quarta-feira, 20 de março de 2013

NA ESTRADA DE SINTRA


[para Raul Macedo, sempre]

O que acontece quando morrem os poetas?
Insensíveis, vão, corpo e mente findos. Ficam essas
Palavras e àquelas mais que lindas, lazarentas, dizia o poeta
Drummond ou eu que disse assim, de ler assim o que é meu
[disse, morreu o homem, um poeta não morre nunca
Fica - como o último bebop da Náusea que não deságua no nada -
Para a cada lida ressuscitar].

Mas o que acontece quando morrem os homens?
Podia ser uma alegria, um conforto qualquer crença
Mas eu, que como ‘meu’ homem e poeta não posso crer em nada,
Penso em sua memória – exercício em desconstrução
Lembro que minha cabeça não dá folga e não posso ter um amigo
- desses que a gente manda uma mensagem na madrugada atormentada
“sem mimimi: te amo, poeta. obrigada, te beijo, viu. é bom
ter um amigo, como se pudesse fazer parte
do mundo, ter uma conversa digna, enfim...”
Desses que sorriem e respondem: “eu também. te
beijo, nina. não fica triste, se não tem a tua, eu te empresto
a minha mãe.”. Desses amigos que nos respondem e parecem viver
A mesma “sinto que eu tô afundando de propósito” e você pode
Dizer “acho que vou fumar um cigarro lá fora, ver os carros
[comboios, ele corrigiria] passarem- como a vida sobre nós. eu penso
em suicídio todo tempo. eu vou fumar um cigarro caminhando lá
fora e é uma pena que nunca chova no ceará, porque a chuva talvez
me fizesse sentir viva”.

Hoje a poesia vive.  Plena, pereníssima.
Um amigo não é qualquer amigo, como o amigo que te beija,
A amiga que te afaga e suporta e aqueles raros amigos que a gente suspira.
O homem que chamo meu, não sem disparate e sem romance
O homem, tão menino ainda
Morreu. Agora chove no Ceará. Chuva sem metáfora nem mais nada.
Chuva que eu caminho a lembrar de sua última mensagem
Um poema de Pessoa vivo “[...]
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
 Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
 Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
 E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível,
 Acelero... “ e eu só lhe disse: “você sempre estará em Sintra
e eu ‘Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...’


POEMA QUE É SÓ UMA EPÍGRAFE
"A pessoa que é muito admirada é como uma sombra presa, perdida, perdida presa numa inebriante casa de espelhos. Ela não sabe que os predadores estão do lado de fora, escalando os muros em torno, que nunca acabam, até que se ouve o barulho dos corpos caindo e a sombra finalmente desaparece no meio dos aplausos." - (Parábola, Anônimo, Raul Macedo)

7 comentários:

Carla Diacov disse...

<3

Marcos Satoru Kawanami disse...

Nina,

Lendo isso, senti fisicamente a dor no peito. Identifiquei-me também, entre outras coisas, com a ideia de suicídio que vc citou, a qual não tenho mais, porém, o tentei por duas vezes, uma delas, atirando o carro contra um poste.

;*
Marcos

Lara Amaral disse...

Nossa, sua homenagem me fez morrer de chorar aqui... Que falta fará Raul Macedo...

Luiza Maciel Nogueira disse...

belíssima homenagem Nina!belíssimo poeta, pessoa, sonhador o Raul!

beijos

Assis Freitas disse...

comungo estes nossos,


cheiro

Suzana Macedo disse...

um dia eu escrevi "Raul...silencio que fala".
É isso aí Nina, o poeta Raul Macedo, meu sobrinho, será eterno em nossas vidas.

Suzana Macedo disse...

Que homenagem maravilhosa essa que voce fez pra ele.
Voce era muito especial na vida dele e claro, será na de toda a familia.
Com ja disse mais de uma vez, que bom que voce existe