terça-feira, 1 de abril de 2014

Femininas + A Duração do Deserto


ALÔ NATOWN! ALÔ MUNDO! se eu fosse vocês não pagava de abestado e colava lá; eu vou!

FEMININAS
Exposição de desenhos de Clewton Nascimento e poemas de Nina Rizzi, realçando a sensualidade feminina, em uma atmosfera propícia ao estímulo dos sentidos.
Abertura com direito à degustação de pratos elaborados pela chef Gabriela Sales. Erotismo como temática no traço, na palavra e no paladar.

NA sequência, lançamento do novo livro de poemas de Nina Rizzi (Editora Patuá, 2014), A DURAÇÃO DO DESERTO.
***

Matéria de Yuno Silva na Tribuna do Norte:





sexta-feira, 28 de março de 2014

e danço um tango com você


eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas
acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando
assim facim facim
e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca
porque elas exageram no kajal e rímel
eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.

tenho vontade de vomitar enquanto olho o vão do metrô que nunca vai chegar.
não sai nos jornais, inúmeras gentes - essas mulherzinhas também -
se jogam ali todos os dias.
eu não vomito. hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo
de flores, de cheiros e uivos.

toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.
eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo do ggm.
eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.
você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.
não engulo a sua arte e te mataria por isso,
sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.

penso nas normalidades desses senhores

ela se insinua
é pelo cinema, é por amor
por deus, deixe - viver a vida

ora, uma maria assim tão dada
uma maria assim tão nua
uma maria assim com virgindade tão apertada

uma maria como todas as outras, pronta pra violação.

maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.
sei que não sei dar amor a quem me estende a mão
eu amo o feio e a deformação
mas olha, você me olha
e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas

eu te amo maria
seu território também é meu
seu silêncio também é meu
amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,
anônimas.


quinta-feira, 27 de março de 2014

tipitaka, em lugar de poesia

aos fodidos do mundo


1.
as ruas do mundo se oferecem na fedex
um prozac, um sabonete
usado com pentelhos grudados
embora gaste dentro esse sotaque
eu nunca fui pra califórnia

do outro lado da rua os correios
- enviar uma carta de 110g.
sai por 6,72
                        a minha miséria também é sua

eu me jogaria do 8º andar

o chão quente do centro
chega à sola de todos passantes
eu não tenho nenhum centavo
para o almoço, para os cigarros

uma moça me entrega diamba
os versos de mombaça me estalam
um metrô que não funciona
a calcinha tão pequena que me rasga

penso em partir para outro sítio

cantar os meus mortos
é atravessar um campo de neve

2.
um verso me martela
abandonar o território conquistado

o homem antigo barbado e com óculos
é só um desenho manchado

as pessoas se abandonam

talvez o nome puro, qualquer nome
fosse mais que desejo
ou menos mais ou menos

em sarajevo toda criança tem a pele coberta
dum cheiro ocre
os muros parecem dizer i adore you

lá sonhei com duas árvores
uma delas africana
eu e concha como coisa única
nunca existimos, nem novokuznetski

tenho a ousadia de dizer
meu nome, qualquer nome

é madrugada
nenhum barulho de gente trepando
nem nas janelas ou ao meio-dia

úmida, úmida

3.
estive no templo
por alguma razão que não busco entender
eles cobravam entrada
do lado de fora fiquei a olhar
os pés retorcidos e a cenografia do desespero

lembrava
as duas sujeitas propondo cultos
– você tem cara de crente
você daria uma ótima crente
eu daria apenas, e sigo a dar uns olhos de encruzilhada
essa vingança em ser mortal, ser o que quiser
conquanto palas e deuz e anúbis sempre eles

a cara do desastre
ser o que quiser desde o caminho da miséria
e a duração do que não pode permanecer
o templo, a ruína
em lugar de poesia

. oráculo

segunda-feira, 17 de março de 2014

A Duração do Deserto



Dia 12 de março aconteceu no Centro Cultural São Paulo - Rua Vergueiro, 1000 - São Paulo - SP, como parte do I Festival Poesia Nova, o lançamento de meu novo livro A Duração do Deserto.

O evento foi lindo em sua totalidade, no lançamento presenças imensas de amigos e novos.
E que sigamos atravessando os desertos!

Para saber sobre mais o livro, visite a página no site da Editora Patuá: http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=232
***


Nômade -

até lugar-nenhum, brotando
da prisão de tua boca, tornar-se
o onde estás; lês
a fábula
que foi escrita nos olhos
dos dados: (era
palavra-meteoro, rabiscada pela luz
entre nós, e nós, contudo, no fim,
não tínhamos provas, não
podíamos produzir
a pedra). O dado-e-o-dado
possuem agora teu nome. Como quem diz
que onde quer que estejas
está o deserto contigo. Como se,
onde quer que te movas, seja
novo o deserto,
e se mova contigo.

- Paul Auster, Desterrar, 1970-72; trad. Caetano Galindo


Nomad -

till nowhere, blooming
in the prison of your mouth, becomes
wherever you are: you
reade the fable
that was written in the eyes
of dice: (it was
the meteor-word, scrawled by light
between us, yet we, in the end,
had no evidence, we could
not produce
the stone). The dice-and-the-dice
now own your name. As if to say,
wherever you are
the desert is with you. As if,
wherever yo move, the desert
is new,
is moving with you.

- Unearth, 1970-72

segunda-feira, 10 de março de 2014

revista o acrobata #2

Foi disponibilizada para download a edição 2 da revista O Acrobata. Nesta edição participo com uma prosa-ensaística-tradução a partir de poemas de Alejandra Pizarnik: CORRESPONDÊNCIA ERÓTICA PARA FLORA A. Leia na rede, imprima, e downloade-se! Aqui: http://issuu.com/revistaacrobata/docs/acrobata_2_issuu



“Disse-lhe estou morta; mas não é certo. É mais: seus jogos constantes com o suicídio não implicam mais que uma altíssima vocação sexual. É verdade, a morte me excita, me dá um sexo completo.”

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

poemeto pro porteiro


fez a barba
e me deu um bolo

a pomba ficou sem batom

Eusou MonstrX

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

nina numa nota:

voltei só pra dizer que vou dar um 'rolezinho' :3

[Imagem: Nancy Baker, HELLO SHITTY, 2010. Collage, gouache, glitter on paper, 22" x 30".]

ninar in substância #2



REVISTA SUBSTÂNCIA #2

'É com prazer que anunciamos o lançamento do segundo número da nossa Revista Substânsia. Contamos com colaborações que em muito nos animaram a seguir. Esperamos que gostem dos textos, dos desenhos e das imagens disponíveis.

- E a Teoria da Literatura hoje?, por Roberto Acízelo de Souza

- 6 Museus, por Pedro Eiras

- Traduzir ser-com fantasmas, por Davi Pessoa Carneiro

- Traduzir, de Maurice Blanchot

- Intersecções poéticas com Nestor Jr., por Alexandre Rodrigues da Costa, Andréa del Fuego, Elisa Andrade Buzzo, Kelson Oliveira, Madjer de Souza Pontes, Nina Rizzi, Rui Manuel Amaral, Talles Azigon e Vera Casa Nova

- Entrevista com Valter Hugo Mãe

- Entrevista com Noemi Jaffe

- O cinema do Alumbramento: do rapazinho à fase adulta, por Marcelo Ikeda

- Contos de Alex Costa, Anderson Fonseca e Márcio Moreira

Visite o nosso site: www.revistasubstansia.com.br

Baixe a revista em pdf: http://migre.me/h0R9i

Com os abraços dos editores,

Nathan Matos e Roberto Menezes

[na imagem, uma das artes de Nestor Jr. que ilustram a edição. imperdível!]

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

anotação no caderno azul de teoria da literatura 2

nunca aprendi ficar calada, cândida

uma mulher me fulminou com os olhos.
era professora. era quarta-feira.

estava a pensar o lastro
e o que pode ser caráter, leitura, função

o ar-condicionado pifou.

entre langue e parole comecei rabiscar
uns vazios e os nadas.

três caras estavam à minha frente
tinham óculos e barbas e olhares atentos.

a professora me seguia a gagueira

não sabia eu jakobson, lucáks, jauss, tynianov
falava eu os nadas e os vazios, gaguejava

quando a mulher me fulminava
e o mundo era uma casca de nós.


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

"A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua"



Está na rede!

"A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua", antologia organizada por Amosse Mucavele e publicada em Moçambique. Participo com alguns poemas junto de outros tantos bons camaradas dizentes-escreventes da língua portuguesa e espalhados pelo mundo!

Downloade-se!:

http://issuu.com/teatrofantasma/docs/miolo_antologia_poetica
***

"Ousado projeto, grandioso, como compete a quem empunha a pena do "Luís de Ouro" ( Carlos Drummond de Andrade), "Camões, grande Camões" (Manoel du Bocage) e quer dizer ao mundo as novas armas e os novos varões assinalados que da ocidental praia lusitana; da americana praia brasileira; das africanas praias guineenses; cabo-verdianas, são-tomé-e-principenses, angolanas e moçambicanas; das indianas praias goenses; das chinesas praias macauenses; e das oceânicas praias timorenses; por mares, ares, sites navegados à exaustão, passaram ainda "além da mágoa" e "em esforços e guerras" — com a palavra — "conquistaram" novas formas de expressão." [Fragmento do Prefácio - A arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua Antologia Poética  -
Paulo Seben - Professor adjunto de Literatura Brasileira do Instituto de Letras da UFRGS]


Os Poetas:

Micheliny Verunschk , Eduardo White, Alberto Estima de Oliveira, Ana Mafalda Leite, Bárbara Lia, José Luís Hopffer C. Almada, José Inácio Vieira de Melo, Léo Sidónio de Jesus Cote, Danny Spínola, Donizete Galvão , Luís Carlos Patraquim, Abreu Paxe, Luís Ferreira, Il Bonde, Luís Serguilha, José Luís Mendonça, Paula Virgínia Andrade Vasconcelos Lopes, Mia Couto, Alberto Riogrande, Rita Dahl, António de Névada, Camila Vardarac, Marília Miranda Lopes, Maria Ângela Carrascalão, Frederico Ningi, Jorge Melícias, DINA SALÚSTIO, Gociante Patissa, Cláudio Daniel, Emmy Xyx, Filinto Elísio Correia e Silva, José Carlos Moutinho, Jorge Arrimar, Yao Jingming, Maria Teresa Horta, Mario Lúcio Sousa, Miguel Almeida, Nina Rizzi, João Melo, Lau Siqueira, Frederico Matos Alves Cabral, Guita Jr, Cláudio Portella, Vera Duarte, Victor Sosa, Sangare Okapi, Zetho Cunha Gonçalves, Luis Avelima, Rolando Chagas Alves, Izidine Jaime, Alberte Momán Noval, Marcelo Ariel, Conceição Lima, David Capelenguela, Dinis Muhai, Lurdes Breda, Margarida Filipa de Andrade António Fontes, João Rasteiro, Eduardo Quive, Fernando Aguiar, Décio Bettencourt Mateus, Maria João Cantinho, Wilmar Silva, Jõao Tala, Mbate Pedro, Aurelino Costa, Luís Kandjimbo, Ademir Assunção, Miguel Ángel Alonso Diz, Victor Burity da Silva, Amosse Mucavele, Maria Helena Caldeira Marques de Morais Sato, J.A.S.LOPITO FEIJÓO, Carlos Marreiros, Affonso Romano de Sant'Anna, Adelino Timóteo, Ary dos Santos Vera Jardim, João Maimona.
***

terça-feira, 8 de outubro de 2013

no escamandro, 2


"... reparem, reparem, reparem (!) na delicadeza dos textos. num tempo de poemas onde tudo parece querer explosão, pirotecnia, ou deriva sem retorno, estas poesias da nina rizzi corre no mínimo, mas sem cerebralismo algum – pedra de toque."

Minha poesia, tão bem cuidada, nessa beleza que é o escamandro. 
Aqui: http://escamandro.wordpress.com/2013/10/08/nina-rizzi-1983/

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

no 'escamandro'

Cesare Paves com Constance Downling, seu último amor, em Roma, 1950.

e então, na hora prima de seus anos eu me vertia inconsolável. o outro, que jamais poderá penetrar o abismo do outro, qualquer outro, perguntava: 'mas então você é poeta!'. não, meu bem, continuava a verter, ele se foi, pra nunca mais. e desde então, é só a névoa.

"em micromonumento a mais um aniversário póstumo do escritor italiano cesare pavese, eis este conto - eu quero dizer, este belo poema em prosa narrativo - apresentado & traduzido pela poeta & editora Nina Rizzi."

LEIA AQUI: http://escamandro.wordpress.com/2013/09/05/anos-de-cesare-pavese/

POEMA SEM TÍTULO PARA M.

Dizem que o Papa João Paulo II é – ou era- o Papa das Multidões.

Quens dizem, não sei. Fui à Santa Missa, como bazófia de criança,
Uma única vez: queria saber do vinho que bebem aqueles ora ditos Castos.
Não me deram do vinho, antes o que dizem o Corpo Ensanguentado,
Chantageador, de um Cristo transubstanciado numa farinha
- como fina moeda – que dizem “Hóstia Sagrada”. Quando soube o Casto
Padre que não tinha qualquer comunhão com Seu Deus e que os Seus
Pares sequer me haviam batizado, fui ex-comungada de sua Presença dita
Santa e nunca mais pude saber o que dizem esses Castos, conquanto não fosse
Documento histórico.

Em verdade, digo o Papa das Multidões porque chegou-me às mãos um DVD.
Na capa, leio em encarnado-negro, maiúsculo e centralizado:

LIMITE

Mas dentro da embalagem, sem qualquer compaixão, saltou aos meus olhos
O Papa e Suas Multidões.

Como fazer qualquer Confissão, ainda que esta significasse agostinianamente
Lançar-se numa busca interior que permita o conhecimento de si e a expressão
Desse mesmo eu que, ao confessar, reconhece a si e ao mundo?

Eu que nada sei dos abismos de mim além de lançar-me a eles, ao puro sangre,
E sem qualquer tentativa de conhecimento que não seja simplesmente Ser,
Que dizer dos meus deslimites, da vileza? Da ânsia do velho,
De tudo que é maior que a Nobreza e os labirintos de falésias
Senhor Morto e Papa, se abomino a multidão – sem nenhum coração?

O Jardim Petrificado salvará minha voz de outono
Quando tudo é Ruína e Só?

Senhor! Essa melancolia de Palmyra, também é uma Alegria?


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

temas pra carolina


1.
quando aquela russinha subiu
a passos lentos
a escadinha tão pequenina do casario
ninguém sabia que ela era ela
a russinha com a vozinha tão esganida e rouca
dessa dubiedade de estraçalhar vidros, zunir
ouvidos e querer morrer.

é certo que seus passos não combinassem
co'a vozinha. tanto faz, ela pouco e quase
nunca palavra dizia. só duas, olvidas.

vinha com os passinhos assim bem arranjados
passinhos de bailarina dessas caixinhas
de música que já não existem mais senão
em frança. em frança, que era de uma musiqueta
popular daqueles idos, nada
tão certo quando os passos dela. precisos.

subiu a escadinha, os passos lentos
coisa com coisa disse e o todo e largo olviu

- rebanho nu.

sábado, 10 de agosto de 2013

Revista Literária em Tradução, 6



Está no ar a 6ª edição da excelente Revista Literária em Tradução!

Colaboro com "Outros Poemas", de Alejandra Pizarnik, seleção composta de sete poemas pertencentes ao “Arquivo Pizarnik”, da Universidade de Princeton, não incluídos em antologias ou obras anteriores da autora.

Além destes, há traduções de Juan Liscano, Manuel del Cabral, John Milton, Tirteu, Urmuz, Edgar Allan Poe, Vladímir Soloviov, Sigurður Nordal, Grazia Deledda, Anacreonte, Roberto de las Carreras... Uma beleza!

Abaixo os links para leitura online, download e etcéteras. Boa leitura!:

(n.t.) Revista Literária em Tradução | 6º (Download PDF)

(n.t.) Revista Literária em Tradução | 6º (Leitura online)

(n.t.) Revista Literária em Tradução (Facebook)

(n.t.) Vídeo de divulgação | 6º (Youtube)


Chamada para colaboração:

(n.t.) Revista Literária em Tradução n° 7 (outubro/2013)

Normas para publicação em: www.notadotradutor.com/publicar

Recepção de textos: até 15/09/2013

segunda-feira, 13 de maio de 2013

arcada auschivitz, poema impossível


[para roberta silva]

se é impossível escrever um poema depois de auschivitz
penso num pequeno tratado sobre a numeração dos dentes

talvez um desenho, um poema visual, um processo semântico
lograssem mais êxito, sobretudo se levamos em consideração
que as palavras - coisas nomeadas e que juntas e comunicantes
constituem a linguagem - são tão poucas, fino alcance do querer
entredentes, se chamamos este de 'poema impossível'
temos um poema da dor, mas que não dói, pós-auschivitz:

1.
o primeiro dente, aquele da arcada superior esquerda que nasce primeiro
- ou que mais comumente é primeiro -, este primeiro, é o 11
e o seu vizinho, caminhando e contando sempre à esquerda, 12
e sucessivamente 13, 14, 15, 16, 17 e 18.
seguimos para o vizinho da direita, daquele primeiro
que chamamos 11, este vizinho da direita, chamam 21, sim,
pularam os odontólogos em suas conferências os 19 e 20 e já
antecipando, os 29 e 30 e os 39 e 40, por alguma razão que a bela
drª aparecida não disse. voltando, seguido ao 21, volver direita:
22, 23, 24, 25, 26 e 27.

2.
a arcada inferior
o primeiro dente debaixo, paralelo ao primeiro, que é 11, de cima
caminhando e contando sempre à esquerda: 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37
e 38. volver direita: 41, 42, 43, 44 (e agora o famigerado 45
que nesses tempos de guerra, logo passado, dói tanto quanto já doeu um
canalizado 44), 46, 47 e finalmente o 48.

pronto, uma boca com 48 dentes à minha revelia

uma boca pasmada aos números, uma boca escancarada por onde correm
o vento, o café fumegante, o bochecho gelado do enxague

correm pelo papel como meus olhos de querer morder
como o horror dos campos de concentração, como o riso
das hienas - às conquistas, o progresso, o devir, deus

correm sem qualquer crença, sem qualquer novidade
(tudo foi e não será
os monumentos tombados
as cabeças cortadas
o brilho dos olhos dos pobres
a verde e tenra grama)

correm pelo papel
 - como aos meus olhos os dentes -

correm como a vida se estende
dorida, sem sentido numerada
para a morte.

terça-feira, 30 de abril de 2013

fazer a loca, a roça, a ruça

eu ainda lembro quando lia diacov e achava caetano
eu ainda lembro quando sonhava caetano e acordava diacov
eu ainda lembro quando gozava caetano e metia diacov
eu ainda lembro eu ainda lembro eu ainda lembro
lembro até do dia que vi diacov uma caetano outra
lembro que foi quando o céu se desmisturou da terra
lembro que eu fiquei bestinha raivosa que a caetano se desmembrasse diacov
lembro todo dia toda dia mesmo o que eu lembro
é que tenho duas caetano melhor que caê diacov mió que ruça
e os pastos mais que nada de frumbenga pra gente se intranhá
e lembrá lembrá lembrá

domingo, 28 de abril de 2013

LOKASEANNA, UM OUTRO


W. G. Collingwood (William Gershom Collingwood, inglês, 1854-1932). Loki zomba Bragi/ Loki taunts Bragi, 1908. Ilustração para o poema 'Lokaseanna/ Lokasena', do "Edda em verso", compilado no século XIII a partir de fontes tradicionais, por Snorri Sturluson.  

“É tão doce a insanidade.
Tão doce ser outro.
Tão doce poder dizer-se. Desdizer-se.
Tão doce.
Nada doce é ser enclausurado, cápsulas, almofadas, classificações. E você é isto, aquilo o outro.
Doce é inexistir. Dizer-se sem saber-se.
Escrever as palavras repetidas, misturar os tempos e as pessoas, iniciar um texto sem congruência com o todo porque não me manda a linguagem, não ela, ela que me permite e ó, por ela cá estou.” – A.J.


Não dei por mim o início disso. É tão difusa a lembrança de nossa primeira correspondência que poderia contar três histórias diferentes, todas verdadeiras. Mas sei que não tinha desejos físicos, materiais ou de qualquer ordem. Ele veio até mim, sim, tenho a certeza disso, ele quem veio primeiro a falar-me.


Eu tinha essa caixa postal em nome de Manoela que era uma experimentação poética, linguística e muito autista, sem qualquer interesse prolongado no outro, muito embora o outro sempre ter me fascinado. Então ele dizia nada com nada, queria-me crê-lo um ‘listo’, um eusououtro, um eumaiorquetudo.


É verdade que ele me enfadava quase todo o tempo com suas cópias de cineastas italianos, pensadores franceses e o nada-com-nada, mas o lia com determinado interesse: isto significava ter de responder de outro lugar, pensamento, língua, corpo. Isto fazia de mim um eu muito mais profundo, a buscar dentro da linguagem o que ela mesma jamais poderia nos oferecer.


Era muito conveniente que ele não me pedisse o telefone, mas só conjecturasse “sua voz é mais para grave”. Como não, senhor, gravíssima como meu nascimento, uma mentira. Eu lhe dizia tanto ao evadir-me que só mesmo um sujeito com os mesmos propósitos – criar um eu muito mais profundo – para não perceber os embustes, tamanho afundamento no próprio ego. Não me importava e me convinha que não pedisse telefones, não quisesse uma visita – e eu sabia que não podia, que sua mulher tão linda, tão sua, estranharia – e nos mergulhava em abstrações.


Mas eis que um dia sucumbi ao eu mais raso, deixei-me inebriar do falso porto que era californiano e entregar meu corpo em histeria. Eu sabia que era algo como mentira, que não estava a separar-se de uma história linda convertida num pântano: eu lia suas cartas abertas à mulher tão linda, tão sua, tão doce como a insanidade; mas acreditava que isso não era uma mentira, que o encontro da minha e a sua cicatriz em nada afetava a mulher tão linda, tão sua e não, ela não tinha nada conosco, um casal tão falso quanto meu porto, tão verdadeiro quanto essas linhas.


Sucumbimos e amamos a carne, essa que não se desgosta e não se esgota. Não. Eu sucumbi tão mais às veredas de mim, que precisava dizê-lo não é isto é tudo mais que tanto. Não podia aceitar seu caderninho bordado com os dedos dos pés e sua palestra dos disparates da arte contemporânea, a província em chamas. Mas não é hoje, Snorri, não hoje, que tivemos e dividimos esse dia lindo de vindimas. Sim, Manuela, foi um dia lindo.


Tomei emprestada de Sá-Carneiro a canção e no dia seguinte entreguei-lhe minha voz sem sotaque nem mais nada. Riu-me, disse-me a criatura mais merecedora do asco universal. Fraca, fraca! Muito mais que o amor dando bandeira. Eu sinto muito, agonizava

poderíamos recomeçar tudo
eu não pensaria em dizer
ao outro, que é outra
- as verdades exigidas como
qualquer verdade e o que é
mesmo a verdade?

diria, sou de junho
não sou estrábica. talvez, talvez...
sim, a boca levemente torta
aos mais atentos. sim
a cicatriz no lábio inferior
e as três histórias que dela se deslindam

vivo onde não chove, nem é frio
um lugar que guardasse suas lembranças
as mais puras e áridas

não obstante, reiterava tudo o mais
o esvaziamento, ausência, inabilidades 
de mim. multiplicando esse desejo latente
um eu sanguidolente. e desde há tanto
a espera. medonha espera
o encontro da tua e a minha cicatriz.

Não sinta, eu não sinto nada, dizia como se no lindo dia anterior tivesse jogado dados com mendigos.

Nunca mais lhe escrevi. Deixei morrer essa lembrança com o gosto amargo do homem que prefere uma mulher tão linda, tão sua, aristotélica. E chegou o tempo de retomar antigas correspondências do meu ofício e tudo era tão claro e cristalino: meu projeto era muito mais dele, mas o dele calcado em alguém real. Enquanto eu me buscava os outros que me habitam, as superpossibilidades da linguagem e meus infernos mais profundos, ele se criava a partir de um outro-outro, tão linda, tão sua.


O grande embuste, a suma revolta consistia no fato de que a minha mentira revelava a sua, tão mais torpe. Que seus cadernos não eram seus, o nada-com-nada desaguava o sangue dela. Ele não era outro senão ela. Amava tanto essa mulher, parece-me, que a tomou para si como a sendo.


Não concordo que tenha enlouquecido, responder-me por Ana, Diana ou Flórida, não faz de mim louca, fraca, tanto mais chamasse Luanda, Manoela. O que é um nome? Mas não é difícil, todavia, nesses tempos de penúria  trancafiar uma mulher com provas escritas de sua transubstanciação.


Pela fresta posso vê-lo a encantar as moças com as histórias que tece com os dedos dos pés a mulher tão linda, tão sua, à hora mais escura do amor. Elas se deixam dançar, fraquejar, todas Manuelas. Ele, Lothur.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

SOM DE LETRA | Radio MEC FM


Ilustração-colagem de Eduardo Recife

O Blá do Poeta – Paula Abramo, Nina Rizzi e Fabrício Brandão.
Poetas brasileiros e editores de revistas literárias eletrônicas
Produção e apresentação de Livio Tragtenberg :

Som de Letra destaca a poesia em espanhol da brasileira Paula Abramo, radicada no México, e entrevista os editores Nina Rizzi, da "Revista Ellenismos", e Fabrício Brandão, da "Diversos Afins". No programa, uma discussão sobre as revistas literárias eletrônicas.

QUANDO? Quinta-feira próxima, 25/04 - 23h
Pra quem não está no RJ, é possível ouvir no podcast da Rádio MEC, aqui: http://radiomec.com.br/novidades/?p=55610

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Susana Thénon: Habitante do Nada




"Ao poema compete tudo, mesmo a terra mais ingrata, a prova mais dura. De seu confronto consigo mesmo não está ausente a guerra com o estrangeiro.

Tudo e nada estão para ser ditos. O poema é o poente que une dois extremos ignorados. Mas é também esses extremos. O poema é uma aventurosa incursão pelo ignorado.

Para o leitor brilhará outro elemento não previsto: uma raiz, um ramo. O Poema total seria então um resultado de somas infinitas, de confrontos, contradições e memórias, de recuperações e perdas, de esquecimento, morte e ser: (seria como um deus) algo imortal nascido de criaturas mortais."

Seleção e tradução de Nina Rizzi
Leia na rede aqui!
Baixar pdf aqui!

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Em outras paragens - Mordiendo el Arte




OH! ESTOY EN CHILE! 
MIRA LOS POEMAS EN LA REVISTA CINOSARGO!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

clouds above the ground




Gina Ruggeri, Cloudsmoke, 2007, acrylic on mylar cut-out, 54 x 48 in.

[sobre uma gravura de Gina Ruggeri
numa peça de Luigi Pirandello]


- silêncio. deixai que se perca a memória
............................................. [das águas


o poema como marcador
de páginas - vento, um
nenhum, cem mil?

ornado de verde
e todas as outras cores
ou todas as cores

- menos o azul, a cor mais azul

o poema como marcador
de páginas - curvo
língua a lamber a terra - diz:

a leitura de pirandello
suas nuvens, tal
como a morte

- imperdível. leio

o poema, pirandello
as nuvens. o que há para
ser visto, pisado e nada

ao me ver ao céu
luminosa pela vacuidade
infindável e azul, descego

- aquele manto me contém

ao me ver ao chão
água que veleja e logo
já é nuvem de novo, constato

- breviário de horas brancas

sim, uma grande coisa
foi. é. virá a ser.
"but who explains the reason of why?"

domingo, 31 de março de 2013

RISCO, JORNAL 'O GLOBO'


Clique na imagem para ampliar ;-)

sexta-feira, 29 de março de 2013

poemacollage


quinta-feira, 21 de março de 2013

Disjecta Membra

Marc Chagall (Moishe ZaKharovich Shagalov, russo, 1887-1985), Etude pour Les Tois Rouges, 1952-53. Tinta preta, guache e aquarela sobre papel. 

inundação

era noite de bafo quente.
a rigor, madrugada.

o calor batido fê-lo carne voar longe.

um estampido.
feito tiro, finalizando tudo:

o semáforo verdevermelho,
a rua de passantes apressados,
o coletivo cheio de curiosos.

uma batida quente e escura
inundou o asfalto de sangue e carne fraca
e fê-lo findar.

era noite de bafo quente
o dia que experimentou ser 

livre.
*

APÓS A INUNDAÇÃO
Arthur Rimbaud; trad. Nina Rizzi

Tão logo a fúria da inundação se desvaneceu, uma lebre parou junto ao trifólio e as balouçantes campânulas e ergueu sua súplica através da teia de aranha ao arco-íris.

As pedras preciosas se ocultavam e já as flores começavam a vicejar.

O quarteirão dos açougueiros surgia na rua principal e embarcações eram impelidas para o mar, abarrotadas de pilhas como as pinturas.

O sangue jorrava na vida do Barba Azul, nos matadouros, nos circos, onde o sinal de Deus tornava as janelas lívidas. O sangue e o leite jorravam.

Os castores se punham a construir. Cafeteiras deixavam escapar fumaça no bares.

Na grande residência de janelas ainda melhoradas, crianças em pranto contemplavam imagens comoventes.

Uma porta batia estrepitosamente. Na praça do povoado a criança volteava os braços e era compreendida pelos cataventos e os campanários de toda parte, sob o tamborilar da chuva.

A senhora X instalava um piano nos Alpes. Missas e primeiras comunhões eram celebradas nos cem mil altares da Catedral.

As caravanas partiam. E o "Hôtel Splendide" era edificado no caos do gelo e da noite polar.
*


Depois,  eu também quis morrer
ser livre da dor e da dor e da dor. 
Mas não pude. 

Então chorei, toda inundação
...

quarta-feira, 20 de março de 2013

NA ESTRADA DE SINTRA


[para Raul Macedo, sempre]

O que acontece quando morrem os poetas?
Insensíveis, vão, corpo e mente findos. Ficam essas
Palavras e àquelas mais que lindas, lazarentas, dizia o poeta
Drummond ou eu que disse assim, de ler assim o que é meu
[disse, morreu o homem, um poeta não morre nunca
Fica - como o último bebop da Náusea que não deságua no nada -
Para a cada lida ressuscitar].

Mas o que acontece quando morrem os homens?
Podia ser uma alegria, um conforto qualquer crença
Mas eu, que como ‘meu’ homem e poeta não posso crer em nada,
Penso em sua memória – exercício em desconstrução
Lembro que minha cabeça não dá folga e não posso ter um amigo
- desses que a gente manda uma mensagem na madrugada atormentada
“sem mimimi: te amo, poeta. obrigada, te beijo, viu. é bom
ter um amigo, como se pudesse fazer parte
do mundo, ter uma conversa digna, enfim...”
Desses que sorriem e respondem: “eu também. te
beijo, nina. não fica triste, se não tem a tua, eu te empresto
a minha mãe.”. Desses amigos que nos respondem e parecem viver
A mesma “sinto que eu tô afundando de propósito” e você pode
Dizer “acho que vou fumar um cigarro lá fora, ver os carros
[comboios, ele corrigiria] passarem- como a vida sobre nós. eu penso
em suicídio todo tempo. eu vou fumar um cigarro caminhando lá
fora e é uma pena que nunca chova no ceará, porque a chuva talvez
me fizesse sentir viva”.

Hoje a poesia vive.  Plena, pereníssima.
Um amigo não é qualquer amigo, como o amigo que te beija,
A amiga que te afaga e suporta e aqueles raros amigos que a gente suspira.
O homem que chamo meu, não sem disparate e sem romance
O homem, tão menino ainda
Morreu. Agora chove no Ceará. Chuva sem metáfora nem mais nada.
Chuva que eu caminho a lembrar de sua última mensagem
Um poema de Pessoa vivo “[...]
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
 Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
 Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
 E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível,
 Acelero... “ e eu só lhe disse: “você sempre estará em Sintra
e eu ‘Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...’


POEMA QUE É SÓ UMA EPÍGRAFE
"A pessoa que é muito admirada é como uma sombra presa, perdida, perdida presa numa inebriante casa de espelhos. Ela não sabe que os predadores estão do lado de fora, escalando os muros em torno, que nunca acabam, até que se ouve o barulho dos corpos caindo e a sombra finalmente desaparece no meio dos aplausos." - (Parábola, Anônimo, Raul Macedo)