quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O candomblé de Flora



Como ser verdade, representação? Gania
 através o véu – um filho e o peso da crucificação.

Antes, girou para o mundo, ayè
ancestral de si.

A mulher enlouquecia
e nunca nada, nunca foi tão óbvio

Claro, claríssima despedida.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Vídeo-poema: Zoyka



Vídeo-poema de Nina Rizzi
Poemas: Ana Pérola Pacheco
Tradução para o inglês, voz e edição: Nina Rizzi
Atriz: Maria Camila Londoño
Ator: Juan Jose Romeno
Imagens: Julián Vergara
Música: In your own sweet way, Chet Baker

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

'VOZES E VISÕES - CADERNO-GOIABADA' E 'LINGUAGEM E PODER'



"[...] A escrita implicava uma situação de atividade para além do “destino natural” da mulher que encontrava escape nos caudalosos diários e nos mosaicos formados pelos cadernos-goiabada, nos dizeres de Lygia Fagundes Telles, que mesclavam receitas de culinária e a impressões sobre o mundo e a vida pessoal, além dos primeiros exercícios literários como a poesia. [...]"

VOZES E VISÕES - CADERNO-GOIABADA: prosa, poesia e ensaio, de Nina Rizzi. 


Leia o e-book completo na Germina - Revista de Literatura e Arte! 

Leia também o artigo sobre as relações de gênero na linguagem:  LINGUAGEM E PODER!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

poesia ilustrada, 2


Desenho de Lavínia Rizzi

a menina e o cocô, o cocô e a menina

hoje eu fiz um cocô tão lindinho,
era bem pequenininho, parecia uma nuvem
caindo do céu. aí quando ele caiu, espirrou
que nem as lágrimas da chuva numa poça d’água.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

PEPERONI NÃO É PROVOLONE OU R.I.P. ONTEM FOI UM PÉSSIMO DIA


Um homem, 2012.

Ah, eu tinha os cabelos tão lindos quando morri
cada fibra dourada cintilava o encontro com as alturas.
Um homem colocava as sete árvores de Heine
à minha porta, deixava algumas moedas como pagamento
para o táxi e acenava seu melhor sorriso amarelo
da cigarrilha: tudo bem se for eu também um enemigo,
há rumores sobre seu nome, a Sheherazade de Korsakóv.

Então, certo nome de origem assíria deixou de significar
'morada' ou um nome hebraico como ‘enviado pelo absoluto’;
caminhar alguém não pôde mais ser a imagem fidedigna
da ternura, senão essa coisa besta, deus do céu, algo como um
verso "a menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha".

Foi inventado o verbo desencanto. Mas és fascinante, Teodora.
***


Um experimento Plath, naquele modo de estar retirando de si coisas como num jogo de armar que não armam porque o sentido foi previamente dispensado do lugar usual ou do atalho (uau), através do som que "forma sentido", nem o sentido se forma - nem o som vem sugerir o que está por baixo de detrás das imagens (em seus poemas), invertidas no espelho da mente que pode fazer jogos (claro), mas só até um certo ponto de - como na "liga" de um doce japonês - que se se experimenta com um dedo na boca: "oh, está no ponto" etc... Um experimento Sylvia Plath pessoal demais [como ela sempre foi, aliás - fazendo, em consequência, o Ted Hughes sofrer, mais do que ninguém, com isso, em face das sucessivas ondas dos futuros "plathistas", ou "plathólatras" etc]... até porque no poema -como em quase toda a Plath - ressoa, igualmente, aquela plácida e velada esperança de que as imagens em "código" biográfico possam se dilatar para além do relato íntimo colocado em versos sem a mediação (necessária), do som também formando sentido [para lembrar a - ainda útil - lição de Mallarmé]... (J. Costa Brito)

"Ocorre, hoje, uma impressionante expansão das narrativas no cerne da própria existência. Antes mesmo de existir como evento, a ação já se apresenta como narrativa, como ocorre nos reality show, em que as pessoas, antes de agir, representam ou narram a ação que lhes cabe. Ocorre também na multidão que fala pelos blogs e pelas redes sociais, ou se monitoram pelos celulares, de modo que a ação ou a conversa é sempre exibição/narração da conversa. É como se o mundo inteiro fosse virtualidade narrativa antes de ser existência particular, e principalmente como se todo mundo fosse interessante o bastante para ser visto/lido. Esse é um dos pontos não negligenciáveis que parecem retirar a prioridade ou a exclusividade da narração do narrador literário. É um problema basicamente de inflação simbólica." (Álcir Pécora)

domingo, 25 de novembro de 2012

inverno colorido

guache, ricardo barbosa

o aluno de aline fez uma pintura
abstrata. ele só faz arte abstrata
como uma compulsão. misturou
cores frias à uma quente, nomeou
inverno colorido. com a ternura
nos olhos contemplo a criança
e seu desenho de cinco anos
garrando a imaginar as crianças
do oriente, dos desertos e o que
dizem suas mãos de pintar invernos.

invernos sempre, mas sempre
coloridos.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Film, 1959



 Hoje não vamos para Köln. Nem hoje,
amanhã ou dois mil e catorze, meu bem.
A mágoa arranha as vidraças das catedrais,

escondida. Já foram olhos, vitrais e saudade,
 agora - com tantas crianças mortas, palestinas
e irlandesas e decididamente apenas

humanas - cidades apenas, como todas
as outras conurbadas, caminhadas a ferro,
coloridas, bombardeadas e esquecidas.

Cidades nossos olhos vidraças que não coram,
nem riem, nem choram ou menir. Mais um
inútil estudo para o silêncio, o deserto. Ruínas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

poesia ilustrada

a menina e o gato, o gato e a menina


se eu fosse um gato
o silêncio habitava
meus gestos
precisos

uma menina olha
corre e acaricia

que importa a metafísica
o ranger dos dentes
se eu durmo o dia inteiro



não é preguiça
lá fora faz chuva
arde a lua

a menina quer
passear
não pode gostar
de estar só
porque não conhece
o lugar do mapa

mas gato tem que levantar
lamber o leite derramado


[ilustração de lavínia rizzi, cinco anos, especialmente para este poema que ajudou a conceber]

domingo, 4 de novembro de 2012

goiabada-nicotina


pussykill

aquele que não me menciona
homenzinho dos idos sonhos
carnais
- pança, to sem grana, pára com isso

tão engraçadinho
o via sob a maresia, debaixo
das ondas, atrás do copo de cerveja
- chama aquela sua amiga. eu dou o pó, vocês boca, mãos e cu

gostava de me desaparecer até que ligasse
desaparecia eu, ele
ele o fazia e eu imaginava
suas festas e aventuras como quando
agonizava seus risinhos
enquanto fazia sexo morno com as moças
estranhíssimas tão mínimas, pelo computador
e lhes repetia minhas delicadezas e me devolvia
seu enfado e frustrações.

o cria.

até que ele me disse
- você devia fazer exercícios para deixar de fumar.

como saída da caverna, um disparo:
e você, homenzinho, exercícios de expandir o cérebro.

aquele que não me menciona
foice, cinzas, au revoir.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

VÍDEO-POEMA - SÃO SARUÊ: OFERENDA


SÃO SARUÊ: OFERENDA
VÍDEO-POEMA DE NINA RIZZI

Poema: São Saruê, Climério Ferreira

Voz: Nina Rizzi

Película 1: Colagem de Kiki de Montparnasse em
filmes de Man Ray e Fernand Léger

Pelicula 2: Le Retour à la Raison, Man Ray

Música: Oferenda, Clodô, Climério & Clésio

Edição, Montagem e Realização: Nina Rizzi

Mais em: ninaarizzi.blogspot.com

agoras, 2012.
*

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Vídeo-poema: O amor acaba


Vídeo-poema de Nina Rizzi

Texto: Paulo Mendes Campos

Performance: IKIRU - Réquiem para Pina Bausch, Tadashi Endo

Voz e Edição: Nina Rizzi
*

Se preferir, assista no Vimeo!: https://vimeo.com/67433040

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Niétotchka, Ekaterina [vídeo-poema]


Niétotchka, Ekaterina
Vídeo-poema de Nina Rizzi
Direção, Montagem de imagens e Realização:
Alberto Rosende Balazs
Texto, Roteiro e Edição: Nina Rizzi
Atriz: Ainhoa Hernandez
Ator: Gerardo Llagüens
Música: Trilhos no Porto, Joca Libânio
Produção: Luis Illán
Ajudante de produção: Clara Compairé
agoras, 2012
*

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Trópico de Câncer


Um domingo, qualquer dia, pode ser milagroso
durar tanto mais que doze horas - percorrido
na memória, vai de milhões dos anos das almas 
antiquíssimas, e também, segundos apenas.

Deitada na cama ou na cadeira de madeira
recostada, posso ir ao fundo de uma mulher
essa alma antiga e discreta - rotação ao ser.

O telefone toca. Como flocos de neve - risos 
de todas as mulheres oprimidas do mundo, 
ou folhas secas - lágrimas da mais pura alegria,
o milagre é poderosamente cultivado:

Na voz, um pequeno gemido, um suspiro 
profundo, a perpetuação do encontro, 
delicadezas e abismo. E ainda sol a pino:

lembra - nada falta ao nosso desejo.

sábado, 22 de setembro de 2012

Balada pra Lavínia não chorar [vídeo-poema]



BALADA PRA LAVÍNIA NÃO CHORAR
Vídeo-poema de Nina Rizzi

Película: Anabelle Whitford in Serpentine Dance;
Thomas Edson, 1894
Fotografia: Lavínia Rizzi

Poema, voz e edição: Nina Rizzi
*

Curiosidade: "The Serpentine Dance", é uma revolução no audiovisual. Em um período em que a película PB era comum, a cor (pintada à mão) evidencia o artístico. Foi um dos primeiros filmes a unir a magia do cinema com a dança, onde o movimento com a longa seda assemelha-se com o movimento de asa de um pássaro. A câmera, marcando a característica do inicio do cinema, mantêm-se parada, dando mais atenção ao plano geral. O áudio não é o original, tem-se neste período a presença instrumentos musicais nos cinemas. Em 1899, os Irmãos Lumière também filmaram um vídeo com o mesmo título, a dança é interpretada pela atriz Loie Fuller, que criou a dança e foi pintada por Toulouse-Lautrec, em 1892.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Elizabeth [vídeo-poema]

elizabeth from nina rizzi on Vimeo.


Elizabeth
Vídeo-poema de Nina Rizzi
Música: La tête dans les nuages, Yann Tiersen
Mounsier Gainsbourg revisited: Je t'aime mon non plus, Cat Power & Karen Elson
Imagens: Deux filles emportées par le vent/ França
Texto: Romance, variegação, Nina Rizzi
*

terça-feira, 18 de setembro de 2012

counter-song for diamond


yes, I take your hand
can you make me feel well?

I give you my hands,
my hands are yours.

I want to invade.
allow yourself.

that come with being female
and now I need a woman

ah, I love you, woman.
*


Neil Diamond - Girl, You'll Be A Woman Soon, 1967.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

contrafotografia para bete


os pêlos de bete têm a cor
dos não-pêlos de seu companheiro.

em seu mapa se confundem
a gana dos meus dentes, a minúcia de sua lente.

alcova de achados e perdidos,
rebeldes, bete.
*

domingo, 9 de setembro de 2012

tambores pra n'zinga em ensaio de katyuscia carvalho



chaos


de onde vim – belezas
e destroços, suam intensamente

tudo existe, dorme. até
que doa o útero, em desfio

gozam a doer profundamente, verdade
no rasgar das manhãs.


outro estudo pra o silêncio

a perene lembrança do teu nome deságua, diáfana
nas nascentes do meu rio mais comprido.


ceciliana 

escorre o óleo do mundo - lima
de rícino, refino

mínima grama ou toda
canteiro, fecundo

a poesia é de quem
precisa, disse o carteiro

lhe ria. além a lama
ternas de exílio e poda

te revisito, o mundo - olha
entre as pernas.


manoelana

transbordam em mim reminiscências:
águas que me secam, redundâncias de me sentir.

se o ocaso está repleto de ciscos, reticências,
serei eu mais que o completo vazio?

(guardo meus olhos na sarjeta mais distante e suja)


composição em azul pra d. mocinha

ela não terá a nudez das camélias,
os pés descalços dos filhos de ancestrais tribos.

um pelo encravado bastava pra lhe sentir a carne,
um cheiro diferente na voz, os rios vermelhos.

uma terceira canção, srta. dunn, do alto das nuvens,
e já não estamos sós. enquanto me arde teu inverno,
brinco de alimentar os gatinhos e os cactos que murcharam.


descalça

não é a terra:
andam estrangeiros
meus pés



bachiana em dois movimentos pra villa-lobos

já volto, vou me inexistir.

no peito, aquela coisa de moer cana.
*

Baixe e leia o livro completo aqui!

sábado, 14 de julho de 2012

Duas traduções inéditas de Manuel Bandeira


“Chambre vide” (Quarto vazio) e “Bonheur lyrique” (Feli­ci­da­de Lírica) foram escritos em francês por Manuel Ban­dei­ra e publicados no livro “Li­ber­tinagem”, em 1930, sem haver uma correspondente versão em português, como é o caso de outros poemas que o autor fez nos dois idiomas: “Nuit morte” (Noite morta), “Fleurs Famées” (Flores murchas) e “Évocation de Recife” (Evocação ao Recife).


Leia as traduções na Revista Bula!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

soneto para o homem amado

julho, 2012.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Cefas Carvalho entrevista Nina Rizzi



Escritora suicida, poeta visceral, professora, militante cultural, Nina Rizzi é tudo isso, é muito mais. Paulista de Campinas, nascida em 1983 e radicada no Ceará, Ellena Cristina Lopes (“O Rizzi só quem tem é a mãe, mas eu sou mesmo uma filha da mãe!”, diverte-se) Nina tornou-se conhecida pela militância poética e cultural nos blogs citados (http://www.escritorassuicidas.com.br/ e http://putasresolutas.blogspot.com/ ) e mantém o blogue “Ellenismos” (http://ellenismos.blogspot.com/ ) onde expõe sua poesia visceral e “feminina” (ou “feminista”?). Formada em Artes Dramáticas pela EAD/ USP e Bacharel e Licenciatura em História pela UNESP, trabalha como  Coordenadora do Centro de Artes em uma escola em Fortaleza, colaboradora em projetos e ações de educação, cultura e arte no MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), pesquisa etno-literárias com grupos de mulheres. Conhecedora da cultura potiguar, já mostrou seus versos e sua postura ao mesmo tempo doce e hipnótica em saraus na cidade de Natal. Confira a entrevista que ela concedeu a este jornalista


Leia a entrevista completa AQUI.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

FRAGMENTO PISADO DE UMA URNA GREGA

[Para Fernando Monteiro] 


Este pedaço de pedra em minhas mãos já foi a Acrópole
e  já foi uma ideia de viagem, um mistério do velho Elêusis, um nome
de poeta e de outro poeta, careca – como nunca grego - 
[e grego, primo do primeiro poeta.

Ouvi da pedra: é penteliana, mas já não digo
das brincadeiras que se faz com nomes, entre o
Agora, o Beijo e o Pentélico.

Este pedaço de pedra assassinou muitas gentes em suas passadas
e o faz agora, mas muito doce, com os meus olhos
cascalhos que despedaçam ou um lobo convertido em pedra.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

duas línguas dão mais prazer que uma, 2


suite à palefrenier

malgré disant:

"reste encore"
 reste à mes cotês"

ce n'est que poésie
- vos démarches je me promène par nuit. 





suíte ao namorado

apesar de dizer:

"fica ainda"
"fica ao meu lado"

isso não passa de poesia
- teus passos me caminham pela [noite.









[Nas imagens: Jean-Luc Godard e Anna Kharina]

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Três poemas de Juan Carlos Onetti


"A peculiaridade e a importância da obra do uruguaio Juan Carlos Onetti só foram tardiamente reconhecidas. Seus personagens complexos, sob o signo do inconformismo e do desencanto, transitam pelo espaço mítico da fictícia cidade de Santa Maria. Com uma visão de mundo tão lúcida quanto corrosiva, Onetti, dizia encontrar seus temas em 'sonhos diurnos', por meio de um 'impulso onírico'. O reconhecimento do significado de sua obra de fato só veio após 1960. Mesmo assim, sua diferença em relação aos escritores do 'boom' era patente. Em Onetti nunca houve qualquer preocupação com cor local e a influência de Faulkner, Céline e Borges deixava-o distante da magia e da fabulação."
Abaixo, uma faceta pouco conhecida do romancista e contista uruguaio — o Juan Carlos Onetti poeta. Os três poemas publicados, são seus únicos poemas conhecidos. A tradução é da escritora Nina Rizzi.
Leia os poemas na Revista Bula!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

duas línguas dão mais prazer que uma



cantata al novio


no enlace su idea a mi
desabite el nombre y la furia
susanne déchevaux-dumesnil

de una sola etapa de los árboles maduros
hacia arriba con las manos
la noche es tan frío y el silencio pesa

viene, pega tu mano sobre mi
hasta que sea invisible al mundo
como por las tardes nouvelle vague

ofrece ahí fuera su ausencia
en lugar de mi - ínsula
y su doble - epistolarís

y nos quedamos lo más abollados
y olvidados - en nuestra sta. maría
tranquilos, como si gimotea



cantata ao namorado


não enlace tua ideia à minha
desabite o nome e fúria
suzanne déchevaux-dumesnil


em um só tempo de árvores maduras
para o alto com as mãos:
a noite está tão fria lá fora e o silêncio pesa


vem, cola tua mão na minha
até que seja invisível ao mundo
como às tardes nouvelle vague


oferece ao largo tua ausência
em detrimento de mim - insula
e o seu duplo - epistolarís


e fiquemos pois amassados
e esquecidos – em nossa sta.maría


calados como quem gane

[Fotografias da série: Estudo para dois espaços, 1977, de Helena Almeida, artista performativa contemporânea, Lisboa/ Portugal]

domingo, 10 de junho de 2012

ZONA PROIBIDA DO SER


“Esse est percipi” - Berkeley

Um punhado de extratos pra se comer das mãos

- Olha, minha vida bela como coisa acumulada!
- Olha, minhas palavras forjadas por bem menos que a carpintaria!

... Eu existo.

Mas basta um espelho para escarnecer o mundo-dentro.
Pequeno-mundo, a verdade se deita ao monstro do nada.

Debaixo do nome
A jaula e o silêncio.

terça-feira, 22 de maio de 2012

AS IGREJAS DE LÁ SÃO AS MESMAS QUE AS DE CÁ


Remember us - if at all - not as lost/ Violent souls, but only/ As the hollow men/ The stuffed men.
- T.S. Eliot

Nadam sobre a superfície
Dos rios de nata-merda
Os Homens Cheios-de-Razão

Com a fluidez de um pântano
Apregoam-me Escolas, Suas pencas
De Escrituras Sagradas
Ó Verdade Absoluta oferecida
Às penas de não-leitores

Ó Abóbadas Celestes
Celeste é a minha Aurora
De páginas e páginas queimadas
Inúteis Achados
O mundo é uma Invenção

Aurora da minha vida
Contra a incitação ao picareticídio
Por que também não me torrou a chão?

segunda-feira, 21 de maio de 2012

ESCRITA AOS ÍMPARES


Se vocês querem ser mais livres do que quanto existiu até agora,
venham ouvir-me
- Walt Whitman]

Desce. Desce mais ainda.

Aqui ou em Tsárskoie Seló ou East Coker
É sempre escuro depois da zero hora
Escuridão de chão e muros e pedras.
(Não conhece ainda a escuridão das águas e o vento
E nunca existe o Bom-Selvagem se um dia pisou e viu
O chão, muros e pedras)

Desce. Desce mais ainda.

O frio já invém e cada pedaço de lugar
É comido pelo tempo, triste lugar.
Pedra ontem, pedra hoje e nunca
A mesma diante do olhar variegado e tua descida.

Desce. Desce mais ainda.

Que importa se o agasalho mal te cobre
E todo olhar variegado é igual?
Passam os seres com suas desumanidades e doenças
Tantas, como as tuas. O normal é que os desaproxima
E faz bochicho, chacota, ou nem isso e nem nada
Como a lua nova na calada madrugada

Desce. Desce mais ainda.

Até que não haja um só dente na escuridão.
Reles, vil, faz-te de cada cimento e aço
Dos lugares que não o-são
Transubstancia-te de tudo o que fizeram
A Grande Civilização e Cultura, te alastra
De todo o Tempo e a palavra
Costume, hoje é mais um dia.

Desce. Desce mais ainda.

Ácido, pérfido, até que descalce
Todo milagre – o falar, o ranger dos ossos
Qualquer lágrima como lâmina fria
O calor de uma e outra mão.

Desce. Desce mais ainda.

Conversa com a Treva, os desclassificados das calçadas
Aquele que agoniza numa casa em chamas, Escória e Só.
Conte aos amontoados de pele e ossos
E a carne-necrose dos segredos menores -
O ínfimo, o invisível, esses séculos de História, Pó.

Desce. Desce mais ainda.

Com a lata, as cinzas, o isqueiro e a colher
Os lábios queimados e o sangue exposto
Sê mínimo, agudo, cidade-baixa.

Então te levanta.

É Gente.
De frio e escuro e solidão.
Pode ser Grande?

terça-feira, 15 de maio de 2012

concerto matinal pós-soviético

aurora

nenhum julgamento em maio
toca a pianola boilesen

eles são os outros, ó henning
executa no silêncio das línguas seu concerto
de bom dia - ó, gases! anima-te, ama-te ao meio!

toda a verdade tingida num só corpo nevá-realista

cruzador, proletariusze! 
anacrônica, atraente, a liberdade é uma agonística

a sibéria nunca existiu, novokuznetsk não existe
corre em tuas veias a pátria-colônia de pestes
sangre vermelho é o canal do mar branco

ó, yezhov! nunca ouviram a gulag song.

domingo, 6 de maio de 2012

ABSOLUTO, 2


Embora a razão seja comum a todos, cada
um procede como se tivesse um pensamento próprio.
[...] O caminho que sobe e o caminho que desce
 são o único e o mesmo. - Herakleitos


Nada sei do absoluto. Quase.

Um ponto entre a mobilidade e o silêncio em toda carne, nem só carne. Sei que o absoluto é um deus que me escuta e enxerga. O passado me repele em saltos ao desconhecido.

Sei também das noites em que repousava lentamente, e apertava com força descomunal, uma mão na outra. Movimento encarnado, encontro do que não poderia ter sido e foi. A existência reconciliada. Perpétua possibilidade.  Estender-se, ser-se.

 Invita-me palavras desusadas – amiúde, derna muito – como um lugar criado na linguagem, um lugar metafísico em que possa caminhar sem que seja estrangeira, como tudo. Exatamente livre. Ecos epifânicos, partícipe de sua Bondade e o indelével, o inefável.

Sinto. O silêncio que flui sobre nós, como o mormaço sobre o oásis, o orvalho sobre a terra. Como coisa profética, como toda calma para o transe, saliva sobre a ferida.

Sei que o busco, em vigília, com tudo - imersa de agoras e o tempo-quando. Sei que o absoluto é um caminho, e que sou a sua morada.
*

sexta-feira, 4 de maio de 2012

rapsodia, quasi una fantasia



"óperas silenciosas, tímpanos estilhaçados" - jota mombaça


prelúdio pra rapsódia

saudades eu tenho de um qualquer que me habitasse;
de toda terra ou pedra, terrivelmente linda, real, dorida.

saudades dessas que me ficam assim, solidão mais fora que dentro;
dos mitos que ficam existindo dentro de mim.



1º movimento, l'istesso tempo

era o aniversário dela, a moça que já foi de bienal. depois ela quis ser travesti, eu não me espantei, comi chantilly sem leite em sua homenagem, com mostarda, pimenta e um pouco de sangue que consegui espetando os joelhos com o garfo. eu lembrei do dia de seu trigésimo aniversário, as flores amarelas e o poema de dylan thomas. comi as flores porque ela não é bondosa, nem deveria. é um modo de celebrar as idas ânsias, hoje um peso morto como aquele partido conservador português. ela não respondeu, comi as últimas pétalas com esse pensamento, quanto bem-me-quer cabe em mal-me-quer, o quanto me havia de impraticável. 

eu não pensava em nada disso. eu era assistente social tecnicista e utilitarista. aí que eu encontrei o 'take the power back' e fiquei com pena de ter aprendido algum inglês como laugh and laughing e essa cultura dominante nessas outras coisas que missy elliot não dizia com o settle for nothing. é bonito o som dessas palavras pra muito além de concretismo, mas só isso. nem era meu aniversário, porque eu não posso aniversariar de mês em mês, apesar de ver àquela, ó presente, de ano em ano. mas eu não posso aniversariar todo mês ou toda semana, mesmo com esses presentes que chegam na caixa. eu tenho alguém que me presenteia, nos esbofeteamos quase toda manhã como um jeito de buscar a mágoa em lugar de nuvens, como a vida deve ser ou não, aqui é que é assim viver a vida.

e tem ainda 'killing in the name', não importa o resto, só isso, o 'killing in the name'. a indicação de alguém que já me admirou - não hoje, não depois de eu beijar uma mulher quando todos os homens me disputavam e se ofereciam e eu só pensava e bebia o homem que não estava com a salsinha ou talvez fosse coentro, o coentro que em suas mãos pra minha boca, só assim das suas mãos pra minha boca é que podia ser bom e é maravilhoso, foi -. sim, não depois de eu beijar a mulher quando era o homem distante e aquele ali que já me admirou sabia. sabia e me chamou de falsa. fake, na verdade, que é como ele tem sido depois de ter descoberto em sua poesia - aquela poesia precisa, articulada, que não se desperdiça e é indispensável -, ter descoberto que a poesia flui e é fluída, sincopada como seus rios ao gosto de ungaretti. a indicação desse homem fez o outro escrever, depois de lembrar de outro dizer, sóis, tanta gente diz e eu repito: nome é destino.

tudo era poema, não isso. era o aniversário da mulher que comi as flores e as flores e o seu nome.


2º movimento, adágio com esprezione

era preciso dizer, quase como um rito, como uma premonição de catástrofe, todo o tempo quase e o tempo quando. ainda com a  insegurança da repetição. eu queria gritar sim, porque não? com aquela vozinha da joanna ou da rachael que me tocam tanto, tanto. vê, as repetições, são próprias do meu discurso que preciso todo o tempo lhe dizer. assim como não sei conjugar os verbos, é e não era. e não é que você não saiba, mas é que além do tempo é agora. a colher que estala a farinha d'água alheia ao meu não gostá-la. e eu gosto quando minha gata mais arisca se derrama em minhas folhas. grávida, se contorce e amontoa, ronrona. o homem me disse que gostoso só pode ser comida ou sexo, porque eu dizia que era gostoso o alto-mar e a gata. talvez ele não fosse mergulhador e uma pessoa que não gosta de gatos não entende nada de sensibilidade e gostar. e é gostoso quando chega a outra gata e massageia minha cintura e sexo com as unhas. a vida eterna, amor, disse ele. e lembrei dessa que era a boa vida. a ala das baianas amarelas. as flores amarelas não restituem teus lábios. é uma fera selvagem e eu nunca os vi, mas encontrei no lixo uma mala cor-de-rosa-choque pra carregar toda disritmia. e o homem, sim, você é o homem, nunca mais me escreveu uma linha. uma linha era o que separava minha alma da tua. te viram numa livraria acompanhado de uma mulher, poeta. eu não lembro quando fui mulher e tenho medo de esquecer teus olhos. a mulher era amarela como teus olhos hepáticos. só um girassol ou o miolo das margaridas podem ser verdadeiramente amarelos, belos. e as baianas de todos os santos. um riso puro e solto a contaminar cada um dos dentes até os olhos e garfos e então tudo ser uma só gargalhada. era boa a vida, uma pequena morte todo dia. e você não veio buscar meu fígado ensanguentado. ao invés de te esquecer, lambo do choro às feridas, mostro a faixa litorânea e rio ao homem que diz me querer. ele é amarelo como meu riso. mas aí eu fiquei ríspida, dizia o homem que era você quando eu parecia te amolar, faca de dois gumes. era preciso dizer que te amo, todo tempo. é preciso dizer, você sabe, mas te amo é preciso dizer, que além do tempo é agora. gostoso é o que gosto, araim.


3º movimento: andante

então descruzou as pernas e recostou-se na cadeira. ficou ali mirando as pessoas como se lhes lesse, daquele jeito em que olhar atravessa as gentes sem ver. um minuto ou outro vinha a imagem de dois dedos displicentes a brincar com um lóbulo de orelha ou um lábio superior. a dorzinha do tédio que lhe pressionava a testa em pouco passava, estaria sentada na padaria e chegaria àquela das práticas assustadoras, assim lhe parecia. coisa com coisa era a lembrança dessa; o dia em que a mãe lhe deu um vestido branco e longo como tapa na cara; quando o pai bêbado bulinou suas cobertas; as cobertas e o sujeito a morder os ombros da moça. ah, lamber a mulher e morder até que seu corpo seja uma mancha no seu. a mulher, esparramar-se a mancha. a moça sem mancada a relerrelerrelerreler os diálogos de duras pra hiroshima, mon amour. sem mancada com sua sabinada e aquela mulher ancestral, a mulher ancestral e o tempo em que fazia poesia. agora não, perde os olhos como quem pega piaba. talvez os peixes morram gozando e isso explicava seus olhos. os olhos da moça atravessando as gentes no nada. fica assim amando as coisas que insistentemente existem à sua volta como a virgem maria e, ai, essa virgindade. ali amando o tempo em que só podia amar o etéreo e irrealizável. aqui ardendo pelo em pouco, um enfim, efêmero, fractal e palpável arder, arder, arder. una pequeña viajera.


4º movimento, allegro vivace

parece até uma sessão masoquista, eu aqui sentada nesse banco imundo de rodoviária, as pessoas chegando pros encontros com risos e vindimas e esse calor infernal e tantos letreiros que me dizem tanto de nós. devia ser lindo a gente a se enroscar num canto de nome olhos d'água. ou talvez esse seja o meu lugar e não o nosso, ou só teus olhos d'água.

caridade, motorista? não, as estradas é que deviam me ter caridade. eu aqui, impregnada de tudo que te é (não motorista, já não te falo, não é você que vejo, que não me leva daqui), esses livros e essas cartas e poemas impublicáveis que imprimi na memória e na língua e que me dói a cabeça. esses teus radicalismos que carrego na bolsa pra distribuir nos assentamentos.

um mundinho tão casca de nós e a gente não ter se esbarrado de novo, nesses letreiros e bancos imundos e em meus poemas pra dentes, ó, absurdidade. fazemos inveja aos pregões novaiorquinos. é isso, muita especulação, investimentos de risco e a gente nem gosta de apostas e roletas, só dos russos que dizem desse frio que nos encharca.

ah, menino, me viciei tão baixinho em teus hábitos estúpidos, em teus lábios sujos de me falar e ter e me amarrar e rasgar cada pedacinho e comer em autotrofagia que me pergunto cadê os poemas que te enviei? por que não podia simplesmente devolver cada um dos pelos e pentelhos que te entreguei em histeria? é muito calor, é muito calor e eu tiro os cabelos que me tapam os olhos e me engasgam e a minha cabeça continua a doer. pra onde será que esses ônibus vão se não me levam? de onde vem tanta gente? o nordeste inteiro e a gente nem sol.

você gostava tanto das minhas sandálias de cangaceiro, a gente fazendo moda de sertão alegre e pirilampo e aquelas frutas lindas, com uns nomes de se abocanhar em pelo. pelo apelido, mas era o nome real que me pegava o gosto, mas que agora não lembro de tanto que me dói a cabeça de tanto te lembrar esses pelos que isaías falava que de tão escarlate o pecado, derretia branquinho como a neve. três quilômetros morro abaixo a centetrinta por hora, em menos de um minuto se chegava ao destino e nós nem esqui. sputinik, bolchevique, tecnicolor e eu e você nem lua. minhas pupilas dilatadas e quem sabe também as tuas.

o sujeito da princesa dos inhamuns veio lá de seu guichê à minha plataforma e fica aqui me cortejando e me olhando e me querendo ler tudo e você precisa fazer um transplante e esse meu rim desgraçado tinha que doer justo agora? e essas biomédicas apolíneas e meigas maledetas que não me aceitam a carne mijada. os ônibus lotados, o asfalto derretendo, o pneu furado, o motor arreado, a porra hipócrita da família pequeno-burguesa e feliz, tudo isso no meio do nosso encontro, liquefazendo o rim que devo te entregar, mas que não consigo, não consigo e não me depilo que teus pelos vieram assim, meio que por acaso dentro daquele livro roubado de supermercado e desde então quantas mil vezes minha compulsão me levou a te reler PALAVRA, LETRA escArlate e RaINHA no tabuleiro. você já comeu biscoitos de farinha d'água? é a falácia dos pães-de-queijo que vem sem beijo. quantas bonecas de mestre vitalino, quantas jangadas e eu e tu e eles nem aurora, sei que vou morrer não sei o dia e talvez você nem saberá que os sete orelhões são da rua que não ladrilhei, meu amor, e posso findar qual anunciação do apocalipse se não te entrego esse rim.

por que esse cara insiste tanto que eu lhe compre os óculos e relógios? é assim tão óbvio que meus olhos d'água precisam secar, isso dói mais em mim que nele, pode acreditar e que esse meu rim tá atrasado até ele já sabe que tá escorrendo sangue pelas minhas mãos calejadas de esperar a safra do algodão doce, mas isso não ajuda, não ajuda, assim como não ajuda esse cartão de sorrento que tenho na carteira vazia. claro que na itália fazem docinhos deliciosos de frutas azedas e ESPINHENTAS! sim, feito pequi com arroz, com frango não que detesto frango, digo, sou sensível demais pra detestá-los e não posso comê-los a não ser que te entregasse meu rim a tempo e pudéssemos fazer um charque de galinha, um steak até, nem que fosse lá, naquela minha esquina vizinha, a que me fugiu com a família feliz e netos e onde sua pele brilhava como a de um escravo à venda no mercado de olinda e seu nariz anguloso e eu lá nu em vermelho modinha gli ochi per te. você devia ter me escutado contr'alto:

volevo dirti solo che
sei sempre tu la mia allegria
che quando parli insieme a lei
diventa folle gelosia
per tutto quello che mi dai
anche quando non lo sai
questo io volevo dire a te

di come quando non ci sai
io mi perdo sempre un po'
poi mi accorgo che non so
più divertirmi senza te
invece quando stai con me
anche il grigio intorno a noi
i colora della vita che gli dai

com'è difficile dire tutto questo a te
che d'amore non parli mai
non ne parli mai con me...
hai paura come me...

os ônibus não vêm do carnaval, do natal e eu viro duna, maresia, ruína, olhos d'água. faço cantilhenas, grito e choro e esperneio que nem uma criança cricrinclame com toda força e as estradas interditadas e esse rim em minhas mãos de concha virando ostra. porra... eu encaro o sol. encaro sim. recoloco as pernas que te dei naquela feita gloriosa e vou. cuspo e vou a nado se preciso, é preciso! voltando de canindé via tabapuá é calor eu sei, mas é preciso sonhar sabendo a hora de partir. não tenho cavalo, nem burro brabo ou pau de sebo, mas a princesa dos inhamuns vem, tem que vir, tem que vir e aí sim: rícino, rim, rir, ô sertão sanguidolente.
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