domingo, 7 de agosto de 2011

das antiguidades não-obsoletas


Nina Rizzi, Aonde andam a caminhar meus olhos: Alto da Sé, Olinda/ Pe. 2006. 

PASÁRGADA PERDIDA

Cismo que em algum lugar -
Nada se parece mais com um paraíso -
Existe uma Pasárgada perdida
Dando Bandeira pra mim.

(Dedicado a Nina Rizzi)
*


invocação ao recife
nina rizzi

belo belo
pernambucolismo
quero quero
história cultura cais
arte de amar corpoema

oh linda cidade
sempre uma boa viagem

Recife/ Olinda/ Paulista, PE - Maio/ 2006
*

PRETEXTOS PARA UMA ESTADIA EM PASÁRGADA

Se você tem um chefe invejoso, sádico e egoísta; uma esposa (o) ciumenta (o); vive sob uma ditadura; tem uma doença que o impeça de viajar; ou é acomodado mesmo e, portanto, anda a se privar da felicidade, meu amor, aí vai uma pequena lista de pretextos:


1- Faça mil ligações por dia pra sua Pasárgada por pelo menos uma semana. Suborne a operadora de telefonia. Mostre a fatura a quem te impede e solfeje:
- lá "Tem telefone automático";


2- Diga, aos prantos, à esposa/ marido:
- ai, amor, calma, claro que eu te amo, mas preciso resgatar a minha infância
"E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!";


3- Lave o rosto, penteie os cabelos (se não tiver, coloque um chapéu de palha). Passe rouge cor-de-rosa na ponta do nariz e nas bochechas, isso vai te dar um aspecto corado e saudável. Faça o máximo esforço pra não arfar e diga, sorrindo, ao seu médico:

- acredito que seja psicossomático, veja como melhoro só de pensar... e eu prefiro passar o fim dos meus dias gargalhando, lá
"Tem alcalóide a vontade [...]
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive";


4-
 Ofereça ao funcionário do governo uma passagem; pegue-o pelos colarinhos e esbraveje com um olhar louco:
- você aí sentado também é explorado
"Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção"; 

5-
 Olhe no espelho, veja o ser amado (a), e diga a si mesmo (a):
- é eu posso até não nos aguentar tanto amor, tanta paixão, mas
"Quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias";


meia, uma verdade inteira-
 olha bem nos olhos de cada um. ria. grite. pule. gargalhe. role no chão. lamba os cachorros e os gatos. lambuze o rosto de manga. arranque os cabelos e chore:
- "E quando eu estiver triste
Mas triste de não ter jeito"
como agora, esse desejo, ou naquelas noites em que me dá
"Vontade de me matar"...

neguinho, bixinha, aperta o botão do foda-se eu quero mais é ser feliz, arranque as vestes e as ateie fogo e vai, vai cantando:
"- Lá sou amigo do rei-
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada"
Vem também!
*

4 comentários:

sandra camurça disse...

Ah, menina, também quero ir pra uma Pasárgada qualquer, nem que seja em sonhos: por enquanto ta difícil viajar. A saída é viajar na imaginação.
Adorei sua Invocação ao Recife! :)
Beijos, linda

Assis Freitas disse...

que coisa mais banderiana em gênese, número e grau,


beijo

Sandrio cândido. disse...

Ler-te exige complexidade
beijos

Primeira Pessoa disse...

que beleza!
e esse ramos do cio, eim?

a poesia beija vocês.