segunda-feira, 17 de março de 2014
A Duração do Deserto
Dia 12 de março aconteceu no Centro Cultural São Paulo - Rua Vergueiro, 1000 - São Paulo - SP, como parte do I Festival Poesia Nova, o lançamento de meu novo livro A Duração do Deserto.
O evento foi lindo em sua totalidade, no lançamento presenças imensas de amigos e novos.
E que sigamos atravessando os desertos!
Para saber sobre mais o livro, visite a página no site da Editora Patuá: http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=232
***
Nômade -
até lugar-nenhum, brotando
da prisão de tua boca, tornar-se
o onde estás; lês
a fábula
que foi escrita nos olhos
dos dados: (era
palavra-meteoro, rabiscada pela luz
entre nós, e nós, contudo, no fim,
não tínhamos provas, não
podíamos produzir
a pedra). O dado-e-o-dado
possuem agora teu nome. Como quem diz
que onde quer que estejas
está o deserto contigo. Como se,
onde quer que te movas, seja
novo o deserto,
e se mova contigo.
- Paul Auster, Desterrar, 1970-72; trad. Caetano Galindo
Nomad -
till nowhere, blooming
in the prison of your mouth, becomes
wherever you are: you
reade the fable
that was written in the eyes
of dice: (it was
the meteor-word, scrawled by light
between us, yet we, in the end,
had no evidence, we could
not produce
the stone). The dice-and-the-dice
now own your name. As if to say,
wherever you are
the desert is with you. As if,
wherever yo move, the desert
is new,
is moving with you.
- Unearth, 1970-72
segunda-feira, 10 de março de 2014
revista o acrobata #2
Foi disponibilizada para download a edição 2 da revista O Acrobata. Nesta edição participo com uma prosa-ensaística-tradução a partir de poemas de Alejandra Pizarnik: CORRESPONDÊNCIA ERÓTICA PARA FLORA A. Leia na rede, imprima, e downloade-se! Aqui: http://issuu.com/revistaacrobata/docs/acrobata_2_issuu
“Disse-lhe estou morta; mas não é certo. É mais: seus jogos constantes com o suicídio não implicam mais que uma altíssima vocação sexual. É verdade, a morte me excita, me dá um sexo completo.”
“Disse-lhe estou morta; mas não é certo. É mais: seus jogos constantes com o suicídio não implicam mais que uma altíssima vocação sexual. É verdade, a morte me excita, me dá um sexo completo.”
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
nina numa nota:
voltei só pra dizer que vou dar um 'rolezinho' :3
![]() |
| [Imagem: Nancy Baker, HELLO SHITTY, 2010. Collage, gouache, glitter on paper, 22" x 30".] |
ninar in substância #2
REVISTA SUBSTÂNCIA #2
'É com prazer que anunciamos o lançamento do segundo número da nossa Revista Substânsia. Contamos com colaborações que em muito nos animaram a seguir. Esperamos que gostem dos textos, dos desenhos e das imagens disponíveis.
- E a Teoria da Literatura hoje?, por Roberto Acízelo de Souza
- 6 Museus, por Pedro Eiras
- Traduzir ser-com fantasmas, por Davi Pessoa Carneiro
- Traduzir, de Maurice Blanchot
- Intersecções poéticas com Nestor Jr., por Alexandre Rodrigues da Costa, Andréa del Fuego, Elisa Andrade Buzzo, Kelson Oliveira, Madjer de Souza Pontes, Nina Rizzi, Rui Manuel Amaral, Talles Azigon e Vera Casa Nova
- Entrevista com Valter Hugo Mãe
- Entrevista com Noemi Jaffe
- O cinema do Alumbramento: do rapazinho à fase adulta, por Marcelo Ikeda
- Contos de Alex Costa, Anderson Fonseca e Márcio Moreira
Visite o nosso site: www.revistasubstansia.com.br
Baixe a revista em pdf: http://migre.me/h0R9i
Com os abraços dos editores,
Nathan Matos e Roberto Menezes
[na imagem, uma das artes de Nestor Jr. que ilustram a edição. imperdível!]
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
anotação no caderno azul de teoria da literatura 2
nunca aprendi ficar calada, cândida
uma mulher me fulminou com os olhos.
era professora. era quarta-feira.
estava a pensar o lastro
e o que pode ser caráter, leitura, função
o ar-condicionado pifou.
entre langue e parole comecei rabiscar
uns vazios e os nadas.
três caras estavam à minha frente
tinham óculos e barbas e olhares atentos.
a professora me seguia a gagueira
não sabia eu jakobson, lucáks, jauss, tynianov
falava eu os nadas e os vazios, gaguejava
quando a mulher me fulminava
e o mundo era uma casca de nós.
uma mulher me fulminou com os olhos.
era professora. era quarta-feira.
estava a pensar o lastro
e o que pode ser caráter, leitura, função
o ar-condicionado pifou.
entre langue e parole comecei rabiscar
uns vazios e os nadas.
três caras estavam à minha frente
tinham óculos e barbas e olhares atentos.
a professora me seguia a gagueira
não sabia eu jakobson, lucáks, jauss, tynianov
falava eu os nadas e os vazios, gaguejava
quando a mulher me fulminava
e o mundo era uma casca de nós.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
"A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua"
Está na rede!
"A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua", antologia organizada por Amosse Mucavele e publicada em Moçambique. Participo com alguns poemas junto de outros tantos bons camaradas dizentes-escreventes da língua portuguesa e espalhados pelo mundo!
Downloade-se!:
http://issuu.com/teatrofantasma/docs/miolo_antologia_poetica
***
"Ousado projeto, grandioso, como compete a quem empunha a pena do "Luís de Ouro" ( Carlos Drummond de Andrade), "Camões, grande Camões" (Manoel du Bocage) e quer dizer ao mundo as novas armas e os novos varões assinalados que da ocidental praia lusitana; da americana praia brasileira; das africanas praias guineenses; cabo-verdianas, são-tomé-e-principenses, angolanas e moçambicanas; das indianas praias goenses; das chinesas praias macauenses; e das oceânicas praias timorenses; por mares, ares, sites navegados à exaustão, passaram ainda "além da mágoa" e "em esforços e guerras" — com a palavra — "conquistaram" novas formas de expressão." [Fragmento do Prefácio - A arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua Antologia Poética -
Paulo Seben - Professor adjunto de Literatura Brasileira do Instituto de Letras da UFRGS]
Os Poetas:
Micheliny Verunschk , Eduardo White, Alberto Estima de Oliveira, Ana Mafalda Leite, Bárbara Lia, José Luís Hopffer C. Almada, José Inácio Vieira de Melo, Léo Sidónio de Jesus Cote, Danny Spínola, Donizete Galvão , Luís Carlos Patraquim, Abreu Paxe, Luís Ferreira, Il Bonde, Luís Serguilha, José Luís Mendonça, Paula Virgínia Andrade Vasconcelos Lopes, Mia Couto, Alberto Riogrande, Rita Dahl, António de Névada, Camila Vardarac, Marília Miranda Lopes, Maria Ângela Carrascalão, Frederico Ningi, Jorge Melícias, DINA SALÚSTIO, Gociante Patissa, Cláudio Daniel, Emmy Xyx, Filinto Elísio Correia e Silva, José Carlos Moutinho, Jorge Arrimar, Yao Jingming, Maria Teresa Horta, Mario Lúcio Sousa, Miguel Almeida, Nina Rizzi, João Melo, Lau Siqueira, Frederico Matos Alves Cabral, Guita Jr, Cláudio Portella, Vera Duarte, Victor Sosa, Sangare Okapi, Zetho Cunha Gonçalves, Luis Avelima, Rolando Chagas Alves, Izidine Jaime, Alberte Momán Noval, Marcelo Ariel, Conceição Lima, David Capelenguela, Dinis Muhai, Lurdes Breda, Margarida Filipa de Andrade António Fontes, João Rasteiro, Eduardo Quive, Fernando Aguiar, Décio Bettencourt Mateus, Maria João Cantinho, Wilmar Silva, Jõao Tala, Mbate Pedro, Aurelino Costa, Luís Kandjimbo, Ademir Assunção, Miguel Ángel Alonso Diz, Victor Burity da Silva, Amosse Mucavele, Maria Helena Caldeira Marques de Morais Sato, J.A.S.LOPITO FEIJÓO, Carlos Marreiros, Affonso Romano de Sant'Anna, Adelino Timóteo, Ary dos Santos Vera Jardim, João Maimona.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
no escamandro, 2
"... reparem, reparem, reparem (!) na delicadeza dos textos. num tempo de poemas onde tudo parece querer explosão, pirotecnia, ou deriva sem retorno, estas poesias da nina rizzi corre no mínimo, mas sem cerebralismo algum – pedra de toque."
Minha poesia, tão bem cuidada, nessa beleza que é o escamandro.
Aqui: http://escamandro.wordpress.com/2013/10/08/nina-rizzi-1983/
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
no 'escamandro'
Cesare Paves com Constance Downling, seu último amor, em Roma, 1950.
e então, na hora prima de seus anos eu me vertia inconsolável. o outro, que jamais poderá penetrar o abismo do outro, qualquer outro, perguntava: 'mas então você é poeta!'. não, meu bem, continuava a verter, ele se foi, pra nunca mais. e desde então, é só a névoa.
"em micromonumento a mais um aniversário póstumo do escritor italiano cesare pavese, eis este conto - eu quero dizer, este belo poema em prosa narrativo - apresentado & traduzido pela poeta & editora Nina Rizzi."
LEIA AQUI: http://escamandro.wordpress.com/2013/09/05/anos-de-cesare-pavese/
POEMA SEM TÍTULO PARA M.
Dizem que o Papa
João Paulo II é – ou era- o Papa das Multidões.
Quens dizem, não
sei. Fui à Santa Missa, como bazófia de criança,
Uma única vez:
queria saber do vinho que bebem aqueles ora ditos Castos.
Não me deram do
vinho, antes o que dizem o Corpo Ensanguentado,
Chantageador, de um
Cristo transubstanciado numa farinha
- como fina moeda –
que dizem “Hóstia Sagrada”. Quando soube o Casto
Padre que não tinha
qualquer comunhão com Seu Deus e que os Seus
Pares sequer me
haviam batizado, fui ex-comungada de sua Presença dita
Santa e nunca mais
pude saber o que dizem esses Castos, conquanto não fosse
Documento
histórico.
Em verdade, digo o
Papa das Multidões porque chegou-me às mãos um DVD.
Na capa, leio em
encarnado-negro, maiúsculo e centralizado:
LIMITE
Mas dentro da embalagem, sem qualquer
compaixão, saltou aos meus olhos
O Papa e Suas Multidões.
Como fazer qualquer Confissão, ainda
que esta significasse agostinianamente
Lançar-se numa busca interior que
permita o conhecimento de si e a expressão
Desse mesmo eu que, ao confessar,
reconhece a si e ao mundo?
Eu que nada sei dos abismos de mim
além de lançar-me a eles, ao puro sangre,
E sem qualquer tentativa de
conhecimento que não seja simplesmente Ser,
Que dizer dos meus deslimites, da
vileza? Da ânsia do velho,
De tudo que é maior que a Nobreza e
os labirintos de falésias
Senhor Morto e Papa, se abomino a
multidão – sem nenhum coração?
O Jardim Petrificado salvará minha
voz de outono
Quando tudo é Ruína e Só?
Senhor! Essa melancolia de Palmyra,
também é uma Alegria?
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
temas pra carolina
1.
quando aquela russinha subiu
a passos lentos
a escadinha tão pequenina do casario
ninguém sabia que ela era ela
a russinha com a vozinha tão esganida e rouca
dessa dubiedade de estraçalhar vidros, zunir
ouvidos e querer morrer.
é certo que seus passos não combinassem
co'a vozinha. tanto faz, ela pouco e quase
nunca palavra dizia. só duas, olvidas.
vinha com os passinhos assim bem arranjados
passinhos de bailarina dessas caixinhas
de música que já não existem mais senão
em frança. em frança, que era de uma musiqueta
popular daqueles idos, nada
tão certo quando os passos dela. precisos.
subiu a escadinha, os passos lentos
coisa com coisa disse e o todo e largo olviu
- rebanho nu.
sábado, 10 de agosto de 2013
Revista Literária em Tradução, 6
Está no ar a 6ª edição da excelente Revista Literária em Tradução!
Colaboro com "Outros Poemas", de Alejandra Pizarnik, seleção composta de sete poemas pertencentes ao “Arquivo Pizarnik”, da Universidade de Princeton, não incluídos em antologias ou obras anteriores da autora.
Além destes, há traduções de Juan Liscano, Manuel del Cabral, John Milton, Tirteu, Urmuz, Edgar Allan Poe, Vladímir Soloviov, Sigurður Nordal, Grazia Deledda, Anacreonte, Roberto de las Carreras... Uma beleza!
Abaixo os links para leitura online, download e etcéteras. Boa leitura!:
(n.t.) Revista Literária em Tradução | 6º (Download PDF)
(n.t.) Revista Literária em Tradução | 6º (Leitura online)
(n.t.) Revista Literária em Tradução (Facebook)
(n.t.) Vídeo de divulgação | 6º (Youtube)
Chamada para colaboração:
(n.t.) Revista Literária em Tradução n° 7 (outubro/2013)
Normas para publicação em: www.notadotradutor.com/ publicar
Recepção de textos: até 15/09/2013
segunda-feira, 13 de maio de 2013
arcada auschivitz, poema impossível
[para roberta silva]
se é impossível
escrever um poema depois de auschivitz
penso num pequeno
tratado sobre a numeração dos dentes
talvez um desenho, um
poema visual, um processo semântico
lograssem mais êxito,
sobretudo se levamos em consideração
que as palavras -
coisas nomeadas e que juntas e comunicantes
constituem a linguagem
- são tão poucas, fino alcance do querer
entredentes, se
chamamos este de 'poema impossível'
temos um poema da dor,
mas que não dói, pós-auschivitz:
1.
o primeiro dente,
aquele da arcada superior esquerda que nasce primeiro
- ou que mais comumente
é primeiro -, este primeiro, é o 11
e o seu vizinho,
caminhando e contando sempre à esquerda, 12
e sucessivamente 13,
14, 15, 16, 17 e 18.
seguimos para o vizinho
da direita, daquele primeiro
que chamamos 11, este
vizinho da direita, chamam 21, sim,
pularam os odontólogos
em suas conferências os 19 e 20 e já
antecipando, os 29 e 30
e os 39 e 40, por alguma razão que a bela
drª aparecida não
disse. voltando, seguido ao 21, volver direita:
22, 23, 24, 25, 26 e 27.
2.
a arcada inferior
o primeiro dente
debaixo, paralelo ao primeiro, que é 11, de cima
caminhando e contando
sempre à esquerda: 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37
e 38. volver direita:
41, 42, 43, 44 (e agora o famigerado 45
que nesses tempos de guerra,
logo passado, dói tanto quanto já doeu um
canalizado 44), 46, 47
e finalmente o 48.
pronto, uma boca com 48
dentes à minha revelia
uma boca pasmada aos
números, uma boca escancarada por onde correm
o vento, o café
fumegante, o bochecho gelado do enxague
correm pelo papel
como meus olhos de querer morder
como o horror dos
campos de concentração, como o riso
das hienas - às
conquistas, o progresso, o devir, deus
correm sem qualquer
crença, sem qualquer novidade
(tudo foi e não será
os monumentos tombados
as cabeças cortadas
o brilho dos olhos dos
pobres
a verde e tenra grama)
correm pelo papel
- como aos meus olhos os dentes -
correm como a vida se estende
dorida, sem sentido numerada
para a morte.
terça-feira, 30 de abril de 2013
fazer a loca, a roça, a ruça
eu ainda lembro quando lia diacov e achava caetano
eu ainda lembro quando sonhava caetano e acordava diacov
eu ainda lembro quando gozava caetano e metia diacov
eu ainda lembro eu ainda lembro eu ainda lembro
lembro até do dia que vi diacov uma caetano outra
lembro que foi quando o céu se desmisturou da terra
lembro que eu fiquei bestinha raivosa que a caetano se desmembrasse diacov
lembro todo dia toda dia mesmo o que eu lembro
é que tenho duas caetano melhor que caê diacov mió que ruça
e os pastos mais que nada de frumbenga pra gente se intranhá
e lembrá lembrá lembrá
eu ainda lembro quando sonhava caetano e acordava diacov
eu ainda lembro quando gozava caetano e metia diacov
eu ainda lembro eu ainda lembro eu ainda lembro
lembro até do dia que vi diacov uma caetano outra
lembro que foi quando o céu se desmisturou da terra
lembro que eu fiquei bestinha raivosa que a caetano se desmembrasse diacov
lembro todo dia toda dia mesmo o que eu lembro
é que tenho duas caetano melhor que caê diacov mió que ruça
e os pastos mais que nada de frumbenga pra gente se intranhá
e lembrá lembrá lembrá
domingo, 28 de abril de 2013
LOKASEANNA, UM OUTRO
W. G. Collingwood (William Gershom Collingwood, inglês, 1854-1932). Loki zomba Bragi/ Loki taunts Bragi, 1908. Ilustração para o poema 'Lokaseanna/ Lokasena', do "Edda em verso", compilado no século XIII a partir de fontes tradicionais, por Snorri Sturluson.
“É tão doce a insanidade.
Tão doce ser outro.
Tão doce poder dizer-se. Desdizer-se.
Tão doce.
Nada doce é ser enclausurado,
cápsulas, almofadas, classificações. E você é isto, aquilo o outro.
Doce é inexistir. Dizer-se sem
saber-se.
Escrever as palavras repetidas,
misturar os tempos e as pessoas, iniciar um texto sem congruência com o todo
porque não me manda a linguagem, não ela, ela que me permite e ó, por ela cá
estou.” – A.J.
Não dei por mim o início disso. É tão difusa a lembrança de
nossa primeira correspondência que poderia contar três histórias diferentes,
todas verdadeiras. Mas sei que não tinha desejos físicos, materiais ou de
qualquer ordem. Ele veio até mim, sim, tenho a certeza disso, ele quem veio
primeiro a falar-me.
Eu tinha essa caixa postal em nome de Manoela que era uma
experimentação poética, linguística e muito autista, sem qualquer interesse
prolongado no outro, muito embora o outro sempre ter me fascinado. Então ele
dizia nada com nada, queria-me crê-lo um ‘listo’, um eusououtro, um
eumaiorquetudo.
É verdade que ele me enfadava quase todo o tempo com suas
cópias de cineastas italianos, pensadores franceses e o nada-com-nada, mas o
lia com determinado interesse: isto significava ter de responder de outro
lugar, pensamento, língua, corpo. Isto fazia de mim um eu muito mais profundo,
a buscar dentro da linguagem o que ela mesma jamais poderia nos oferecer.
Era muito conveniente que ele não me pedisse o telefone,
mas só conjecturasse “sua voz é mais para grave”. Como não, senhor, gravíssima
como meu nascimento, uma mentira. Eu lhe dizia tanto ao evadir-me que só mesmo
um sujeito com os mesmos propósitos – criar um eu muito mais
profundo – para não perceber os embustes, tamanho afundamento no
próprio ego. Não me importava e me convinha que não pedisse telefones, não
quisesse uma visita – e eu sabia que não podia, que sua mulher tão linda, tão
sua, estranharia – e nos mergulhava em abstrações.
Mas eis que um dia sucumbi ao eu mais raso, deixei-me
inebriar do falso porto que era californiano e entregar meu corpo em histeria.
Eu sabia que era algo como mentira, que não estava a separar-se de uma história
linda convertida num pântano: eu lia suas cartas abertas à mulher tão linda,
tão sua, tão doce como a insanidade; mas acreditava que isso não era uma
mentira, que o encontro da minha e a sua cicatriz em nada afetava a mulher tão
linda, tão sua e não, ela não tinha nada conosco, um casal tão falso quanto meu
porto, tão verdadeiro quanto essas linhas.
Sucumbimos e amamos a carne, essa que não se desgosta e não
se esgota. Não. Eu sucumbi tão mais às veredas de mim, que precisava dizê-lo
não é isto é tudo mais que tanto. Não podia aceitar seu caderninho bordado com
os dedos dos pés e sua palestra dos disparates da arte contemporânea, a
província em chamas. Mas não é hoje, Snorri, não hoje, que tivemos e dividimos
esse dia lindo de vindimas. Sim, Manuela, foi um dia lindo.
Tomei emprestada de Sá-Carneiro a canção e no dia seguinte
entreguei-lhe minha voz sem sotaque nem mais nada. Riu-me, disse-me a criatura
mais merecedora do asco universal. Fraca, fraca! Muito mais que o amor dando
bandeira. Eu sinto muito, agonizava
poderíamos recomeçar tudo
eu não pensaria em dizer
ao outro, que é outra
- as verdades exigidas como
qualquer verdade e o que é
mesmo a verdade?
diria, sou de junho
não sou estrábica. talvez, talvez...
sim, a boca levemente torta
aos mais atentos. sim
a cicatriz no lábio inferior
e as três histórias que dela se deslindam
vivo onde não chove, nem é frio
um lugar que guardasse suas lembranças
as mais puras e áridas
não obstante, reiterava tudo o mais
o esvaziamento, ausência, inabilidades
de mim. multiplicando esse desejo latente
um eu sanguidolente. e desde há tanto
a espera. medonha espera
o encontro da tua e a minha cicatriz.
Não sinta, eu não sinto nada, dizia como se no lindo dia
anterior tivesse jogado dados com mendigos.
Nunca mais lhe escrevi. Deixei morrer essa lembrança com o
gosto amargo do homem que prefere uma mulher tão linda, tão sua, aristotélica.
E chegou o tempo de retomar antigas correspondências do meu ofício e tudo era
tão claro e cristalino: meu projeto era muito mais dele, mas o dele calcado em
alguém real. Enquanto eu me buscava os outros que me habitam, as superpossibilidades
da linguagem e meus infernos mais profundos, ele se criava a partir de um
outro-outro, tão linda, tão sua.
O grande embuste, a suma revolta consistia no fato de que a
minha mentira revelava a sua, tão mais torpe. Que seus cadernos não eram seus,
o nada-com-nada desaguava o sangue dela. Ele não era outro senão ela. Amava
tanto essa mulher, parece-me, que a tomou para si como a sendo.
Não concordo que tenha enlouquecido, responder-me por Ana,
Diana ou Flórida, não faz de mim louca, fraca, tanto mais chamasse Luanda,
Manoela. O que é um nome? Mas não é difícil, todavia, nesses tempos de
penúria trancafiar uma mulher com provas escritas de sua
transubstanciação.
Pela fresta posso vê-lo a encantar as moças com as
histórias que tece com os dedos dos pés a mulher tão linda, tão sua, à hora
mais escura do amor. Elas se deixam dançar, fraquejar, todas Manuelas. Ele,
Lothur.
sexta-feira, 19 de abril de 2013
SOM DE LETRA | Radio MEC FM
Ilustração-colagem de Eduardo Recife
O Blá do Poeta – Paula Abramo, Nina Rizzi e Fabrício Brandão.
Poetas brasileiros e editores de revistas literárias eletrônicas
Produção e apresentação de Livio Tragtenberg :
Som de Letra destaca a poesia em espanhol da brasileira Paula Abramo, radicada no México, e entrevista os editores Nina Rizzi, da "Revista Ellenismos", e Fabrício Brandão, da "Diversos Afins". No programa, uma discussão sobre as revistas literárias eletrônicas.
QUANDO? Quinta-feira próxima, 25/04 - 23h
Pra quem não está no RJ, é possível ouvir no podcast da Rádio MEC, aqui: http://radiomec.com.br/novidades/?p=55610
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Susana Thénon: Habitante do Nada
"Ao poema compete tudo, mesmo a terra mais ingrata, a prova mais dura. De seu confronto consigo mesmo não está ausente a guerra com o estrangeiro.
Tudo e nada estão para ser ditos. O poema é o poente que une dois extremos ignorados. Mas é também esses extremos. O poema é uma aventurosa incursão pelo ignorado.
Para o leitor brilhará outro elemento não previsto: uma raiz, um ramo. O Poema total seria então um resultado de somas infinitas, de confrontos, contradições e memórias, de recuperações e perdas, de esquecimento, morte e ser: (seria como um deus) algo imortal nascido de criaturas mortais."
Seleção e tradução de Nina Rizzi
Leia na rede aqui!
Baixar pdf aqui!
segunda-feira, 15 de abril de 2013
quinta-feira, 4 de abril de 2013
clouds above the ground
Gina Ruggeri, Cloudsmoke, 2007, acrylic on mylar cut-out, 54 x 48 in.
[sobre uma gravura de Gina Ruggeri
numa peça de Luigi Pirandello]
- silêncio. deixai que se perca a memória
............................................. [das águas
o poema como marcador
de páginas - vento, um
nenhum, cem mil?
ornado de verde
e todas as outras cores
ou todas as cores
- menos o azul, a cor mais azul
o poema como marcador
de páginas - curvo
língua a lamber a terra - diz:
a leitura de pirandello
suas nuvens, tal
como a morte
- imperdível. leio
o poema, pirandello
as nuvens. o que há para
ser visto, pisado e nada
ao me ver ao céu
luminosa pela vacuidade
infindável e azul, descego
- aquele manto me contém
ao me ver ao chão
água que veleja e logo
já é nuvem de novo, constato
- breviário de horas brancas
sim, uma grande coisa
foi. é. virá a ser.
"but who explains the reason of why?"
domingo, 31 de março de 2013
sexta-feira, 29 de março de 2013
quinta-feira, 21 de março de 2013
Disjecta Membra
Marc Chagall (Moishe ZaKharovich Shagalov, russo, 1887-1985), Etude pour Les Tois Rouges, 1952-53. Tinta preta, guache e aquarela sobre papel.
inundação
era noite de bafo quente.
a rigor, madrugada.
o calor batido fê-lo carne voar longe.
um estampido.
feito tiro, finalizando tudo:
o semáforo verdevermelho,
a rua de passantes apressados,
o coletivo cheio de curiosos.
uma batida quente e escura
inundou o asfalto de sangue e carne fraca
e fê-lo findar.
era noite de bafo quente
o dia que experimentou ser
livre.
livre.
*
APÓS A INUNDAÇÃO
Arthur Rimbaud; trad. Nina Rizzi
Arthur Rimbaud; trad. Nina Rizzi
Tão logo a fúria da inundação se desvaneceu, uma lebre parou junto ao trifólio e as balouçantes campânulas e ergueu sua súplica através da teia de aranha ao arco-íris.
As pedras preciosas se ocultavam e já as flores começavam a vicejar.
O quarteirão dos açougueiros surgia na rua principal e embarcações eram impelidas para o mar, abarrotadas de pilhas como as pinturas.
O sangue jorrava na vida do Barba Azul, nos matadouros, nos circos, onde o sinal de Deus tornava as janelas lívidas. O sangue e o leite jorravam.
Os castores se punham a construir. Cafeteiras deixavam escapar fumaça no bares.
Na grande residência de janelas ainda melhoradas, crianças em pranto contemplavam imagens comoventes.
Uma porta batia estrepitosamente. Na praça do povoado a criança volteava os braços e era compreendida pelos cataventos e os campanários de toda parte, sob o tamborilar da chuva.
A senhora X instalava um piano nos Alpes. Missas e primeiras comunhões eram celebradas nos cem mil altares da Catedral.
As caravanas partiam. E o "Hôtel Splendide" era edificado no caos do gelo e da noite polar.
*
*
Depois, eu também quis morrer
ser livre da dor e da dor e da dor.
Mas não pude.
Então chorei, toda inundação
...
quarta-feira, 20 de março de 2013
NA ESTRADA DE SINTRA
[para Raul Macedo, sempre]
O que acontece quando
morrem os poetas?
Insensíveis, vão, corpo
e mente findos. Ficam essas
Palavras e àquelas mais
que lindas, lazarentas, dizia o poeta
Drummond ou eu que
disse assim, de ler assim o que é meu
[disse, morreu o
homem, um poeta não morre nunca
Fica - como o último
bebop da Náusea que não deságua no
nada -
Para a cada lida
ressuscitar].
Mas o que acontece
quando morrem os homens?
Podia ser uma alegria,
um conforto qualquer crença
Mas eu, que como ‘meu’
homem e poeta não posso crer em nada,
Penso em sua memória – exercício em desconstrução
Lembro que minha cabeça
não dá folga e não posso ter um amigo
- desses que a gente
manda uma mensagem na madrugada atormentada
“sem mimimi: te amo,
poeta. obrigada, te beijo, viu. é bom
ter um amigo, como se
pudesse fazer parte
do mundo, ter uma
conversa digna, enfim...”
Desses que sorriem e
respondem: “eu também. te
beijo, nina. não fica
triste, se não tem a tua, eu te empresto
a minha mãe.”. Desses
amigos que nos respondem e parecem viver
A mesma “sinto que eu
tô afundando de propósito” e você pode
Dizer “acho que vou
fumar um cigarro lá fora, ver os carros
[comboios, ele
corrigiria] passarem- como a vida sobre nós. eu penso
em suicídio todo tempo.
eu vou fumar um cigarro caminhando lá
fora e é uma pena que
nunca chova no ceará, porque a chuva talvez
me fizesse sentir viva”.
Hoje a poesia vive. Plena, pereníssima.
Um amigo não é qualquer
amigo, como o amigo que te beija,
A amiga que te afaga e
suporta e aqueles raros amigos que a gente suspira.
O homem que chamo meu,
não sem disparate e sem romance
O homem, tão menino
ainda
Morreu. Agora chove no
Ceará. Chuva sem metáfora nem mais nada.
Chuva que eu caminho a lembrar
de sua última mensagem
Um poema de Pessoa vivo “[...]
Na
estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado
desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na
distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbido, violento,
inconcebível,
Acelero... “ e eu só lhe
disse: “você sempre estará em Sintra
e eu ‘Na estrada de Sintra, cada vez menos perto
de mim...’”
POEMA
QUE É SÓ UMA EPÍGRAFE
"A pessoa que é
muito admirada é como uma sombra presa, perdida, perdida presa numa inebriante
casa de espelhos. Ela não sabe que os predadores estão do lado de fora,
escalando os muros em torno, que nunca acabam, até que se ouve o barulho dos
corpos caindo e a sombra finalmente desaparece no meio dos aplausos." - (Parábola, Anônimo,
Raul Macedo)
sábado, 16 de março de 2013
hipotética anotação no caderno azul de vila-matas:
la abnegacíon del hermano papa es conmovedor
el vecino dice: un ejemplo a seguir.
leí 'entre el amor y el odio, filo de la navaja'
leyó joy christimas "i love my neighbors"
domingo, 10 de março de 2013
contre-chanson pour olivia ruiz
j'ai chocolat
mais sans prince
port
tête
cœur
je ne veux pas whittle
mes hanches
mes hanches
j'ai chocolat
cœur
soulevée
*
eu chocolate
mas sem príncipe
na porta
cabeça
coração
não vou talhar
meus quadris
eu chocolate
coração
aumentado
*
[IMAGEM: frame do vídeo "La femme chocolat", de Olivia Ruiz. Assista aqui.]
sexta-feira, 8 de março de 2013
domingo, casamento em niterói
meu benzinho desce às escadas pra sala de jantar.
dedos cansados, lhe digo querido não precisa, não precisa.
mas ele vai fazer soar os talheres.
*
quarta-feira, 6 de março de 2013
LES MAINS PLEINES, A FORCE DE LES VOIR
dada à recaídas, brechei os vácuos
sem mim, que dizia casa. por um triz
não sucumbo, a alegria de palmyra.
adoro esse risinho cínico, doce, que se me forma
displicente. de maldade mesmo, quando rímini quer dormir
com as feias. de nojo mesmo, quando insinua seu sexo,
fragilíssimo, às setenta irmãs de anna
akhmátova, o que significa dizer a minha, nana ou sofia.
e não há vácuo. hãhã. as mãos cheias, de tanto se verem.
terça-feira, 5 de março de 2013
Parada na Esquina [Desinformação Seletiva]
"Nina Rizzi está parada na esquina. A esquina não fica entre duas ruas. As ruas estão desertas, porque toda a cidade saiu de casa ao mesmo tempo. O tempo corre tão rápido quanto o espaço. O espaço não significa mais nada. Nada é tudo o que o mundo inteiro sabe agora. Agora ninguém tira os olhos da maldade. A maldade é doce e grudenta como melado. O melado escorre dos corpos assolados pelo verão. Um verão inclemente como a verdade. A verdade não passa de uma miragem. A miragem é Nina Rizzi, parada em todas as esquinas."
- IMAGEM E TEXTO: Tuca Zamagna, IN: Desinformação Seletiva
Não seja tantam e breche toda a série "O Grande Desfile de Pin-ups" ;-)
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
dionisis
estava sentada no vaso com o líquido-vital-fumegante numa das mãos.
na outra o tabaco que me proibiram no banheiro.
o telefone tocou.
eu dormia?
era quaresma e todos se comoviam.
eu trepava.
fumava.
bebia.
queria dançar. ficar de quatro pra cheirar a faixa de pedestres
trepar desse jeito que não dão conta, maisemaisemaisemaisemais... pi.
uma caipira a menos, umas letras a mais e.
tudo se torna obsoleto, afinal.
a minha vontade de atender quaisquer telefonemas.
de não ser só dela.
entrementes, continua o sonho.
a ladeira.
as rodadas rendas brancas, tão brancas de tão delicadas.
poéticas. minhas.
é verdade que eu nada posso oferecer, pois perdi
meus braços naquela esquina de rendas amarelas tingidas de tinto vinho.
de mangue. mas
também preciso me sentir segura nesse penhasco tão alto.
ela tem um jeito assim, de me enxergar os olhos.
eu ainda sou movida por poesia. dizia ou pensava. não sei.
o que eu sei é que é quaresma. dá uma vontade danisca
de torar os cornos, incorporar tudo que é entidade, orixá
mas eu ainda não. não.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Chove no país que me lembro
Chove no país que me lembro
vídeo-poema de Nina Rizzi
Letra: Poema só para M. e Yeats, Nina Rizzi
Música: Joca Libânio
Película: "Memória", curta-metragem sobre Tarkovsky e sua casa de infância [extra de "Stalker"], duplamente alongado.
Música Final: "Saudades do Sul", Joca Libânio
Edição e Montagem: Nina Rizzi
Música: Joca Libânio
Película: "Memória", curta-metragem sobre Tarkovsky e sua casa de infância [extra de "Stalker"], duplamente alongado.
Música Final: "Saudades do Sul", Joca Libânio
Edição e Montagem: Nina Rizzi
agoras, 2013.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
A VIDA INTEIRA, ÁVIDA, A ARTE
Carla Diacov
Who says art has to be beautiful?
Look this dreadful hummingbird and
repeat like that:
Who says art has to be humiliation
without wings?
»> Carla Diacov, 'Para Nina
Rizzi, a tia da Revista, mãe!' [aqui!]
a vida inteira:
muitos
são os caminhos. o símbolo manchado de sangue espalhado na parede. as partes do
corpo e diz o poeta que "os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando
que o resto do corpo nascesse (a arte nasceu e ficou esperando que
nascêssemos). e nasce no útero do verso a dialética do desenho, da gravura e da
escultura. as linhas da vida se confluindo num pnemotórax da urgência que te
quero como quero e os pingos vermelhos, a tirania da espera "a vida
inteira que podia ter sido e que não foi", superada pela arte, pelo
reconstruir a arte. reconstruir foi a destreza da artista naquilo já criado, no
drama. de ambos pra nós, por conta dos nossos olhos...
ávida, a arte:
se transgredir é criar, é também o recriare, na inquietação e transgressão nos montamos em poema, pintura, escultura. as causas e os efeitos, as evidências, nós sustentados pelos versos "mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?" e a poesia, a gravura, nos faz dançar na chuva, meu amor! ouvimos o suspiro, a voz da poesia nas paredes, de leve, nos perfurando. nos perfurando essas pobres regras de unidos somente sois até que diabos nos separe, pobres regras não contidas na natureza... doce-amarga mania nossa, isso certo, isso é feio. a natureza, a nossa natureza não! nós existimos pr'além tempo-espaço, nos iluminamos "belo belo quero a alegria de sentir as coisas mais simples"!
se transgredir é criar, é também o recriare, na inquietação e transgressão nos montamos em poema, pintura, escultura. as causas e os efeitos, as evidências, nós sustentados pelos versos "mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?" e a poesia, a gravura, nos faz dançar na chuva, meu amor! ouvimos o suspiro, a voz da poesia nas paredes, de leve, nos perfurando. nos perfurando essas pobres regras de unidos somente sois até que diabos nos separe, pobres regras não contidas na natureza... doce-amarga mania nossa, isso certo, isso é feio. a natureza, a nossa natureza não! nós existimos pr'além tempo-espaço, nos iluminamos "belo belo quero a alegria de sentir as coisas mais simples"!
a
vida inteira:
pedaços
de seda pura embebida de sangue e costurada pelas linhas poéticas em papel
japonês, caixinhas de se guardar coração, voz, tato "um eu todo
encoberto" pra que se o descubra e, artista, recrie; desça o véu e faça o
inédito de mim, de você. de pé, toma seu caminho: me transforma em pigmento,
desenho a nanquim, um universo nosso, de palavra, recriado nos contrários. me
fazendo, em arte tua. tua.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
O aroma do barro sob a neve
Enquanto cai a neve
ela chora sua cor.
Com nacos de tijolos
arrancados da parede
esfrega-os na pele até
ser encarnada
como os brancos, horas
sob o sol a pino.
Chora, feliz:
quando estancar o
sangue não
sobrará essa cor de
menino carvoêro
[o professor disse que
essa é a pior
forma de energia, e
esses meninos
escravos sem dono]
será apenas ela, quase como
quase
todas suas bonecas.
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