quinta-feira, 16 de abril de 2015

um copo de vinho pedido na vertical


senhor v. tem razão, há coisas muito miudinhas a que vamos a nos tornar, nos apegar.
gosto, por exemplo, de reler ‘manhãs desperdiçadas’, dá vontade de comprar cigarros industrializados e fumar, fumar, fumar, até poder arrancar o cancro na unha.
há coisas ainda bem mais miúdas, como a frase ‘está um frio a mais’. um frio a mais também é um cancro que me cresce na garganta, o desejo de uma pastilha muito fina sobre a língua pastosa da manhã.
(detenho-me na primeira frase – e não sei que diabos fazer. decido-me a tomar um carro de aluguel e ir até à praia. levanto as mãos bem alto para trazer a chuva mais pra perto, como nos pés molhados e o suor no solado de borracha gasta. decido-me a subir quatro léguas ao mar e ver a manhã nublada na água a abrir o mais fundo o corpo e ainda mais. ali um riso, ali uns dentes e ali umas palmas muito contidas de quem quer bater e não bate. decido-me os rasgos e desvios. 11h30 não parece uma boa hora para dizer o que não pode ser concreto, uns filhos a cuidar, uma gente a cuidar e toda gente se conhece. decido-me a outro carro de aluguel e um mortal-triplo pela chuva acima.)
há ainda coisas graúdas a que não se deter, senhor v., o caroço da manga no prato, o caroço do abacate no prato, uma chávena imensa que não deveria se dizer chávena cheia de xocoatl bem quente. esse cancro que me sobe ao céu da boca.
a senhora do almoço pensa, um conto do pavese com o nome da ex-mulher que já é de novo sua mulher e então é isso: o amor nos distrai a todos das importâncias e nos torna tão delicados e tristes. coisas muito graúdas - e também das desimportâncias que não estão no roteiro, é certo. e já a altura de dizer não, um rimbaud imenso de graúdo se nos coloca no peito, com toda delicadeza.
a mochila pesa. 500 gramas da primeira carta de sêneca e sua urgência. 200 gramas de um calixto e sua morfina. a mochila é um aglutinador do tempo, eles vivem esse meu tempo desperdiçado, vivem eles o meu mesmo tempo. tenho cá os dois e um espaço entre eles, o que é este espaço desperdiçado? um movimento que não faço, um acontecimento é o que meus dedos tocam, o que me veem os olhos.
a senhora do almoço me deu a importância de um corpo inteiro. um copo de vinho pedido na vertical. e coisas muito miúdas e coisas muito graúdas. detemo-nos na distração?



domingo, 29 de março de 2015

ESME



"... acordei com você
Esme
e tinha o oco imenso entre as pernas
// dança pra mim
te dou gota a gota meus hormônios 
// era tanto constrangimento o seu volume me roçando
não me tire isso
// menstrue pelos lábios"

Depois de 'Claire, Hollie e Ivonka'
Ellenismos Livros apresenta:
ESME, de Nina Rizzi

Leia na rede, imprima, downloade-se!
http://issuu.com/ninarizzi/docs/esme

segunda-feira, 23 de março de 2015

forse non sono i miei fiumi




na ibiapaba se esconde o gameleira a 1,5 km da trilha da samambaia
da br 222 só se mostra o oiticica quando chove.

pra tocar os pés os rios há-que ter
mais que duas pernas

e eu nunca vi do sertão o oiticica
da serra o gameleira.

[ma vado a  vogliar
madonna di tutti fiume. e la vostra.]

2013


quarta-feira, 18 de março de 2015

das coisas que fazemos juntos

seu aniversário, por exemplo
e a comemoração da independência da guiné-bissau.
ele aparecia e seus olhos se perdiam nas estantes de livros e em tudo que nada dizia.
me desequilibrava
é porque você só come. dorme e come e dorme. fica aí engordando.
então me agarrava pelos peitos e me virava, arriava a calça e a calcinha tão minúscula
você me deixa louco com essa bunda enorme.
mais nada dizia. só se me enfiava o pau enorme de curta performance
gozava e corria a se lavar.
chorava, divagava
você é poeta. chorar à toa é coisa de poeta
vê como precisa de mim. goza tanto comigo.
faço uma cara de desconcerto
nunca consigo dizer palavra a esse homem, assim os dentes rangendo.
goza sim, tá escorrendo pelas suas pernas.
abafa um meu risogemido enfiando o pau na minha goela
me dá um filho. eu quero um filho.
corre pra se lavar com nojo da minha boca assim tão aberta.

lembro quando nos vimos a primeira vez
você é hetero?
depende do que vier
ahn?
nuvens, árvores...
e prometia todo suor de séculos de escravidão
pensava num derramado equívoco de quem nunca trepou
das mentiras que me conto pra me mutilar
sexo é bom até quando é ruim.

das coisas que fazemos juntos

duas datas em setembro. não somos rosas, nada mais.

'holy motors', leos carax/ 2012.

sexta-feira, 13 de março de 2015

POEMA SOBRE A LÁPIDE DE GIUSEPPE RIZZI


- ouvindo Leil, Malek Jandali -

Nunca podia estar aos pés da Deusa que me disse
- em silêncio ouço esta canção, e quisera ter cabeza e ouvidos queimados pela [radiação
do demasiado humano, da madrasta, de Francis Bacon -

Disse: e sempre serei sincera. Como pudesse a frase guardar uma primeva
verdade que busco - essa página em branco que me permite
bazófias tantas, reciclagens e o doloroso pasme - impossível.

O imponderável, estar aos seus pés, quando do mar era um cuspe vomitado 
[por ser morno;
Das verdades infindas à Cecília - nome que invento para tudo o que possa ser
Belo e Sublime -, essa casca pegada às palavras.

Mas acredite, quando tomo por oferenda a Dedução de Maikóvski: Amo firme, fiel, e [verdadeiramente


- nossas almas claríssimas, jogadas uma à outra, pelo obscuro mistério.

leituras possíveis, 4



"[...] Então, por mais que o ponto de partida da poeta seja triste, Rizzi é uma poeta resoluta e, à maneira do Gullar participante, que transformava a bruta matéria bruta de seu tempo em poesia e melhores dias, Rizzi consegue fazer o mesmo e com um processo análogo: o da resistência, o da esperança. Não sendo, desse modo, nem um pouco espantoso o fato de que um livro que começa com uma imagem da poesia enquanto ato doloroso, seja todo ele delicado [...]"

Matheus De Souza Almeida faz em seu blogue um trabalho hercúleo de historiografia e comentários de crítica literária; neste longo ensaio, logo na primeira parte nos dá a entender que crítica é esta, para então se deter - tão dedicada e atentamente - à minha poesia, desde os primeiros textos não coligidos em livro, passando pelos dois livros e alguns vídeopoemas. Só posso ser grata a tanto zelo com sua-minha leitura, e da literatura em geral. 

Quem tiver fôlego, siga-me com um beijo:

http://formasfixas.blogspot.com.br/2015/03/acerca-da-obra-de-nina-rizzi.html

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

libri lectum paratus




canção pra foder nathália

vou devassar a cona de nathália
a dedos, língua, cruz e souza

se rapidinho não me demora
subo a sugar seus peitos flácidos, belicosos

mas, ai, que ela implora
- fica, desce, entra, esconde, enterra, fica!

se afoitas de chupar não esquecemos, 'inda mais deliciosos
são os vaga-lúmens de seu cuzinho a anunciar os

crepúsculos dos anéis de saturno.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

poemas traduzidos

m. olwen

Foi publicada na Revista Panorama Cultural de Suecia uma pequena seleção de poemas meus traduzidos por Cândido Rolim.

MIRA!: http://www.panoramacultural.net/?pag=2415

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

um caimento perfeito




minha filha se senta de pernas bem abertas
usa uma calcinha infantil que lhe cobre toda quase nada
esparrama tinta e grãos no chão
se arreganha, se arregala.

combina em tudo com a paisagem:
meia dúzia de livros que logo serão trocados
utensílios de cozinha, duas redes, dois banquinhos
em quase nada tudo cabe
e cabia ainda numa paisagem tribal cheia de corpos nus
brilhantes, suados e lisos
nus a natureza pronta.

da janela bem aberta um espaço outro
paisagem para o nada e sua gente que em tudo não combina dentro
- fecha essas pernas, menina!

junto ao cimento e caos uma pessoa nua de tão pura
exala uma inverdade, um absurdo
por isso toda a gente está coberta de peles artificiais
incríveis botas de pisar o chão doído.

faz sentido.
um mundo que se esvazia para o nada.

volto dentro
a tinta tinge o chão, os grãos, a parede
suas pernas bem abertas
- quer dar uma volta lá fora, pequena?
não.
aqui dentro arde e treme uma outra verdade
que lá fora é invasão, atentado, feiura
corpos fora da des-paisagem.

faz sentido.
dentro é tribo, tecido chão macio pra se morar.

domingo, 28 de dezembro de 2014

pastoral da ribeira

25.12.14

uma casinha incendiada surge no prédio ao lado
o  rio cobre as vigas e pedras e cimento e pó
sob o rio se eriçam casas-lama os homens prontos e um emprego
trilhos e pregos e gente balouçam na casinha incendiada ao lado

afunda os pés de brincar co’ ua nanã que ri o ferro que afunda largo
um afogamento pronto pra uma cidade que nasce com seus homens fortes
na peneira a colher demora a massa e mofa e demora a massa
o fogão de barro submerso no lugar que nasce

acena um oi para a gente que vem incendiada
arde o fogo e a água a pedra e ferro da gente que vem

olha pra a direita         mais adiante
folhas de palmeira pra palhoça um pouquinho de amianto
entulho e câncer e as cabritinhas tão bonitinhas ó as galinhas
cisca cisca cisca

ôôôôôôôôôôô
camisas numeradas regatas largas e de manguinhas

uma cidade emerge submersa
uma ponte metálica de madeira uma ponte
escaiada caiada com luzinhas pra piscar e muda muda
olha a novacor de dez em dez segundos

um conjunto habitacional popular há quase cem quilômetros
da gente que levanta e nasce uma cidade submersa
sete prediozinhos de três andares pra amontoar a gente
saída de uma favela onde se gritar um estádio de futebol

ôôôôôôôôôôô

uma cidade surge submersa no prédio ao lado
é tanta gente é tanta gente e tudo que sente e faz a gente

incendeia, amor

incendeia

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Traduções - Oscar Hahn



Foram publicadas algumas traduções de Tratado de Sortilégios, do poeta chileno Óscar Hahn, antologia com seleção e prefácio de Mario Meléndez Muñoz e tradução e posfácio de Nina Rizzi a ser publicada em 2015. Enquanto não chega, lá vai a prévia nos sítios abaixo:


Óscar Hahn, in: Germina - Revista de Literatura & Arte

A morte aos pés da poesia, Oscar Hahn, in: Revista Literária em Tradução 9º

Torre de Babel - dois poemas, Oscar Hahn, in: Revista Cult, 194

Torre de Babel - quatro poemas, Oscar Hahn, in: Zunái - Revista de Poesia e Debates 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

em lugar de documento com foto

raio-x

 perdi a prova de seleção e fui jogar candy crush
nunca joguei candy crush mas lembro ano passado quando precisei
fazer um aborto e esperava a assistente social a psicóloga e o vendedor
de remédios esperava ao meu lado a jogar candy crush
e ficava bem puto porque a próxima vida só viria em 29 minutos
comecei a pensar nas pedrinhas explodindo como um último suspiro
e a senhora doutora muito sabida com seu lattes invejável
pra quem é dado à invejas dos lattes essa gente que diz você sabe
quem eu sou e o meu lattes tem 9 páginas como eu vou saber que você
é você e as pedrinhas explodindo sim ela tem razão eu também não sei
saber como eu sou eu mas olha o documento não ajudava muito um
nome que eu nem uso uma família que nem tenho e essa frase tão bonita
como eu vou saber que você é você é tão poesia
minha filha isso é concurso público não isso já não é poesia qualquer
coisa como ‘empregadinhos de repartições públicas/ raquíticos/ sifilíticos’
isso é poesia minha tia e não tem uma vida daqui 29 minutos
 junto minhas 2 bananas amassadas no rascunho amassado
com o parágrafo que o bonitão me passou ontem é literatura social vista
como história social é por aí manja tudo amassado com as cascas das 2
bananas pretas e que palavras bonitas gramacho é uma palavra bonita
e altamira admá e zeboim e os meus índios são também tão bonitos
e esquecidos esquecidos como esse meu documento que não serve
pra nada que não seja me perder uma prova e que não faz falta quando
um amigo me manda uns 200 ou 300 paus e quando eu digo eu sou eu
fico pensando nesse meu amigo tão bonito todo torto todo todo  
como será viver num poema de nome bonito de todos os santos
de todos os fodidos como será escrever um poema onde se morar
onde não ter documento com um nome amarildo um nome cláudia
um poema sem nome sem concursos sem candy crush e as doutoras
um aborto é muito sério como você pode ser atacada que falta de juízo
no benfica e seus becos à essa hora e os doutores muito sabidos
uma cidade com muitos 200 ou 300 paus e um amigo que me apareça
às 11 pra salvar o dia pra te dar uma alegria santa nina pinta e maria
e a gente ri e tudo é gargalhada e gozo pelos olhos é só paixão amor
e eu não encarno em você só nas negas lindas todas pra te comer
até o cu fazer bico e você volta pros domingos com a casa cheia
a família tão feliz a cidade tão quieta mais prosa que poema volta
enquanto caminho 12 minutos ouvindo que a diversão é na frente
da tevê hdtv e rio ora mais 12 minutos e enfim me deito pensando
pensando num poema que seja mais que fluxionismo nos hollow men

e ria eliot no candy crush as pedras explodem como um último suspiro

domingo, 16 de novembro de 2014

ivonka

"mas eu sou sim vivíssima 
cá dentro

como se a gente que eu sou
ausente e esquiva
fosse o duplo de uma outra

que não pode nunca se ver"

ELLENISMOS LIVROS APRESENTA:
IVONKA, de Nina Rizzi



Leia na rede, imprima, downloade-se!
http://issuu.com/ninarizzi/docs/ivonka

terça-feira, 21 de outubro de 2014

o poeta de qui l' query-esborrat


 o poeta de qui l' query-esborrat nasceu na somália
- qui l' query-esborrat é mais um nome que soa
muito bem num poema pronto a ser esquecido –
muito em breve o poeta qui l' query-esborrat
não será um poeta nascido na somália
a somália será um cemitério de ossos
varrido para o nunca
a somália nunca terá existido como nunca existiu
qui l' query-esborrat e o poeta de qui l' query-esborrat

o poeta nasceu pronto a ser esquecido
como a somália atlântida palmyra heracleion  ou o sergipe
- o sergipe que só apareceu no horário eleitoral
como chiste por estar à frente do ceará em programas
de habitação cultura e renda –
o poeta de qui l' query-esborrat tem um nome
como arias rolim calixto mombaça cervan lima vinhas
o poeta pronto a ser esquecido não goza ou agoniza
do nada que sabe sabe que o poeta é mínimo
mas o poema o poema voará com qui l' query-esborrat
a imobilizar os países do futuro as mãozinhas mesquinhas

o poeta de qui l' query-esborrat meteu um balaço
direto no tempo na história na verdade nos tratados
nas ciências teologias títulos e virtudes
um balaço com um riso um poema vivo