Alejandra Pizarnik - Uma tradução


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 Este canto arrependido, vigia detrás de meus poemas:
 este canto me desmente, me amordaça.

- 'Árbol de Diana', Argentina-París, 1962.

 Não é você a culpada 
 de que teu poema
 fale do que não é 

- 'Diarios', 2 de Enero, París, 1963.




ANÉIS DE CINZA
            A Cristina Campo¹ 

São minhas vozes cantando
para que não cantem eles,
os amordaçados na cinzenta madrugada,
os vestidos de pássaro desolados sob a chuva

Há, na espera,
um rumor lilás a se romper.
E há, quando raia o dia,
uma rebentação do sol em pequenos negros sóis.
E quando é de noite, sempre,
uma tribo de palavras mutiladas
busca asilo em minha garganta
para que não cantem eles,
os funestos, os donos do silêncio.
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ANILLOS DE CENIZA

            A Cristina Campo 

Son mis voces cantando
para que no canten ellos,
los amordazados grismente en el alba,
los vestidos de pájaro desolado en la lluvia.

Hay, en la espera,
un rumor a lila rompiéndose.
Y hay, cuando viene el día,
una partición de sol en pequeños soles negros.
Y cuando es de noche, siempre,
una tribu de palabras mutiladas
busca asilo en mi garganta
para que no canten ellos,
los funestos, los dueños del silencio.

IN: Los Trabajos y las Noches, Buenos Aires, Sudamericana, 1965.



¹Cristina Campo é o pseudônimo de Vittoria Guerrini (Bolonha, 29 de Abril de 1923 – Roma, 11 de Janeiro de 1977). Foi uma escritora, poetisa e tradutora italiana. Em seu seu heterônimo, Cristina Campo pretendeu, com o primeiro nome, homenagear Cristo, e com o segundo as vítimas dos Campos de Concentração.
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CARTA A ANA MARÍA BARRENECHEA

Já é manhã, desenraiza os maiores olhos do mundo.
Já é manhã, se dispa de seu corpo de anjo perfumado. Já é manhã. Vista-se com cascos de tartarugas assassinadas, se cubra com pelos empoeirados e de restos de sangue. Arrasta-se pelas paredes em busca de alimentos, bebe onde mijam os mortos. Levanta-se desconhecida com asas de serapilheira, volta carregada pela terra silenciosa. Sacrifica seus sonhos e o cubra de cinzas.
Mescla-se, é manhã e os justos já trabalham. Reintegre-se à gordura, ao suor e ao pó. Confessa hoje também que ainda está viva. Levanta e anda, pobre besta, e sem chorar.
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CARTA A ANA MARÍA BARRENECHEA

Ya es de día, arráncate los ojos más grandes del mundo.
Ya es de día, desnúdate de tu cuerpo de ángel perfumado. Ya es de día. Vístete con cáscaras de tortugas asesinadas, cúbrete de pelos polvorosos y de residuos de sangre. Arrástrate por las paredes en busca de alimentos, bebe donde orinan los muertos. Levántate, desconocida con alas de arpillería, vuela cargada de piedras por la tierra silenciosa. Sacrifica tu sueño y cúbrelo de cenizas. Incorpórate, es de día y los justos ya trabajan. Reintégrate a la grasa, al sudor y al polvo. Confiesa hoy también que aún estás viva. Levántate y anda, pobre bestia, y sin llorar.


IN: HAYDU, Suzana. Alejandra Pizarnik, Evolución de um lenguaje poético. Colección: INTERAMER, Número 52, 1996.

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COLD IN HAND BLUES

e o que você vai dizer
vou dizer somente algo
e o que você vai fazer
vou me esconder na linguagem
e por quê
tenho medo

IN: El infierno musical
Buenos Aires, Siglo XXI Argentina, 1971
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UM CONTO MEMORÁVEL

- Essa de negro que sorri da pequena janela do bonde se assemelha a Madame Lamort – disse – 

- Não é possível, pois em Paris não há bondes. Ademais, essa de negro do bonde em nada se assemelha a Madame Lamort. É o contrário: Madame Lamort que se assemelha a essa de negro. Resumindo: não só não há bondes em Paris, como nunca em minha vida vi a Madame Lamort, nem sequer em retrato.

- Você coincide comigo – disse -, porque tampouco eu conheço a Madame Lamort.

- Quem é você? Deveríamos nos apresentar.

- Madame Lamort – disse – e você?

- Madame Lamort.

- Seu nome não deixa de me recordar algo – disse – 

- Trate de recordar antes que chegue o bonde.

- Mas se acaba de dizer que não há bondes em Paris – disse – 

- Não os havia quando eu disse, mas nunca se sabe se vai passar.

- Então esperemos, já que estamos esperando.

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UN CUENTO MEMORABLE

-Esa de negro que sonríe desde la pequeña ventana del tranvía se asemeja a Mme. Lamort -dijo.

-No es posible, pues en París no hay tranvías. Además, esa de negro del tranvía en nada se asemeja a Mme. Lamort. Todo lo contrario: es Mme. Lamort quien se asemeja a esa de negro. Resumiendo: no solo no hay tranvías en París sino que nunca en mi vida he visto a Mme. Lamort, ni siquiera en retrato.

-Usted coincide conmigo -dijo-, porque tampoco yo conozco a Mme. Lamort.

-Quién es usted? Deberíamos presentarnos.

-Mme. Lamort -dijo-. ¨Y usted?

-Mme. Lamort.-Su nombre no deja de recordarme algo -dijo. 

-Trate de recordar antes de que llegue el tranvía. 

-Pero si acaba de decir que no hay tranvías en París -dijo.

-No los había cuando lo dije, pero nunca se sabe que va a pasar.

-Entonces esperémoslo puesto que lo estamos esperando.

 (Paris, não coligido).

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ESTAR

vigílias deste quarto
onde a sombra espantosa é a tua

não há silêncios aqui
mas frases que evitas ouvir

sinais nos muros
narram a bela isolada

(não morreria
sem vê-la novamente)


[ versão 1]
*

ESTAR

vigia deste quarto
onde a sombra temível é a tua

não há silêncios aqui
senão frases que evita ouvir

sinais nos muros
narram a bela distância

(não deixe que eu morra
sem voltar a ver-te)

[versão 2]

IN: Extracción de la Piedra de Locura, Buenos Aires, Sudamericana, 1968.
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DÉDALUS JOYCE

Homem funesto de claves noturnas e corpo nu junto ao rio profundo de brilhantes cuspidas. Homem de olhos anti-míopes exploradores de infinidade. Homem de rosto em sombra e corpo gênio abstrato. Homem sem medo de pluma em mão nem de olhos em ser nem sorriso supremo. Homem deus chegaste só de infinitudes assombrofantasma ornado de lágrimas de superioridade tímida. Homem destruidor de tábuas e céus estrelados. Homem de frágeis vestidos que caem deixando irmãos nus. Homem sem alimento para outorgar aos que buscam. Homem de altos mares de sulcos desolados. Homem-barco branco. Homem que arrancaste o vômito para sepultar o mito. Homem de tempo e espaço que arrancam sensatas loucuras. Homem super-homem, frieza e tepidez em conjunção. Homem.

DÉDALUS JOYCE

Hombre funesto de claves nocturnas y cuerpo desnudo junto al río pro- fundo de brillantes escupidas. Hombre de ojos anti-miopes exploradores de infinidad. Hombre de rostro en sombra y cuerpo genio abstracto. Hombre sin miedo de pluma en mano ni de ojos en ser ni sonrisa suprema. Hombre dios llegaste solo de infinitudes asombrofantasmales ornado de lágrimas de superioridad vergonzante. Hombre destructor de tabúes y cielos estrellados. Hombre de frágiles vestidos que caen dejando hermanos desnudos. Hombre sin alimento para otorgar a los que buscan. Hombre de altos mares de surcos desolados. Hombre-barco blanco. Hombre que arrancaste el vómito para sepultar el mito. Hombre de tiempo y espacio que arrancan cuerdas locuras. Hombre superhombre, frialdad y tibieza en conjunción. Hombre.


IN: La tierra más ajena (1955).
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8 PERGUNTAS A ESCRITORAS, ATRIZES, MULHERES DE CIÊNCIA, DAS ARTES, DO TRABALHO SOCIAL E DO JORNALISMO[1]



1.      1. credita que a mulher, em todos os planos, devem ter os mesmos direitos do homem?
AP – A mulher nunca teve os mesmos direitos que o homem. Deve chegar a tê-los. Não digo somente eu. Rimbaud também o disse: Quando for quebrada a servidão infinita da mulher, quando ela viver para si e por si mesma, quando o homem – até então abominável – lhe tiver dado sua alforria, também ela será poeta! A mulher encontrará o ignoto! Seu mundo de ideias diferirá do nosso? – Ela encontrará coisas estranhas, insondáveis, repelentes, deliciosas; nós as tomaremos, as compreenderemos. [Carta de Rimbaud para Paul Demeny, Charleville, 15 de Maio de 1871. Tradução de Ivo Barroso.][2].
Inútil acrescentar que as palavras do poeta formam um raciocínio utópico. É que nada temem tanto, mulheres ou homens, quanto a mudança.
2.      Acredita que a sociedade atual precisa de uma reforma e que será de benefício das mulheres?
2. AP – Não creio que a sociedade precise atual precise de uma reforma. Creio que precise de uma mudança radical, e é nesse sentido que poderão ser de benefício das mulheres.
3.      3. credita ser necessária a educação sexual?
AP - Claro, já que o sexual é árduo.
4.      4. Pelo fato de ser mulher encontrou impedimentos em sua carreira? Teve que lutar? Contra quê e contra quem?
AP – A poesia não é uma carreira, é um destino. 
Embora ser mulher não me impeça de escrever, creio que vale a pena partir de uma lucidez exasperada. Deste modo, afirmo que ter nascido mulher é uma desgraça, como é ser judeu, ser pobre, ser negro, ser homossexual, ser poeta, ser argentino, etc., etc. Claro é que o importante é aquilo que fazemos com nossas desgraças.
5.      5. Acredita que as leis que regem o controle de natalidade e o aborto devem estar nas mãos da Igreja e de homens que governam, ou nas das mulheres que, apesar de serem as protagonistas do problema, não tem tido voz nem voto em algo que lhes concerne vitalmente?
AP – Essa pergunta faz referência a um estado de coisas absurdo. Cada um é dono de seu próprio corpo, cada um controla como quer e como pode. É o demônio das baixas proibições quem, amparando-se em mentiras “morais”, puderam em mãos governamentais ou eclesiásticas as leis que regem o aborto. Essas leis são imorais, donas de uma crueldade inaudita. Cabe acrescentar que, para ilustrar, a sugestão de Freud de que aquele que inventar o contraceptivo perfeito ou infalível seria tão importante para a humanidade quanto Jesus Cristo.
6.      6. É partidária do divórcio?
AP – Acaso é possível não ser?
7.      7. Qual acredita ser problema mais urgente da mulher?
AP – Os conflitos da mulher não residem em só problema possível de assinalar. Neste caso, e em outros, a ordem segue sendo: “Changer la vie”.

8. Você está interada da luta da mulher por seus direitos nos séculos XIX e XX? Sabe quais foram os primeiros países a reconhecê-los e até que limites?
AP - Ignoro estes temas.
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8 PREGUNTAS A ESCRITORAS, ACTRICES, MUJERES DE CIENCIA, DE LAS ARTES, DEL TRABAJO SOCIAL Y DEL PERIODISMO

1. ¿Cree que la mujer, en todos los planos, ha de tener los mismos derechos que el varón?
La mujer no ha tenido nunca los mismos derechos que el hombre. Debe llegar a tenerlos. No lo digo solamente yo. Rimbaud también lo dijo "Quand sera brisé l'infini servage de la femme, quand elle vivra pour elle et par elle, l'homme -jusqu'ici abominable-, lui ayant donné son renvoi, elle sera poète, elle aussi! La femme trouvera de l' inconnu. Ses modes d'idées différeront-ils des nôtres?- Elle trouvera des choses étranges, insondables, repoussantes, délicieuses; nous les prendons, nous les comprendrons." [Carta de Rimbaud a Paul Demeny (Chaleville, 15/V/1871).]
Inútil agregar que las exaltadas palabras del poeta conforman un razonamiento utópico. Es que nada temen tanto, mujeres u hombres, como los cambios.

2. ¿Cree que la sociedad actual necesita una reforma y que redundará en beneficios de la mujer?
No creo que la sociedad actual necesite una reforma. Creo que necesita un cambio radical, y es en ese sentido que pueden redundar beneficios para la mujer.

3. ¿Cree necesaria la educación sexual?
Por cierto, puesto que lo sexual es arduo.

4. Por el hecho de ser mujer, ¿ha encontrado impedimentos en su carrera? ¿Ha tenido que luchar? ¿Contra qué y contra quién?
La poesía no es una carrera; es un destino.
Aunque ser mujer no me impide escribir, creo que vale la pena partir de una lucidez exasperada. De este modo, afirmo que haber nacido mujer es una desgracia, como lo es ser judío, ser pobre, ser negro, ser homosexual, ser poeta, ser argentino, etc. Claro es que lo importante es aquello que hacemos con nuestras desgracias.

5. ¿Cree que las leyes que rigen el control de natalidad y el aborto deben estar en manos de la Iglesia y de los hombres que gobiernan o bien en el de las mujeres que, a pesar de ser las protagonistas del problema, no han tenido ni voz ni voto en algo que les concierne vitalmente?
Esta pregunta hace referencia a un estado de cosas absurdo. Cada uno es dueño de su propio cuerpo, cada uno lo controla como quiere y como puede. Es el demonio de las bajas prohibiciones quien, amparándose en mentiras "morales", ha puesto en manos gubernamentales o eclesiásticas las leyes que rigen el aborto. Esas leyes son inmorales, dueñas de una crueldad inaudita. Cabe agregar, a modo de ilustración, la sugerencia de Freud de que aquel que inventara el anticonceptivo perfecto o infalible sería tan importante para la humanidad como Jesucristo.

6. ¿Es partidaria del divorcio?
¿Acaso es posible no serlo?

7. ¿Dónde cree que está el problema más urgente de la mujer?
Los conflictos de la mujer no residen en un solo problema posible de señalar. En este caso, y en otros, la consigna sigue siendo: "Changer la vie".

8. ¿Está usted enterada de la lucha de la mujer por sus derechos en los siglos XIX y XX? ¿Sabe cuáles fueron los primeros en reconocerlos y hasta qué límites?
Ignoro estos temas.


[1] Reportagem com mulheres trabalhadoras e intelectuais argentinas realizadas pela Revista Sur, e publicada no número 326 de setembro 1970- junho 1971. As respostas de Alejandra Pizarnik constam nas páginas 327-8. Tradução de Nina Rizzi.
[2] No original: “Quand sera brisé l’infini servage de la femme, quand elle vivra pour elle et par elle, l’homme, jusqu’ici abominable, — lui ayant donné son renvoi, elle sera poète, elle aussi! La femme trouvera de l’inconnu! Ses mondes d’idées différeront-ils des nôtres? — Elle trouvera des choses étranges, insondables, repoussantes, délicieuses; nous les prendrons, nous les comprendrons.”
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Correspondência Erótica para Flora A. - prosa-ensaística-tradução. IN: Revista O Acrobata #2/ Revista Zunái


Outros Poemas -  seleção composta de sete poemas pertencentes ao “Arquivo Pizarnik”, da Universidade de Princeton, não incluídos em antologias ou obras anteriores da autora. IN: Revista Literária em Tradução

Wols, Pizarnik - referências. IN: alguma tradução

Gunderode, Pizarnik - referências. IN: alguma tradução
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 Entrei em contato com a poesia de Pizarnik por volta de 2007, quando estive na Argentina, desde então, um alumbramento, um silêncio, um pássaro se debatendo em fuga a cada leitura. Há dois anos (desde 2011), estou trabalhando na tradução de suas obras completas. Após alguns muitos contatos um vislumbre. Aguardem! :-)

3 comentários:

felicidade clandestina disse...

que belo, nina.
gostei muito, muito mesmo.


pizarnik é minha grande paixão! parabéns pelas traduções,

um beijo.

Vasco Cavalcante disse...

adoraria demais que alguma editora se interessasse, a Pizarnik é maravilhosa. vou ficar na torcida, ansioso aqui.

« Katyuscia Carvalho » disse...

Estou neste momento lendo o Poesia Completa... e ansiosa por lê-la na tua "voz"! ;)

Beijos.