quinta-feira, 21 de março de 2013

Disjecta Membra

Marc Chagall (Moishe ZaKharovich Shagalov, russo, 1887-1985), Etude pour Les Tois Rouges, 1952-53. Tinta preta, guache e aquarela sobre papel. 

inundação

era noite de bafo quente.
a rigor, madrugada.

o calor batido fê-lo carne voar longe.

um estampido.
feito tiro, finalizando tudo:

o semáforo verdevermelho,
a rua de passantes apressados,
o coletivo cheio de curiosos.

uma batida quente e escura
inundou o asfalto de sangue e carne fraca
e fê-lo findar.

era noite de bafo quente
o dia que experimentou ser 

livre.
*

APÓS A INUNDAÇÃO
Arthur Rimbaud; trad. Nina Rizzi

Tão logo a fúria da inundação se desvaneceu, uma lebre parou junto ao trifólio e as balouçantes campânulas e ergueu sua súplica através da teia de aranha ao arco-íris.

As pedras preciosas se ocultavam e já as flores começavam a vicejar.

O quarteirão dos açougueiros surgia na rua principal e embarcações eram impelidas para o mar, abarrotadas de pilhas como as pinturas.

O sangue jorrava na vida do Barba Azul, nos matadouros, nos circos, onde o sinal de Deus tornava as janelas lívidas. O sangue e o leite jorravam.

Os castores se punham a construir. Cafeteiras deixavam escapar fumaça no bares.

Na grande residência de janelas ainda melhoradas, crianças em pranto contemplavam imagens comoventes.

Uma porta batia estrepitosamente. Na praça do povoado a criança volteava os braços e era compreendida pelos cataventos e os campanários de toda parte, sob o tamborilar da chuva.

A senhora X instalava um piano nos Alpes. Missas e primeiras comunhões eram celebradas nos cem mil altares da Catedral.

As caravanas partiam. E o "Hôtel Splendide" era edificado no caos do gelo e da noite polar.
*


Depois,  eu também quis morrer
ser livre da dor e da dor e da dor. 
Mas não pude. 

Então chorei, toda inundação
...

quarta-feira, 20 de março de 2013

NA ESTRADA DE SINTRA


[para Raul Macedo, sempre]

O que acontece quando morrem os poetas?
Insensíveis, vão, corpo e mente findos. Ficam essas
Palavras e àquelas mais que lindas, lazarentas, dizia o poeta
Drummond ou eu que disse assim, de ler assim o que é meu
[disse, morreu o homem, um poeta não morre nunca
Fica - como o último bebop da Náusea que não deságua no nada -
Para a cada lida ressuscitar].

Mas o que acontece quando morrem os homens?
Podia ser uma alegria, um conforto qualquer crença
Mas eu, que como ‘meu’ homem e poeta não posso crer em nada,
Penso em sua memória – exercício em desconstrução
Lembro que minha cabeça não dá folga e não posso ter um amigo
- desses que a gente manda uma mensagem na madrugada atormentada
“sem mimimi: te amo, poeta. obrigada, te beijo, viu. é bom
ter um amigo, como se pudesse fazer parte
do mundo, ter uma conversa digna, enfim...”
Desses que sorriem e respondem: “eu também. te
beijo, nina. não fica triste, se não tem a tua, eu te empresto
a minha mãe.”. Desses amigos que nos respondem e parecem viver
A mesma “sinto que eu tô afundando de propósito” e você pode
Dizer “acho que vou fumar um cigarro lá fora, ver os carros
[comboios, ele corrigiria] passarem- como a vida sobre nós. eu penso
em suicídio todo tempo. eu vou fumar um cigarro caminhando lá
fora e é uma pena que nunca chova no ceará, porque a chuva talvez
me fizesse sentir viva”.

Hoje a poesia vive.  Plena, pereníssima.
Um amigo não é qualquer amigo, como o amigo que te beija,
A amiga que te afaga e suporta e aqueles raros amigos que a gente suspira.
O homem que chamo meu, não sem disparate e sem romance
O homem, tão menino ainda
Morreu. Agora chove no Ceará. Chuva sem metáfora nem mais nada.
Chuva que eu caminho a lembrar de sua última mensagem
Um poema de Pessoa vivo “[...]
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
 Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
 Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
 E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível,
 Acelero... “ e eu só lhe disse: “você sempre estará em Sintra
e eu ‘Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...’


POEMA QUE É SÓ UMA EPÍGRAFE
"A pessoa que é muito admirada é como uma sombra presa, perdida, perdida presa numa inebriante casa de espelhos. Ela não sabe que os predadores estão do lado de fora, escalando os muros em torno, que nunca acabam, até que se ouve o barulho dos corpos caindo e a sombra finalmente desaparece no meio dos aplausos." - (Parábola, Anônimo, Raul Macedo)

sábado, 16 de março de 2013

hipotética anotação no caderno azul de vila-matas:


la abnegacíon del hermano papa es conmovedor
el vecino dice: un ejemplo a seguir.

leí 'entre el amor y el odio, filo de la navaja'
leyó joy christimas "i love my neighbors"

domingo, 10 de março de 2013

contre-chanson pour olivia ruiz


j'ai chocolat

mais sans prince
port
tête
cœur

je ne veux pas whittle

mes hanches
j'ai chocolat
cœur
soulevée
*



contra-canção para olivia ruiz

eu chocolate

mas sem príncipe
na porta
cabeça
coração

não vou talhar

meus quadris
eu chocolate
coração
aumentado
*


[IMAGEM: frame do vídeo "La femme chocolat", de Olivia Ruiz. Assista aqui.]

sexta-feira, 8 de março de 2013

domingo, casamento em niterói


meu benzinho desce às escadas pra sala de jantar.
dedos cansados, lhe digo querido não precisa, não precisa.
mas ele vai fazer soar os talheres.
*

quarta-feira, 6 de março de 2013

LES MAINS PLEINES, A FORCE DE LES VOIR


dada à recaídas, brechei os vácuos
sem mim, que dizia casa. por um triz
não sucumbo, a alegria de palmyra.

adoro esse risinho cínico, doce, que se me forma
displicente. de maldade mesmo, quando rímini quer dormir
com as feias. de nojo mesmo, quando insinua seu sexo,

fragilíssimo, às setenta irmãs de anna
akhmátova, o que significa dizer a minha, nana ou sofia.
e não há vácuo. hãhã. as mãos cheias, de tanto se verem.

terça-feira, 5 de março de 2013

Parada na Esquina [Desinformação Seletiva]


Fotocolagem: Nina Rizzi e A Grande Mulata de Carybé.

"Nina Rizzi está parada na esquina. A esquina não fica entre duas ruas. As ruas estão desertas, porque toda a cidade saiu de casa ao mesmo tempo. O tempo corre tão rápido quanto o espaço. O espaço não significa mais nada. Nada é tudo o que o mundo inteiro sabe agora. Agora ninguém tira os olhos da maldade. A maldade é doce e grudenta como melado. O melado escorre dos corpos assolados pelo verão. Um verão inclemente como a verdade. A verdade não passa de uma miragem. A miragem é Nina Rizzi, parada em todas as esquinas."

- IMAGEM E TEXTO: Tuca Zamagna, IN: Desinformação Seletiva

Não seja tantam e breche toda a série "O Grande Desfile de Pin-ups" ;-)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

dionisis


estava sentada no vaso com o líquido-vital-fumegante numa das mãos.
na outra o tabaco que me proibiram no banheiro.

o telefone tocou.
eu dormia?
era quaresma e todos se comoviam.
eu trepava.
fumava.
bebia.
queria dançar. ficar de quatro pra cheirar a faixa de pedestres
trepar desse jeito que não dão conta, maisemaisemaisemaisemais... pi.

uma caipira a menos, umas letras a mais e.
tudo se torna obsoleto, afinal.

a minha vontade de atender quaisquer telefonemas.
de não ser só dela.
entrementes, continua o sonho.
a ladeira.
as rodadas rendas brancas, tão brancas de tão delicadas.
poéticas. minhas.

é verdade que eu nada posso oferecer, pois perdi
meus braços naquela esquina de rendas amarelas tingidas de tinto vinho.
de mangue. mas

também preciso me sentir segura nesse penhasco tão alto.

ela tem um jeito assim, de me enxergar os olhos.
eu ainda sou movida por poesia. dizia ou pensava. não sei.

o que eu sei é que é quaresma. dá uma vontade danisca
de torar os cornos, incorporar tudo que é entidade, orixá

mas eu ainda não. não.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Chove no país que me lembro



Chove no país que me lembro
vídeo-poema de Nina Rizzi
Letra: Poema só para M. e Yeats, Nina Rizzi
Música: Joca Libânio
Película: "Memória", curta-metragem sobre Tarkovsky e sua casa de infância [extra de "Stalker"], duplamente alongado.
Música Final: "Saudades do Sul", Joca Libânio
Edição e Montagem: Nina Rizzi
agoras, 2013.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A VIDA INTEIRA, ÁVIDA, A ARTE


 Carla Diacov 

Who says art has to be beautiful?
Look this dreadful hummingbird and repeat like that:
Who says art has to be humiliation without wings?

»> Carla Diacov, 'Para Nina Rizzi, a tia da Revista, mãe!' [aqui!]


a vida inteira:

muitos são os caminhos. o símbolo manchado de sangue espalhado na parede. as partes do corpo e diz o poeta que "os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse (a arte nasceu e ficou esperando que nascêssemos). e nasce no útero do verso a dialética do desenho, da gravura e da escultura. as linhas da vida se confluindo num pnemotórax da urgência que te quero como quero e os pingos vermelhos, a tirania da espera "a vida inteira que podia ter sido e que não foi", superada pela arte, pelo reconstruir a arte. reconstruir foi a destreza da artista naquilo já criado, no drama. de ambos pra nós, por conta dos nossos olhos...

ávida, a arte:

se transgredir é criar, é também o recriare, na inquietação e transgressão nos montamos em poema, pintura, escultura. as causas e os efeitos, as evidências, nós sustentados pelos versos "mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?" e a poesia, a gravura, nos faz dançar na chuva, meu amor! ouvimos o suspiro, a voz da poesia nas paredes, de leve, nos perfurando. nos perfurando essas pobres regras de unidos somente sois até que diabos nos separe, pobres regras não contidas na natureza... doce-amarga mania nossa, isso certo, isso é feio. a natureza, a nossa natureza não! nós existimos pr'além tempo-espaço, nos iluminamos "belo belo quero a alegria de sentir as coisas mais simples"!

a vida inteira:

pedaços de seda pura embebida de sangue e costurada pelas linhas poéticas em papel japonês, caixinhas de se guardar coração, voz, tato "um eu todo encoberto" pra que se o descubra e, artista, recrie; desça o véu e faça o inédito de mim, de você. de pé, toma seu caminho: me transforma em pigmento, desenho a nanquim, um universo nosso, de palavra, recriado nos contrários. me fazendo, em arte tua. tua.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O aroma do barro sob a neve


Enquanto cai a neve
ela chora sua cor.

Com nacos de tijolos arrancados da parede
esfrega-os na pele até ser encarnada
como os brancos, horas sob o sol a pino.

Chora, feliz:
quando estancar o sangue não
sobrará essa cor de menino carvoêro

[o professor disse que essa é a pior
forma de energia, e esses meninos
escravos sem dono]

será apenas ela, quase como quase
todas suas bonecas.

tocatta experimental para pi pá



1º movimento:

deixo meus olhos caírem
sobre o rio seco
e eles se molham


2º movimento:

pleno verão a pino
folhas sob sóis brincam de outono
me derramam ternura
*


- Para ler ouvindo: http://www.youtube.com/watch?v=d79UxGxKHKE

[IMAGEM: Ma Yuan (Chinês, século XIII), 'Walking on Path in Spring'. Ma Yuan é o pintor mais importante da dinastia Song setentrional. Este artista era conhecido por “Ma, o de uma esquina”, porque, em suas pinturas, só chegava a uma esquina da tela, deixando o resto do quadro em branco.]

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

"Passionnément" - 1º exercício de tradução




não não nãonãonão não
nãonnão nnão nem nãonão
o não não o falso não o não
nãonãonão o não
nãonãonão o não o mal
o púrpura o mal não
nãonão não o não o papai
o mal papai o púrpura o não
nãonão não nãonãopassar
passar passar ele passa ele não não
ele passa o não de não de papa [...]


[...] eu eu te amo
eu te amo eu você eu
te amo amo amo eu te amo
apaixonado e amo eu
te amo apaixonado
eu te amo
apaixonadamente amando eu
te amo eu te amo apaixonadamente
eu sou apaixonado eu amo você nasceu
eu você eu te amo apaixonado nascido
eu te amo apaixonado
eu te amo apaixonadamente eu te amo
eu te amo paix apaixonadamente

[Nina Rizzi]

_______________________________


pas pas paspaspas pas
pasppas ppas pás paspas
le pas pas le faux pas le pas
paspaspas le pas
paspaspas le pas le mau
le mauve le mauvais pas
paspas pas le pas le papa
le mauvais papa le mauve le pas
paspas passe paspaspasse
passe passe il passe il pas pas
il passe le pas du pas du pape [...]


[...] je je t’aime
je t’aime je t’ai je
t’aime aime aime je t’aime
passionné é aime je
t’aime passioném
je t’aime
passionnément aimante je
t’aime je t’aime passionnément
je t’ai je t’aime passionné né
je t’aime passionné
je t’aime passionnément je t’aime
je t’aime passio passionnément

IN: LUCA, Ghérasim. Héros-limite, suivi de La chant de la carpe et de Paralipomènes. Paris: Gallimard/ Poche, 2001, pp. 169-179. Disponível também no CD Ghérasim Luca par Ghérasim Luca (Seuil, 2001).

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

E-mail para Fabiano Calixto


Edvard Munch, Vampira (Amor e Dor), 1893-94

rapaz, essa vida dura é pura poesia
nem um grão de arroz, nem um tostão nos bolsos
e  meu chefe esbanjando caviar no instagram,

seu (e dos seus) economiquês do EME-AI-TI
na conferência de eternos escolhidos ricos da igreja 
protestante. essa onda de reestruturação produtiva, 
de conservadorismo travestido de modernidade, saca?

(os cabelos em pé, os pentelhos molhados.)
e como sempre eu aqui falando como falo
e quase esqueço de dizer que esse e-mail é só

pra te dizer: guardei estes dois versos
- meu chuveiro queimou
acho que farei leite com mel

é, eu não bebo leite, mas esse e-mail é só
pra não esquecer que você tem razão,
meu amigo:  poesia é coisa de rua, de fodidos

leite quente escorrendo pela garganta como 
o tédio das coberturas e essas noites perturbadas. 
é, estamos perdidos: - nihil secundi in ulnas nostras.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

depois de um título de pierre reverdy


... não
me atrevo a me mirar, esta que só não é
silêncio [...]
caída. a casa
vazia, todas as horas
já passaram. as mãos já
não ocupam o lugar do nada.
anm animais, nem gente - tua
alegria contra a minha.

[tua: qualquer que possa existir além-isto]

algo cai em mim, «Sombra das Minhas Mãos»
como um verso, este verso «Os Homens Intratáveis».
cada gota confundida entre o rímel - chuva, oceano, lágrimas -
e é só a natureza, não poesia. onde gira o horizonte

como um verso, um título qualquer, não
me atrevo a atrevo me mirar, esta que só não é
silêncio, no texto.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O candomblé de Flora



Como ser verdade, representação? Gania
 através o véu – um filho e o peso da crucificação.

Antes, girou para o mundo, ayè
ancestral de si.

A mulher enlouquecia
e nunca nada, nunca foi tão óbvio

Claro, claríssima despedida.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Vídeo-poema: Zoyka



Vídeo-poema de Nina Rizzi
Poemas: Ana Pérola Pacheco
Tradução para o inglês, voz e edição: Nina Rizzi
Atriz: Maria Camila Londoño
Ator: Juan Jose Romeno
Imagens: Julián Vergara
Música: In your own sweet way, Chet Baker

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

'VOZES E VISÕES - CADERNO-GOIABADA' E 'LINGUAGEM E PODER'



"[...] A escrita implicava uma situação de atividade para além do “destino natural” da mulher que encontrava escape nos caudalosos diários e nos mosaicos formados pelos cadernos-goiabada, nos dizeres de Lygia Fagundes Telles, que mesclavam receitas de culinária e a impressões sobre o mundo e a vida pessoal, além dos primeiros exercícios literários como a poesia. [...]"

VOZES E VISÕES - CADERNO-GOIABADA: prosa, poesia e ensaio, de Nina Rizzi. 


Leia o e-book completo na Germina - Revista de Literatura e Arte! 

Leia também o artigo sobre as relações de gênero na linguagem:  LINGUAGEM E PODER!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

poesia ilustrada, 2


Desenho de Lavínia Rizzi

a menina e o cocô, o cocô e a menina

hoje eu fiz um cocô tão lindinho,
era bem pequenininho, parecia uma nuvem
caindo do céu. aí quando ele caiu, espirrou
que nem as lágrimas da chuva numa poça d’água.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

PEPERONI NÃO É PROVOLONE OU R.I.P. ONTEM FOI UM PÉSSIMO DIA


Um homem, 2012.

Ah, eu tinha os cabelos tão lindos quando morri
cada fibra dourada cintilava o encontro com as alturas.
Um homem colocava as sete árvores de Heine
à minha porta, deixava algumas moedas como pagamento
para o táxi e acenava seu melhor sorriso amarelo
da cigarrilha: tudo bem se for eu também um enemigo,
há rumores sobre seu nome, a Sheherazade de Korsakóv.

Então, certo nome de origem assíria deixou de significar
'morada' ou um nome hebraico como ‘enviado pelo absoluto’;
caminhar alguém não pôde mais ser a imagem fidedigna
da ternura, senão essa coisa besta, deus do céu, algo como um
verso "a menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha".

Foi inventado o verbo desencanto. Mas és fascinante, Teodora.
***


Um experimento Plath, naquele modo de estar retirando de si coisas como num jogo de armar que não armam porque o sentido foi previamente dispensado do lugar usual ou do atalho (uau), através do som que "forma sentido", nem o sentido se forma - nem o som vem sugerir o que está por baixo de detrás das imagens (em seus poemas), invertidas no espelho da mente que pode fazer jogos (claro), mas só até um certo ponto de - como na "liga" de um doce japonês - que se se experimenta com um dedo na boca: "oh, está no ponto" etc... Um experimento Sylvia Plath pessoal demais [como ela sempre foi, aliás - fazendo, em consequência, o Ted Hughes sofrer, mais do que ninguém, com isso, em face das sucessivas ondas dos futuros "plathistas", ou "plathólatras" etc]... até porque no poema -como em quase toda a Plath - ressoa, igualmente, aquela plácida e velada esperança de que as imagens em "código" biográfico possam se dilatar para além do relato íntimo colocado em versos sem a mediação (necessária), do som também formando sentido [para lembrar a - ainda útil - lição de Mallarmé]... (J. Costa Brito)

"Ocorre, hoje, uma impressionante expansão das narrativas no cerne da própria existência. Antes mesmo de existir como evento, a ação já se apresenta como narrativa, como ocorre nos reality show, em que as pessoas, antes de agir, representam ou narram a ação que lhes cabe. Ocorre também na multidão que fala pelos blogs e pelas redes sociais, ou se monitoram pelos celulares, de modo que a ação ou a conversa é sempre exibição/narração da conversa. É como se o mundo inteiro fosse virtualidade narrativa antes de ser existência particular, e principalmente como se todo mundo fosse interessante o bastante para ser visto/lido. Esse é um dos pontos não negligenciáveis que parecem retirar a prioridade ou a exclusividade da narração do narrador literário. É um problema basicamente de inflação simbólica." (Álcir Pécora)

domingo, 25 de novembro de 2012

inverno colorido

guache, ricardo barbosa

o aluno de aline fez uma pintura
abstrata. ele só faz arte abstrata
como uma compulsão. misturou
cores frias à uma quente, nomeou
inverno colorido. com a ternura
nos olhos contemplo a criança
e seu desenho de cinco anos
garrando a imaginar as crianças
do oriente, dos desertos e o que
dizem suas mãos de pintar invernos.

invernos sempre, mas sempre
coloridos.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Film, 1959



 Hoje não vamos para Köln. Nem hoje,
amanhã ou dois mil e catorze, meu bem.
A mágoa arranha as vidraças das catedrais,

escondida. Já foram olhos, vitrais e saudade,
 agora - com tantas crianças mortas, palestinas
e irlandesas e decididamente apenas

humanas - cidades apenas, como todas
as outras conurbadas, caminhadas a ferro,
coloridas, bombardeadas e esquecidas.

Cidades nossos olhos vidraças que não coram,
nem riem, nem choram ou menir. Mais um
inútil estudo para o silêncio, o deserto. Ruínas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

poesia ilustrada

a menina e o gato, o gato e a menina


se eu fosse um gato
o silêncio habitava
meus gestos
precisos

uma menina olha
corre e acaricia

que importa a metafísica
o ranger dos dentes
se eu durmo o dia inteiro



não é preguiça
lá fora faz chuva
arde a lua

a menina quer
passear
não pode gostar
de estar só
porque não conhece
o lugar do mapa

mas gato tem que levantar
lamber o leite derramado


[ilustração de lavínia rizzi, cinco anos, especialmente para este poema que ajudou a conceber]

domingo, 4 de novembro de 2012

goiabada-nicotina


pussykill

aquele que não me menciona
homenzinho dos idos sonhos
carnais
- pança, to sem grana, pára com isso

tão engraçadinho
o via sob a maresia, debaixo
das ondas, atrás do copo de cerveja
- chama aquela sua amiga. eu dou o pó, vocês boca, mãos e cu

gostava de me desaparecer até que ligasse
desaparecia eu, ele
ele o fazia e eu imaginava
suas festas e aventuras como quando
agonizava seus risinhos
enquanto fazia sexo morno com as moças
estranhíssimas tão mínimas, pelo computador
e lhes repetia minhas delicadezas e me devolvia
seu enfado e frustrações.

o cria.

até que ele me disse
- você devia fazer exercícios para deixar de fumar.

como saída da caverna, um disparo:
e você, homenzinho, exercícios de expandir o cérebro.

aquele que não me menciona
foice, cinzas, au revoir.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

VÍDEO-POEMA - SÃO SARUÊ: OFERENDA


SÃO SARUÊ: OFERENDA
VÍDEO-POEMA DE NINA RIZZI

Poema: São Saruê, Climério Ferreira

Voz: Nina Rizzi

Película 1: Colagem de Kiki de Montparnasse em
filmes de Man Ray e Fernand Léger

Pelicula 2: Le Retour à la Raison, Man Ray

Música: Oferenda, Clodô, Climério & Clésio

Edição, Montagem e Realização: Nina Rizzi

Mais em: ninaarizzi.blogspot.com

agoras, 2012.
*

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Vídeo-poema: O amor acaba


Vídeo-poema de Nina Rizzi

Texto: Paulo Mendes Campos

Performance: IKIRU - Réquiem para Pina Bausch, Tadashi Endo

Voz e Edição: Nina Rizzi
*

Se preferir, assista no Vimeo!: https://vimeo.com/67433040

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Niétotchka, Ekaterina [vídeo-poema]


Niétotchka, Ekaterina
Vídeo-poema de Nina Rizzi
Direção, Montagem de imagens e Realização:
Alberto Rosende Balazs
Texto, Roteiro e Edição: Nina Rizzi
Atriz: Ainhoa Hernandez
Ator: Gerardo Llagüens
Música: Trilhos no Porto, Joca Libânio
Produção: Luis Illán
Ajudante de produção: Clara Compairé
agoras, 2012
*

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Trópico de Câncer


Um domingo, qualquer dia, pode ser milagroso
durar tanto mais que doze horas - percorrido
na memória, vai de milhões dos anos das almas 
antiquíssimas, e também, segundos apenas.

Deitada na cama ou na cadeira de madeira
recostada, posso ir ao fundo de uma mulher
essa alma antiga e discreta - rotação ao ser.

O telefone toca. Como flocos de neve - risos 
de todas as mulheres oprimidas do mundo, 
ou folhas secas - lágrimas da mais pura alegria,
o milagre é poderosamente cultivado:

Na voz, um pequeno gemido, um suspiro 
profundo, a perpetuação do encontro, 
delicadezas e abismo. E ainda sol a pino:

lembra - nada falta ao nosso desejo.

sábado, 22 de setembro de 2012

Balada pra Lavínia não chorar [vídeo-poema]



BALADA PRA LAVÍNIA NÃO CHORAR
Vídeo-poema de Nina Rizzi

Película: Anabelle Whitford in Serpentine Dance;
Thomas Edson, 1894
Fotografia: Lavínia Rizzi

Poema, voz e edição: Nina Rizzi
*

Curiosidade: "The Serpentine Dance", é uma revolução no audiovisual. Em um período em que a película PB era comum, a cor (pintada à mão) evidencia o artístico. Foi um dos primeiros filmes a unir a magia do cinema com a dança, onde o movimento com a longa seda assemelha-se com o movimento de asa de um pássaro. A câmera, marcando a característica do inicio do cinema, mantêm-se parada, dando mais atenção ao plano geral. O áudio não é o original, tem-se neste período a presença instrumentos musicais nos cinemas. Em 1899, os Irmãos Lumière também filmaram um vídeo com o mesmo título, a dança é interpretada pela atriz Loie Fuller, que criou a dança e foi pintada por Toulouse-Lautrec, em 1892.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Elizabeth [vídeo-poema]

elizabeth from nina rizzi on Vimeo.


Elizabeth
Vídeo-poema de Nina Rizzi
Música: La tête dans les nuages, Yann Tiersen
Mounsier Gainsbourg revisited: Je t'aime mon non plus, Cat Power & Karen Elson
Imagens: Deux filles emportées par le vent/ França
Texto: Romance, variegação, Nina Rizzi
*