segunda-feira, 23 de março de 2015

forse non sono i miei fiumi




na ibiapaba se esconde o gameleira a 1,5 km da trilha da samambaia
da br 222 só se mostra o oiticica quando chove.

pra tocar os pés os rios há-que ter
mais que duas pernas

e eu nunca vi do sertão o oiticica
da serra o gameleira.

[ma vado a  vogliar
madonna di tutti fiume. e la vostra.]

2013


quarta-feira, 18 de março de 2015

das coisas que fazemos juntos

seu aniversário, por exemplo
e a comemoração da independência da guiné-bissau.
ele aparecia e seus olhos se perdiam nas estantes de livros e em tudo que nada dizia.
me desequilibrava
é porque você só come. dorme e come e dorme. fica aí engordando.
então me agarrava pelos peitos e me virava, arriava a calça e a calcinha tão minúscula
você me deixa louco com essa bunda enorme.
mais nada dizia. só se me enfiava o pau enorme de curta performance
gozava e corria a se lavar.
chorava, divagava
você é poeta. chorar à toa é coisa de poeta
vê como precisa de mim. goza tanto comigo.
faço uma cara de desconcerto
nunca consigo dizer palavra a esse homem, assim os dentes rangendo.
goza sim, tá escorrendo pelas suas pernas.
abafa um meu risogemido enfiando o pau na minha goela
me dá um filho. eu quero um filho.
corre pra se lavar com nojo da minha boca assim tão aberta.

lembro quando nos vimos a primeira vez
você é hetero?
depende do que vier
ahn?
nuvens, árvores...
e prometia todo suor de séculos de escravidão
pensava num derramado equívoco de quem nunca trepou
das mentiras que me conto pra me mutilar
sexo é bom até quando é ruim.

das coisas que fazemos juntos

duas datas em setembro. não somos rosas, nada mais.

'holy motors', leos carax/ 2012.

sexta-feira, 13 de março de 2015

POEMA SOBRE A LÁPIDE DE GIUSEPPE RIZZI


- ouvindo Leil, Malek Jandali -

Nunca podia estar aos pés da Deusa que me disse
- em silêncio ouço esta canção, e quisera ter cabeza e ouvidos queimados pela [radiação
do demasiado humano, da madrasta, de Francis Bacon -

Disse: e sempre serei sincera. Como pudesse a frase guardar uma primeva
verdade que busco - essa página em branco que me permite
bazófias tantas, reciclagens e o doloroso pasme - impossível.

O imponderável, estar aos seus pés, quando do mar era um cuspe vomitado 
[por ser morno;
Das verdades infindas à Cecília - nome que invento para tudo o que possa ser
Belo e Sublime -, essa casca pegada às palavras.

Mas acredite, quando tomo por oferenda a Dedução de Maikóvski: Amo firme, fiel, e [verdadeiramente


- nossas almas claríssimas, jogadas uma à outra, pelo obscuro mistério.

leituras possíveis, 4



"[...] Então, por mais que o ponto de partida da poeta seja triste, Rizzi é uma poeta resoluta e, à maneira do Gullar participante, que transformava a bruta matéria bruta de seu tempo em poesia e melhores dias, Rizzi consegue fazer o mesmo e com um processo análogo: o da resistência, o da esperança. Não sendo, desse modo, nem um pouco espantoso o fato de que um livro que começa com uma imagem da poesia enquanto ato doloroso, seja todo ele delicado [...]"

Matheus De Souza Almeida faz em seu blogue um trabalho hercúleo de historiografia e comentários de crítica literária; neste longo ensaio, logo na primeira parte nos dá a entender que crítica é esta, para então se deter - tão dedicada e atentamente - à minha poesia, desde os primeiros textos não coligidos em livro, passando pelos dois livros e alguns vídeopoemas. Só posso ser grata a tanto zelo com sua-minha leitura, e da literatura em geral. 

Quem tiver fôlego, siga-me com um beijo:

http://formasfixas.blogspot.com.br/2015/03/acerca-da-obra-de-nina-rizzi.html

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

libri lectum paratus




canção pra foder nathália

vou devassar a cona de nathália
a dedos, língua, cruz e souza

se rapidinho não me demora
subo a sugar seus peitos flácidos, belicosos

mas, ai, que ela implora
- fica, desce, entra, esconde, enterra, fica!

se afoitas de chupar não esquecemos, 'inda mais deliciosos
são os vaga-lúmens de seu cuzinho a anunciar os

crepúsculos dos anéis de saturno.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

poemas traduzidos

m. olwen

Foi publicada na Revista Panorama Cultural de Suecia uma pequena seleção de poemas meus traduzidos por Cândido Rolim.

MIRA!: http://www.panoramacultural.net/?pag=2415

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

um caimento perfeito




minha filha se senta de pernas bem abertas
usa uma calcinha infantil que lhe cobre toda quase nada
esparrama tinta e grãos no chão
se arreganha, se arregala.

combina em tudo com a paisagem:
meia dúzia de livros que logo serão trocados
utensílios de cozinha, duas redes, dois banquinhos
em quase nada tudo cabe
e cabia ainda numa paisagem tribal cheia de corpos nus
brilhantes, suados e lisos
nus a natureza pronta.

da janela bem aberta um espaço outro
paisagem para o nada e sua gente que em tudo não combina dentro
- fecha essas pernas, menina!

junto ao cimento e caos uma pessoa nua de tão pura
exala uma inverdade, um absurdo
por isso toda a gente está coberta de peles artificiais
incríveis botas de pisar o chão doído.

faz sentido.
um mundo que se esvazia para o nada.

volto dentro
a tinta tinge o chão, os grãos, a parede
suas pernas bem abertas
- quer dar uma volta lá fora, pequena?
não.
aqui dentro arde e treme uma outra verdade
que lá fora é invasão, atentado, feiura
corpos fora da des-paisagem.

faz sentido.
dentro é tribo, tecido chão macio pra se morar.

domingo, 28 de dezembro de 2014

pastoral da ribeira

25.12.14

uma casinha incendiada surge no prédio ao lado
o  rio cobre as vigas e pedras e cimento e pó
sob o rio se eriçam casas-lama os homens prontos e um emprego
trilhos e pregos e gente balouçam na casinha incendiada ao lado

afunda os pés de brincar co’ ua nanã que ri o ferro que afunda largo
um afogamento pronto pra uma cidade que nasce com seus homens fortes
na peneira a colher demora a massa e mofa e demora a massa
o fogão de barro submerso no lugar que nasce

acena um oi para a gente que vem incendiada
arde o fogo e a água a pedra e ferro da gente que vem

olha pra a direita         mais adiante
folhas de palmeira pra palhoça um pouquinho de amianto
entulho e câncer e as cabritinhas tão bonitinhas ó as galinhas
cisca cisca cisca

ôôôôôôôôôôô
camisas numeradas regatas largas e de manguinhas

uma cidade emerge submersa
uma ponte metálica de madeira uma ponte
escaiada caiada com luzinhas pra piscar e muda muda
olha a novacor de dez em dez segundos

um conjunto habitacional popular há quase cem quilômetros
da gente que levanta e nasce uma cidade submersa
sete prediozinhos de três andares pra amontoar a gente
saída de uma favela onde se gritar um estádio de futebol

ôôôôôôôôôôô

uma cidade surge submersa no prédio ao lado
é tanta gente é tanta gente e tudo que sente e faz a gente

incendeia, amor

incendeia

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Traduções - Oscar Hahn



Foram publicadas algumas traduções de Tratado de Sortilégios, do poeta chileno Óscar Hahn, antologia com seleção e prefácio de Mario Meléndez Muñoz e tradução e posfácio de Nina Rizzi a ser publicada em 2015. Enquanto não chega, lá vai a prévia nos sítios abaixo:


Óscar Hahn, in: Germina - Revista de Literatura & Arte

A morte aos pés da poesia, Oscar Hahn, in: Revista Literária em Tradução 9º

Torre de Babel - dois poemas, Oscar Hahn, in: Revista Cult, 194

Torre de Babel - quatro poemas, Oscar Hahn, in: Zunái - Revista de Poesia e Debates 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

em lugar de documento com foto

raio-x

 perdi a prova de seleção e fui jogar candy crush
nunca joguei candy crush mas lembro ano passado quando precisei
fazer um aborto e esperava a assistente social a psicóloga e o vendedor
de remédios esperava ao meu lado a jogar candy crush
e ficava bem puto porque a próxima vida só viria em 29 minutos
comecei a pensar nas pedrinhas explodindo como um último suspiro
e a senhora doutora muito sabida com seu lattes invejável
pra quem é dado à invejas dos lattes essa gente que diz você sabe
quem eu sou e o meu lattes tem 9 páginas como eu vou saber que você
é você e as pedrinhas explodindo sim ela tem razão eu também não sei
saber como eu sou eu mas olha o documento não ajudava muito um
nome que eu nem uso uma família que nem tenho e essa frase tão bonita
como eu vou saber que você é você é tão poesia
minha filha isso é concurso público não isso já não é poesia qualquer
coisa como ‘empregadinhos de repartições públicas/ raquíticos/ sifilíticos’
isso é poesia minha tia e não tem uma vida daqui 29 minutos
 junto minhas 2 bananas amassadas no rascunho amassado
com o parágrafo que o bonitão me passou ontem é literatura social vista
como história social é por aí manja tudo amassado com as cascas das 2
bananas pretas e que palavras bonitas gramacho é uma palavra bonita
e altamira admá e zeboim e os meus índios são também tão bonitos
e esquecidos esquecidos como esse meu documento que não serve
pra nada que não seja me perder uma prova e que não faz falta quando
um amigo me manda uns 200 ou 300 paus e quando eu digo eu sou eu
fico pensando nesse meu amigo tão bonito todo torto todo todo  
como será viver num poema de nome bonito de todos os santos
de todos os fodidos como será escrever um poema onde se morar
onde não ter documento com um nome amarildo um nome cláudia
um poema sem nome sem concursos sem candy crush e as doutoras
um aborto é muito sério como você pode ser atacada que falta de juízo
no benfica e seus becos à essa hora e os doutores muito sabidos
uma cidade com muitos 200 ou 300 paus e um amigo que me apareça
às 11 pra salvar o dia pra te dar uma alegria santa nina pinta e maria
e a gente ri e tudo é gargalhada e gozo pelos olhos é só paixão amor
e eu não encarno em você só nas negas lindas todas pra te comer
até o cu fazer bico e você volta pros domingos com a casa cheia
a família tão feliz a cidade tão quieta mais prosa que poema volta
enquanto caminho 12 minutos ouvindo que a diversão é na frente
da tevê hdtv e rio ora mais 12 minutos e enfim me deito pensando
pensando num poema que seja mais que fluxionismo nos hollow men

e ria eliot no candy crush as pedras explodem como um último suspiro

domingo, 16 de novembro de 2014

ivonka

"mas eu sou sim vivíssima 
cá dentro

como se a gente que eu sou
ausente e esquiva
fosse o duplo de uma outra

que não pode nunca se ver"

ELLENISMOS LIVROS APRESENTA:
IVONKA, de Nina Rizzi



Leia na rede, imprima, downloade-se!
http://issuu.com/ninarizzi/docs/ivonka

terça-feira, 21 de outubro de 2014

o poeta de qui l' query-esborrat


 o poeta de qui l' query-esborrat nasceu na somália
- qui l' query-esborrat é mais um nome que soa
muito bem num poema pronto a ser esquecido –
muito em breve o poeta qui l' query-esborrat
não será um poeta nascido na somália
a somália será um cemitério de ossos
varrido para o nunca
a somália nunca terá existido como nunca existiu
qui l' query-esborrat e o poeta de qui l' query-esborrat

o poeta nasceu pronto a ser esquecido
como a somália atlântida palmyra heracleion  ou o sergipe
- o sergipe que só apareceu no horário eleitoral
como chiste por estar à frente do ceará em programas
de habitação cultura e renda –
o poeta de qui l' query-esborrat tem um nome
como arias rolim calixto mombaça cervan lima vinhas
o poeta pronto a ser esquecido não goza ou agoniza
do nada que sabe sabe que o poeta é mínimo
mas o poema o poema voará com qui l' query-esborrat
a imobilizar os países do futuro as mãozinhas mesquinhas

o poeta de qui l' query-esborrat meteu um balaço
direto no tempo na história na verdade nos tratados
nas ciências teologias títulos e virtudes
um balaço com um riso um poema vivo


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

noturno, variegação pra te chamar de c.

sua despalavra é tamanha qu'inda saciada
esganiçada redundo: mais, mais, mais.

é tanta, que me bastava ser - mar, rizzi, rio
entredentes, fios de anansi, ariadne

uivo: reprise.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

no slmg



Saiu no Suplemento Literário Minas Gerais, ed. Julho/Agosto 2014, um ensaio do Cândido Rolim sobre minha poesia

E como sempre o SLMG tá recheado de coisas bacanas como lemos já no Editorial: "Duas datas importantes para a Literatura são comemoradas neste número: o meio século de Literatura de Benito Barreto e o centenário de nascimento de Julio Cortázar [... e ainda] Um ensaio do premiado escritor porto-riquenho Eduardo Lalo, em tradução de Letícia Malloy, discorre sobre regiões e povos pouco conhecidos, cuja cultura merece ser divulgada. Apresentamos também contos de Eloésio Paulo, Lucienne Samôr e Ronaldo Cagiano, além de poemas de João Paulo Gonçalves, Lu Menezes e Ana Elisa Ribeiro [...]" E a imagem linda-lindíssima acima é arte de capa, de Maria José Fonseca.

Para ler na rede é só clicar aqui!; e no 'mediafire', pra quem preferir baixar, aqui! :))

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

hombre con minotauro en el pecho: tradução


Foi publicado na CISMA - Revista de crítica literária e tradução da graduação em Letras da USP -, minha tradução para "Hombre con minotauro en el pecho", do escritor mexicano Enrique Serna. O que posso dizer sobre este conto é que éum dos melhores que já li e foi uma delícia traduzir; e que não há nada mais kafkaniano desde Franz Kafka, e foi ainda mais delícia traduzir. No mais, tenho também minha mutatis mutandis: 'quem não ler não vai ter assunto comigo nessa vida' e nem na próxima! ;-)


HOMEM COM MINOTAURO NO PEITO

'Vou contar a história de um menino que pediu um autógrafo a Picasso. Como todo mundo sabe, no início dos anos 1950 Picasso vivia em Cannes e todas as manhãs tomava sol na praia de Californie. Seu passatempo favorito era jogar com os meninos que faziam castelos de areia. Um turista, notando como ele desfrutava da companhia infantil, mandou seu filho para lhe pedir um autógrafo. Depois de ouvir o pedido do menino, Picasso olhou com desprezo o homem que o usava como intermediário. Se havia algo que detestava na fama era a gente que comprava sua marca e não seus quadros. Fingindo-se cativado pela graça do menino, solicitou ao pai que lhe permitisse levá-lo ao seu estúdio para lhe fazer um desenho. O turista deu seu consentimento de mil amores e meia hora depois viu regressar seu filho com um minotauro tatuado no peito. Picasso lhe havia concedido a assinatura que tanto ansiava, mas impressa na pele do menino, para impedi-lo de comerciar com ela.

Esta é, mutatis mutandis, a anedota que narram os biógrafos do pintor malaguenho.'

CONTINUE A LER AQUI!




quarta-feira, 2 de julho de 2014

hollie

'era quando a gente parava
naquele silêncio de morte
- uma morte tão bonita e breve'

Depois de 'Claire'
Ellenismos Livros apresenta:

HOLLIE, de Nina Rizzi


Leia na rede, imprima, downloade-se!
Aqui: http://issuu.com/ninarizzi/docs/hollie

terça-feira, 1 de julho de 2014

em outras paragens...



'correspondências na ilha de morel', prosa nonsense lá no Confraria do Vento!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

outro estudo para dois espaços



ex-voto


enquanto as pessoas


 estão na sala de jantar


eu lembro 


e ouço 


suas mãos
*

[Fotografias de Helena Almeida, série Estudo para Dois Espaços, 1977. Museu Coleção Berardo, Lisboa]

quinta-feira, 19 de junho de 2014

claire

'era bom até o medo
de fazer amor com Claire'

ELLENISMOS LIVROS APRESENTA:
CLAIRE, de Nina Rizzi



Leia na rede, imprima, downloade-se!
http://issuu.com/ninarizzi/docs/claire