terça-feira, 25 de maio de 2021

cidades fictícias & imaginárias: nos vemos no futuro :)

 há algum tempo recebi o feliz convite da Bienal do Livro Rio para dizer qual a cidade imaginária da literatura onde iria morar. deixo minha resposta abaixo, não sem convidar todo mundo para acessar a página da Bienal e conhecer as outras 4 cidades elegidas por Ana Maria Machado, Luisa Geisler, Raphael Draccon, Paula Pimenta :)

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Quando eu era piveta gostava muito de ler (e assistir) obras de ficção científica e fantásticas, como Viagem ao centro da terra, Eu, robô, Crônicas marcianas, Blade runner, A ilha do dr. Moreau, Admirável mundo novo, 1984, Metrópolis, A invenção de Morel, Cem anos de solidão… Não sei dizer bem como assimilava essas obras na infância, para além da ideia de fuga da realidade banal e possibilidades de outras narrativas, então foi já um pouco mais velha que comecei a me questionar: “Qual é o lugar das pessoas negras nessas obras? O futuro não tem lugar para as pessoas negras?”. O único livro do gênero que li que tinha uma personagem negra foi já na adolescência avançada, e na verdade era uma personagem “híbrida”, meio como a Mística dos X-Men: uma branca que ficava negra nas noites de lua cheia, em O cheiro de Deus, de Roberto Drummond. Por isso escolho morar numa cidade afrofuturista, onde as pessoas negras resistiram e sobreviveram à violência policial, às desigualdades, à falta de oportunidades, ao racismo institucional e estrutural. Um futuro no qual existimos não como pessoas escravizadas. A cidade que escolho tem gente preta criando e produzindo cultura — com altíssima tecnologia, aliás. Vou para essa cidade na “nave” Afrofuturista, de Ellen Oléria com Elza Soares. Esta cidade que é também Pajubá, da MC Linn da Quebrada. É Wakanda fazendo fronteira com as cidades de Octavia Butler, N. K. Jemisin e Tomi Adeyemi. É a cidade de A cientista guerreira do facão furioso, de Fábio Kabral, e das histórias da maravilhosa Lu Ain-Zaila. Nos vemos lá, onde o futuro é glorioso.

*




segunda-feira, 19 de abril de 2021

diáspora não é lar #tbtdofuturo

Estreou no 13 de março de 2021 no canal do youtube da Casa das Rosas o vídeopoema diáspora não é lar #tbtdofuturo


O vídeo faz parte da programação "Expresso Poesia", já em seu quarto ano, o projeto continua oferecendo doses altamente concentradas de poesia nas tardes de sábado. A cada encontro, um poeta é convidado a estabelecer contato direto com o público, apresentando sua obra em até trinta minutos. Nesta edição, eu fui a convidada <3 


Aproveitem :)


domingo, 18 de abril de 2021

poema de um país em guerra



Os ventos da Babilônia
redemunham sobre esta nação-doente de Deus-acima-de-todos
O último comunista
relaxa em estado de graça
O espírito do capitalista
cavalga o camelo da morte
pelo buraco da agulha - e da bala

 

[em “War Poems”, organizado por Diane di Prima, 1968/ The Poets Press Inc.]

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

[em lugar de tradução, malinche]

 Eu, Euzinha

 

Eu, euzinha, tamém canto “dises América”

 

Eu sô a irmã mais pretinha.

Eles me manda cumê lá na cozinha

Quando as visita chega 

Mas eu gargalho,

E como tudinho,

E cresço fortona.

 

Amanhã

Vou sentá na mesa

Quando as visita chegá

Ninguém vai ousá

Dizê pra mim 

“Vai cumê lá na cozinha"

Hahaha

 

Aí,

Eles vai vê como eu sô bunitona 

E vai morrê de vergonha - 

 

Eu, euzinha, tamém sô Américana

 

- nina rizzi

*


descconheço autoria


I, Too

 

I, too, sing America.

 

I am the darker brother.

They send me to eat in the kitchen

When company comes,

But I laugh,

And eat well,

And grow strong.

 

Tomorrow,

I’ll be at the table

When company comes.

Nobody’ll dare

Say to me,

“Eat in the kitchen,”

Then.

 

Besides,

They’ll see how beautiful I am

And be ashamed—

 

I, too, am America.

 


-       Langston Hughes 



quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

chorar, não chorar

fotografia de Rhaiza Oliveira
 

Porque não choro por você

 

É, eu poderia ficar deprimida,

me enforcar com as minhas próprias tripas,

chorar por você milágrimas,

colecionar ideias estúpidas de autopiedade,

sentir pena pelo que nunca chegou a ser, 

me asfixiar com a lembrança do teu cheiro,

passar dias e noites e noites e dias

desidratando corpo e alma

com as unhas cravadas na azulejo

e os lábios cobertos de desilusões,

 

mas não vai dar:

 

as lágrimas estragariam minha maquiagem

e

além do mais,

sem tempo, irmão.

 

-  tradução nina rizzi 

 

______

 

Del porqué no te lloro

 

Realmente podría deprimirme,

enrollarme dentro de mis tripas,

llorarte en mil pedazos,

coleccionar fútiles intentos de autocompasión,

deplorar lo que alguna vez casi fuiste,

acuchillarme con tu olor,

almacenar días y noches

deshidratando cuerpo y alma

con las uñas enterradas en el pavimento

y los labios hinchados de frustraciones,

 

pero no puedo:

 

las lágrimas arruinarían el maquillaje

además,

no tengo tiempo.

 

- Martha Cecilia Ruiz 

*

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

em lugar de tradução

 EU NÃO CELEBRO MEU ÚTERO

 

Tudo em mim são pássaros, roedores
Eu não sou uma

Bato todas minhas asas, meus dentes se armam

eu quero te cortar

Enfio a mão dentro de você infinitamente vazio

de tudo que somos

Cada contração sua me seca

Você está me matando

enquanto esgoela como um bebê 

me rasgando quem é que não vai viver

 

Fardo desgraçado

em celebração da mulher que sou

e das mulheres que sou

e da criatura que é sua e ó sem dor

Eu canto pra você. Ouso te arrancar co'as 

Olá, próprias. Olá, mãos.

Aperto, cubro. Tecido frouxo que arranco.

Olá ao solo dos nadas

Bem-vindas, eus

 

Cada desejo tem uma vida

Há o suficiente aqui para nascer uma nova mulher

Basta que se arranque o malmequer

Conheço mulheres, comunidades inteiras diriam disso

“Que beleza este ano poderemos plantar de verdade

a colheita que queremos

Uma praga foi prevista e foi expulsa.”

Muitas mulheres cantam juntas sua própria canção:

uma está numa fábrica de merda amaldiçoando a máquina

uma está numa esquina aquendando um bem-casado

uma está pronta pra se jogar na frente do ônibus

uma está subindo o morro ou descendo pra praia

uma está lutando pela reforma agrária

uma está soltando a voz num slam ou num sarau

uma está virando a mesa e quebrando os copos

uma está pintando deixando as mãos na serra da capivara

uma está morrendo com um cabide nas mãos, sonhando com seu corpo

uma está dançando funk ou twerk na laje com as amigas

uma está limpando a bunda de um doente cheia de sangue

uma está olhando pela vidraça de uma lanchonete

no meio de um bairro chique e uma está

em qualquer lugar e outras estão em toda parte e todas

parecem estar cantando, embora muitas pessoas

não ouçam uma nota sequer

 

Fardo desgraçado

em celebração da mulher que sou e das muitas que sou

arrasto um lençol de três metros

arrasto esse tecido muscular para fora

arrasto tigelas para a oferta

(sim eu defino o meu papel)

Estudo a camada muscular

Examino a distância angular do miométrio

Uma menininha arranca os caules das flores

(sim eu defino o meu papel)

Desenho figuras tribais no tecido liso

(sim eu defino o seu papel)

É isso que é o meu corpo 

agora sim cantar

para a ceia

para o beijo

para mim

sim

*


em lugar de tradução, para "In Celebration of My Uterus" de Anne Sexton, que pode ser lido aqui.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

a poema: ensaio-manifesto


Imagem: Filipe Aca


 “[…] escrevi pela primeira vez A poema, possivelmente em 2015, em “amaluna, amar a poema”, que incluí em “quando vieres ver um banzo cor de fogo”, a escrevi também na parte teórica e em algumas traduções da minha dissertação — mas é claro, a poema sempre esteve em minha poesia, nesse estar sem estar sendo desde meu primeiro livro, “tambores pra n’zinga”, e ainda antes, desse modo selvagem y misterioso que ela tem de entrar.


e nunca mais parei de dizer y escrever A poema, que também vem sendo dita y escrita por tantas minas, monas y manos aqui nas quebradas.

e nesse dizer-escrever, muita gente intui (por isso também diz, por isso ri, por isso acha uma besteira). outras tantas têm me perguntado: mas o que é afinal A poema? […]”


saiu no suplemento pernambuco de novembro, finalmente o meu texto sobre a chave mais importante do meu pensamento sobre minha própria poesia, sobre tradução, leitura y cânone, enfim, sobre tudo que venho fazendo há tantos anos, talvez desde sempre. um ensaio-manifesto sobre A poema, um caminho para alcançar a minha y tantas outras vozes. é uma alegria e é o meu poder escrever, essa alegria e poder se completam na leitura. 







leia o ensaio completo aqui!


sexta-feira, 30 de outubro de 2020

7 mulheres: maternidade e isolamento social


Está no ar:

Caderno de Leituras n.116 

7 mulheres: maternidade e isolamento social


Reunimos nesta publicação textos de sete mulheres sobre as relações entre maternidade e isolamento social. Se o burburinho das crianças ausentou-se das ruas, o seu alvoroço continua em casa. É diante de olhos infantis que estas mulheres escrevem, e na sua palavra escuta-se a intensidade dos vínculos e de que modo o confinamento se inscreve no seu devir.


escrituras de: Ana Freitas, Brisa Marques, Fabiana Carneiro, Mika Andrade, Nina Rizzi, Roberta Ferraz, Ursula Rösele


curadoria de Maria Carolina Fenati

arte da capa de Sylvia Amélia

coordenação de arte de Luísa Rabello

revisão de Clara Delgado 

projeto gráfico de Rita Davis 


Para ler esses olhares variegados, é só baixar gratuitamente na página da edições chão da feira. aproveite para conhecer as demais publicações que são incêndio e aguaceiro 🧜🏿‍♀️💥



sábado, 10 de outubro de 2020

traduzir "atrás dos olhos" das mulheres

no último dia 03/10, fiz uma oficina de tradução com a Sarah Rebecca Kersley promovida pela Leia Mulheres Feira de Santana e foi muito massa! 

um dos exercícios propostos foi verter para outro idioma o poema de Ana Cristina César “Atrás dos olhos das meninas sérias” (em 07 minutos, hahaha), fiz minha versão em espanhol cometendo as transgressões que amo e que costumo chamar “em lugar de tradução”, quando traduzo de outro idioma pro brasileiro tentando captar coisas que não estão ali “exatamente”; o resultado foi “detrás de los ojos de las dueñas de casa”. 

gostei tanto de brincar com a menina séria branca que esta manhã, em lugar de traduzir as urgências aqui, fiz outras duas versões (mujeres negras/ indígenas), com aquele desejo de sempre sempre ler mulheres negras, indígenas, laterais à história e ao cânone, escritas ou não, e que sempre escreveram através dos tempos. 



Atrás dos olhos das meninas sérias


Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão, por injunções

muito mais sérias, lustrar pecados que jamais repousam?


Ana C.

__________



Detrás de los ojos de las dueñas de casa


¿Pero puedo decirte que se atreven? ¿O se vayan, por imposiciones

mucho más hogareñas, pulir pecados que nunca descansan?


*


Detrás de los ojos de las mujeres negras


¿Pero puedo decirte que se callan? ¿O se vayan, enlazadas

mucho más que atrapadas, resistir a la brancura transatlántica?


*


Detrás de los ojos de las mujeres indígenas


¿Pero puedo decirte que lanzan flechas? ¿O se vayan, enamoradas

mucho más acultaradas hacer niños mestizos, crear heridas que nunca se pulen?


*


Detrás de los ojos de les menines kuir


¿Pero puedo decirte que son monstruas? ¿O se van, por laberintos

mucho más monstruas, pulir pecados que no se ven en el espejo?


***



quarta-feira, 30 de setembro de 2020

dia internacional da tradução - no verso/ diário do nordeste


saiu hoje no caderno verso/ diário do nordeste uma matéria de Diego Barbosa muito bacana sobre o dia internacional da tradução. eu e outras pessoas comentamos um pouco sobre esta que é uma das coisas que mais amo fazer.

leia a matéria completa aqui!

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

tradução y entrevista a Sergio Ernesto Ríos, en ViceVersa/ México

 há algumas semanas tive a feliz surpresa de ler algumas de minhas poemas traduzidas para o idioma que tanto amo por Sergio Ernesto Ríos y publicadas no site mexicano ViceVersa (leia aqui!).


depois o Sergio entrou contato comigo perguntando se podíamos conversar, porque uma entrevista é uma conversa.


descubro y aprendo muitas coisas todo dia. descobri y aprendi também que quando respondo uma entrevista, quando converso, descubro y aprendo sobre minha linguagem y poesia.


a entrevista também foi publicadas no site mexicano ViceVersa (leia aqui!)


 gracias, Sergio Ernesto Ríos! gracias! 💕


sábado, 22 de agosto de 2020

hughes, em lugar de tradução


PEQUENA-MORTE 


A calma (esse furor),

A face quente (toda água que cabe aqui)

Não canso de te pedir um beijo.


- nr

*






sexta-feira, 21 de agosto de 2020

à imagem da lua, metatradução pra Federico García Lorca

Autorretrato em Nova Iorque, Federico García Lorca


"[...] No aguardes la embestida

del toro que es un hombre y cuya extraña

forma plural da horror a la maraña

de interminable piedra entretejida.

No existe. Nada esperes. Ni siquiera

en el negro crepusculo la fiera".


Não espere pelo ataque

do touro que é um homem cuja estranha

forma plural se emaranha no horror

da interminável pedra entretecida.


Não existe. Nada espere. Nem mesmo

a fera no negro crepúsculo.


- Monte a besta preta, crave a língua presa, te seja lua.

terça-feira, 21 de julho de 2020

canção, song

Cecília Paredes

canção, em lugar de tradução 

você se pergunta se estou sozinha:
sim, estou sozinha
como a menina solitária e descalça 
em suas roupas ganhadas, suas carnes lanhadas
sonhando com o através os canaviais
em cima de seu cavalo
que logo já não seria mais seu.

você quer me perguntar, se estou sozinha?
sim, claro, sozinha
como uma mãe com sua cria
uma mãe-polvo que não pode deixar nada para trás
porque a cria grita e grita e grita
e os tentáculos nunca podem dar conta
porque uma mãe sempre está sozinha, até na morte

se estou sozinha
a solidão é mulher, é preta, e é tão bonita e é além
acordar, respirar o fumo olhando a janela
como se pudesse atravessar janelas
dormir e acordar 
em uma casa-oca com pajaritos fazendo festinhas

se estou sozinha
una hojita despencando lenta
no meio da floresta
tantas árvores, tantos bichos
una hojita, solita
despencando lenta
neste país onde queimam florestas.

- nr

*

Cecília Paredes


Song

You’re wondering if I’m lonely:
OK then, yes, I’m lonely
as a plane rides lonely and level
on its radio beam, aiming
across the Rockies
for the blue-strung aisles
of an airfield on the ocean.

You want to ask, am I lonely?
Well, of course, lonely
as a woman driving across country
day after day, leaving behind
mile after mile
little towns she might have stopped
and lived and died in, lonely

If I’m lonely
it must be the loneliness
of waking first, of breathing
dawn’s first cold breath on the city
of being the one awake
in a house wrapped in sleep

If I’m lonely
it’s with the rowboat ice-fast on the shore
in the last red light of the year
that knows what it is, that knows it’s neither
ice nor mud nor winter light
but wood, with a gift for burning.

- Adrienne Rich

segunda-feira, 22 de junho de 2020

moraesiana/ - desvario

3.
eu não sei o que você pensa
- ou isto ou aquilo ou seu revés
bordas e margens e fronteiras
mas olha eu quero ver você
de novo e de novo e de novo
dentro da beleza a beleza na beleza
uma sensação de além mais longe
infinito / imensa e tua vastidão
[moraesiana]

(arte: Layza Pereira / foto original: Rhaiza Oliveira)

poema e arte originalmente publicadas na Revista Desvario. leia a série completa e conheça a revista toda que é maravilhosa aqui!

quinta-feira, 11 de junho de 2020

estar sem estar sendo

quando o mundo parar de acabar
algumas coisas não vão mudar
vou bater na sua porta
e sair correndo

te deixar poemas
fotografias
garrafas de água
frutas
- tangerinas
- caquis
- mangas
essas frutas que nos lambuzam

[outras vão]
às vezes eu também
bem nua
bem nua

será leve o amor
pesado só o meu hálito a cigarro
minhas mãos encontrando seus ossos
e as delias 
as flores todas grandiosas
que poderemos inventar
com nossas línguas

poderemos? 

ilustração de alice dote
poema e ilustração originalmente publicadas na antologia "escritas em pandemia", com escritas de 24 mulheres cearenses, organizada por alice dote, glória diógenes e lara denise silva. leia os demais textos e ilustrações gratuitamente, clique aqui!

sexta-feira, 5 de junho de 2020

#escrevacomoumamulher





















Está no ar: As 13 mulheres de ArapiracaAs lobas do morro vermelhoAs pernas de Dona KêniaJardins das Vulvas e Macyrajaras do Delta. Mais de 500 páginas escritas por mulheres negras, indígenas, brancas, jovens, velhas, gordas, magras, brasileiras, estrangeiras, periféricas, cis, trans... as publicações são resultado dos laboratórios de escrita criativa com mulheres que fiz no ano passado pelo projeto Arte da Palavra do SESC em Porto Velho, Arapiraca, Parnaíba, Belo Horizonte e Montes Claros. 

Só gratidão por tanto y tanto, a essas mulheres incríveis e tão poderosas pelas discussões, escuta, aprendizado, revolução, poesia e afeto! 

Para ler as zines é só baixar: 


Leiam Mulheres!