quinta-feira, 23 de julho de 2015

otro recuérdo sín berguencia


meio litro de açaí e mamão da terra
castanhas, tapiocas, brigadeiros


ou goiabas, ou pimentas:
entrada pros nossos escassos encontros idos.

eu, sua buceta, seu cuzinho

éramos prato principal e sobremesa.

lambíamos os beiços. 

lembra?

conrad roset



terça-feira, 23 de junho de 2015

a hora das cigarras

Fotografia de Katyuscia Carvalho

É possível ouvir alguns de meus poemas de tambores pra n'zinga no programa A Hora das Cigarras (disponível online, clique!), com curadoria e realização de José Eduardo Agualusa.
 O programa é da rádio portuguesa RDP-África  –, com uma programação baseada na música, na informação, na cultura e no desporto. No plano da informação funciona em dois sentidos, levando para Portugal uma ampla informação sobre a realidade africana e levando para África informação portuguesa, do mundo, da comunidade africana residente em Portugal, e população portuguesa em África.

 A música é maioritariamente africana, sobretudo dos PALOP, das kizombas ao kuduro, da morna ao funaná, e portuguesa, ligeira e popular, embora também esteja aberta a toda a música de expressão portuguesa e outros ritmos, como a brasileira os afro-americanos e latino-americanos.

No programa do dia 08/06/15:

Poesia de Nina Rizzi. Música: Maria Bethânia, Zeca Baleiro, Andreia Dias, Marcelo Santana, Dona Onete, Emília Monteiro, Dinho Nascimento, Moacyr Luz, Armando Marçal, Mariene de Castro.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

uma pequena citação é uma imensidão é uma imensidão é uma imensidão

Jornal O Globo, 30 de maio, 2015.
Clique na imagem para ampliar ;-)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

"a resitência e o cotidiano" - no portal vermelho

A Letras Vermelhas desta semana traz a obra de Nina Rizzi, a poeta paulista radicada em Fortaleza. Escritora, historiadora e arte-educadora, Nina escreve sobre a resistência, cotidiano e as pessoas comuns.


Com dois livros publicados: tambores pra n’zinga e A Duração do Deserto, Nina também costuma publicar seus textos e poemas também em antologias, revistas em páginas na internet, entre elas Zunái e Germina.

Veja alguns poemas de Nina Rizzi: 


clique aqui para continuar a ler no Portal vermelho!

sábado, 18 de abril de 2015

de comer e saltar cambalhotas sobre o muro, uma água morna pra me cobrir os cornos



escolho maçãs entre as muitas fileiras e carrinhos e as muitas gentes que vão ao mercado sábado de manhã. escolho maçãs as mais escuras e não argentinas, escuras por fora, não por dentro que ainda não se pode ver. seria bom morder a maçã e só então decidir-se a levar ou não levar, mas não é assim que segue a lógica dos mercados e nem mesmo das feiras. enquanto danço os dedos com uma maçã não tão vermelha, não tão triscada lembro que hoje era dia de feira agroecológica. detenho-me por um instante, deixo as maçãs rolarem na esteira e subo 5 ou 6 quadras em busca de frutas muito mais frescas - é a promessa não se sabe se a realidade. mas não, lembro do homem muito triste que fica no caixa e o procuro entre os amontoados. está lá. fico remexendo as maçãs e penso nessa fronteira que nos separa: um homem triste com vocação para alegre e eu um benedetti, alegre com vocação para triste, ou tudo o contrário se é verdade, a ordem dos fatores não altera o resultado.
(lembro-me dos muros e fronteiras que falava o homem num português aturdido, num jeito sem-jeito, como quem acabasse de sair da cama e tivesse uma plateia morna à sua frente. sem-jeito como a mulher que nos ciceroneia a todos, com tanto atraso e dizendo que iremos nos atrasar ainda mais. tudo aqui é um atraso, a palestra sobre como se controla a violência em medellín e no recife e eu nem lá; a criança que quer brincar e gritar e dizer em alemão eu sou maravilhosa; a poeira que se espera espanar para dar brilho às coisas todas. e tudo tão sem brilho, a mulher que chega tão sem-jeito arrebatada como quem tivesse acabado de deixar a cama e nos deixa suas imagens em projeção e os olhos teimam em ler essa anti-ética e lemos todos ‘minha muito querida c.’ e tantas vezes a palavra muro e fronteiras. essa fronteira que se nos coloca o palco, um homem grande e desajeitado numa cadeira desajeitada e o vão terrível entre o tablado e o chão, entre o chão e nossas cadeiras confortabilíssimas que ele tem razão, quase dormimos e não se pode ouvir mais nada além de um boa noite, muito embora seu desajeitamento diga boa-tarde. ainda é tarde para eles, numa praia com algum nome auspicioso, num quarto de um hotel mal-cheiroso onde do banheiro se pode ver os telhados e calhas e canos e onde tudo isso vai dar. eu poderia ter dito a minha fronteira, essa que nos separa a boca, o corpo, as bundas tão fofinhas e famintas como laocoonte e os filhos esfaimados. mas penso antes na avenida do hotel essa fronteira entre uns miseráveis do morro, não uma favela clássica, mas ainda uma favela e sua gente que desaba com a chuva, santa terezinha, e na outra margem o hotel e sua gente tão rica, tão requintada. mas nada digo, quero me aninhar ao homem ao meu lado que acaba de chegar da frança e da frança eu só sei o que me chega pela gallimard e aqueles biscoitos e a torre e tudo isso que li, ontem, ano passado, sabe quando as fronteiras da minha memória. não digo coisa, mas abraço o homem quando todos se vão e ele diz que sim, espera que eu esteja logo num país de língua enrolada, de cujos músculos da língua vão acostumar-se a mim. eu espero mais, é claro. e vou embora sem dizer coisa, como quem fica em cima do muro ajeitando o melhor salto.)
6 maçãs não devem ser lá tão caro e então posso passear pelos renques e olhar toda a gente e que cara tem seu sábado. a velhinha com goma de tapioca, presunto e queijo, uns homens muito musculosos e umas cervejas, uma mocinha com recheados e refrigerantes. as mãos do homem triste, os olhos do homem triste, o crachá com seu nome destino, sim, joão, você deve ter a cabeça arrancada, mas meu nome é casa e não salomé. fico na fila do homem triste, todas as outras vazias e é bom assim, esperar, contrariando a mim mesma e a roupa que me espera atrasada, um livro que me espera atrasado, este texto que não me espera que há ainda muito a reverberar quatro ou cinco dias pegada na sala, dois dias pegada no chão do hotel, na cama do hotel, no banheiro do hotel onde se pode ver cada entranha de cimento e cal. uma água morna pra me cobrir os cornos. trazendo um pouco de alegria à essa vidinha tão besta de quem só registra preços pra o patrão, sensualizo com a tristeza de joão, como coisa que se não faço dói-me o corpo, ele diz que meu sorriso melhora a sua manhã tacanha. e eu prometo voltar às 5 e um quarto pra que se melhore também a noite. mas não volto que não posso lhe arrancar a cabeça, uma fronteira entre meu nome casa e o nome salomé.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

um copo de vinho pedido na vertical


senhor v. tem razão, há coisas muito miudinhas a que vamos a nos tornar, nos apegar.
gosto, por exemplo, de reler ‘manhãs desperdiçadas’, dá vontade de comprar cigarros industrializados e fumar, fumar, fumar, até poder arrancar o cancro na unha.
há coisas ainda bem mais miúdas, como a frase ‘está um frio a mais’. um frio a mais também é um cancro que me cresce na garganta, o desejo de uma pastilha muito fina sobre a língua pastosa da manhã.
(detenho-me na primeira frase – e não sei que diabos fazer. decido-me a tomar um carro de aluguel e ir até à praia. levanto as mãos bem alto para trazer a chuva mais pra perto, como nos pés molhados e o suor no solado de borracha gasta. decido-me a subir quatro léguas ao mar e ver a manhã nublada na água a abrir o mais fundo o corpo e ainda mais. ali um riso, ali uns dentes e ali umas palmas muito contidas de quem quer bater e não bate. decido-me os rasgos e desvios. 11h30 não parece uma boa hora para dizer o que não pode ser concreto, uns filhos a cuidar, uma gente a cuidar e toda gente se conhece. decido-me a outro carro de aluguel e um mortal-triplo pela chuva acima.)
há ainda coisas graúdas a que não se deter, senhor v., o caroço da manga no prato, o caroço do abacate no prato, uma chávena imensa que não deveria se dizer chávena cheia de xocoatl bem quente. esse cancro que me sobe ao céu da boca.
a senhora do almoço pensa, um conto do pavese com o nome da ex-mulher que já é de novo sua mulher e então é isso: o amor nos distrai a todos das importâncias e nos torna tão delicados e tristes. coisas muito graúdas - e também das desimportâncias que não estão no roteiro, é certo. e já a altura de dizer não, um rimbaud imenso de graúdo se nos coloca no peito, com toda delicadeza.
a mochila pesa. 500 gramas da primeira carta de sêneca e sua urgência. 200 gramas de um calixto e sua morfina. a mochila é um aglutinador do tempo, eles vivem esse meu tempo desperdiçado, vivem eles o meu mesmo tempo. tenho cá os dois e um espaço entre eles, o que é este espaço desperdiçado? um movimento que não faço, um acontecimento é o que meus dedos tocam, o que me veem os olhos.
a senhora do almoço me deu a importância de um corpo inteiro. um copo de vinho pedido na vertical. e coisas muito miúdas e coisas muito graúdas. detemo-nos na distração?



domingo, 29 de março de 2015

ESME



"... acordei com você
Esme
e tinha o oco imenso entre as pernas
// dança pra mim
te dou gota a gota meus hormônios 
// era tanto constrangimento o seu volume me roçando
não me tire isso
// menstrue pelos lábios"

Depois de 'Claire, Hollie e Ivonka'
Ellenismos Livros apresenta:
ESME, de Nina Rizzi

Leia na rede, imprima, downloade-se!
http://issuu.com/ninarizzi/docs/esme

segunda-feira, 23 de março de 2015

forse non sono i miei fiumi




na ibiapaba se esconde o gameleira a 1,5 km da trilha da samambaia
da br 222 só se mostra o oiticica quando chove.

pra tocar os pés os rios há-que ter
mais que duas pernas

e eu nunca vi do sertão o oiticica
da serra o gameleira.

[ma vado a  vogliar
madonna di tutti fiume. e la vostra.]

2013


quarta-feira, 18 de março de 2015

das coisas que fazemos juntos

seu aniversário, por exemplo
e a comemoração da independência da guiné-bissau.
ele aparecia e seus olhos se perdiam nas estantes de livros e em tudo que nada dizia.
me desequilibrava
é porque você só come. dorme e come e dorme. fica aí engordando.
então me agarrava pelos peitos e me virava, arriava a calça e a calcinha tão minúscula
você me deixa louco com essa bunda enorme.
mais nada dizia. só se me enfiava o pau enorme de curta performance
gozava e corria a se lavar.
chorava, divagava
você é poeta. chorar à toa é coisa de poeta
vê como precisa de mim. goza tanto comigo.
faço uma cara de desconcerto
nunca consigo dizer palavra a esse homem, assim os dentes rangendo.
goza sim, tá escorrendo pelas suas pernas.
abafa um meu risogemido enfiando o pau na minha goela
me dá um filho. eu quero um filho.
corre pra se lavar com nojo da minha boca assim tão aberta.

lembro quando nos vimos a primeira vez
você é hetero?
depende do que vier
ahn?
nuvens, árvores...
e prometia todo suor de séculos de escravidão
pensava num derramado equívoco de quem nunca trepou
das mentiras que me conto pra me mutilar
sexo é bom até quando é ruim.

das coisas que fazemos juntos

duas datas em setembro. não somos rosas, nada mais.

'holy motors', leos carax/ 2012.

sexta-feira, 13 de março de 2015

POEMA SOBRE A LÁPIDE DE GIUSEPPE RIZZI


- ouvindo Leil, Malek Jandali -

Nunca podia estar aos pés da Deusa que me disse
- em silêncio ouço esta canção, e quisera ter cabeza e ouvidos queimados pela [radiação
do demasiado humano, da madrasta, de Francis Bacon -

Disse: e sempre serei sincera. Como pudesse a frase guardar uma primeva
verdade que busco - essa página em branco que me permite
bazófias tantas, reciclagens e o doloroso pasme - impossível.

O imponderável, estar aos seus pés, quando do mar era um cuspe vomitado 
[por ser morno;
Das verdades infindas à Cecília - nome que invento para tudo o que possa ser
Belo e Sublime -, essa casca pegada às palavras.

Mas acredite, quando tomo por oferenda a Dedução de Maikóvski: Amo firme, fiel, e [verdadeiramente


- nossas almas claríssimas, jogadas uma à outra, pelo obscuro mistério.

leituras possíveis, 4



"[...] Então, por mais que o ponto de partida da poeta seja triste, Rizzi é uma poeta resoluta e, à maneira do Gullar participante, que transformava a bruta matéria bruta de seu tempo em poesia e melhores dias, Rizzi consegue fazer o mesmo e com um processo análogo: o da resistência, o da esperança. Não sendo, desse modo, nem um pouco espantoso o fato de que um livro que começa com uma imagem da poesia enquanto ato doloroso, seja todo ele delicado [...]"

Matheus De Souza Almeida faz em seu blogue um trabalho hercúleo de historiografia e comentários de crítica literária; neste longo ensaio, logo na primeira parte nos dá a entender que crítica é esta, para então se deter - tão dedicada e atentamente - à minha poesia, desde os primeiros textos não coligidos em livro, passando pelos dois livros e alguns vídeopoemas. Só posso ser grata a tanto zelo com sua-minha leitura, e da literatura em geral. 

Quem tiver fôlego, siga-me com um beijo:

http://formasfixas.blogspot.com.br/2015/03/acerca-da-obra-de-nina-rizzi.html

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

libri lectum paratus




canção pra foder nathália

vou devassar a cona de nathália
a dedos, língua, cruz e souza

se rapidinho não me demora
subo a sugar seus peitos flácidos, belicosos

mas, ai, que ela implora
- fica, desce, entra, esconde, enterra, fica!

se afoitas de chupar não esquecemos, 'inda mais deliciosos
são os vaga-lúmens de seu cuzinho a anunciar os

crepúsculos dos anéis de saturno.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

poemas traduzidos

m. olwen

Foi publicada na Revista Panorama Cultural de Suecia uma pequena seleção de poemas meus traduzidos por Cândido Rolim.

MIRA!: http://www.panoramacultural.net/?pag=2415

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

um caimento perfeito




minha filha se senta de pernas bem abertas
usa uma calcinha infantil que lhe cobre toda quase nada
esparrama tinta e grãos no chão
se arreganha, se arregala.

combina em tudo com a paisagem:
meia dúzia de livros que logo serão trocados
utensílios de cozinha, duas redes, dois banquinhos
em quase nada tudo cabe
e cabia ainda numa paisagem tribal cheia de corpos nus
brilhantes, suados e lisos
nus a natureza pronta.

da janela bem aberta um espaço outro
paisagem para o nada e sua gente que em tudo não combina dentro
- fecha essas pernas, menina!

junto ao cimento e caos uma pessoa nua de tão pura
exala uma inverdade, um absurdo
por isso toda a gente está coberta de peles artificiais
incríveis botas de pisar o chão doído.

faz sentido.
um mundo que se esvazia para o nada.

volto dentro
a tinta tinge o chão, os grãos, a parede
suas pernas bem abertas
- quer dar uma volta lá fora, pequena?
não.
aqui dentro arde e treme uma outra verdade
que lá fora é invasão, atentado, feiura
corpos fora da des-paisagem.

faz sentido.
dentro é tribo, tecido chão macio pra se morar.