fazer a curva baixa.
‘malu você não parece muito animada e vai comer uma coisa deliciosa’. é muito
difícil desfazer as malas e ir morar tão longe. prego os dedos nos dois olhos
pra sentir o coração bater a respiração continuar e ouço um ahhhh. do calor do
enfado da vontade de correr e fugir e partir. é tão triste mas é verdade
mãezinha. ela vai partir e todas constelações continuarão lá no céu até quem
sabe talvez depois de uma nova névoa e fim e quem sabe talvez de novo respirar
o coração.
domingo, 28 de fevereiro de 2016
sábado, 27 de fevereiro de 2016
fragmento, 2012
na festa dos pais uma passarela
para desfilar joias, grifes
amarelos risos
- pai, eu preciso ir, pode me ajudar?
uma vitrolinha longe lembra meus fracassos
setenta e quatro quilos, membros quarent'um
a inabilidade para passos firmes
para desfilar joias, grifes
amarelos risos
- pai, eu preciso ir, pode me ajudar?
uma vitrolinha longe lembra meus fracassos
setenta e quatro quilos, membros quarent'um
a inabilidade para passos firmes
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
geografia dos ossos
estalidos. estrondos. fogo, fogo! - entro agora na casa da poema.
acho que foi aos dezesseis anos que me apaixonei pela primeira vez por portugal. paixão a sério mesmo. de querer escrever algarve com as próprias veias e brigar com vizinhos que fizessem piada alentejana.
bebi vinhos. chorei um tejo. montei e desmontei montanhas de fados.
repeti uma milharada de vezes que só os portugueses sabem sentir bem. que dividimos a alma.
e ainda chistes como se eu não falasse português não sentiria tanta saudade - como do não-tido portugal.
ouvi e ouvi e ouvi um chiado no s. comi esse sotaque que é um lugar.
uma nonada de poemas.
bebi vinhos. chorei um tejo. montei e desmontei montanhas de fados.
repeti uma milharada de vezes que só os portugueses sabem sentir bem. que dividimos a alma.
e ainda chistes como se eu não falasse português não sentiria tanta saudade - como do não-tido portugal.
ouvi e ouvi e ouvi um chiado no s. comi esse sotaque que é um lugar.
uma nonada de poemas.
depois me apaixonei de novo. quando vi cá nesse suporte o doudo, o doudo! - o nuno, ó!
um doudo com sonho lindo e real - a poesia, a performance, a música. e eis a arte.
a paixão é um amor é uma paixão e claro traz o seu corpus pulsante - douda correria.
um doudo com sonho lindo e real - a poesia, a performance, a música. e eis a arte.
a paixão é um amor é uma paixão e claro traz o seu corpus pulsante - douda correria.
& rá que enfim chego a este lugar carregado de saudades e sonhos
uma paixão me leva a outra e então somos um só atlántico.
junto poemas que só poderiam ter sido escritos para esta douda, ó!
junto poemas inventivos e combatentes o suficiente para garrar o ícone - douda correria
uma paixão me leva a outra e então somos um só atlántico.
junto poemas que só poderiam ter sido escritos para esta douda, ó!
junto poemas inventivos e combatentes o suficiente para garrar o ícone - douda correria
e cá estou em poesia pura - no dia 03 com uma teresa, ó do nome mais lindo
uma teresa e um nuno que também sou eu
que me encarnam e nessa noite são mais eu do que eu.
carregam a minha voz. são eles a voz - geografia dos ossos
e ainda um hélder ventura que é a imagem da minha letra - signo desenho chispa
ele é a minha imagem - hão-de-ver, hão-de-ver! é logo e já.
vintedois poemas em dois blocos de invenção & combate - poema
uma teresa e um nuno que também sou eu
que me encarnam e nessa noite são mais eu do que eu.
carregam a minha voz. são eles a voz - geografia dos ossos
e ainda um hélder ventura que é a imagem da minha letra - signo desenho chispa
ele é a minha imagem - hão-de-ver, hão-de-ver! é logo e já.
vintedois poemas em dois blocos de invenção & combate - poema
o que mais? ora, um poema de cada capítulo:
[1.]
domingo, casamento em niterói
domingo, casamento em niterói
meu benzinho desce às escadas pra sala de jantar.
dedos cansados, lhe digo querido não precisa, não precisa.
mas ele vai fazer soar os talheres.
dedos cansados, lhe digo querido não precisa, não precisa.
mas ele vai fazer soar os talheres.
[2.]
notícia de jornal:
notícia de jornal:
os peixes não se adaptaram à barragem
**
**
aindamais? aindamais? que mais quereria?
ora, um cem-mil-vezes o infinito: gracias douda correria!
ora, um cem-mil-vezes o infinito: gracias douda correria!
***
e pra quem estiver em lisboa, é isto:
geografia dos ossos
nina rizzi
capa e ilustrações de Hélder Ventura
Douda Correria #35
lido e apresentado por Teresa Coutinho e Nuno Moura
dia 3 de março às 19h30
Bar Irreal | Rua do Poço dos Negros, 59/ Lisboa
[atualizado em 04.03.16] Leia outros poemas e veja vídeos do lançamento aqui!: https://doudacorreriablog.wordpress.com/2016/02/24/geografia-dos-ossos-nina-rizzi/
>> e pra quem não está em Portugal e deseja adquirir o livro é so entrar em contato com o Nuno Moura/ Douda Correria:
miasoave@sapo.pt
https://www.facebook.com/douda.correria.5?pnref=story
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
vertebral
Roberta Fernandes, teste/ nossa verdade ninguém vê; artseries in progress, 2015.
penso palavras tão puras
palavras tão negras
uma mão escreve o silêncio
outra mão agarra o nada
e uma flor
e outra flor
um vau de rio na escuridão
um vaso índio e a pura lama
penso palavras tão puras
palavras tão negras
o olho mansidão
claraclaridade
o mar e o cheiro do mar
o barco e o barqueiro
uma respiração do abdome
aos pulmões ao abdome
penso palavras tão negras
palavras tão puras
no movimento dos dedos
a ligação do céu co’a terra
no movimento dos quadris
a união do vento co’ fogo
na imobilidade
a mais completa ação
penso palavras tão negras
palavras tão puras
nossa
verdade ninguém vê
o fogo a textura a série
uma ruazinha
nascada de tinta
um precipício na esquina
arribação do tu&eu
penso palavras tão negras
palavras tão puras
e o poema está inteiro
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
bandeiriana, pensando em ratzel
almofala, almofala
quanto de ti falam.
quem te chamara linda
não me via os olhos d'água
- ria.
domingo, 3 de janeiro de 2016
variação pra madrigal desengraçado
em noites de não poder banhar -- lamber
quedava mirar as ondas como sotaque
sotaque é também palavra carregada de lugares
lugares y sotaques são coisas também
a faixa litorânea do corpo
da bunda branca dos seios das infindas cicatrizes
o que se pode fazer com essas frutas de se lambuzar
aos bocados
é bom também assim
pero -- em madrigal sem água lembro
o assassinato de mais um josé y sus flores
não era uma quinta-feira um domingo. era?
quedava mirar as ondas como sotaque
sotaque é também palavra carregada de lugares
lugares y sotaques são coisas também
a faixa litorânea do corpo
da bunda branca dos seios das infindas cicatrizes
o que se pode fazer com essas frutas de se lambuzar
aos bocados
é bom também assim
pero -- em madrigal sem água lembro
o assassinato de mais um josé y sus flores
não era uma quinta-feira um domingo. era?
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
¡Ah, si yo fuera Maradona!
Um
encontro com lugares-mundos e palavras desconhecidas, um reencontro com meu
ofício primeiro de historiadora, um puta bate-bola com o danisco do Romério
Rômulo!
Dos
meus maiores desafios como tradutora, vertendo pra o espanhol essa MARAVILHA
que até Dadá diria MARAVILHA ¡AH, SI YO
FUERA MARADONA! era eu bilíngue também, uai! - Romério Rômulo é inventivo
na forma, na palavra e conteúdo, trás pra pelear no campo de Maradona gigantes
da história e cultura mundial como Homero, Caravaggio, etcéteras... y
brasileiríssimos como Lampião, Elomar, Cartola, Antônio das Mortes, Riachão e
tantostantos outros.
Tem
cordel, tem cinema, tem música, tem invenção, tem genialidade e sim, tem poesia
e muita! Tem até glossário assinado por moi-même! J
Conheça alguns poemas do
livro, publicados em Panorama Cultural de
Suécia (versão em espanhol): http://www.panoramacultural.net/?pag=2443
Leia matéria sobre o livro
no Clarín: http://www.clarin.com/deportes/futbol/Poesia-brasilena-Maradona_0_1470453365.html
Leia Matéria sobre livro no Olé!: http://www.ole.com.ar/maradona/diego-maradona-libro-brasileno-romerio-romulo-mais-grande_0_1469253438.html
E para adquirir é só enviar
um e-mail para as Edições Dubolsinho capitaneada pelo danado que segura em
burro brabo, o Sebastião Nunes: editora@dubolsinho.com.br. Outra opção é ligar para (31)
3671-5443 e falar com a Joana.
domingo, 1 de novembro de 2015
tema pra diego
![]() |
| Louise Bourgeouis, Hairy Spider (music spider), State II of II, variant, 2001 |
porque
alguns nomes
são
tão potentes
como
melro e berloque
o
êxtase e o precipício
porque
do nome
calcanhar
ou verdevinha
é
tecido destino
fio
em desfio
pronto
a não-ser
porque
do seu nome
morada
e renda
gossamer
alcanço
a delicada e frágil
potência
de dizer dídache
poíesis
quinta-feira, 23 de julho de 2015
otro recuérdo sín berguencia
meio litro de açaí e mamão da terra
castanhas, tapiocas, brigadeiros
ou goiabas, ou pimentas:
entrada pros nossos escassos encontros idos.
eu, sua buceta, seu cuzinho
éramos prato principal e sobremesa.
lambíamos os beiços.
lembra?
![]() |
| conrad roset |
terça-feira, 23 de junho de 2015
a hora das cigarras
![]() |
| Fotografia de Katyuscia Carvalho |
É possível ouvir alguns de meus poemas de tambores pra n'zinga no programa A Hora das Cigarras (disponível online, clique!), com curadoria e realização de José Eduardo Agualusa.
O programa é da rádio portuguesa RDP-África –, com uma programação baseada na música, na informação, na cultura e no desporto. No plano da informação funciona em dois sentidos, levando para Portugal uma ampla informação sobre a realidade africana e levando para África informação portuguesa, do mundo, da comunidade africana residente em Portugal, e população portuguesa em África.
A música é maioritariamente africana, sobretudo dos PALOP, das kizombas ao kuduro, da morna ao funaná, e portuguesa, ligeira e popular, embora também esteja aberta a toda a música de expressão portuguesa e outros ritmos, como a brasileira os afro-americanos e latino-americanos.
No programa do dia 08/06/15:
Poesia de Nina Rizzi. Música: Maria Bethânia, Zeca Baleiro, Andreia Dias, Marcelo Santana, Dona Onete, Emília Monteiro, Dinho Nascimento, Moacyr Luz, Armando Marçal, Mariene de Castro.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
sexta-feira, 15 de maio de 2015
"a resitência e o cotidiano" - no portal vermelho
A Letras Vermelhas desta semana traz a obra de Nina Rizzi, a poeta paulista radicada em Fortaleza. Escritora, historiadora e arte-educadora, Nina escreve sobre a resistência, cotidiano e as pessoas comuns.
Com dois livros publicados: tambores pra n’zinga e A Duração do Deserto, Nina também costuma publicar seus textos e poemas também em antologias, revistas em páginas na internet, entre elas Zunái e Germina.
Veja alguns poemas de Nina Rizzi:
clique aqui para continuar a ler no Portal vermelho!
sábado, 18 de abril de 2015
de comer e saltar cambalhotas sobre o muro, uma água morna pra me cobrir os cornos
escolho
maçãs entre as muitas fileiras e carrinhos e as muitas gentes que vão ao
mercado sábado de manhã. escolho maçãs as mais escuras e não argentinas,
escuras por fora, não por dentro que ainda não se pode ver. seria bom morder a
maçã e só então decidir-se a levar ou não levar, mas não é assim que segue a
lógica dos mercados e nem mesmo das feiras. enquanto danço os dedos com uma
maçã não tão vermelha, não tão triscada lembro que hoje era dia de feira
agroecológica. detenho-me por um instante, deixo as maçãs rolarem na esteira e
subo 5 ou 6 quadras em busca de frutas muito mais frescas - é a promessa não se
sabe se a realidade. mas não, lembro do homem muito triste que fica no caixa e
o procuro entre os amontoados. está lá. fico remexendo as maçãs e penso nessa
fronteira que nos separa: um homem triste com vocação para alegre e eu um
benedetti, alegre com vocação para triste, ou tudo o contrário se é verdade, a
ordem dos fatores não altera o resultado.
(lembro-me
dos muros e fronteiras que falava o homem num português aturdido, num jeito
sem-jeito, como quem acabasse de sair da cama e tivesse uma plateia morna à sua
frente. sem-jeito como a mulher que nos ciceroneia a todos, com tanto atraso e
dizendo que iremos nos atrasar ainda mais. tudo aqui é um atraso, a palestra
sobre como se controla a violência em medellín e no recife e eu nem lá; a
criança que quer brincar e gritar e dizer em alemão eu sou maravilhosa; a
poeira que se espera espanar para dar brilho às coisas todas. e tudo tão sem
brilho, a mulher que chega tão sem-jeito arrebatada como quem tivesse acabado
de deixar a cama e nos deixa suas imagens em projeção e os olhos teimam em ler
essa anti-ética e lemos todos ‘minha muito querida c.’ e tantas vezes a palavra
muro e fronteiras. essa fronteira que se nos coloca o palco, um homem grande e
desajeitado numa cadeira desajeitada e o vão terrível entre o tablado e o chão,
entre o chão e nossas cadeiras confortabilíssimas que ele tem razão, quase
dormimos e não se pode ouvir mais nada além de um boa noite, muito embora seu
desajeitamento diga boa-tarde. ainda é tarde para eles, numa praia com algum
nome auspicioso, num quarto de um hotel mal-cheiroso onde do banheiro se pode
ver os telhados e calhas e canos e onde tudo isso vai dar. eu poderia ter dito
a minha fronteira, essa que nos separa a boca, o corpo, as bundas tão fofinhas
e famintas como laocoonte e os filhos esfaimados. mas penso antes na avenida do hotel essa
fronteira entre uns miseráveis do morro, não uma favela clássica, mas ainda uma
favela e sua gente que desaba com a chuva, santa terezinha, e na outra margem o
hotel e sua gente tão rica, tão requintada. mas nada digo, quero me aninhar ao
homem ao meu lado que acaba de chegar da frança e da frança eu só sei o que me
chega pela gallimard e aqueles biscoitos e a torre e tudo isso que li, ontem,
ano passado, sabe quando as fronteiras da minha memória. não digo coisa, mas
abraço o homem quando todos se vão e ele diz que sim, espera que eu esteja logo
num país de língua enrolada, de cujos músculos da língua vão acostumar-se a
mim. eu espero mais, é claro. e vou embora sem dizer coisa, como quem fica em cima
do muro ajeitando o melhor salto.)
6
maçãs não devem ser lá tão caro e então posso passear pelos renques e olhar
toda a gente e que cara tem seu sábado. a velhinha com goma de tapioca,
presunto e queijo, uns homens muito musculosos e umas cervejas, uma mocinha com
recheados e refrigerantes. as mãos do homem triste, os olhos do homem triste, o
crachá com seu nome destino, sim, joão, você deve ter a cabeça arrancada, mas
meu nome é casa e não salomé. fico na fila do homem triste, todas as outras
vazias e é bom assim, esperar, contrariando a mim mesma e a roupa que me espera
atrasada, um livro que me espera atrasado, este texto que não me espera que há
ainda muito a reverberar quatro ou cinco dias pegada na sala, dois dias pegada
no chão do hotel, na cama do hotel, no banheiro do hotel onde se pode ver cada
entranha de cimento e cal. uma água morna pra me cobrir os cornos. trazendo um
pouco de alegria à essa vidinha tão besta de quem só registra preços pra o
patrão, sensualizo com a tristeza de joão, como coisa que se não faço dói-me o
corpo, ele diz que meu sorriso melhora a sua manhã tacanha. e eu prometo voltar
às 5 e um quarto pra que se melhore também a noite. mas não volto que não posso
lhe arrancar a cabeça, uma fronteira entre meu nome casa e o nome salomé.
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