tenho uma escova de cerdas macias, como nuvem,
como pixaim. agradáveis ao toque como meu corpo quando dói e a cai a água fria.
a escova guarda muito dos meus fios. toda
sexta-feira junto-os todos, fazendo um grande cocoruto de pêlo algodoado.
sexta-feira é também o dia que o pai chega de
viagem. é caminhoneiro e nunca escova os cabelos. gosta de se dizer o homem da
família, ri bem alto demarcando sua existência na casa, em nossas vidas.
sento na beira da cama. o quarto não tem porta.
da poltrona da sala me olha como me olham seus amigos quando aparecem para
beber, como me olha o professor e o médico. o mecânico da bicicletaria e o
padeiro.
aperto as pernas bem firmes e tento manter no
rosto a suavidade de cada escovada. penteio até que o braço doa, até que o
couro da cabeça doa.
uma escova cheia dos meus pêlos.
quando já é tarde da noite e a mãe deixou toda
a louça limpa, chão limpo, carne curtindo nas bacias com banha, alho e sal, do
jeito que o pai gosta, viro para dar boa noite, mãe.
o pai ronca alto e um cheiro acre de álcool
envolve a asa pequena.
agora todos já dormem.
retiro um a um meus pêlos da escova, enrolo meu
cocoruto. o maior que já fiz. o pai sempre diz que uma mulher com pêlos é uma
mulher nojenta.
pego a lâmpada que escondi entre as calcinhas e
a esmigalho firmemente, enquanto ouço na cabeça de choros abafados de mamãe, o
som grave do punho do pai em suas costas e o engasgo profundo e seco.
esmigalho até que seja puro pó em minhas mãos
que sangram, puríssimas.
arranco a carne da bacia e estraçalho um pedaço,
recheando-a com meu cocoruto de pêlos e vidro moído.
recito baixinho as palavras mágicas de mamãe:
só teremos paz quando ele morrer.
fecho a carne, como costurando a minha.
beijo o pedaço ensanguentado.
eu sou judas.
salomé.
me beija.
me come, papai.
*
[fiz esse texto no laboratório de escrita criativa para mulheres (cis e trans), que aconteceu na caixa cultural em fortaleza, de 06 a 10 de março/2018. a imagem que aqui ilustrada é a capa da zine que fizemos como culminância do curso; o título faz parte do
caderno-goiabada (livro de prosa poética que publico ainda este ano pelo selo aliás) e usado num dos exercícios propostos.]