terça-feira, 13 de dezembro de 2011

fragmento, 5

Fotograma-colagem de Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain/ O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (França, 2001), de Jean-Pierre Jeunet.

então o poema começava com a moça dizendo que a verdade absoluta é a monogamia. não a contratual, mas àquela excitante. depois dançava. existia uma disputa, o branquelo e o negro, morador de rua. 

a música dizia que nasci em outro planeta, que não posso mesmo ser daqui. eu não atravesso a rua quando vejo marginais ou marginalizados... eu rio de mim mesma e choro sentada de cócoras na privada. eu tomo pelo menos quatro banhos por dia e adoro meu pixaim. eu me preocupo todas as noites, quando me deito, com as andanças e a pedagogia do dia seguinte e eu não sou conteudista. eu não quero ter um mp3, mas adoraria ter pelo menos um radinho a pilha pra ouvir os meus chorinhos e clássicos. gasto a maior parte dos meus 650,00 em lãrouses digitando textos... eu ando, eu quero ter uma bicicleta e não um carro. não me importo de dormir sob uma lona preta e de comer spaghetti sem sal com as mãos... eu te escrevo e sinto vontade de rir, chorar, dançar... o meu planeta devia ser feito de vento e água e era uma ciranda de girassóis...

não importa. eu li uma carta pela manhã e não respondi. "pelo bem ou pelo mal": às vezes me falta a palavra e fico pensando o tempo todo, inclusive enquanto falo do tardio processo de ocupação do ceará e lembro que daqui todo mundo fugia pro forte dos reis magos. bem, eu sou uma puta resoluta e não me deito com ninguém. mas te cheiro o cangote e assopro até me faltar o pouco ar. te beijo esse cangote.

perguntas retóricas: está em surto? estávamos flertando? bobeira! a única expectativa que nutro é receber os tais livros pra me deleitar com poesia. claro que dentro dessas expectativas você me entrega o livro em mãos. ora, o que pode haver de diabólico nisso? o meu olhar doce? vai me privar da sua entrega num dia desses de verão? ôxe, o meu sexo é renascentista e essas vênus renascentistas são todas pudicas! não obstante, não precisava mais que o olhar (precisava, não precisava, bastava, não bastava). eu gosto que me olhem. não como voyer, mas aquele olhar dos doidos quando em ternura. é bonito, como dizer o nome de seu interlocutor.não é flerte, ousadia: é poesia e eu sou movida a poesia.

bem, contrariando todas as expectativas o meu companheiro resolveu deixar de lado o gêlo homérico com acento circunflexo: me escreveu a carta com mais de uma linha pedindo desculpas, mas nada mais que isso e se pergunto o porquê há uma desconversação. as super-esquisitices. talvez isso me atraia, esse nem caga nem sai da moita, ou como se diz, o areamento.

te amo como as auroras selvagens. meu platão, querido, sim. e aqui então já te posso chamar meu pois não sendo aristotélico...

o tempo todo, o tempo todo ficam dançando na minha cabeça imagens, telas, filmes, poesias, textos... o que já vi, li, e os que fico criando. e quando li na carta penúltima "não há expectativas" o que me veio em mente foi justamente o poema de yeats em "nunca te vi, sempre te amei"... então te lembro ou te faço um poemeto nada indecente e bem cavernoso:

um dia, quebro a caverna
junto os tijolos
e te construo

há um consolo: "talvez" nunca nos vejamos. e penso na canção "não diga nunca ou talvez, que machuca o coração"... ainda àquela outra "não dizes não, dizes sim, o não envenena a gente. dizes sim, 'inda que mintas, mintas, mintas". mas neste caso o talvez me mantém na caverna. sigo oníricos idílios.

mundos diferentes. você fala de classe? tempos diferentes... é, minha mãe me deu um presente uma vez. foi uma única vez, então esse dia nunca me sai da memória (como quase nenhum, eu tenho excelente memória). era meu aniversário de 6 anos, morávamos em brasília na época e ela perguntou o que eu queria: um lp. ela me deu  dinheiro do lp, do ônibus e me mandou ir buscar, me ensinando como chegar lá. penso que era um teste, me jogar nos abismos da liberdade. o fato é que logo voltei com o lp nas mãos: dorival caymmi. ela disse eu devia ser mãe dela. e não só por isso e nada não, mas ó: bem que podia. continuo um chamariz de antiguidades.

ontem eu resolvi ligar pra, aliás. havíamos nos falado há umas duas semanas, naquela cata estúpida com um simples me desculpe. e pagando o pior papel possível, feito as esposas insuportáveis que ficam cobrando e cobrando uma posição, claro, não posso ficar empacada por mais que ame os cavalos. aí resolvi ligar ontem... falamos bastante e parecia estar "normal" de novo.. quer dizer, não houve securas e grosserias e novamente me senti como audrey hepburn, happy in burn. disse: quer ouvir uma coisa? - eu te amo... poxa, claro que eu queria ouvir isso, eu tenho apenas 22 anos, e não preciso me sentir desejada (preciso sim) eu preciso me sentir amada!... então fiquei pensando no que estalou de volta à realidade, se eu posso ser uma realidade. lembrei que quando sai da ladeira disse que tem péssima memória, que eu ia virar nuvem em sua cabeça, ou algo assim. acho que foi isso, a distância física acaba por se tornar emocional. mas pra mim a distância física não se torna emocional, não como regra, mas como excessão. eu sou uma menina platonicamente neurótica. eu crio mundos em minha cabecinha, realidades bem mais praticáveis que a "realidade". na verdade, acho que a convivência é que desgosta. não é fácil suportar as mundanalidades dos outros, e essa é primeira vez que moro sozinha. na universidade morava com 96 pessoas. já morei com amigos, amigas, como casal com duas moças diferentes e em tempos diferentes, com duas moças ao mesmo tempo... a gente aprende tanto com o outro, né. e vendo o outro percebo-o: a convivência os desgosta...

vou pra uma cidade onde encontre a santa constanza. constância não existe. lá foi um aldeamento jesuíta. colocavam lá os índios amansados pra os ajudar a combater os selvagens, esses daqui eram bastante hostis, antropófagos. e em seu lugar também preferiria a um amansado.

sigo percorrendo a terra molhada que é o seu corpo. sigo amando assim selvagem e inocente. podemos fazer um filme? a carta podia ser o prelúdio. eu te beijava os olhos, a boca.

2 comentários:

Por que você faz poema? disse...

Sempre podemos
realizar
o nosso filme...

Ricardo António Alves disse...

A sua escrita é desenfreada, magnificamente desenfreada.