terça-feira, 30 de dezembro de 2014

um caimento perfeito




minha filha se senta de pernas bem abertas
usa uma calcinha infantil que lhe cobre toda quase nada
esparrama tinta e grãos no chão
se arreganha, se arregala.

combina em tudo com a paisagem:
meia dúzia de livros que logo serão trocados
utensílios de cozinha, duas redes, dois banquinhos
em quase nada tudo cabe
e cabia ainda numa paisagem tribal cheia de corpos nus
brilhantes, suados e lisos
nus a natureza pronta.

da janela bem aberta um espaço outro
paisagem para o nada e sua gente que em tudo não combina dentro
- fecha essas pernas, menina!

junto ao cimento e caos uma pessoa nua de tão pura
exala uma inverdade, um absurdo
por isso toda a gente está coberta de peles artificiais
incríveis botas de pisar o chão doído.

faz sentido.
um mundo que se esvazia para o nada.

volto dentro
a tinta tinge o chão, os grãos, a parede
suas pernas bem abertas
- quer dar uma volta lá fora, pequena?
não.
aqui dentro arde e treme uma outra verdade
que lá fora é invasão, atentado, feiura
corpos fora da des-paisagem.

faz sentido.
dentro é tribo, tecido chão macio pra se morar.

domingo, 28 de dezembro de 2014

pastoral da ribeira

25.12.14

uma casinha incendiada surge no prédio ao lado
o  rio cobre as vigas e pedras e cimento e pó
sob o rio se eriçam casas-lama os homens prontos e um emprego
trilhos e pregos e gente balouçam na casinha incendiada ao lado

afunda os pés de brincar co’ ua nanã que ri o ferro que afunda largo
um afogamento pronto pra uma cidade que nasce com seus homens fortes
na peneira a colher demora a massa e mofa e demora a massa
o fogão de barro submerso no lugar que nasce

acena um oi para a gente que vem incendiada
arde o fogo e a água a pedra e ferro da gente que vem

olha pra a direita         mais adiante
folhas de palmeira pra palhoça um pouquinho de amianto
entulho e câncer e as cabritinhas tão bonitinhas ó as galinhas
cisca cisca cisca

ôôôôôôôôôôô
camisas numeradas regatas largas e de manguinhas

uma cidade emerge submersa
uma ponte metálica de madeira uma ponte
escaiada caiada com luzinhas pra piscar e muda muda
olha a novacor de dez em dez segundos

um conjunto habitacional popular há quase cem quilômetros
da gente que levanta e nasce uma cidade submersa
sete prediozinhos de três andares pra amontoar a gente
saída de uma favela onde se gritar um estádio de futebol

ôôôôôôôôôôô

uma cidade surge submersa no prédio ao lado
é tanta gente é tanta gente e tudo que sente e faz a gente

incendeia, amor

incendeia

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Traduções - Oscar Hahn



Foram publicadas algumas traduções de Tratado de Sortilégios, do poeta chileno Óscar Hahn, antologia com seleção e prefácio de Mario Meléndez Muñoz e tradução e posfácio de Nina Rizzi a ser publicada em 2015. Enquanto não chega, lá vai a prévia nos sítios abaixo:


Óscar Hahn, in: Germina - Revista de Literatura & Arte

A morte aos pés da poesia, Oscar Hahn, in: Revista Literária em Tradução 9º

Torre de Babel - dois poemas, Oscar Hahn, in: Revista Cult, 194

Torre de Babel - quatro poemas, Oscar Hahn, in: Zunái - Revista de Poesia e Debates 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

em lugar de documento com foto

raio-x

 perdi a prova de seleção e fui jogar candy crush
nunca joguei candy crush mas lembro ano passado quando precisei
fazer um aborto e esperava a assistente social a psicóloga e o vendedor
de remédios esperava ao meu lado a jogar candy crush
e ficava bem puto porque a próxima vida só viria em 29 minutos
comecei a pensar nas pedrinhas explodindo como um último suspiro
e a senhora doutora muito sabida com seu lattes invejável
pra quem é dado à invejas dos lattes essa gente que diz você sabe
quem eu sou e o meu lattes tem 9 páginas como eu vou saber que você
é você e as pedrinhas explodindo sim ela tem razão eu também não sei
saber como eu sou eu mas olha o documento não ajudava muito um
nome que eu nem uso uma família que nem tenho e essa frase tão bonita
como eu vou saber que você é você é tão poesia
minha filha isso é concurso público não isso já não é poesia qualquer
coisa como ‘empregadinhos de repartições públicas/ raquíticos/ sifilíticos’
isso é poesia minha tia e não tem uma vida daqui 29 minutos
 junto minhas 2 bananas amassadas no rascunho amassado
com o parágrafo que o bonitão me passou ontem é literatura social vista
como história social é por aí manja tudo amassado com as cascas das 2
bananas pretas e que palavras bonitas gramacho é uma palavra bonita
e altamira admá e zeboim e os meus índios são também tão bonitos
e esquecidos esquecidos como esse meu documento que não serve
pra nada que não seja me perder uma prova e que não faz falta quando
um amigo me manda uns 200 ou 300 paus e quando eu digo eu sou eu
fico pensando nesse meu amigo tão bonito todo torto todo todo  
como será viver num poema de nome bonito de todos os santos
de todos os fodidos como será escrever um poema onde se morar
onde não ter documento com um nome amarildo um nome cláudia
um poema sem nome sem concursos sem candy crush e as doutoras
um aborto é muito sério como você pode ser atacada que falta de juízo
no benfica e seus becos à essa hora e os doutores muito sabidos
uma cidade com muitos 200 ou 300 paus e um amigo que me apareça
às 11 pra salvar o dia pra te dar uma alegria santa nina pinta e maria
e a gente ri e tudo é gargalhada e gozo pelos olhos é só paixão amor
e eu não encarno em você só nas negas lindas todas pra te comer
até o cu fazer bico e você volta pros domingos com a casa cheia
a família tão feliz a cidade tão quieta mais prosa que poema volta
enquanto caminho 12 minutos ouvindo que a diversão é na frente
da tevê hdtv e rio ora mais 12 minutos e enfim me deito pensando
pensando num poema que seja mais que fluxionismo nos hollow men

e ria eliot no candy crush as pedras explodem como um último suspiro

domingo, 16 de novembro de 2014

ivonka

"mas eu sou sim vivíssima 
cá dentro

como se a gente que eu sou
ausente e esquiva
fosse o duplo de uma outra

que não pode nunca se ver"

ELLENISMOS LIVROS APRESENTA:
IVONKA, de Nina Rizzi



Leia na rede, imprima, downloade-se!
http://issuu.com/ninarizzi/docs/ivonka

terça-feira, 21 de outubro de 2014

o poeta de qui l' query-esborrat


 o poeta de qui l' query-esborrat nasceu na somália
- qui l' query-esborrat é mais um nome que soa
muito bem num poema pronto a ser esquecido –
muito em breve o poeta qui l' query-esborrat
não será um poeta nascido na somália
a somália será um cemitério de ossos
varrido para o nunca
a somália nunca terá existido como nunca existiu
qui l' query-esborrat e o poeta de qui l' query-esborrat

o poeta nasceu pronto a ser esquecido
como a somália atlântida palmyra heracleion  ou o sergipe
- o sergipe que só apareceu no horário eleitoral
como chiste por estar à frente do ceará em programas
de habitação cultura e renda –
o poeta de qui l' query-esborrat tem um nome
como arias rolim calixto mombaça cervan lima vinhas
o poeta pronto a ser esquecido não goza ou agoniza
do nada que sabe sabe que o poeta é mínimo
mas o poema o poema voará com qui l' query-esborrat
a imobilizar os países do futuro as mãozinhas mesquinhas

o poeta de qui l' query-esborrat meteu um balaço
direto no tempo na história na verdade nos tratados
nas ciências teologias títulos e virtudes
um balaço com um riso um poema vivo


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

noturno, variegação pra te chamar de c.

sua despalavra é tamanha qu'inda saciada
esganiçada redundo: mais, mais, mais.

é tanta, que me bastava ser - mar, rizzi, rio
entredentes, fios de anansi, ariadne

uivo: reprise.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

no slmg



Saiu no Suplemento Literário Minas Gerais, ed. Julho/Agosto 2014, um ensaio do Cândido Rolim sobre minha poesia

E como sempre o SLMG tá recheado de coisas bacanas como lemos já no Editorial: "Duas datas importantes para a Literatura são comemoradas neste número: o meio século de Literatura de Benito Barreto e o centenário de nascimento de Julio Cortázar [... e ainda] Um ensaio do premiado escritor porto-riquenho Eduardo Lalo, em tradução de Letícia Malloy, discorre sobre regiões e povos pouco conhecidos, cuja cultura merece ser divulgada. Apresentamos também contos de Eloésio Paulo, Lucienne Samôr e Ronaldo Cagiano, além de poemas de João Paulo Gonçalves, Lu Menezes e Ana Elisa Ribeiro [...]" E a imagem linda-lindíssima acima é arte de capa, de Maria José Fonseca.

Para ler na rede é só clicar aqui!; e no 'mediafire', pra quem preferir baixar, aqui! :))

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

hombre con minotauro en el pecho: tradução


Foi publicado na CISMA - Revista de crítica literária e tradução da graduação em Letras da USP -, minha tradução para "Hombre con minotauro en el pecho", do escritor mexicano Enrique Serna. O que posso dizer sobre este conto é que éum dos melhores que já li e foi uma delícia traduzir; e que não há nada mais kafkaniano desde Franz Kafka, e foi ainda mais delícia traduzir. No mais, tenho também minha mutatis mutandis: 'quem não ler não vai ter assunto comigo nessa vida' e nem na próxima! ;-)


HOMEM COM MINOTAURO NO PEITO

'Vou contar a história de um menino que pediu um autógrafo a Picasso. Como todo mundo sabe, no início dos anos 1950 Picasso vivia em Cannes e todas as manhãs tomava sol na praia de Californie. Seu passatempo favorito era jogar com os meninos que faziam castelos de areia. Um turista, notando como ele desfrutava da companhia infantil, mandou seu filho para lhe pedir um autógrafo. Depois de ouvir o pedido do menino, Picasso olhou com desprezo o homem que o usava como intermediário. Se havia algo que detestava na fama era a gente que comprava sua marca e não seus quadros. Fingindo-se cativado pela graça do menino, solicitou ao pai que lhe permitisse levá-lo ao seu estúdio para lhe fazer um desenho. O turista deu seu consentimento de mil amores e meia hora depois viu regressar seu filho com um minotauro tatuado no peito. Picasso lhe havia concedido a assinatura que tanto ansiava, mas impressa na pele do menino, para impedi-lo de comerciar com ela.

Esta é, mutatis mutandis, a anedota que narram os biógrafos do pintor malaguenho.'

CONTINUE A LER AQUI!




quarta-feira, 2 de julho de 2014

hollie

'era quando a gente parava
naquele silêncio de morte
- uma morte tão bonita e breve'

Depois de 'Claire'
Ellenismos Livros apresenta:

HOLLIE, de Nina Rizzi


Leia na rede, imprima, downloade-se!
Aqui: http://issuu.com/ninarizzi/docs/hollie

terça-feira, 1 de julho de 2014

em outras paragens...



'correspondências na ilha de morel', prosa nonsense lá no Confraria do Vento!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

outro estudo para dois espaços



ex-voto


enquanto as pessoas


 estão na sala de jantar


eu lembro 


e ouço 


suas mãos
*

[Fotografias de Helena Almeida, série Estudo para Dois Espaços, 1977. Museu Coleção Berardo, Lisboa]

quinta-feira, 19 de junho de 2014

claire

'era bom até o medo
de fazer amor com Claire'

ELLENISMOS LIVROS APRESENTA:
CLAIRE, de Nina Rizzi



Leia na rede, imprima, downloade-se!
http://issuu.com/ninarizzi/docs/claire

quinta-feira, 8 de maio de 2014

assombro, traduções

WRITING TO THE ODDS

Go down.
Go down even more.

This place, or Tsárskoie Seló , or East Coker,
is always dark after midnight.
Darkness (lives) in the ground and walls and stone.
(You do not yet know the darkness of the wind and water
and the good savage never would have existed had he stepped
and seen the ground and walls and stones)

Go down.
Go down even more.

The cold has gone and each piece of place
is eaten by time. It is a sorrowful place
Yesterday, stone. Today, stone and never
the same. Standing in front of the varied look and your descent.

Go down.
Go down even more.

What does it matter if the coat does not cover you well and
all the varied looks are the same?
The beings pass with their inhumanities and diseases, and many
are like yours. The normal thing is that which moves away from them.
And it makes a mockery, a buzz, or not even this
like the new moon in the silence of dawn.

Go down.
Go down even more.

Until not even a tooth exists in the darknss.
Paltry! Vile! Make yourself of cement and steel
from places that do not exist.
Transmute everything that they made you.
The great civilization and culture. Spread yourself
through time........
Today is one more day.
Go down.
Go down even more.

Accid, insidious until all the miracle is barefoot
– the speaking, the creaking of stones
Any drop of tear as a cold blade
The heat of one and another hand.

Go down.
Go down even more.

Talk to the shadows, to the disqualified of the sidewalks
to the one who agonizes in a house in flames, slag and alone.
Count the crammed of skin and bones
and the rotten flesh of the minor secrets
– The smallest, the invisible, these centuries of History, Dust.

Go down.
Go down even more.

With the can, the ashes, the lighter and the spoon
the burnt lips and the exposed blood
Be minimum, acute, low-city.

Then, go up
It's oneself. Of cold and darkness and solitude.
Abyssal and it can be Great.

- THE DURATION OF THE DESERT; trad. Tom Jones [o poema original/português pode ser lido aqui!]
*


að elska þig, undrun

vatn og salt eru augu mín.
auðn er að bíða þín.

[TÍMALENGD AUÐNARINNAR; trad. para o islandês de Luciano Dutra]


te amar, assombro

água e sal são meus olhos.
deserto é te esperar.


[A DURAÇÃO DO DESERTO, Nina Rizzi; Ed. Patuá, 2014.]

- João Victor Cheng (nome brasileiro de meu aluno chinês), fez uma leitura do poema em sua língua-mãe, que lindeza pra se verouvir :)


sexta-feira, 18 de abril de 2014

duas leituras



O poema - como toda arte -, quando içado, lançado, torna-se uma coisa outra, margens outras, um objeto de múltiplas camadas que se dão a desfolhar a cada olhar. A cada leitura o poema é transfigurado, é outro. E assim será sempre o poema, de quem o lança, nele se lança e pende e funda e re-cria. E o deserto e os tambores, deserto e tambores aqui, é de Carlos Augusto Lima, na Revista Pessoa;

E Cândido Rolim, na Germina - Revista de Literatura & Arte

Gracias, chiquitos, por se deitarem à poesia e dar as mãos a 'tudo que não pode ser dito/ que se perde'.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

a morte do favelado, réquiem

                      - motivo para aidan

os buracos vazios de vez
trinta e uma mil balas para pacificação
esturricam no chão

2.

um dia de manhã sentei naquele chão

tão preto
tão morto

fechei os olhos garrada em seu sangue seco
e pensei em quem seria
quem foi
ele os invisíveis

abri
como uma refugiada de guerra
uma vaca magra na fila do abate

3.

ouço as sirenes indo embora
chegando
como uma marcha de chopin

os pássaros
o que é vivente
estão lá - longe
desse silêncio de mármore

outro carro
mais uma nota na marcha
insinuação de morte

4.

perene os vinte um sabores
picolé pipoca algodão doce tapioca
que os meninos se indo
saberão ainda - ausentes

bombas pás
rastros de névoa
aqui acolá

dissipam na floresta de ossos

terça-feira, 8 de abril de 2014

Femininas



"Poemas lascivos e silhuetas de mulheres nuas se fundem em um amálgama texto-visual que compõe “Femininas”, exposição que reúne desenhos de Clewton Nascimento e versos de Nina Rizzi. O trabalho coletivo da dupla ocupa, a partir desta sexta-feira (04/04/14), o Nalva Melo Café Salão, na Ribeira (Natal/ RN). O vernissage está marcado para logo mais às 19h, com direito à degustação de receitas elaboradas pela chef Gabriela Sales e trilha sonora selecionada, tendo o erotismo como temática no traço, na palavra e no paladar para envolver todos e todas em uma atmosfera propícia ao estímulo dos sentidos. A visitação segue até o próximo dia 2 de maio (2014) em horário comercial. [...]" - Yuno Silva para a Tribuna do Norte.

Leia, imprima, downloade-se!
AQUI: http://pt.calameo.com/read/002318534ed959900e9e4

terça-feira, 1 de abril de 2014

Femininas + A Duração do Deserto


ALÔ NATOWN! ALÔ MUNDO! se eu fosse vocês não pagava de abestado e colava lá; eu vou!

FEMININAS
Exposição de desenhos de Clewton Nascimento e poemas de Nina Rizzi, realçando a sensualidade feminina, em uma atmosfera propícia ao estímulo dos sentidos.
Abertura com direito à degustação de pratos elaborados pela chef Gabriela Sales. Erotismo como temática no traço, na palavra e no paladar.

NA sequência, lançamento do novo livro de poemas de Nina Rizzi (Editora Patuá, 2014), A DURAÇÃO DO DESERTO.
***

Matéria de Yuno Silva na Tribuna do Norte:





sexta-feira, 28 de março de 2014

e danço um tango com você


eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas
acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando
assim facim facim
e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca
porque elas exageram no kajal e rímel
eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.

tenho vontade de vomitar enquanto olho o vão do metrô que nunca vai chegar.
não sai nos jornais, inúmeras gentes - essas mulherzinhas também -
se jogam ali todos os dias.
eu não vomito. hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo
de flores, de cheiros e uivos.

toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.
eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo do ggm.
eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.
você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.
não engulo a sua arte e te mataria por isso,
sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.

penso nas normalidades desses senhores

ela se insinua
é pelo cinema, é por amor
por deus, deixe - viver a vida

ora, uma maria assim tão dada
uma maria assim tão nua
uma maria assim com virgindade tão apertada

uma maria como todas as outras, pronta pra violação.

maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.
sei que não sei dar amor a quem me estende a mão
eu amo o feio e a deformação
mas olha, você me olha
e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas

eu te amo maria
seu território também é meu
seu silêncio também é meu
amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,
anônimas.


quinta-feira, 27 de março de 2014

tipitaka, em lugar de poesia

aos fodidos do mundo


1.
as ruas do mundo se oferecem na fedex
um prozac, um sabonete
usado com pentelhos grudados
embora gaste dentro esse sotaque
eu nunca fui pra califórnia

do outro lado da rua os correios
- enviar uma carta de 110g.
sai por 6,72
                        a minha miséria também é sua

eu me jogaria do 8º andar

o chão quente do centro
chega à sola de todos passantes
eu não tenho nenhum centavo
para o almoço, para os cigarros

uma moça me entrega diamba
os versos de mombaça me estalam
um metrô que não funciona
a calcinha tão pequena que me rasga

penso em partir para outro sítio

cantar os meus mortos
é atravessar um campo de neve

2.
um verso me martela
abandonar o território conquistado

o homem antigo barbado e com óculos
é só um desenho manchado

as pessoas se abandonam

talvez o nome puro, qualquer nome
fosse mais que desejo
ou menos mais ou menos

em sarajevo toda criança tem a pele coberta
dum cheiro ocre
os muros parecem dizer i adore you

lá sonhei com duas árvores
uma delas africana
eu e concha como coisa única
nunca existimos, nem novokuznetski

tenho a ousadia de dizer
meu nome, qualquer nome

é madrugada
nenhum barulho de gente trepando
nem nas janelas ou ao meio-dia

úmida, úmida

3.
estive no templo
por alguma razão que não busco entender
eles cobravam entrada
do lado de fora fiquei a olhar
os pés retorcidos e a cenografia do desespero

lembrava
as duas sujeitas propondo cultos
– você tem cara de crente
você daria uma ótima crente
eu daria apenas, e sigo a dar uns olhos de encruzilhada
essa vingança em ser mortal, ser o que quiser
conquanto palas e deuz e anúbis sempre eles

a cara do desastre
ser o que quiser desde o caminho da miséria
e a duração do que não pode permanecer
o templo, a ruína
em lugar de poesia

. oráculo