninas e moleques peruanos engordam

geladeiras com puríssima água Fiji entre

uma e outra tarefa de casa, enquanto papai

prepara e reparte tudo e mamãe

se preocupa com os registros de energia.

 

Fazendo fita pra tua gratificação,

O nascimento é gratidão – irmã

gêmea do arrependimento.

Me chama de arrependida.

 

Foi mal aí te agradecer

pelo jeitinho que

participo da sua cruel

e conveniente, mágica.

 

Por remover

as famílias que sonharam

onde minha cabeça hoje descansa.

 

Ontem, as roupas voltaram da lavadeira

mais límpidas que sinos, lingeries

acariciadas pelas mãos

de outra mãe.

 

Sento em cima da cara

seu lado da moeda,

bebendo a escória azul do céu

enquanto os adolescentes que ensino,

e as vóinhas pretas

duronas que dou um salve

e ofereço um banco,

beijam o asfalto.

--



Ode to Gentrification


Old school denizens of this

bleach-boned block say:

the realest thing

about the white woman

and her Yorkie

on this reimagined street

is the leather of the leash

that tethers them.

 

Your very name, glass

splinter planted deep in the fat

of our vernacular. Gentrification,

rightly mistaken

for juxtaposition:

pretty boys with swagger,

checkerboard trains,

skyscraper sadness,

bodegas sighing out soy.

 

Peruvian girl and boy fattening

fridges with Fiji between

homeworks, while Pops

slices and dices, and Mom

rocks the register.

 

Kissing cousin to gratification,

you birth gratitude—

twin to regret.

Call me regrateful.

 

I am so sorry to thank you

for the manner in which

I participate in your cruel,

and convenient, magic.

 

You ushered out

the families who dreamed

where my head now rests.

 

Yesterday, I retrieved laundry

cleaner than bells, unmentionables

caressed by another’s

mother’s hands.

 

I sit on the up-

side of your coin,

drinking down the sky’s blue

dregs, while the teens I teach,

and the sturdy black

grandmothers I salute

with my seat,

kiss concrete.

*

 

Carvão

Audre Lorde

 

Eu

A suprema pretura, que fala

Das profundezas da terra.

Existem muitas maneiras de se abrir.

Como um diamante se abrindo num nó em chamas

Como um som se abrindo numa palavra, colorida

por quem assume os riscos para falar.

 

Algumas palavras são abertas

Como um diamante em vidraças

Cantando na cadência do sol que as atravessa

E também há palavras como desafios grampeados

Em blocos-de-notas – listar, comprar e descartar –

Aconteça o que acontecer, todas as possibilidades

O canhoto permanece

Um dente mal-arrancado com uma borda lascada.

Algumas palavras vivem na minha garganta

Se reproduzem como víboras. Outras conhecem o sol

Buscando como ciganas sobre a minha língua

Explodir pelos meus lábios

Como jovens pardais explodindo sua casca.

Algumas palavras

Me atormentam.

 

Amor é uma palavra que inaugura outra maneira de se abrir.

Como um diamante se abrindo num nó em chamas

Sou preta porque venho das profundezas da terra

Segura a minha palavra, como uma joia aberta em sua luz.

--

 

Coal

 

I

Is the total black, being spoken

From the earth's inside.

There are many kinds of open.

How a diamond comes into a knot of flame  

How a sound comes into a word, coloured  

By who pays what for speaking.

 

Some words are open

Like a diamond on glass windows

Singing out within the crash of passing sun

Then there are words like stapled wagers

In a perforated book – buy and sign and tear apart –

And come whatever wills all chances

The stub remains

An ill-pulled tooth with a ragged edge.

Some words live in my throat

Breeding like adders. Others know sun

Seeking like gypsies over my tongue

To explode through my lips

Like young sparrows bursting from shell.

Some words

Bedevil me.

 

Love is a word another kind of open –

As a diamond comes into a knot of flame

I am black because I come from the earth's inside  

Take my word for jewel in your open light.

*


MALCOLM X

Gwendolyn Brooks

Para Dudley Randall

 

Primordial.
Tipo puído-puro,
Tipo poderoso-parrudo.

Seus olhos eram de homem-falcão.
Ficamos perplexos. Vimos a virilidade.
A virilidade varrendo tudo, tornando o ar gutural
E nos impulsionando contra as muralhas.

E num momento sereno e essencial
Um sortilégio piedoso e vertical
Seduziu o mundo.

 

E nos abriu pra sempre porque -

Ele era palavra-chave

Ele era o cara.

--

 

MALCOLM X

Gwendolyn Brooks

For Dudley Randall

 

Original.
Hence ragged-round,
Hence rich-robust.

He had the hawk-man’s eyes.
We gasped. We saw the maleness.
The maleness raking out and making guttural the air
And pushing us to walls.

And in a soft and fundamental hour
A sorcery devout and vertical
Beguiled the world.

He opened us —
Who was a key.

Who was a man.

 *

terça-feira, 25 de maio de 2021

cidades fictícias & imaginárias: nos vemos no futuro :)

 há algum tempo recebi o feliz convite da Bienal do Livro Rio para dizer qual a cidade imaginária da literatura onde iria morar. deixo minha resposta abaixo, não sem convidar todo mundo para acessar a página da Bienal e conhecer as outras 4 cidades elegidas por Ana Maria Machado, Luisa Geisler, Raphael Draccon, Paula Pimenta :)

__

Quando eu era piveta gostava muito de ler (e assistir) obras de ficção científica e fantásticas, como Viagem ao centro da terra, Eu, robô, Crônicas marcianas, Blade runner, A ilha do dr. Moreau, Admirável mundo novo, 1984, Metrópolis, A invenção de Morel, Cem anos de solidão… Não sei dizer bem como assimilava essas obras na infância, para além da ideia de fuga da realidade banal e possibilidades de outras narrativas, então foi já um pouco mais velha que comecei a me questionar: “Qual é o lugar das pessoas negras nessas obras? O futuro não tem lugar para as pessoas negras?”. O único livro do gênero que li que tinha uma personagem negra foi já na adolescência avançada, e na verdade era uma personagem “híbrida”, meio como a Mística dos X-Men: uma branca que ficava negra nas noites de lua cheia, em O cheiro de Deus, de Roberto Drummond. Por isso escolho morar numa cidade afrofuturista, onde as pessoas negras resistiram e sobreviveram à violência policial, às desigualdades, à falta de oportunidades, ao racismo institucional e estrutural. Um futuro no qual existimos não como pessoas escravizadas. A cidade que escolho tem gente preta criando e produzindo cultura — com altíssima tecnologia, aliás. Vou para essa cidade na “nave” Afrofuturista, de Ellen Oléria com Elza Soares. Esta cidade que é também Pajubá, da MC Linn da Quebrada. É Wakanda fazendo fronteira com as cidades de Octavia Butler, N. K. Jemisin e Tomi Adeyemi. É a cidade de A cientista guerreira do facão furioso, de Fábio Kabral, e das histórias da maravilhosa Lu Ain-Zaila. Nos vemos lá, onde o futuro é glorioso.

*




segunda-feira, 19 de abril de 2021

diáspora não é lar #tbtdofuturo

Estreou no 13 de março de 2021 no canal do youtube da Casa das Rosas o vídeopoema diáspora não é lar #tbtdofuturo


O vídeo faz parte da programação "Expresso Poesia", já em seu quarto ano, o projeto continua oferecendo doses altamente concentradas de poesia nas tardes de sábado. A cada encontro, um poeta é convidado a estabelecer contato direto com o público, apresentando sua obra em até trinta minutos. Nesta edição, eu fui a convidada <3 


Aproveitem :)


domingo, 18 de abril de 2021

poema de um país em guerra



Os ventos da Babilônia
redemunham sobre esta nação-doente de Deus-acima-de-todos
O último comunista
relaxa em estado de graça
O espírito do capitalista
cavalga o camelo da morte
pelo buraco da agulha - e da bala

 

[em “War Poems”, organizado por Diane di Prima, 1968/ The Poets Press Inc.; tradução minha]

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

[em lugar de tradução, malinche]

 Eu, Euzinha

 

Eu, euzinha, tamém canto “dises América”

 

Eu sô a irmã mais pretinha.

Eles me manda cumê lá na cozinha

Quando as visita chega 

Mas eu gargalho,

E como tudinho,

E cresço fortona.

 

Amanhã

Vou sentá na mesa

Quando as visita chegá

Ninguém vai ousá

Dizê pra mim 

“Vai cumê lá na cozinha"

Hahaha

 

Aí,

Eles vai vê como eu sô bunitona 

E vai morrê de vergonha - 

 

Eu, euzinha, tamém sô Américana

 

- nina rizzi

*


descconheço autoria


I, Too

 

I, too, sing America.

 

I am the darker brother.

They send me to eat in the kitchen

When company comes,

But I laugh,

And eat well,

And grow strong.

 

Tomorrow,

I’ll be at the table

When company comes.

Nobody’ll dare

Say to me,

“Eat in the kitchen,”

Then.

 

Besides,

They’ll see how beautiful I am

And be ashamed—

 

I, too, am America.

 


-       Langston Hughes 



quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

chorar, não chorar

fotografia de Rhaiza Oliveira
 

Porque não choro por você

 

É, eu poderia ficar deprimida,

me enforcar com as minhas próprias tripas,

chorar por você milágrimas,

colecionar ideias estúpidas de autopiedade,

sentir pena pelo que nunca chegou a ser, 

me asfixiar com a lembrança do teu cheiro,

passar dias e noites e noites e dias

desidratando corpo e alma

com as unhas cravadas na azulejo

e os lábios cobertos de desilusões,

 

mas não vai dar:

 

as lágrimas estragariam minha maquiagem

e

além do mais,

sem tempo, irmão.

 

-  tradução nina rizzi 

 

______

 

Del porqué no te lloro

 

Realmente podría deprimirme,

enrollarme dentro de mis tripas,

llorarte en mil pedazos,

coleccionar fútiles intentos de autocompasión,

deplorar lo que alguna vez casi fuiste,

acuchillarme con tu olor,

almacenar días y noches

deshidratando cuerpo y alma

con las uñas enterradas en el pavimento

y los labios hinchados de frustraciones,

 

pero no puedo:

 

las lágrimas arruinarían el maquillaje

además,

no tengo tiempo.

 

- Martha Cecilia Ruiz 

*

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

em lugar de tradução

 EU NÃO CELEBRO MEU ÚTERO

 

Tudo em mim são pássaros, roedores
Eu não sou uma

Bato todas minhas asas, meus dentes se armam

eu quero te cortar

Enfio a mão dentro de você infinitamente vazio

de tudo que somos

Cada contração sua me seca

Você está me matando

enquanto esgoela como um bebê 

me rasgando quem é que não vai viver

 

Fardo desgraçado

em celebração da mulher que sou

e das mulheres que sou

e da criatura que é sua e ó sem dor

Eu canto pra você. Ouso te arrancar co'as 

Olá, próprias. Olá, mãos.

Aperto, cubro. Tecido frouxo que arranco.

Olá ao solo dos nadas

Bem-vindas, eus

 

Cada desejo tem uma vida

Há o suficiente aqui para nascer uma nova mulher

Basta que se arranque o malmequer

Conheço mulheres, comunidades inteiras diriam disso

“Que beleza este ano poderemos plantar de verdade

a colheita que queremos

Uma praga foi prevista e foi expulsa.”

Muitas mulheres cantam juntas sua própria canção:

uma está numa fábrica de merda amaldiçoando a máquina

uma está numa esquina aquendando um bem-casado

uma está pronta pra se jogar na frente do ônibus

uma está subindo o morro ou descendo pra praia

uma está lutando pela reforma agrária

uma está soltando a voz num slam ou num sarau

uma está virando a mesa e quebrando os copos

uma está pintando deixando as mãos na serra da capivara

uma está morrendo com um cabide nas mãos, sonhando com seu corpo

uma está dançando funk ou twerk na laje com as amigas

uma está limpando a bunda de um doente cheia de sangue

uma está olhando pela vidraça de uma lanchonete

no meio de um bairro chique e uma está

em qualquer lugar e outras estão em toda parte e todas

parecem estar cantando, embora muitas pessoas

não ouçam uma nota sequer

 

Fardo desgraçado

em celebração da mulher que sou e das muitas que sou

arrasto um lençol de três metros

arrasto esse tecido muscular para fora

arrasto tigelas para a oferta

(sim eu defino o meu papel)

Estudo a camada muscular

Examino a distância angular do miométrio

Uma menininha arranca os caules das flores

(sim eu defino o meu papel)

Desenho figuras tribais no tecido liso

(sim eu defino o seu papel)

É isso que é o meu corpo 

agora sim cantar

para a ceia

para o beijo

para mim

sim

*


em lugar de tradução, para "In Celebration of My Uterus" de Anne Sexton, que pode ser lido aqui.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

a poema: ensaio-manifesto


Imagem: Filipe Aca


 “[…] escrevi pela primeira vez A poema, possivelmente em 2015, em “amaluna, amar a poema”, que incluí em “quando vieres ver um banzo cor de fogo”, a escrevi também na parte teórica e em algumas traduções da minha dissertação — mas é claro, a poema sempre esteve em minha poesia, nesse estar sem estar sendo desde meu primeiro livro, “tambores pra n’zinga”, e ainda antes, desse modo selvagem y misterioso que ela tem de entrar.


e nunca mais parei de dizer y escrever A poema, que também vem sendo dita y escrita por tantas minas, monas y manos aqui nas quebradas.

e nesse dizer-escrever, muita gente intui (por isso também diz, por isso ri, por isso acha uma besteira). outras tantas têm me perguntado: mas o que é afinal A poema? […]”


saiu no suplemento pernambuco de novembro, finalmente o meu texto sobre a chave mais importante do meu pensamento sobre minha própria poesia, sobre tradução, leitura y cânone, enfim, sobre tudo que venho fazendo há tantos anos, talvez desde sempre. um ensaio-manifesto sobre A poema, um caminho para alcançar a minha y tantas outras vozes. é uma alegria e é o meu poder escrever, essa alegria e poder se completam na leitura. 







leia o ensaio completo aqui!