segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

em lugar de documento com foto

raio-x

 perdi a prova de seleção e fui jogar candy crush
nunca joguei candy crush mas lembro ano passado quando precisei
fazer um aborto e esperava a assistente social a psicóloga e o vendedor
de remédios esperava ao meu lado a jogar candy crush
e ficava bem puto porque a próxima vida só viria em 29 minutos
comecei a pensar nas pedrinhas explodindo como um último suspiro
e a senhora doutora muito sabida com seu lattes invejável
pra quem é dado à invejas dos lattes essa gente que diz você sabe
quem eu sou e o meu lattes tem 9 páginas como eu vou saber que você
é você e as pedrinhas explodindo sim ela tem razão eu também não sei
saber como eu sou eu mas olha o documento não ajudava muito um
nome que eu nem uso uma família que nem tenho e essa frase tão bonita
como eu vou saber que você é você é tão poesia
minha filha isso é concurso público não isso já não é poesia qualquer
coisa como ‘empregadinhos de repartições públicas/ raquíticos/ sifilíticos’
isso é poesia minha tia e não tem uma vida daqui 29 minutos
 junto minhas 2 bananas amassadas no rascunho amassado
com o parágrafo que o bonitão me passou ontem é literatura social vista
como história social é por aí manja tudo amassado com as cascas das 2
bananas pretas e que palavras bonitas gramacho é uma palavra bonita
e altamira admá e zeboim e os meus índios são também tão bonitos
e esquecidos esquecidos como esse meu documento que não serve
pra nada que não seja me perder uma prova e que não faz falta quando
um amigo me manda uns 200 ou 300 paus e quando eu digo eu sou eu
fico pensando nesse meu amigo tão bonito todo torto todo todo  
como será viver num poema de nome bonito de todos os santos
de todos os fodidos como será escrever um poema onde se morar
onde não ter documento com um nome amarildo um nome cláudia
um poema sem nome sem concursos sem candy crush e as doutoras
um aborto é muito sério como você pode ser atacada que falta de juízo
no benfica e seus becos à essa hora e os doutores muito sabidos
uma cidade com muitos 200 ou 300 paus e um amigo que me apareça
às 11 pra salvar o dia pra te dar uma alegria santa nina pinta e maria
e a gente ri e tudo é gargalhada e gozo pelos olhos é só paixão amor
e eu não encarno em você só nas negas lindas todas pra te comer
até o cu fazer bico e você volta pros domingos com a casa cheia
a família tão feliz a cidade tão quieta mais prosa que poema volta
enquanto caminho 12 minutos ouvindo que a diversão é na frente
da tevê hdtv e rio ora mais 12 minutos e enfim me deito pensando
pensando num poema que seja mais que fluxionismo nos hollow men

e ria eliot no candy crush as pedras explodem como um último suspiro

1 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

maneiro. alguns poemas parecem uma menina falando sem parar. isso acontece na vida real; às vezes, as crianças falam sem pausa, fazendo poemas.

=)