quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

E-mail para Fabiano Calixto


Edvard Munch, Vampira (Amor e Dor), 1893-94

rapaz, essa vida dura é pura poesia
nem um grão de arroz, nem um tostão nos bolsos
e  meu chefe esbanjando caviar no instagram,

seu (e dos seus) economiquês do EME-AI-TI
na conferência de eternos escolhidos ricos da igreja 
protestante. essa onda de reestruturação produtiva, 
de conservadorismo travestido de modernidade, saca?

(os cabelos em pé, os pentelhos molhados.)
e como sempre eu aqui falando como falo
e quase esqueço de dizer que esse e-mail é só

pra te dizer: guardei estes dois versos
- meu chuveiro queimou
acho que farei leite com mel

é, eu não bebo leite, mas esse e-mail é só
pra não esquecer que você tem razão,
meu amigo:  poesia é coisa de rua, de fodidos

leite quente escorrendo pela garganta como 
o tédio das coberturas e essas noites perturbadas. 
é, estamos perdidos: - nihil secundi in ulnas nostras.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

depois de um título de pierre reverdy


... não
me atrevo a me mirar, esta que só não é
silêncio [...]
caída. a casa
vazia, todas as horas
já passaram. as mãos já
não ocupam o lugar do nada.
anm animais, nem gente - tua
alegria contra a minha.

[tua: qualquer que possa existir além-isto]

algo cai em mim, «Sombra das Minhas Mãos»
como um verso, este verso «Os Homens Intratáveis».
cada gota confundida entre o rímel - chuva, oceano, lágrimas -
e é só a natureza, não poesia. onde gira o horizonte

como um verso, um título qualquer, não
me atrevo a atrevo me mirar, esta que só não é
silêncio, no texto.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O candomblé de Flora



Como ser verdade, representação? Gania
 através o véu – um filho e o peso da crucificação.

Antes, girou para o mundo, ayè
ancestral de si.

A mulher enlouquecia
e nunca nada, nunca foi tão óbvio

Claro, claríssima despedida.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Vídeo-poema: Zoyka



Vídeo-poema de Nina Rizzi
Poemas: Ana Pérola Pacheco
Tradução para o inglês, voz e edição: Nina Rizzi
Atriz: Maria Camila Londoño
Ator: Juan Jose Romeno
Imagens: Julián Vergara
Música: In your own sweet way, Chet Baker

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

'VOZES E VISÕES - CADERNO-GOIABADA' E 'LINGUAGEM E PODER'



"[...] A escrita implicava uma situação de atividade para além do “destino natural” da mulher que encontrava escape nos caudalosos diários e nos mosaicos formados pelos cadernos-goiabada, nos dizeres de Lygia Fagundes Telles, que mesclavam receitas de culinária e a impressões sobre o mundo e a vida pessoal, além dos primeiros exercícios literários como a poesia. [...]"

VOZES E VISÕES - CADERNO-GOIABADA: prosa, poesia e ensaio, de Nina Rizzi. 


Leia o e-book completo na Germina - Revista de Literatura e Arte! 

Leia também o artigo sobre as relações de gênero na linguagem:  LINGUAGEM E PODER!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

poesia ilustrada, 2


Desenho de Lavínia Rizzi

a menina e o cocô, o cocô e a menina

hoje eu fiz um cocô tão lindinho,
era bem pequenininho, parecia uma nuvem
caindo do céu. aí quando ele caiu, espirrou
que nem as lágrimas da chuva numa poça d’água.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

PEPERONI NÃO É PROVOLONE OU R.I.P. ONTEM FOI UM PÉSSIMO DIA


Um homem, 2012.

Ah, eu tinha os cabelos tão lindos quando morri
cada fibra dourada cintilava o encontro com as alturas.
Um homem colocava as sete árvores de Heine
à minha porta, deixava algumas moedas como pagamento
para o táxi e acenava seu melhor sorriso amarelo
da cigarrilha: tudo bem se for eu também um enemigo,
há rumores sobre seu nome, a Sheherazade de Korsakóv.

Então, certo nome de origem assíria deixou de significar
'morada' ou um nome hebraico como ‘enviado pelo absoluto’;
caminhar alguém não pôde mais ser a imagem fidedigna
da ternura, senão essa coisa besta, deus do céu, algo como um
verso "a menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha".

Foi inventado o verbo desencanto. Mas és fascinante, Teodora.
***


Um experimento Plath, naquele modo de estar retirando de si coisas como num jogo de armar que não armam porque o sentido foi previamente dispensado do lugar usual ou do atalho (uau), através do som que "forma sentido", nem o sentido se forma - nem o som vem sugerir o que está por baixo de detrás das imagens (em seus poemas), invertidas no espelho da mente que pode fazer jogos (claro), mas só até um certo ponto de - como na "liga" de um doce japonês - que se se experimenta com um dedo na boca: "oh, está no ponto" etc... Um experimento Sylvia Plath pessoal demais [como ela sempre foi, aliás - fazendo, em consequência, o Ted Hughes sofrer, mais do que ninguém, com isso, em face das sucessivas ondas dos futuros "plathistas", ou "plathólatras" etc]... até porque no poema -como em quase toda a Plath - ressoa, igualmente, aquela plácida e velada esperança de que as imagens em "código" biográfico possam se dilatar para além do relato íntimo colocado em versos sem a mediação (necessária), do som também formando sentido [para lembrar a - ainda útil - lição de Mallarmé]... (J. Costa Brito)

"Ocorre, hoje, uma impressionante expansão das narrativas no cerne da própria existência. Antes mesmo de existir como evento, a ação já se apresenta como narrativa, como ocorre nos reality show, em que as pessoas, antes de agir, representam ou narram a ação que lhes cabe. Ocorre também na multidão que fala pelos blogs e pelas redes sociais, ou se monitoram pelos celulares, de modo que a ação ou a conversa é sempre exibição/narração da conversa. É como se o mundo inteiro fosse virtualidade narrativa antes de ser existência particular, e principalmente como se todo mundo fosse interessante o bastante para ser visto/lido. Esse é um dos pontos não negligenciáveis que parecem retirar a prioridade ou a exclusividade da narração do narrador literário. É um problema basicamente de inflação simbólica." (Álcir Pécora)

domingo, 25 de novembro de 2012

inverno colorido

guache, ricardo barbosa

o aluno de aline fez uma pintura
abstrata. ele só faz arte abstrata
como uma compulsão. misturou
cores frias à uma quente, nomeou
inverno colorido. com a ternura
nos olhos contemplo a criança
e seu desenho de cinco anos
garrando a imaginar as crianças
do oriente, dos desertos e o que
dizem suas mãos de pintar invernos.

invernos sempre, mas sempre
coloridos.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Film, 1959



 Hoje não vamos para Köln. Nem hoje,
amanhã ou dois mil e catorze, meu bem.
A mágoa arranha as vidraças das catedrais,

escondida. Já foram olhos, vitrais e saudade,
 agora - com tantas crianças mortas, palestinas
e irlandesas e decididamente apenas

humanas - cidades apenas, como todas
as outras conurbadas, caminhadas a ferro,
coloridas, bombardeadas e esquecidas.

Cidades nossos olhos vidraças que não coram,
nem riem, nem choram ou menir. Mais um
inútil estudo para o silêncio, o deserto. Ruínas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

poesia ilustrada

a menina e o gato, o gato e a menina


se eu fosse um gato
o silêncio habitava
meus gestos
precisos

uma menina olha
corre e acaricia

que importa a metafísica
o ranger dos dentes
se eu durmo o dia inteiro



não é preguiça
lá fora faz chuva
arde a lua

a menina quer
passear
não pode gostar
de estar só
porque não conhece
o lugar do mapa

mas gato tem que levantar
lamber o leite derramado


[ilustração de lavínia rizzi, cinco anos, especialmente para este poema que ajudou a conceber]

domingo, 4 de novembro de 2012

goiabada-nicotina


pussykill

aquele que não me menciona
homenzinho dos idos sonhos
carnais
- pança, to sem grana, pára com isso

tão engraçadinho
o via sob a maresia, debaixo
das ondas, atrás do copo de cerveja
- chama aquela sua amiga. eu dou o pó, vocês boca, mãos e cu

gostava de me desaparecer até que ligasse
desaparecia eu, ele
ele o fazia e eu imaginava
suas festas e aventuras como quando
agonizava seus risinhos
enquanto fazia sexo morno com as moças
estranhíssimas tão mínimas, pelo computador
e lhes repetia minhas delicadezas e me devolvia
seu enfado e frustrações.

o cria.

até que ele me disse
- você devia fazer exercícios para deixar de fumar.

como saída da caverna, um disparo:
e você, homenzinho, exercícios de expandir o cérebro.

aquele que não me menciona
foice, cinzas, au revoir.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

VÍDEO-POEMA - SÃO SARUÊ: OFERENDA


SÃO SARUÊ: OFERENDA
VÍDEO-POEMA DE NINA RIZZI

Poema: São Saruê, Climério Ferreira

Voz: Nina Rizzi

Película 1: Colagem de Kiki de Montparnasse em
filmes de Man Ray e Fernand Léger

Pelicula 2: Le Retour à la Raison, Man Ray

Música: Oferenda, Clodô, Climério & Clésio

Edição, Montagem e Realização: Nina Rizzi

Mais em: ninaarizzi.blogspot.com

agoras, 2012.
*

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Vídeo-poema: O amor acaba


Vídeo-poema de Nina Rizzi

Texto: Paulo Mendes Campos

Performance: IKIRU - Réquiem para Pina Bausch, Tadashi Endo

Voz e Edição: Nina Rizzi
*

Se preferir, assista no Vimeo!: https://vimeo.com/67433040

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Niétotchka, Ekaterina [vídeo-poema]


Niétotchka, Ekaterina
Vídeo-poema de Nina Rizzi
Direção, Montagem de imagens e Realização:
Alberto Rosende Balazs
Texto, Roteiro e Edição: Nina Rizzi
Atriz: Ainhoa Hernandez
Ator: Gerardo Llagüens
Música: Trilhos no Porto, Joca Libânio
Produção: Luis Illán
Ajudante de produção: Clara Compairé
agoras, 2012
*

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Trópico de Câncer


Um domingo, qualquer dia, pode ser milagroso
durar tanto mais que doze horas - percorrido
na memória, vai de milhões dos anos das almas 
antiquíssimas, e também, segundos apenas.

Deitada na cama ou na cadeira de madeira
recostada, posso ir ao fundo de uma mulher
essa alma antiga e discreta - rotação ao ser.

O telefone toca. Como flocos de neve - risos 
de todas as mulheres oprimidas do mundo, 
ou folhas secas - lágrimas da mais pura alegria,
o milagre é poderosamente cultivado:

Na voz, um pequeno gemido, um suspiro 
profundo, a perpetuação do encontro, 
delicadezas e abismo. E ainda sol a pino:

lembra - nada falta ao nosso desejo.

sábado, 22 de setembro de 2012

Balada pra Lavínia não chorar [vídeo-poema]



BALADA PRA LAVÍNIA NÃO CHORAR
Vídeo-poema de Nina Rizzi

Película: Anabelle Whitford in Serpentine Dance;
Thomas Edson, 1894
Fotografia: Lavínia Rizzi

Poema, voz e edição: Nina Rizzi
*

Curiosidade: "The Serpentine Dance", é uma revolução no audiovisual. Em um período em que a película PB era comum, a cor (pintada à mão) evidencia o artístico. Foi um dos primeiros filmes a unir a magia do cinema com a dança, onde o movimento com a longa seda assemelha-se com o movimento de asa de um pássaro. A câmera, marcando a característica do inicio do cinema, mantêm-se parada, dando mais atenção ao plano geral. O áudio não é o original, tem-se neste período a presença instrumentos musicais nos cinemas. Em 1899, os Irmãos Lumière também filmaram um vídeo com o mesmo título, a dança é interpretada pela atriz Loie Fuller, que criou a dança e foi pintada por Toulouse-Lautrec, em 1892.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Elizabeth [vídeo-poema]

elizabeth from nina rizzi on Vimeo.


Elizabeth
Vídeo-poema de Nina Rizzi
Música: La tête dans les nuages, Yann Tiersen
Mounsier Gainsbourg revisited: Je t'aime mon non plus, Cat Power & Karen Elson
Imagens: Deux filles emportées par le vent/ França
Texto: Romance, variegação, Nina Rizzi
*

terça-feira, 18 de setembro de 2012

counter-song for diamond


yes, I take your hand
can you make me feel well?

I give you my hands,
my hands are yours.

I want to invade.
allow yourself.

that come with being female
and now I need a woman

ah, I love you, woman.
*


Neil Diamond - Girl, You'll Be A Woman Soon, 1967.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

contrafotografia para bete


os pêlos de bete têm a cor
dos não-pêlos de seu companheiro.

em seu mapa se confundem
a gana dos meus dentes, a minúcia de sua lente.

alcova de achados e perdidos,
rebeldes, bete.
*

domingo, 9 de setembro de 2012

tambores pra n'zinga em ensaio de katyuscia carvalho



chaos


de onde vim – belezas
e destroços, suam intensamente

tudo existe, dorme. até
que doa o útero, em desfio

gozam a doer profundamente, verdade
no rasgar das manhãs.


outro estudo pra o silêncio

a perene lembrança do teu nome deságua, diáfana
nas nascentes do meu rio mais comprido.


ceciliana 

escorre o óleo do mundo - lima
de rícino, refino

mínima grama ou toda
canteiro, fecundo

a poesia é de quem
precisa, disse o carteiro

lhe ria. além a lama
ternas de exílio e poda

te revisito, o mundo - olha
entre as pernas.


manoelana

transbordam em mim reminiscências:
águas que me secam, redundâncias de me sentir.

se o ocaso está repleto de ciscos, reticências,
serei eu mais que o completo vazio?

(guardo meus olhos na sarjeta mais distante e suja)


composição em azul pra d. mocinha

ela não terá a nudez das camélias,
os pés descalços dos filhos de ancestrais tribos.

um pelo encravado bastava pra lhe sentir a carne,
um cheiro diferente na voz, os rios vermelhos.

uma terceira canção, srta. dunn, do alto das nuvens,
e já não estamos sós. enquanto me arde teu inverno,
brinco de alimentar os gatinhos e os cactos que murcharam.


descalça

não é a terra:
andam estrangeiros
meus pés



bachiana em dois movimentos pra villa-lobos

já volto, vou me inexistir.

no peito, aquela coisa de moer cana.
*

Baixe e leia o livro completo aqui!

sábado, 14 de julho de 2012

Duas traduções inéditas de Manuel Bandeira


“Chambre vide” (Quarto vazio) e “Bonheur lyrique” (Feli­ci­da­de Lírica) foram escritos em francês por Manuel Ban­dei­ra e publicados no livro “Li­ber­tinagem”, em 1930, sem haver uma correspondente versão em português, como é o caso de outros poemas que o autor fez nos dois idiomas: “Nuit morte” (Noite morta), “Fleurs Famées” (Flores murchas) e “Évocation de Recife” (Evocação ao Recife).


Leia as traduções na Revista Bula!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

soneto para o homem amado

julho, 2012.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Cefas Carvalho entrevista Nina Rizzi



Escritora suicida, poeta visceral, professora, militante cultural, Nina Rizzi é tudo isso, é muito mais. Paulista de Campinas, nascida em 1983 e radicada no Ceará, Ellena Cristina Lopes (“O Rizzi só quem tem é a mãe, mas eu sou mesmo uma filha da mãe!”, diverte-se) Nina tornou-se conhecida pela militância poética e cultural nos blogs citados (http://www.escritorassuicidas.com.br/ e http://putasresolutas.blogspot.com/ ) e mantém o blogue “Ellenismos” (http://ellenismos.blogspot.com/ ) onde expõe sua poesia visceral e “feminina” (ou “feminista”?). Formada em Artes Dramáticas pela EAD/ USP e Bacharel e Licenciatura em História pela UNESP, trabalha como  Coordenadora do Centro de Artes em uma escola em Fortaleza, colaboradora em projetos e ações de educação, cultura e arte no MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), pesquisa etno-literárias com grupos de mulheres. Conhecedora da cultura potiguar, já mostrou seus versos e sua postura ao mesmo tempo doce e hipnótica em saraus na cidade de Natal. Confira a entrevista que ela concedeu a este jornalista


Leia a entrevista completa AQUI.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

FRAGMENTO PISADO DE UMA URNA GREGA

[Para Fernando Monteiro] 


Este pedaço de pedra em minhas mãos já foi a Acrópole
e  já foi uma ideia de viagem, um mistério do velho Elêusis, um nome
de poeta e de outro poeta, careca – como nunca grego - 
[e grego, primo do primeiro poeta.

Ouvi da pedra: é penteliana, mas já não digo
das brincadeiras que se faz com nomes, entre o
Agora, o Beijo e o Pentélico.

Este pedaço de pedra assassinou muitas gentes em suas passadas
e o faz agora, mas muito doce, com os meus olhos
cascalhos que despedaçam ou um lobo convertido em pedra.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

duas línguas dão mais prazer que uma, 2


suite à palefrenier

malgré disant:

"reste encore"
 reste à mes cotês"

ce n'est que poésie
- vos démarches je me promène par nuit. 





suíte ao namorado

apesar de dizer:

"fica ainda"
"fica ao meu lado"

isso não passa de poesia
- teus passos me caminham pela [noite.









[Nas imagens: Jean-Luc Godard e Anna Kharina]

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Três poemas de Juan Carlos Onetti


"A peculiaridade e a importância da obra do uruguaio Juan Carlos Onetti só foram tardiamente reconhecidas. Seus personagens complexos, sob o signo do inconformismo e do desencanto, transitam pelo espaço mítico da fictícia cidade de Santa Maria. Com uma visão de mundo tão lúcida quanto corrosiva, Onetti, dizia encontrar seus temas em 'sonhos diurnos', por meio de um 'impulso onírico'. O reconhecimento do significado de sua obra de fato só veio após 1960. Mesmo assim, sua diferença em relação aos escritores do 'boom' era patente. Em Onetti nunca houve qualquer preocupação com cor local e a influência de Faulkner, Céline e Borges deixava-o distante da magia e da fabulação."
Abaixo, uma faceta pouco conhecida do romancista e contista uruguaio — o Juan Carlos Onetti poeta. Os três poemas publicados, são seus únicos poemas conhecidos. A tradução é da escritora Nina Rizzi.
Leia os poemas na Revista Bula!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

duas línguas dão mais prazer que uma



cantata al novio


no enlace su idea a mi
desabite el nombre y la furia
susanne déchevaux-dumesnil

de una sola etapa de los árboles maduros
hacia arriba con las manos
la noche es tan frío y el silencio pesa

viene, pega tu mano sobre mi
hasta que sea invisible al mundo
como por las tardes nouvelle vague

ofrece ahí fuera su ausencia
en lugar de mi - ínsula
y su doble - epistolarís

y nos quedamos lo más abollados
y olvidados - en nuestra sta. maría
tranquilos, como si gimotea



cantata ao namorado


não enlace tua ideia à minha
desabite o nome e fúria
suzanne déchevaux-dumesnil


em um só tempo de árvores maduras
para o alto com as mãos:
a noite está tão fria lá fora e o silêncio pesa


vem, cola tua mão na minha
até que seja invisível ao mundo
como às tardes nouvelle vague


oferece ao largo tua ausência
em detrimento de mim - insula
e o seu duplo - epistolarís


e fiquemos pois amassados
e esquecidos – em nossa sta.maría


calados como quem gane

[Fotografias da série: Estudo para dois espaços, 1977, de Helena Almeida, artista performativa contemporânea, Lisboa/ Portugal]

domingo, 10 de junho de 2012

ZONA PROIBIDA DO SER


“Esse est percipi” - Berkeley

Um punhado de extratos pra se comer das mãos

- Olha, minha vida bela como coisa acumulada!
- Olha, minhas palavras forjadas por bem menos que a carpintaria!

... Eu existo.

Mas basta um espelho para escarnecer o mundo-dentro.
Pequeno-mundo, a verdade se deita ao monstro do nada.

Debaixo do nome
A jaula e o silêncio.