quinta-feira, 28 de junho de 2012

Cefas Carvalho entrevista Nina Rizzi



Escritora suicida, poeta visceral, professora, militante cultural, Nina Rizzi é tudo isso, é muito mais. Paulista de Campinas, nascida em 1983 e radicada no Ceará, Ellena Cristina Lopes (“O Rizzi só quem tem é a mãe, mas eu sou mesmo uma filha da mãe!”, diverte-se) Nina tornou-se conhecida pela militância poética e cultural nos blogs citados (http://www.escritorassuicidas.com.br/ e http://putasresolutas.blogspot.com/ ) e mantém o blogue “Ellenismos” (http://ellenismos.blogspot.com/ ) onde expõe sua poesia visceral e “feminina” (ou “feminista”?). Formada em Artes Dramáticas pela EAD/ USP e Bacharel e Licenciatura em História pela UNESP, trabalha como  Coordenadora do Centro de Artes em uma escola em Fortaleza, colaboradora em projetos e ações de educação, cultura e arte no MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), pesquisa etno-literárias com grupos de mulheres. Conhecedora da cultura potiguar, já mostrou seus versos e sua postura ao mesmo tempo doce e hipnótica em saraus na cidade de Natal. Confira a entrevista que ela concedeu a este jornalista


Leia a entrevista completa AQUI.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

FRAGMENTO PISADO DE UMA URNA GREGA

[Para Fernando Monteiro] 


Este pedaço de pedra em minhas mãos já foi a Acrópole
e  já foi uma ideia de viagem, um mistério do velho Elêusis, um nome
de poeta e de outro poeta, careca – como nunca grego - 
[e grego, primo do primeiro poeta.

Ouvi da pedra: é penteliana, mas já não digo
das brincadeiras que se faz com nomes, entre o
Agora, o Beijo e o Pentélico.

Este pedaço de pedra assassinou muitas gentes em suas passadas
e o faz agora, mas muito doce, com os meus olhos
cascalhos que despedaçam ou um lobo convertido em pedra.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

duas línguas dão mais prazer que uma, 2


suite à palefrenier

malgré disant:

"reste encore"
 reste à mes cotês"

ce n'est que poésie
- vos démarches je me promène par nuit. 





suíte ao namorado

apesar de dizer:

"fica ainda"
"fica ao meu lado"

isso não passa de poesia
- teus passos me caminham pela [noite.









[Nas imagens: Jean-Luc Godard e Anna Kharina]

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Três poemas de Juan Carlos Onetti


"A peculiaridade e a importância da obra do uruguaio Juan Carlos Onetti só foram tardiamente reconhecidas. Seus personagens complexos, sob o signo do inconformismo e do desencanto, transitam pelo espaço mítico da fictícia cidade de Santa Maria. Com uma visão de mundo tão lúcida quanto corrosiva, Onetti, dizia encontrar seus temas em 'sonhos diurnos', por meio de um 'impulso onírico'. O reconhecimento do significado de sua obra de fato só veio após 1960. Mesmo assim, sua diferença em relação aos escritores do 'boom' era patente. Em Onetti nunca houve qualquer preocupação com cor local e a influência de Faulkner, Céline e Borges deixava-o distante da magia e da fabulação."
Abaixo, uma faceta pouco conhecida do romancista e contista uruguaio — o Juan Carlos Onetti poeta. Os três poemas publicados, são seus únicos poemas conhecidos. A tradução é da escritora Nina Rizzi.
Leia os poemas na Revista Bula!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

duas línguas dão mais prazer que uma



cantata al novio


no enlace su idea a mi
desabite el nombre y la furia
susanne déchevaux-dumesnil

de una sola etapa de los árboles maduros
hacia arriba con las manos
la noche es tan frío y el silencio pesa

viene, pega tu mano sobre mi
hasta que sea invisible al mundo
como por las tardes nouvelle vague

ofrece ahí fuera su ausencia
en lugar de mi - ínsula
y su doble - epistolarís

y nos quedamos lo más abollados
y olvidados - en nuestra sta. maría
tranquilos, como si gimotea



cantata ao namorado


não enlace tua ideia à minha
desabite o nome e fúria
suzanne déchevaux-dumesnil


em um só tempo de árvores maduras
para o alto com as mãos:
a noite está tão fria lá fora e o silêncio pesa


vem, cola tua mão na minha
até que seja invisível ao mundo
como às tardes nouvelle vague


oferece ao largo tua ausência
em detrimento de mim - insula
e o seu duplo - epistolarís


e fiquemos pois amassados
e esquecidos – em nossa sta.maría


calados como quem gane

[Fotografias da série: Estudo para dois espaços, 1977, de Helena Almeida, artista performativa contemporânea, Lisboa/ Portugal]

domingo, 10 de junho de 2012

ZONA PROIBIDA DO SER


“Esse est percipi” - Berkeley

Um punhado de extratos pra se comer das mãos

- Olha, minha vida bela como coisa acumulada!
- Olha, minhas palavras forjadas por bem menos que a carpintaria!

... Eu existo.

Mas basta um espelho para escarnecer o mundo-dentro.
Pequeno-mundo, a verdade se deita ao monstro do nada.

Debaixo do nome
A jaula e o silêncio.

terça-feira, 22 de maio de 2012

AS IGREJAS DE LÁ SÃO AS MESMAS QUE AS DE CÁ


Remember us - if at all - not as lost/ Violent souls, but only/ As the hollow men/ The stuffed men.
- T.S. Eliot

Nadam sobre a superfície
Dos rios de nata-merda
Os Homens Cheios-de-Razão

Com a fluidez de um pântano
Apregoam-me Escolas, Suas pencas
De Escrituras Sagradas
Ó Verdade Absoluta oferecida
Às penas de não-leitores

Ó Abóbadas Celestes
Celeste é a minha Aurora
De páginas e páginas queimadas
Inúteis Achados
O mundo é uma Invenção

Aurora da minha vida
Contra a incitação ao picareticídio
Por que também não me torrou a chão?

segunda-feira, 21 de maio de 2012

ESCRITA AOS ÍMPARES


Se vocês querem ser mais livres do que quanto existiu até agora,
venham ouvir-me
- Walt Whitman]

Desce. Desce mais ainda.

Aqui ou em Tsárskoie Seló ou East Coker
É sempre escuro depois da zero hora
Escuridão de chão e muros e pedras.
(Não conhece ainda a escuridão das águas e o vento
E nunca existe o Bom-Selvagem se um dia pisou e viu
O chão, muros e pedras)

Desce. Desce mais ainda.

O frio já invém e cada pedaço de lugar
É comido pelo tempo, triste lugar.
Pedra ontem, pedra hoje e nunca
A mesma diante do olhar variegado e tua descida.

Desce. Desce mais ainda.

Que importa se o agasalho mal te cobre
E todo olhar variegado é igual?
Passam os seres com suas desumanidades e doenças
Tantas, como as tuas. O normal é que os desaproxima
E faz bochicho, chacota, ou nem isso e nem nada
Como a lua nova na calada madrugada

Desce. Desce mais ainda.

Até que não haja um só dente na escuridão.
Reles, vil, faz-te de cada cimento e aço
Dos lugares que não o-são
Transubstancia-te de tudo o que fizeram
A Grande Civilização e Cultura, te alastra
De todo o Tempo e a palavra
Costume, hoje é mais um dia.

Desce. Desce mais ainda.

Ácido, pérfido, até que descalce
Todo milagre – o falar, o ranger dos ossos
Qualquer lágrima como lâmina fria
O calor de uma e outra mão.

Desce. Desce mais ainda.

Conversa com a Treva, os desclassificados das calçadas
Aquele que agoniza numa casa em chamas, Escória e Só.
Conte aos amontoados de pele e ossos
E a carne-necrose dos segredos menores -
O ínfimo, o invisível, esses séculos de História, Pó.

Desce. Desce mais ainda.

Com a lata, as cinzas, o isqueiro e a colher
Os lábios queimados e o sangue exposto
Sê mínimo, agudo, cidade-baixa.

Então te levanta.

É Gente.
De frio e escuro e solidão.
Pode ser Grande?

terça-feira, 15 de maio de 2012

concerto matinal pós-soviético

aurora

nenhum julgamento em maio
toca a pianola boilesen

eles são os outros, ó henning
executa no silêncio das línguas seu concerto
de bom dia - ó, gases! anima-te, ama-te ao meio!

toda a verdade tingida num só corpo nevá-realista

cruzador, proletariusze! 
anacrônica, atraente, a liberdade é uma agonística

a sibéria nunca existiu, novokuznetsk não existe
corre em tuas veias a pátria-colônia de pestes
sangre vermelho é o canal do mar branco

ó, yezhov! nunca ouviram a gulag song.

domingo, 6 de maio de 2012

ABSOLUTO, 2


Embora a razão seja comum a todos, cada
um procede como se tivesse um pensamento próprio.
[...] O caminho que sobe e o caminho que desce
 são o único e o mesmo. - Herakleitos


Nada sei do absoluto. Quase.

Um ponto entre a mobilidade e o silêncio em toda carne, nem só carne. Sei que o absoluto é um deus que me escuta e enxerga. O passado me repele em saltos ao desconhecido.

Sei também das noites em que repousava lentamente, e apertava com força descomunal, uma mão na outra. Movimento encarnado, encontro do que não poderia ter sido e foi. A existência reconciliada. Perpétua possibilidade.  Estender-se, ser-se.

 Invita-me palavras desusadas – amiúde, derna muito – como um lugar criado na linguagem, um lugar metafísico em que possa caminhar sem que seja estrangeira, como tudo. Exatamente livre. Ecos epifânicos, partícipe de sua Bondade e o indelével, o inefável.

Sinto. O silêncio que flui sobre nós, como o mormaço sobre o oásis, o orvalho sobre a terra. Como coisa profética, como toda calma para o transe, saliva sobre a ferida.

Sei que o busco, em vigília, com tudo - imersa de agoras e o tempo-quando. Sei que o absoluto é um caminho, e que sou a sua morada.
*

sexta-feira, 4 de maio de 2012

rapsodia, quasi una fantasia



"óperas silenciosas, tímpanos estilhaçados" - jota mombaça


prelúdio pra rapsódia

saudades eu tenho de um qualquer que me habitasse;
de toda terra ou pedra, terrivelmente linda, real, dorida.

saudades dessas que me ficam assim, solidão mais fora que dentro;
dos mitos que ficam existindo dentro de mim.



1º movimento, l'istesso tempo

era o aniversário dela, a moça que já foi de bienal. depois ela quis ser travesti, eu não me espantei, comi chantilly sem leite em sua homenagem, com mostarda, pimenta e um pouco de sangue que consegui espetando os joelhos com o garfo. eu lembrei do dia de seu trigésimo aniversário, as flores amarelas e o poema de dylan thomas. comi as flores porque ela não é bondosa, nem deveria. é um modo de celebrar as idas ânsias, hoje um peso morto como aquele partido conservador português. ela não respondeu, comi as últimas pétalas com esse pensamento, quanto bem-me-quer cabe em mal-me-quer, o quanto me havia de impraticável. 

eu não pensava em nada disso. eu era assistente social tecnicista e utilitarista. aí que eu encontrei o 'take the power back' e fiquei com pena de ter aprendido algum inglês como laugh and laughing e essa cultura dominante nessas outras coisas que missy elliot não dizia com o settle for nothing. é bonito o som dessas palavras pra muito além de concretismo, mas só isso. nem era meu aniversário, porque eu não posso aniversariar de mês em mês, apesar de ver àquela, ó presente, de ano em ano. mas eu não posso aniversariar todo mês ou toda semana, mesmo com esses presentes que chegam na caixa. eu tenho alguém que me presenteia, nos esbofeteamos quase toda manhã como um jeito de buscar a mágoa em lugar de nuvens, como a vida deve ser ou não, aqui é que é assim viver a vida.

e tem ainda 'killing in the name', não importa o resto, só isso, o 'killing in the name'. a indicação de alguém que já me admirou - não hoje, não depois de eu beijar uma mulher quando todos os homens me disputavam e se ofereciam e eu só pensava e bebia o homem que não estava com a salsinha ou talvez fosse coentro, o coentro que em suas mãos pra minha boca, só assim das suas mãos pra minha boca é que podia ser bom e é maravilhoso, foi -. sim, não depois de eu beijar a mulher quando era o homem distante e aquele ali que já me admirou sabia. sabia e me chamou de falsa. fake, na verdade, que é como ele tem sido depois de ter descoberto em sua poesia - aquela poesia precisa, articulada, que não se desperdiça e é indispensável -, ter descoberto que a poesia flui e é fluída, sincopada como seus rios ao gosto de ungaretti. a indicação desse homem fez o outro escrever, depois de lembrar de outro dizer, sóis, tanta gente diz e eu repito: nome é destino.

tudo era poema, não isso. era o aniversário da mulher que comi as flores e as flores e o seu nome.


2º movimento, adágio com esprezione

era preciso dizer, quase como um rito, como uma premonição de catástrofe, todo o tempo quase e o tempo quando. ainda com a  insegurança da repetição. eu queria gritar sim, porque não? com aquela vozinha da joanna ou da rachael que me tocam tanto, tanto. vê, as repetições, são próprias do meu discurso que preciso todo o tempo lhe dizer. assim como não sei conjugar os verbos, é e não era. e não é que você não saiba, mas é que além do tempo é agora. a colher que estala a farinha d'água alheia ao meu não gostá-la. e eu gosto quando minha gata mais arisca se derrama em minhas folhas. grávida, se contorce e amontoa, ronrona. o homem me disse que gostoso só pode ser comida ou sexo, porque eu dizia que era gostoso o alto-mar e a gata. talvez ele não fosse mergulhador e uma pessoa que não gosta de gatos não entende nada de sensibilidade e gostar. e é gostoso quando chega a outra gata e massageia minha cintura e sexo com as unhas. a vida eterna, amor, disse ele. e lembrei dessa que era a boa vida. a ala das baianas amarelas. as flores amarelas não restituem teus lábios. é uma fera selvagem e eu nunca os vi, mas encontrei no lixo uma mala cor-de-rosa-choque pra carregar toda disritmia. e o homem, sim, você é o homem, nunca mais me escreveu uma linha. uma linha era o que separava minha alma da tua. te viram numa livraria acompanhado de uma mulher, poeta. eu não lembro quando fui mulher e tenho medo de esquecer teus olhos. a mulher era amarela como teus olhos hepáticos. só um girassol ou o miolo das margaridas podem ser verdadeiramente amarelos, belos. e as baianas de todos os santos. um riso puro e solto a contaminar cada um dos dentes até os olhos e garfos e então tudo ser uma só gargalhada. era boa a vida, uma pequena morte todo dia. e você não veio buscar meu fígado ensanguentado. ao invés de te esquecer, lambo do choro às feridas, mostro a faixa litorânea e rio ao homem que diz me querer. ele é amarelo como meu riso. mas aí eu fiquei ríspida, dizia o homem que era você quando eu parecia te amolar, faca de dois gumes. era preciso dizer que te amo, todo tempo. é preciso dizer, você sabe, mas te amo é preciso dizer, que além do tempo é agora. gostoso é o que gosto, araim.


3º movimento: andante

então descruzou as pernas e recostou-se na cadeira. ficou ali mirando as pessoas como se lhes lesse, daquele jeito em que olhar atravessa as gentes sem ver. um minuto ou outro vinha a imagem de dois dedos displicentes a brincar com um lóbulo de orelha ou um lábio superior. a dorzinha do tédio que lhe pressionava a testa em pouco passava, estaria sentada na padaria e chegaria àquela das práticas assustadoras, assim lhe parecia. coisa com coisa era a lembrança dessa; o dia em que a mãe lhe deu um vestido branco e longo como tapa na cara; quando o pai bêbado bulinou suas cobertas; as cobertas e o sujeito a morder os ombros da moça. ah, lamber a mulher e morder até que seu corpo seja uma mancha no seu. a mulher, esparramar-se a mancha. a moça sem mancada a relerrelerrelerreler os diálogos de duras pra hiroshima, mon amour. sem mancada com sua sabinada e aquela mulher ancestral, a mulher ancestral e o tempo em que fazia poesia. agora não, perde os olhos como quem pega piaba. talvez os peixes morram gozando e isso explicava seus olhos. os olhos da moça atravessando as gentes no nada. fica assim amando as coisas que insistentemente existem à sua volta como a virgem maria e, ai, essa virgindade. ali amando o tempo em que só podia amar o etéreo e irrealizável. aqui ardendo pelo em pouco, um enfim, efêmero, fractal e palpável arder, arder, arder. una pequeña viajera.


4º movimento, allegro vivace

parece até uma sessão masoquista, eu aqui sentada nesse banco imundo de rodoviária, as pessoas chegando pros encontros com risos e vindimas e esse calor infernal e tantos letreiros que me dizem tanto de nós. devia ser lindo a gente a se enroscar num canto de nome olhos d'água. ou talvez esse seja o meu lugar e não o nosso, ou só teus olhos d'água.

caridade, motorista? não, as estradas é que deviam me ter caridade. eu aqui, impregnada de tudo que te é (não motorista, já não te falo, não é você que vejo, que não me leva daqui), esses livros e essas cartas e poemas impublicáveis que imprimi na memória e na língua e que me dói a cabeça. esses teus radicalismos que carrego na bolsa pra distribuir nos assentamentos.

um mundinho tão casca de nós e a gente não ter se esbarrado de novo, nesses letreiros e bancos imundos e em meus poemas pra dentes, ó, absurdidade. fazemos inveja aos pregões novaiorquinos. é isso, muita especulação, investimentos de risco e a gente nem gosta de apostas e roletas, só dos russos que dizem desse frio que nos encharca.

ah, menino, me viciei tão baixinho em teus hábitos estúpidos, em teus lábios sujos de me falar e ter e me amarrar e rasgar cada pedacinho e comer em autotrofagia que me pergunto cadê os poemas que te enviei? por que não podia simplesmente devolver cada um dos pelos e pentelhos que te entreguei em histeria? é muito calor, é muito calor e eu tiro os cabelos que me tapam os olhos e me engasgam e a minha cabeça continua a doer. pra onde será que esses ônibus vão se não me levam? de onde vem tanta gente? o nordeste inteiro e a gente nem sol.

você gostava tanto das minhas sandálias de cangaceiro, a gente fazendo moda de sertão alegre e pirilampo e aquelas frutas lindas, com uns nomes de se abocanhar em pelo. pelo apelido, mas era o nome real que me pegava o gosto, mas que agora não lembro de tanto que me dói a cabeça de tanto te lembrar esses pelos que isaías falava que de tão escarlate o pecado, derretia branquinho como a neve. três quilômetros morro abaixo a centetrinta por hora, em menos de um minuto se chegava ao destino e nós nem esqui. sputinik, bolchevique, tecnicolor e eu e você nem lua. minhas pupilas dilatadas e quem sabe também as tuas.

o sujeito da princesa dos inhamuns veio lá de seu guichê à minha plataforma e fica aqui me cortejando e me olhando e me querendo ler tudo e você precisa fazer um transplante e esse meu rim desgraçado tinha que doer justo agora? e essas biomédicas apolíneas e meigas maledetas que não me aceitam a carne mijada. os ônibus lotados, o asfalto derretendo, o pneu furado, o motor arreado, a porra hipócrita da família pequeno-burguesa e feliz, tudo isso no meio do nosso encontro, liquefazendo o rim que devo te entregar, mas que não consigo, não consigo e não me depilo que teus pelos vieram assim, meio que por acaso dentro daquele livro roubado de supermercado e desde então quantas mil vezes minha compulsão me levou a te reler PALAVRA, LETRA escArlate e RaINHA no tabuleiro. você já comeu biscoitos de farinha d'água? é a falácia dos pães-de-queijo que vem sem beijo. quantas bonecas de mestre vitalino, quantas jangadas e eu e tu e eles nem aurora, sei que vou morrer não sei o dia e talvez você nem saberá que os sete orelhões são da rua que não ladrilhei, meu amor, e posso findar qual anunciação do apocalipse se não te entrego esse rim.

por que esse cara insiste tanto que eu lhe compre os óculos e relógios? é assim tão óbvio que meus olhos d'água precisam secar, isso dói mais em mim que nele, pode acreditar e que esse meu rim tá atrasado até ele já sabe que tá escorrendo sangue pelas minhas mãos calejadas de esperar a safra do algodão doce, mas isso não ajuda, não ajuda, assim como não ajuda esse cartão de sorrento que tenho na carteira vazia. claro que na itália fazem docinhos deliciosos de frutas azedas e ESPINHENTAS! sim, feito pequi com arroz, com frango não que detesto frango, digo, sou sensível demais pra detestá-los e não posso comê-los a não ser que te entregasse meu rim a tempo e pudéssemos fazer um charque de galinha, um steak até, nem que fosse lá, naquela minha esquina vizinha, a que me fugiu com a família feliz e netos e onde sua pele brilhava como a de um escravo à venda no mercado de olinda e seu nariz anguloso e eu lá nu em vermelho modinha gli ochi per te. você devia ter me escutado contr'alto:

volevo dirti solo che
sei sempre tu la mia allegria
che quando parli insieme a lei
diventa folle gelosia
per tutto quello che mi dai
anche quando non lo sai
questo io volevo dire a te

di come quando non ci sai
io mi perdo sempre un po'
poi mi accorgo che non so
più divertirmi senza te
invece quando stai con me
anche il grigio intorno a noi
i colora della vita che gli dai

com'è difficile dire tutto questo a te
che d'amore non parli mai
non ne parli mai con me...
hai paura come me...

os ônibus não vêm do carnaval, do natal e eu viro duna, maresia, ruína, olhos d'água. faço cantilhenas, grito e choro e esperneio que nem uma criança cricrinclame com toda força e as estradas interditadas e esse rim em minhas mãos de concha virando ostra. porra... eu encaro o sol. encaro sim. recoloco as pernas que te dei naquela feita gloriosa e vou. cuspo e vou a nado se preciso, é preciso! voltando de canindé via tabapuá é calor eu sei, mas é preciso sonhar sabendo a hora de partir. não tenho cavalo, nem burro brabo ou pau de sebo, mas a princesa dos inhamuns vem, tem que vir, tem que vir e aí sim: rícino, rim, rir, ô sertão sanguidolente.
*

quinta-feira, 3 de maio de 2012

PORANDUBA DIALÉTICA


Duy Huynh (vietnamita, contemporâneo). The Converge On The Branch Of Second Chances. Acrylic on wood, 32"x32", sold, 2011

“A conciliação dos contrários nas coisas e no espírito” - Georg W. F. Hegel

"Quando submetemos ao exame do pensamento a natureza ou a história da humanidade, ou a nossa própria atividade mental, o que se nos oferece, em primeiro lugar, é o quadro de uma confusão infinita de relações, de ações e reações, onde nada permanece o que era, onde era, como era, onde tudo se move, se transforma, vem a ser e passa."
- In: Friedrich Engels, no clássico panfleto O Sr. Eugen Dühring perturba a ciência - Anti-Dühring -, em que faz, pela primeira vez, uma exposição completa do materialismo dialético.

Primeiro, eu achei que me viria com flores. Talvez margaridas, que me cheira alegre e de redundâncias de caiofa. Podia até ver, como em retratos, de miolos amarelos, redondos, largos, de telas pontilistas. E pétalas alongadas, gordas ao centro e se afunilando em alvidez pra fora.

Depois, pensei em maçãs. Que talvez me cresse professorinha Ellena. De alunos dos morros, descalços, das terras ocupadas. Sem maçãs. E gosta de maçãs. Que são práticas e não precisam descascar, só comer. E pude as sentir o gosto. Não àquelas arenosas argentinas, mas as fuji que não são asiáticas. Que estalam às minhas mordidas cavalares e sangram doce. Me saltavam suas formas quase redondas, não fossem mais que terra; quase tão vermelhas, não fossem mais que pêra.

Por fim, pensei nos lápis. Que, miserável, mais que por condição, só escrevo em papel. Que a maresia dos meus dias acabam com minhas canetas em menos de uma semana, mais tempo que meus papéis. Lápis quadrados. Que pressentia minhas suadas mãos e as fatais escorregadas. 5b, que, então, seria estímulo a mais pra superar tamanha frustração por não pintar.

Mas não vieram as margaridas, que giro sóis que sabe melancolia, apesar de toda extroversão. Que não arrancaria da boa terra a flor só pra me alegrar, escravo da luxúria.

E não vieram as maçãs. Elas prosseguiram sem qualquer mudança mecânica. Continuaram maçãs sem um dia terem sido e tendo deixado de ser. Eram maçãs verdes que se tornaram maduras porque deviam amadurecer, que antes mesmo de estarem maduras, eram maçãs e deviam amadurecer autodinâmicas. E antes foram flores, e antes botões e macieiras na primavera. E caíram, rolaram, apodreceram, se decompuseram liberando sementes que, se tudo seguiu bem - conforme as condições do clima, do solo, a ação recíproca que encadeia os processos - rebentos, depois árvores.

Não, tampouco os lápis vieram. E nem sei desenhar mesmo e as letras desaparecem peremptórias. Os lápis não foram afiados, permaneceram inteiros e talvez nunca tenham existido. A prancha nunca saiu da madeira, que nunca deixou de ser árvore e pôde então florescer e frutificar maçãs. Que não sofreram a (injusta?) justaposição da estranha intervenção humana.

Mas também não fui eu com minha impetuosidade, o pulo, o beijo, as pernas na cintura, braços no pescoço no estrangulamento da paixão. Eu fui vontade. E fui escolha. Eu olhos moles, eu transbordada de turbilhonamento e desmesura. E finalmente mulher.

Me veio sujeito histórico, 'inda que beloburguês. Cavalo. Com olhos de me enxergar, palavras, e ouvidos de me querer. Sem retratos-metafísica, idealismos ignorantes. Antes, em movimento-cinema, tudo interligado, em processo, transitando ponte em mim. Me principiando, me sendo e me partindo. E me iniciando. Veio mais que beleza e rumores, noite e azul. Anil lenço de me conter o choro. Grande mão de me limpar os lábios caudalosos.

Sim, evidente, antes de sermos nós, somos um. E não somos fixos, mas movimento de contrárias, fim de um processo e começo de outro, sempre em vias de nos transformar e desenvolver. E somos somas. E somos nós. Dialéticos.
*

segunda-feira, 23 de abril de 2012

amanece que no es poco

viajar con el puntero del ratón sobre su avatar "como una luna en el agua"...

cambie mi nombre a lilia, raísa. algo frío, gris e muy latinoamericano. para pensar en ti cuando el dolor no alcanzar la carne. cuando ya no existen más allá de las etiquetas, diluye el carácter que me hizo y te daré mi nombre, mis confesiones, como si me desmenuza. para acercarse a dios, la sensibilidad más sensible, te doy mis ojos. llame a usted. como la brisa en las hojas. la hermandad de los huesos con la tierra, mientras inventó todo de nuevo, a la satisfacción de nuestros caminos, estos lugares de ensueño y el alba.


*

quarta-feira, 18 de abril de 2012

HGF

A criança esperneia.
E o hospital nao se lhe abre.

Um cérebro entupido de gordura
Não é nada engraçado.

domingo, 15 de abril de 2012

QASAÊD ILA FALASTIN - Poemas para a Palestina


"Aqui sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Famintos
Nus
Provocadores
Declamando poemas
Somos os guardiões da sombra
Das laranjeiras e das oliveiras
Semeamos as idéias como o fermento na massa
Nossos nervos são de gelo
Mas nossos corações vomitam fogo"

- Tawfic Zayyad, Escritos na prisão

Eu estou lá, em ótima companhia! Clique aqui para ler ;-)

domingo, 8 de abril de 2012

ás de copas

um poema pra dentes me atravessa os olhos. podia e queria dizer tudo, mas um poema pra dentes me atravessa a garganta. digo, assim.

sábado, 31 de março de 2012

nouvelle vague, kammerspiel, montagem dialética


videopoema de nina rizzi
película: vivre sa vie, jean-luc godard
música: dancing with myself, nouvelle vague
fotograma: anna karina, vivre sa vie
música final: sous le soleil exactement, composição de serge gainsbourg; interpretação de anna karina
poemas, montagem e edição: nina rizzi
*

sexta-feira, 9 de março de 2012

noturnos: videopoema


[A partir de poemas de Nina Rizzi, o novo filme de Carito Cavalcantii e Joca Soares: NOTURNOS. Direção e fotografia: Carito Cavalcanti e Joca Soares. Roteiro: Carito Cavalcanti. Edição e finalização: Joca Soares. Voz e poemas: Nina Rizzi. Trilha sonora: Paolo Bruno / Sami Tarik Soares e Dudu Campos. Participações: Michelle Régis, Monique Moura, Renata Marques, Civone Medeiros Tassia Consulin, Cibelle Souza & Cia. Shaman Tribal, Adélia Danielli, Joane Luiza. Produção musical da trilha de Paolo Bruno: Vlamir Cruz (Ícone Studio). Apoio: Mudernage. Produção e realização: PRAIEIRA FILMES 2012.]
*

domingo, 26 de fevereiro de 2012

experimento pra burton

1.
nos olhos, apenas furos. cheiros e fedores misturados saiam da ponta dos dedos, dos pés. gostava de ficar numa rua escura, com um bueiro entupido. ou não gostava, que era onde parecia se aderir à paisagem e não lhe riam. não gostava que rissem que era como os palhaços. não gostava desde sempre. e ficava ali, do lado escuro do bueiro entupido pensando na vidinha que levava a gente que descartava a parar no bueiro.

2.
sete limões espremidos e uma espinha de pêra. seus furos esbugalhados saltaram mais. esgalamida. e só olhar lhe matava fome. a mãe gostava de bater frutas com cachaça.

3.
pegou o corpo pequeno e abriu-o. com perícia de médico. mas nada havia além de espuma e o mecanismo enferrujado que um dia a fez funcionar. a boneca era suja como ela. pensou, vazia como ela.

4.
o dia mais feliz - espanto, encontro - foi quando a mulher tinha o vestido o frouxo e sacou agulha e linha. acoxou. os dias que nunca podem existir fora.

5.
delicada, violenta, findava os ossos moles a ouvir e só: que pequito tu tienes.
*

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Balé de dois pra Julya e Huidobro

Aquarela de Nina Rizzi sobre ilustração de Eliége Jachini em Dedo de Moça, uma antologia das escritoras suicidas, 2009.

Julya Rumoreja. Arqueia.

[Huidobro, Inteiro. Invade] 

Aprova. Envia. Aperta. Devora. Bebe. Fuma. Lambe. Grita. Morta.

[Entre tuas pernas]

Sê. Sê. Passando e passando. Manifestes, Ecos, Gruta. Próxima.

[Verbo.]

Sê. Sê. Fogo e fogo. Nom Serviam, Paracaídas, Delícia. Dadá.
*

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

cãnina

Di Cavalcanti (carioca, 1897-1976). O Grande Carnaval, óleo sobre tela, 1953
eu não me lembro das festas carnais. mas tinha aquela vez de dona rita, como todas de cássia, ter quase nove meses completos em meio à greve e nascer uma meninaninaellena. e tenho de primeira lembrança eu menina na avenida levando cascudos na avenida da dona rita como todas de cássia: "samba, menina!". quatro anos, quatro horas da matina e a fantasia da bailarina que nunca fui.

depois só lembro dessas madrugadas em que eu sonho, tu sonhas, ele sonha, nós sonhamos, vós sonhais, eles sonham. de sonhar acordada sem poder apreciar um bom jantar. talvez porquê seja a mulher mais dionisíaca que jamais se conheceu e fique fazendo versos em línguas extintas. versos de se recitar boca-a-boca, "NA BOCA! NA BOCA!", em happening. sim, happhapphapp.

depois não. a febre passa em delírio tardio. o gozo é tão louco e contínuo e profundo, ou sequenciais, leves curtos, sincopados e múltiplos, mas de vindimas tão coloridas que explodo em choro de emoções revolvidas. 

aí eu lembro. lembro que estou sozinha em meio à intervalos e nunca vi um pierrô, arlequina colombina, brasilina, italianina. era um engodo: dissimular uma euforia a despeito de sentí-la deveras. disritmia mesmo. palavra bonita de oscilar estados e extremos. 

mas era bonito também o sonho. nossa, só era. o circo pegando fogo in blue, pululando círculos,abanando o rabo. a ladrar, se aninhar e ganir. cachorro-sem-dono revirando lixo.

nenhum centavo, mas jazz em mim todas as cadelas do mundo. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

YES! We have poesia! Uma Baita Miniantologia

Escrita na Pele das Coisas 
(Novos poetas brasileiros)

A poesia brasileira contemporânea apresenta múltiplas tendências de criação estética, como o minimalismo, voltado ao retrato conciso e fragmentário de paisagens, o neobarroco, que busca imagens e sonoridades raras, a poesia coloquial, que incorpora temas e vocábulos da realidade urbana, a poesia eletrônica, que utiliza os recursos da tecnologia, entre várias outras modalidades criativas (sem nos esquecermos das formas tradicionais que ainda são praticadas hoje, como o haikai, o soneto e o romance de cordel). A Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo apresenta, na edição de fevereiro da Agenda de Programação do CCSP, uma pequena mostra de novos autores brasileiros, representativos do que se faz hoje em nossa cena literária.

Claudio Daniel
Curador de Literatura e Poesia do CCSP

Leia os poemas aqui :-)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

linha da vida

Poemacolagem: composição em vermelho amarelo e azul (de Piet Mondian, 1921), sobre nu azul (de Henri Matisse, 1952).

uma linha
é o que separa
tua alma da minha

ninar.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

sonatina cearense, 3

Gravura de Oswaldo Goeldi (1895-1961). O abandono.

deixa de história, rapá.
repetia, repetia, repetia.

não ouvia. 

que tinha os olhos impregnados
nas flores brancas de mombaça.
*

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

fragmento, 5

Fotograma-colagem de Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain/ O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (França, 2001), de Jean-Pierre Jeunet.

então o poema começava com a moça dizendo que a verdade absoluta é a monogamia. não a contratual, mas àquela excitante. depois dançava. existia uma disputa, o branquelo e o negro, morador de rua. 

a música dizia que nasci em outro planeta, que não posso mesmo ser daqui. eu não atravesso a rua quando vejo marginais ou marginalizados... eu rio de mim mesma e choro sentada de cócoras na privada. eu tomo pelo menos quatro banhos por dia e adoro meu pixaim. eu me preocupo todas as noites, quando me deito, com as andanças e a pedagogia do dia seguinte e eu não sou conteudista. eu não quero ter um mp3, mas adoraria ter pelo menos um radinho a pilha pra ouvir os meus chorinhos e clássicos. gasto a maior parte dos meus 650,00 em lãrouses digitando textos... eu ando, eu quero ter uma bicicleta e não um carro. não me importo de dormir sob uma lona preta e de comer spaghetti sem sal com as mãos... eu te escrevo e sinto vontade de rir, chorar, dançar... o meu planeta devia ser feito de vento e água e era uma ciranda de girassóis...

não importa. eu li uma carta pela manhã e não respondi. "pelo bem ou pelo mal": às vezes me falta a palavra e fico pensando o tempo todo, inclusive enquanto falo do tardio processo de ocupação do ceará e lembro que daqui todo mundo fugia pro forte dos reis magos. bem, eu sou uma puta resoluta e não me deito com ninguém. mas te cheiro o cangote e assopro até me faltar o pouco ar. te beijo esse cangote.

perguntas retóricas: está em surto? estávamos flertando? bobeira! a única expectativa que nutro é receber os tais livros pra me deleitar com poesia. claro que dentro dessas expectativas você me entrega o livro em mãos. ora, o que pode haver de diabólico nisso? o meu olhar doce? vai me privar da sua entrega num dia desses de verão? ôxe, o meu sexo é renascentista e essas vênus renascentistas são todas pudicas! não obstante, não precisava mais que o olhar (precisava, não precisava, bastava, não bastava). eu gosto que me olhem. não como voyer, mas aquele olhar dos doidos quando em ternura. é bonito, como dizer o nome de seu interlocutor.não é flerte, ousadia: é poesia e eu sou movida a poesia.

bem, contrariando todas as expectativas o meu companheiro resolveu deixar de lado o gêlo homérico com acento circunflexo: me escreveu a carta com mais de uma linha pedindo desculpas, mas nada mais que isso e se pergunto o porquê há uma desconversação. as super-esquisitices. talvez isso me atraia, esse nem caga nem sai da moita, ou como se diz, o areamento.

te amo como as auroras selvagens. meu platão, querido, sim. e aqui então já te posso chamar meu pois não sendo aristotélico...

o tempo todo, o tempo todo ficam dançando na minha cabeça imagens, telas, filmes, poesias, textos... o que já vi, li, e os que fico criando. e quando li na carta penúltima "não há expectativas" o que me veio em mente foi justamente o poema de yeats em "nunca te vi, sempre te amei"... então te lembro ou te faço um poemeto nada indecente e bem cavernoso:

um dia, quebro a caverna
junto os tijolos
e te construo

há um consolo: "talvez" nunca nos vejamos. e penso na canção "não diga nunca ou talvez, que machuca o coração"... ainda àquela outra "não dizes não, dizes sim, o não envenena a gente. dizes sim, 'inda que mintas, mintas, mintas". mas neste caso o talvez me mantém na caverna. sigo oníricos idílios.

mundos diferentes. você fala de classe? tempos diferentes... é, minha mãe me deu um presente uma vez. foi uma única vez, então esse dia nunca me sai da memória (como quase nenhum, eu tenho excelente memória). era meu aniversário de 6 anos, morávamos em brasília na época e ela perguntou o que eu queria: um lp. ela me deu  dinheiro do lp, do ônibus e me mandou ir buscar, me ensinando como chegar lá. penso que era um teste, me jogar nos abismos da liberdade. o fato é que logo voltei com o lp nas mãos: dorival caymmi. ela disse eu devia ser mãe dela. e não só por isso e nada não, mas ó: bem que podia. continuo um chamariz de antiguidades.

ontem eu resolvi ligar pra, aliás. havíamos nos falado há umas duas semanas, naquela cata estúpida com um simples me desculpe. e pagando o pior papel possível, feito as esposas insuportáveis que ficam cobrando e cobrando uma posição, claro, não posso ficar empacada por mais que ame os cavalos. aí resolvi ligar ontem... falamos bastante e parecia estar "normal" de novo.. quer dizer, não houve securas e grosserias e novamente me senti como audrey hepburn, happy in burn. disse: quer ouvir uma coisa? - eu te amo... poxa, claro que eu queria ouvir isso, eu tenho apenas 22 anos, e não preciso me sentir desejada (preciso sim) eu preciso me sentir amada!... então fiquei pensando no que estalou de volta à realidade, se eu posso ser uma realidade. lembrei que quando sai da ladeira disse que tem péssima memória, que eu ia virar nuvem em sua cabeça, ou algo assim. acho que foi isso, a distância física acaba por se tornar emocional. mas pra mim a distância física não se torna emocional, não como regra, mas como excessão. eu sou uma menina platonicamente neurótica. eu crio mundos em minha cabecinha, realidades bem mais praticáveis que a "realidade". na verdade, acho que a convivência é que desgosta. não é fácil suportar as mundanalidades dos outros, e essa é primeira vez que moro sozinha. na universidade morava com 96 pessoas. já morei com amigos, amigas, como casal com duas moças diferentes e em tempos diferentes, com duas moças ao mesmo tempo... a gente aprende tanto com o outro, né. e vendo o outro percebo-o: a convivência os desgosta...

vou pra uma cidade onde encontre a santa constanza. constância não existe. lá foi um aldeamento jesuíta. colocavam lá os índios amansados pra os ajudar a combater os selvagens, esses daqui eram bastante hostis, antropófagos. e em seu lugar também preferiria a um amansado.

sigo percorrendo a terra molhada que é o seu corpo. sigo amando assim selvagem e inocente. podemos fazer um filme? a carta podia ser o prelúdio. eu te beijava os olhos, a boca.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

sonatina cearense, 2

Fotografia sem título de Federico Erra.

dente-de-leão. uma frô que dá muito em mombaça, sertão central cearense. mas não importa a cor, o nome, as reticências. importa que não soubesse que já estampei, em partes, assim: [...] a beleza de sua namoradinha - sua constância, me assusta. apavora. importa os olhos lacrimejantes da senhora mombaça sob a lona preta. escravidão e cegueira.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

primeira narrativa, sexta

Ilustração de Di Cavalcanti (Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, carioca, 1897-1976) para O Bébé de Tarlatana Rosa, de João do Rio. Editora Brasileira Lux, 1951.

depois de ouvir atentamente a divina comédia humana, a palhaça de vinil sentou-se à frente do jurista de seminário e lhe disse:

- você me dá cócegas!

e riu, riu, riu. até revirar o bucho. e ficar o papagaio mudo.
*