segunda-feira, 2 de setembro de 2013

temas pra carolina


1.
quando aquela russinha subiu
a passos lentos
a escadinha tão pequenina do casario
ninguém sabia que ela era ela
a russinha com a vozinha tão esganida e rouca
dessa dubiedade de estraçalhar vidros, zunir
ouvidos e querer morrer.

é certo que seus passos não combinassem
co'a vozinha. tanto faz, ela pouco e quase
nunca palavra dizia. só duas, olvidas.

vinha com os passinhos assim bem arranjados
passinhos de bailarina dessas caixinhas
de música que já não existem mais senão
em frança. em frança, que era de uma musiqueta
popular daqueles idos, nada
tão certo quando os passos dela. precisos.

subiu a escadinha, os passos lentos
coisa com coisa disse e o todo e largo olviu

- rebanho nu.

sábado, 10 de agosto de 2013

Revista Literária em Tradução, 6



Está no ar a 6ª edição da excelente Revista Literária em Tradução!

Colaboro com "Outros Poemas", de Alejandra Pizarnik, seleção composta de sete poemas pertencentes ao “Arquivo Pizarnik”, da Universidade de Princeton, não incluídos em antologias ou obras anteriores da autora.

Além destes, há traduções de Juan Liscano, Manuel del Cabral, John Milton, Tirteu, Urmuz, Edgar Allan Poe, Vladímir Soloviov, Sigurður Nordal, Grazia Deledda, Anacreonte, Roberto de las Carreras... Uma beleza!

Abaixo os links para leitura online, download e etcéteras. Boa leitura!:

(n.t.) Revista Literária em Tradução | 6º (Download PDF)

(n.t.) Revista Literária em Tradução | 6º (Leitura online)

(n.t.) Revista Literária em Tradução (Facebook)

(n.t.) Vídeo de divulgação | 6º (Youtube)


Chamada para colaboração:

(n.t.) Revista Literária em Tradução n° 7 (outubro/2013)

Normas para publicação em: www.notadotradutor.com/publicar

Recepção de textos: até 15/09/2013

segunda-feira, 13 de maio de 2013

arcada auschivitz, poema impossível


[para roberta silva]

se é impossível escrever um poema depois de auschivitz
penso num pequeno tratado sobre a numeração dos dentes

talvez um desenho, um poema visual, um processo semântico
lograssem mais êxito, sobretudo se levamos em consideração
que as palavras - coisas nomeadas e que juntas e comunicantes
constituem a linguagem - são tão poucas, fino alcance do querer
entredentes, se chamamos este de 'poema impossível'
temos um poema da dor, mas que não dói, pós-auschivitz:

1.
o primeiro dente, aquele da arcada superior esquerda que nasce primeiro
- ou que mais comumente é primeiro -, este primeiro, é o 11
e o seu vizinho, caminhando e contando sempre à esquerda, 12
e sucessivamente 13, 14, 15, 16, 17 e 18.
seguimos para o vizinho da direita, daquele primeiro
que chamamos 11, este vizinho da direita, chamam 21, sim,
pularam os odontólogos em suas conferências os 19 e 20 e já
antecipando, os 29 e 30 e os 39 e 40, por alguma razão que a bela
drª aparecida não disse. voltando, seguido ao 21, volver direita:
22, 23, 24, 25, 26 e 27.

2.
a arcada inferior
o primeiro dente debaixo, paralelo ao primeiro, que é 11, de cima
caminhando e contando sempre à esquerda: 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37
e 38. volver direita: 41, 42, 43, 44 (e agora o famigerado 45
que nesses tempos de guerra, logo passado, dói tanto quanto já doeu um
canalizado 44), 46, 47 e finalmente o 48.

pronto, uma boca com 48 dentes à minha revelia

uma boca pasmada aos números, uma boca escancarada por onde correm
o vento, o café fumegante, o bochecho gelado do enxague

correm pelo papel como meus olhos de querer morder
como o horror dos campos de concentração, como o riso
das hienas - às conquistas, o progresso, o devir, deus

correm sem qualquer crença, sem qualquer novidade
(tudo foi e não será
os monumentos tombados
as cabeças cortadas
o brilho dos olhos dos pobres
a verde e tenra grama)

correm pelo papel
 - como aos meus olhos os dentes -

correm como a vida se estende
dorida, sem sentido numerada
para a morte.

terça-feira, 30 de abril de 2013

fazer a loca, a roça, a ruça

eu ainda lembro quando lia diacov e achava caetano
eu ainda lembro quando sonhava caetano e acordava diacov
eu ainda lembro quando gozava caetano e metia diacov
eu ainda lembro eu ainda lembro eu ainda lembro
lembro até do dia que vi diacov uma caetano outra
lembro que foi quando o céu se desmisturou da terra
lembro que eu fiquei bestinha raivosa que a caetano se desmembrasse diacov
lembro todo dia toda dia mesmo o que eu lembro
é que tenho duas caetano melhor que caê diacov mió que ruça
e os pastos mais que nada de frumbenga pra gente se intranhá
e lembrá lembrá lembrá

domingo, 28 de abril de 2013

LOKASEANNA, UM OUTRO


W. G. Collingwood (William Gershom Collingwood, inglês, 1854-1932). Loki zomba Bragi/ Loki taunts Bragi, 1908. Ilustração para o poema 'Lokaseanna/ Lokasena', do "Edda em verso", compilado no século XIII a partir de fontes tradicionais, por Snorri Sturluson.  

“É tão doce a insanidade.
Tão doce ser outro.
Tão doce poder dizer-se. Desdizer-se.
Tão doce.
Nada doce é ser enclausurado, cápsulas, almofadas, classificações. E você é isto, aquilo o outro.
Doce é inexistir. Dizer-se sem saber-se.
Escrever as palavras repetidas, misturar os tempos e as pessoas, iniciar um texto sem congruência com o todo porque não me manda a linguagem, não ela, ela que me permite e ó, por ela cá estou.” – A.J.


Não dei por mim o início disso. É tão difusa a lembrança de nossa primeira correspondência que poderia contar três histórias diferentes, todas verdadeiras. Mas sei que não tinha desejos físicos, materiais ou de qualquer ordem. Ele veio até mim, sim, tenho a certeza disso, ele quem veio primeiro a falar-me.


Eu tinha essa caixa postal em nome de Manoela que era uma experimentação poética, linguística e muito autista, sem qualquer interesse prolongado no outro, muito embora o outro sempre ter me fascinado. Então ele dizia nada com nada, queria-me crê-lo um ‘listo’, um eusououtro, um eumaiorquetudo.


É verdade que ele me enfadava quase todo o tempo com suas cópias de cineastas italianos, pensadores franceses e o nada-com-nada, mas o lia com determinado interesse: isto significava ter de responder de outro lugar, pensamento, língua, corpo. Isto fazia de mim um eu muito mais profundo, a buscar dentro da linguagem o que ela mesma jamais poderia nos oferecer.


Era muito conveniente que ele não me pedisse o telefone, mas só conjecturasse “sua voz é mais para grave”. Como não, senhor, gravíssima como meu nascimento, uma mentira. Eu lhe dizia tanto ao evadir-me que só mesmo um sujeito com os mesmos propósitos – criar um eu muito mais profundo – para não perceber os embustes, tamanho afundamento no próprio ego. Não me importava e me convinha que não pedisse telefones, não quisesse uma visita – e eu sabia que não podia, que sua mulher tão linda, tão sua, estranharia – e nos mergulhava em abstrações.


Mas eis que um dia sucumbi ao eu mais raso, deixei-me inebriar do falso porto que era californiano e entregar meu corpo em histeria. Eu sabia que era algo como mentira, que não estava a separar-se de uma história linda convertida num pântano: eu lia suas cartas abertas à mulher tão linda, tão sua, tão doce como a insanidade; mas acreditava que isso não era uma mentira, que o encontro da minha e a sua cicatriz em nada afetava a mulher tão linda, tão sua e não, ela não tinha nada conosco, um casal tão falso quanto meu porto, tão verdadeiro quanto essas linhas.


Sucumbimos e amamos a carne, essa que não se desgosta e não se esgota. Não. Eu sucumbi tão mais às veredas de mim, que precisava dizê-lo não é isto é tudo mais que tanto. Não podia aceitar seu caderninho bordado com os dedos dos pés e sua palestra dos disparates da arte contemporânea, a província em chamas. Mas não é hoje, Snorri, não hoje, que tivemos e dividimos esse dia lindo de vindimas. Sim, Manuela, foi um dia lindo.


Tomei emprestada de Sá-Carneiro a canção e no dia seguinte entreguei-lhe minha voz sem sotaque nem mais nada. Riu-me, disse-me a criatura mais merecedora do asco universal. Fraca, fraca! Muito mais que o amor dando bandeira. Eu sinto muito, agonizava

poderíamos recomeçar tudo
eu não pensaria em dizer
ao outro, que é outra
- as verdades exigidas como
qualquer verdade e o que é
mesmo a verdade?

diria, sou de junho
não sou estrábica. talvez, talvez...
sim, a boca levemente torta
aos mais atentos. sim
a cicatriz no lábio inferior
e as três histórias que dela se deslindam

vivo onde não chove, nem é frio
um lugar que guardasse suas lembranças
as mais puras e áridas

não obstante, reiterava tudo o mais
o esvaziamento, ausência, inabilidades 
de mim. multiplicando esse desejo latente
um eu sanguidolente. e desde há tanto
a espera. medonha espera
o encontro da tua e a minha cicatriz.

Não sinta, eu não sinto nada, dizia como se no lindo dia anterior tivesse jogado dados com mendigos.

Nunca mais lhe escrevi. Deixei morrer essa lembrança com o gosto amargo do homem que prefere uma mulher tão linda, tão sua, aristotélica. E chegou o tempo de retomar antigas correspondências do meu ofício e tudo era tão claro e cristalino: meu projeto era muito mais dele, mas o dele calcado em alguém real. Enquanto eu me buscava os outros que me habitam, as superpossibilidades da linguagem e meus infernos mais profundos, ele se criava a partir de um outro-outro, tão linda, tão sua.


O grande embuste, a suma revolta consistia no fato de que a minha mentira revelava a sua, tão mais torpe. Que seus cadernos não eram seus, o nada-com-nada desaguava o sangue dela. Ele não era outro senão ela. Amava tanto essa mulher, parece-me, que a tomou para si como a sendo.


Não concordo que tenha enlouquecido, responder-me por Ana, Diana ou Flórida, não faz de mim louca, fraca, tanto mais chamasse Luanda, Manoela. O que é um nome? Mas não é difícil, todavia, nesses tempos de penúria  trancafiar uma mulher com provas escritas de sua transubstanciação.


Pela fresta posso vê-lo a encantar as moças com as histórias que tece com os dedos dos pés a mulher tão linda, tão sua, à hora mais escura do amor. Elas se deixam dançar, fraquejar, todas Manuelas. Ele, Lothur.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

SOM DE LETRA | Radio MEC FM


Ilustração-colagem de Eduardo Recife

O Blá do Poeta – Paula Abramo, Nina Rizzi e Fabrício Brandão.
Poetas brasileiros e editores de revistas literárias eletrônicas
Produção e apresentação de Livio Tragtenberg :

Som de Letra destaca a poesia em espanhol da brasileira Paula Abramo, radicada no México, e entrevista os editores Nina Rizzi, da "Revista Ellenismos", e Fabrício Brandão, da "Diversos Afins". No programa, uma discussão sobre as revistas literárias eletrônicas.

QUANDO? Quinta-feira próxima, 25/04 - 23h
Pra quem não está no RJ, é possível ouvir no podcast da Rádio MEC, aqui: http://radiomec.com.br/novidades/?p=55610

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Susana Thénon: Habitante do Nada




"Ao poema compete tudo, mesmo a terra mais ingrata, a prova mais dura. De seu confronto consigo mesmo não está ausente a guerra com o estrangeiro.

Tudo e nada estão para ser ditos. O poema é o poente que une dois extremos ignorados. Mas é também esses extremos. O poema é uma aventurosa incursão pelo ignorado.

Para o leitor brilhará outro elemento não previsto: uma raiz, um ramo. O Poema total seria então um resultado de somas infinitas, de confrontos, contradições e memórias, de recuperações e perdas, de esquecimento, morte e ser: (seria como um deus) algo imortal nascido de criaturas mortais."

Seleção e tradução de Nina Rizzi
Leia na rede aqui!
Baixar pdf aqui!

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Em outras paragens - Mordiendo el Arte




OH! ESTOY EN CHILE! 
MIRA LOS POEMAS EN LA REVISTA CINOSARGO!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

clouds above the ground




Gina Ruggeri, Cloudsmoke, 2007, acrylic on mylar cut-out, 54 x 48 in.

[sobre uma gravura de Gina Ruggeri
numa peça de Luigi Pirandello]


- silêncio. deixai que se perca a memória
............................................. [das águas


o poema como marcador
de páginas - vento, um
nenhum, cem mil?

ornado de verde
e todas as outras cores
ou todas as cores

- menos o azul, a cor mais azul

o poema como marcador
de páginas - curvo
língua a lamber a terra - diz:

a leitura de pirandello
suas nuvens, tal
como a morte

- imperdível. leio

o poema, pirandello
as nuvens. o que há para
ser visto, pisado e nada

ao me ver ao céu
luminosa pela vacuidade
infindável e azul, descego

- aquele manto me contém

ao me ver ao chão
água que veleja e logo
já é nuvem de novo, constato

- breviário de horas brancas

sim, uma grande coisa
foi. é. virá a ser.
"but who explains the reason of why?"

domingo, 31 de março de 2013

RISCO, JORNAL 'O GLOBO'


Clique na imagem para ampliar ;-)

sexta-feira, 29 de março de 2013

poemacollage


quinta-feira, 21 de março de 2013

Disjecta Membra

Marc Chagall (Moishe ZaKharovich Shagalov, russo, 1887-1985), Etude pour Les Tois Rouges, 1952-53. Tinta preta, guache e aquarela sobre papel. 

inundação

era noite de bafo quente.
a rigor, madrugada.

o calor batido fê-lo carne voar longe.

um estampido.
feito tiro, finalizando tudo:

o semáforo verdevermelho,
a rua de passantes apressados,
o coletivo cheio de curiosos.

uma batida quente e escura
inundou o asfalto de sangue e carne fraca
e fê-lo findar.

era noite de bafo quente
o dia que experimentou ser 

livre.
*

APÓS A INUNDAÇÃO
Arthur Rimbaud; trad. Nina Rizzi

Tão logo a fúria da inundação se desvaneceu, uma lebre parou junto ao trifólio e as balouçantes campânulas e ergueu sua súplica através da teia de aranha ao arco-íris.

As pedras preciosas se ocultavam e já as flores começavam a vicejar.

O quarteirão dos açougueiros surgia na rua principal e embarcações eram impelidas para o mar, abarrotadas de pilhas como as pinturas.

O sangue jorrava na vida do Barba Azul, nos matadouros, nos circos, onde o sinal de Deus tornava as janelas lívidas. O sangue e o leite jorravam.

Os castores se punham a construir. Cafeteiras deixavam escapar fumaça no bares.

Na grande residência de janelas ainda melhoradas, crianças em pranto contemplavam imagens comoventes.

Uma porta batia estrepitosamente. Na praça do povoado a criança volteava os braços e era compreendida pelos cataventos e os campanários de toda parte, sob o tamborilar da chuva.

A senhora X instalava um piano nos Alpes. Missas e primeiras comunhões eram celebradas nos cem mil altares da Catedral.

As caravanas partiam. E o "Hôtel Splendide" era edificado no caos do gelo e da noite polar.
*


Depois,  eu também quis morrer
ser livre da dor e da dor e da dor. 
Mas não pude. 

Então chorei, toda inundação
...

quarta-feira, 20 de março de 2013

NA ESTRADA DE SINTRA


[para Raul Macedo, sempre]

O que acontece quando morrem os poetas?
Insensíveis, vão, corpo e mente findos. Ficam essas
Palavras e àquelas mais que lindas, lazarentas, dizia o poeta
Drummond ou eu que disse assim, de ler assim o que é meu
[disse, morreu o homem, um poeta não morre nunca
Fica - como o último bebop da Náusea que não deságua no nada -
Para a cada lida ressuscitar].

Mas o que acontece quando morrem os homens?
Podia ser uma alegria, um conforto qualquer crença
Mas eu, que como ‘meu’ homem e poeta não posso crer em nada,
Penso em sua memória – exercício em desconstrução
Lembro que minha cabeça não dá folga e não posso ter um amigo
- desses que a gente manda uma mensagem na madrugada atormentada
“sem mimimi: te amo, poeta. obrigada, te beijo, viu. é bom
ter um amigo, como se pudesse fazer parte
do mundo, ter uma conversa digna, enfim...”
Desses que sorriem e respondem: “eu também. te
beijo, nina. não fica triste, se não tem a tua, eu te empresto
a minha mãe.”. Desses amigos que nos respondem e parecem viver
A mesma “sinto que eu tô afundando de propósito” e você pode
Dizer “acho que vou fumar um cigarro lá fora, ver os carros
[comboios, ele corrigiria] passarem- como a vida sobre nós. eu penso
em suicídio todo tempo. eu vou fumar um cigarro caminhando lá
fora e é uma pena que nunca chova no ceará, porque a chuva talvez
me fizesse sentir viva”.

Hoje a poesia vive.  Plena, pereníssima.
Um amigo não é qualquer amigo, como o amigo que te beija,
A amiga que te afaga e suporta e aqueles raros amigos que a gente suspira.
O homem que chamo meu, não sem disparate e sem romance
O homem, tão menino ainda
Morreu. Agora chove no Ceará. Chuva sem metáfora nem mais nada.
Chuva que eu caminho a lembrar de sua última mensagem
Um poema de Pessoa vivo “[...]
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
 Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
 Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
 E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível,
 Acelero... “ e eu só lhe disse: “você sempre estará em Sintra
e eu ‘Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...’


POEMA QUE É SÓ UMA EPÍGRAFE
"A pessoa que é muito admirada é como uma sombra presa, perdida, perdida presa numa inebriante casa de espelhos. Ela não sabe que os predadores estão do lado de fora, escalando os muros em torno, que nunca acabam, até que se ouve o barulho dos corpos caindo e a sombra finalmente desaparece no meio dos aplausos." - (Parábola, Anônimo, Raul Macedo)

sábado, 16 de março de 2013

hipotética anotação no caderno azul de vila-matas:


la abnegacíon del hermano papa es conmovedor
el vecino dice: un ejemplo a seguir.

leí 'entre el amor y el odio, filo de la navaja'
leyó joy christimas "i love my neighbors"

domingo, 10 de março de 2013

contre-chanson pour olivia ruiz


j'ai chocolat

mais sans prince
port
tête
cœur

je ne veux pas whittle

mes hanches
j'ai chocolat
cœur
soulevée
*



contra-canção para olivia ruiz

eu chocolate

mas sem príncipe
na porta
cabeça
coração

não vou talhar

meus quadris
eu chocolate
coração
aumentado
*


[IMAGEM: frame do vídeo "La femme chocolat", de Olivia Ruiz. Assista aqui.]

sexta-feira, 8 de março de 2013

domingo, casamento em niterói


meu benzinho desce às escadas pra sala de jantar.
dedos cansados, lhe digo querido não precisa, não precisa.
mas ele vai fazer soar os talheres.
*

quarta-feira, 6 de março de 2013

LES MAINS PLEINES, A FORCE DE LES VOIR


dada à recaídas, brechei os vácuos
sem mim, que dizia casa. por um triz
não sucumbo, a alegria de palmyra.

adoro esse risinho cínico, doce, que se me forma
displicente. de maldade mesmo, quando rímini quer dormir
com as feias. de nojo mesmo, quando insinua seu sexo,

fragilíssimo, às setenta irmãs de anna
akhmátova, o que significa dizer a minha, nana ou sofia.
e não há vácuo. hãhã. as mãos cheias, de tanto se verem.

terça-feira, 5 de março de 2013

Parada na Esquina [Desinformação Seletiva]


Fotocolagem: Nina Rizzi e A Grande Mulata de Carybé.

"Nina Rizzi está parada na esquina. A esquina não fica entre duas ruas. As ruas estão desertas, porque toda a cidade saiu de casa ao mesmo tempo. O tempo corre tão rápido quanto o espaço. O espaço não significa mais nada. Nada é tudo o que o mundo inteiro sabe agora. Agora ninguém tira os olhos da maldade. A maldade é doce e grudenta como melado. O melado escorre dos corpos assolados pelo verão. Um verão inclemente como a verdade. A verdade não passa de uma miragem. A miragem é Nina Rizzi, parada em todas as esquinas."

- IMAGEM E TEXTO: Tuca Zamagna, IN: Desinformação Seletiva

Não seja tantam e breche toda a série "O Grande Desfile de Pin-ups" ;-)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

dionisis


estava sentada no vaso com o líquido-vital-fumegante numa das mãos.
na outra o tabaco que me proibiram no banheiro.

o telefone tocou.
eu dormia?
era quaresma e todos se comoviam.
eu trepava.
fumava.
bebia.
queria dançar. ficar de quatro pra cheirar a faixa de pedestres
trepar desse jeito que não dão conta, maisemaisemaisemaisemais... pi.

uma caipira a menos, umas letras a mais e.
tudo se torna obsoleto, afinal.

a minha vontade de atender quaisquer telefonemas.
de não ser só dela.
entrementes, continua o sonho.
a ladeira.
as rodadas rendas brancas, tão brancas de tão delicadas.
poéticas. minhas.

é verdade que eu nada posso oferecer, pois perdi
meus braços naquela esquina de rendas amarelas tingidas de tinto vinho.
de mangue. mas

também preciso me sentir segura nesse penhasco tão alto.

ela tem um jeito assim, de me enxergar os olhos.
eu ainda sou movida por poesia. dizia ou pensava. não sei.

o que eu sei é que é quaresma. dá uma vontade danisca
de torar os cornos, incorporar tudo que é entidade, orixá

mas eu ainda não. não.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Chove no país que me lembro



Chove no país que me lembro
vídeo-poema de Nina Rizzi
Letra: Poema só para M. e Yeats, Nina Rizzi
Música: Joca Libânio
Película: "Memória", curta-metragem sobre Tarkovsky e sua casa de infância [extra de "Stalker"], duplamente alongado.
Música Final: "Saudades do Sul", Joca Libânio
Edição e Montagem: Nina Rizzi
agoras, 2013.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A VIDA INTEIRA, ÁVIDA, A ARTE


 Carla Diacov 

Who says art has to be beautiful?
Look this dreadful hummingbird and repeat like that:
Who says art has to be humiliation without wings?

»> Carla Diacov, 'Para Nina Rizzi, a tia da Revista, mãe!' [aqui!]


a vida inteira:

muitos são os caminhos. o símbolo manchado de sangue espalhado na parede. as partes do corpo e diz o poeta que "os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse (a arte nasceu e ficou esperando que nascêssemos). e nasce no útero do verso a dialética do desenho, da gravura e da escultura. as linhas da vida se confluindo num pnemotórax da urgência que te quero como quero e os pingos vermelhos, a tirania da espera "a vida inteira que podia ter sido e que não foi", superada pela arte, pelo reconstruir a arte. reconstruir foi a destreza da artista naquilo já criado, no drama. de ambos pra nós, por conta dos nossos olhos...

ávida, a arte:

se transgredir é criar, é também o recriare, na inquietação e transgressão nos montamos em poema, pintura, escultura. as causas e os efeitos, as evidências, nós sustentados pelos versos "mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?" e a poesia, a gravura, nos faz dançar na chuva, meu amor! ouvimos o suspiro, a voz da poesia nas paredes, de leve, nos perfurando. nos perfurando essas pobres regras de unidos somente sois até que diabos nos separe, pobres regras não contidas na natureza... doce-amarga mania nossa, isso certo, isso é feio. a natureza, a nossa natureza não! nós existimos pr'além tempo-espaço, nos iluminamos "belo belo quero a alegria de sentir as coisas mais simples"!

a vida inteira:

pedaços de seda pura embebida de sangue e costurada pelas linhas poéticas em papel japonês, caixinhas de se guardar coração, voz, tato "um eu todo encoberto" pra que se o descubra e, artista, recrie; desça o véu e faça o inédito de mim, de você. de pé, toma seu caminho: me transforma em pigmento, desenho a nanquim, um universo nosso, de palavra, recriado nos contrários. me fazendo, em arte tua. tua.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O aroma do barro sob a neve


Enquanto cai a neve
ela chora sua cor.

Com nacos de tijolos arrancados da parede
esfrega-os na pele até ser encarnada
como os brancos, horas sob o sol a pino.

Chora, feliz:
quando estancar o sangue não
sobrará essa cor de menino carvoêro

[o professor disse que essa é a pior
forma de energia, e esses meninos
escravos sem dono]

será apenas ela, quase como quase
todas suas bonecas.

tocatta experimental para pi pá



1º movimento:

deixo meus olhos caírem
sobre o rio seco
e eles se molham


2º movimento:

pleno verão a pino
folhas sob sóis brincam de outono
me derramam ternura
*


- Para ler ouvindo: http://www.youtube.com/watch?v=d79UxGxKHKE

[IMAGEM: Ma Yuan (Chinês, século XIII), 'Walking on Path in Spring'. Ma Yuan é o pintor mais importante da dinastia Song setentrional. Este artista era conhecido por “Ma, o de uma esquina”, porque, em suas pinturas, só chegava a uma esquina da tela, deixando o resto do quadro em branco.]

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

"Passionnément" - 1º exercício de tradução




não não nãonãonão não
nãonnão nnão nem nãonão
o não não o falso não o não
nãonãonão o não
nãonãonão o não o mal
o púrpura o mal não
nãonão não o não o papai
o mal papai o púrpura o não
nãonão não nãonãopassar
passar passar ele passa ele não não
ele passa o não de não de papa [...]


[...] eu eu te amo
eu te amo eu você eu
te amo amo amo eu te amo
apaixonado e amo eu
te amo apaixonado
eu te amo
apaixonadamente amando eu
te amo eu te amo apaixonadamente
eu sou apaixonado eu amo você nasceu
eu você eu te amo apaixonado nascido
eu te amo apaixonado
eu te amo apaixonadamente eu te amo
eu te amo paix apaixonadamente

[Nina Rizzi]

_______________________________


pas pas paspaspas pas
pasppas ppas pás paspas
le pas pas le faux pas le pas
paspaspas le pas
paspaspas le pas le mau
le mauve le mauvais pas
paspas pas le pas le papa
le mauvais papa le mauve le pas
paspas passe paspaspasse
passe passe il passe il pas pas
il passe le pas du pas du pape [...]


[...] je je t’aime
je t’aime je t’ai je
t’aime aime aime je t’aime
passionné é aime je
t’aime passioném
je t’aime
passionnément aimante je
t’aime je t’aime passionnément
je t’ai je t’aime passionné né
je t’aime passionné
je t’aime passionnément je t’aime
je t’aime passio passionnément

IN: LUCA, Ghérasim. Héros-limite, suivi de La chant de la carpe et de Paralipomènes. Paris: Gallimard/ Poche, 2001, pp. 169-179. Disponível também no CD Ghérasim Luca par Ghérasim Luca (Seuil, 2001).

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

E-mail para Fabiano Calixto


Edvard Munch, Vampira (Amor e Dor), 1893-94

rapaz, essa vida dura é pura poesia
nem um grão de arroz, nem um tostão nos bolsos
e  meu chefe esbanjando caviar no instagram,

seu (e dos seus) economiquês do EME-AI-TI
na conferência de eternos escolhidos ricos da igreja 
protestante. essa onda de reestruturação produtiva, 
de conservadorismo travestido de modernidade, saca?

(os cabelos em pé, os pentelhos molhados.)
e como sempre eu aqui falando como falo
e quase esqueço de dizer que esse e-mail é só

pra te dizer: guardei estes dois versos
- meu chuveiro queimou
acho que farei leite com mel

é, eu não bebo leite, mas esse e-mail é só
pra não esquecer que você tem razão,
meu amigo:  poesia é coisa de rua, de fodidos

leite quente escorrendo pela garganta como 
o tédio das coberturas e essas noites perturbadas. 
é, estamos perdidos: - nihil secundi in ulnas nostras.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

depois de um título de pierre reverdy


... não
me atrevo a me mirar, esta que só não é
silêncio [...]
caída. a casa
vazia, todas as horas
já passaram. as mãos já
não ocupam o lugar do nada.
anm animais, nem gente - tua
alegria contra a minha.

[tua: qualquer que possa existir além-isto]

algo cai em mim, «Sombra das Minhas Mãos»
como um verso, este verso «Os Homens Intratáveis».
cada gota confundida entre o rímel - chuva, oceano, lágrimas -
e é só a natureza, não poesia. onde gira o horizonte

como um verso, um título qualquer, não
me atrevo a atrevo me mirar, esta que só não é
silêncio, no texto.