domingo, 10 de junho de 2012

ZONA PROIBIDA DO SER


“Esse est percipi” - Berkeley

Um punhado de extratos pra se comer das mãos

- Olha, minha vida bela como coisa acumulada!
- Olha, minhas palavras forjadas por bem menos que a carpintaria!

... Eu existo.

Mas basta um espelho para escarnecer o mundo-dentro.
Pequeno-mundo, a verdade se deita ao monstro do nada.

Debaixo do nome
A jaula e o silêncio.

terça-feira, 22 de maio de 2012

AS IGREJAS DE LÁ SÃO AS MESMAS QUE AS DE CÁ


Remember us - if at all - not as lost/ Violent souls, but only/ As the hollow men/ The stuffed men.
- T.S. Eliot

Nadam sobre a superfície
Dos rios de nata-merda
Os Homens Cheios-de-Razão

Com a fluidez de um pântano
Apregoam-me Escolas, Suas pencas
De Escrituras Sagradas
Ó Verdade Absoluta oferecida
Às penas de não-leitores

Ó Abóbadas Celestes
Celeste é a minha Aurora
De páginas e páginas queimadas
Inúteis Achados
O mundo é uma Invenção

Aurora da minha vida
Contra a incitação ao picareticídio
Por que também não me torrou a chão?

segunda-feira, 21 de maio de 2012

ESCRITA AOS ÍMPARES


Se vocês querem ser mais livres do que quanto existiu até agora,
venham ouvir-me
- Walt Whitman]

Desce. Desce mais ainda.

Aqui ou em Tsárskoie Seló ou East Coker
É sempre escuro depois da zero hora
Escuridão de chão e muros e pedras.
(Não conhece ainda a escuridão das águas e o vento
E nunca existe o Bom-Selvagem se um dia pisou e viu
O chão, muros e pedras)

Desce. Desce mais ainda.

O frio já invém e cada pedaço de lugar
É comido pelo tempo, triste lugar.
Pedra ontem, pedra hoje e nunca
A mesma diante do olhar variegado e tua descida.

Desce. Desce mais ainda.

Que importa se o agasalho mal te cobre
E todo olhar variegado é igual?
Passam os seres com suas desumanidades e doenças
Tantas, como as tuas. O normal é que os desaproxima
E faz bochicho, chacota, ou nem isso e nem nada
Como a lua nova na calada madrugada

Desce. Desce mais ainda.

Até que não haja um só dente na escuridão.
Reles, vil, faz-te de cada cimento e aço
Dos lugares que não o-são
Transubstancia-te de tudo o que fizeram
A Grande Civilização e Cultura, te alastra
De todo o Tempo e a palavra
Costume, hoje é mais um dia.

Desce. Desce mais ainda.

Ácido, pérfido, até que descalce
Todo milagre – o falar, o ranger dos ossos
Qualquer lágrima como lâmina fria
O calor de uma e outra mão.

Desce. Desce mais ainda.

Conversa com a Treva, os desclassificados das calçadas
Aquele que agoniza numa casa em chamas, Escória e Só.
Conte aos amontoados de pele e ossos
E a carne-necrose dos segredos menores -
O ínfimo, o invisível, esses séculos de História, Pó.

Desce. Desce mais ainda.

Com a lata, as cinzas, o isqueiro e a colher
Os lábios queimados e o sangue exposto
Sê mínimo, agudo, cidade-baixa.

Então te levanta.

É Gente.
De frio e escuro e solidão.
Pode ser Grande?

terça-feira, 15 de maio de 2012

concerto matinal pós-soviético

aurora

nenhum julgamento em maio
toca a pianola boilesen

eles são os outros, ó henning
executa no silêncio das línguas seu concerto
de bom dia - ó, gases! anima-te, ama-te ao meio!

toda a verdade tingida num só corpo nevá-realista

cruzador, proletariusze! 
anacrônica, atraente, a liberdade é uma agonística

a sibéria nunca existiu, novokuznetsk não existe
corre em tuas veias a pátria-colônia de pestes
sangre vermelho é o canal do mar branco

ó, yezhov! nunca ouviram a gulag song.

domingo, 6 de maio de 2012

ABSOLUTO, 2


Embora a razão seja comum a todos, cada
um procede como se tivesse um pensamento próprio.
[...] O caminho que sobe e o caminho que desce
 são o único e o mesmo. - Herakleitos


Nada sei do absoluto. Quase.

Um ponto entre a mobilidade e o silêncio em toda carne, nem só carne. Sei que o absoluto é um deus que me escuta e enxerga. O passado me repele em saltos ao desconhecido.

Sei também das noites em que repousava lentamente, e apertava com força descomunal, uma mão na outra. Movimento encarnado, encontro do que não poderia ter sido e foi. A existência reconciliada. Perpétua possibilidade.  Estender-se, ser-se.

 Invita-me palavras desusadas – amiúde, derna muito – como um lugar criado na linguagem, um lugar metafísico em que possa caminhar sem que seja estrangeira, como tudo. Exatamente livre. Ecos epifânicos, partícipe de sua Bondade e o indelével, o inefável.

Sinto. O silêncio que flui sobre nós, como o mormaço sobre o oásis, o orvalho sobre a terra. Como coisa profética, como toda calma para o transe, saliva sobre a ferida.

Sei que o busco, em vigília, com tudo - imersa de agoras e o tempo-quando. Sei que o absoluto é um caminho, e que sou a sua morada.
*

sexta-feira, 4 de maio de 2012

rapsodia, quasi una fantasia



"óperas silenciosas, tímpanos estilhaçados" - jota mombaça


prelúdio pra rapsódia

saudades eu tenho de um qualquer que me habitasse;
de toda terra ou pedra, terrivelmente linda, real, dorida.

saudades dessas que me ficam assim, solidão mais fora que dentro;
dos mitos que ficam existindo dentro de mim.



1º movimento, l'istesso tempo

era o aniversário dela, a moça que já foi de bienal. depois ela quis ser travesti, eu não me espantei, comi chantilly sem leite em sua homenagem, com mostarda, pimenta e um pouco de sangue que consegui espetando os joelhos com o garfo. eu lembrei do dia de seu trigésimo aniversário, as flores amarelas e o poema de dylan thomas. comi as flores porque ela não é bondosa, nem deveria. é um modo de celebrar as idas ânsias, hoje um peso morto como aquele partido conservador português. ela não respondeu, comi as últimas pétalas com esse pensamento, quanto bem-me-quer cabe em mal-me-quer, o quanto me havia de impraticável. 

eu não pensava em nada disso. eu era assistente social tecnicista e utilitarista. aí que eu encontrei o 'take the power back' e fiquei com pena de ter aprendido algum inglês como laugh and laughing e essa cultura dominante nessas outras coisas que missy elliot não dizia com o settle for nothing. é bonito o som dessas palavras pra muito além de concretismo, mas só isso. nem era meu aniversário, porque eu não posso aniversariar de mês em mês, apesar de ver àquela, ó presente, de ano em ano. mas eu não posso aniversariar todo mês ou toda semana, mesmo com esses presentes que chegam na caixa. eu tenho alguém que me presenteia, nos esbofeteamos quase toda manhã como um jeito de buscar a mágoa em lugar de nuvens, como a vida deve ser ou não, aqui é que é assim viver a vida.

e tem ainda 'killing in the name', não importa o resto, só isso, o 'killing in the name'. a indicação de alguém que já me admirou - não hoje, não depois de eu beijar uma mulher quando todos os homens me disputavam e se ofereciam e eu só pensava e bebia o homem que não estava com a salsinha ou talvez fosse coentro, o coentro que em suas mãos pra minha boca, só assim das suas mãos pra minha boca é que podia ser bom e é maravilhoso, foi -. sim, não depois de eu beijar a mulher quando era o homem distante e aquele ali que já me admirou sabia. sabia e me chamou de falsa. fake, na verdade, que é como ele tem sido depois de ter descoberto em sua poesia - aquela poesia precisa, articulada, que não se desperdiça e é indispensável -, ter descoberto que a poesia flui e é fluída, sincopada como seus rios ao gosto de ungaretti. a indicação desse homem fez o outro escrever, depois de lembrar de outro dizer, sóis, tanta gente diz e eu repito: nome é destino.

tudo era poema, não isso. era o aniversário da mulher que comi as flores e as flores e o seu nome.


2º movimento, adágio com esprezione

era preciso dizer, quase como um rito, como uma premonição de catástrofe, todo o tempo quase e o tempo quando. ainda com a  insegurança da repetição. eu queria gritar sim, porque não? com aquela vozinha da joanna ou da rachael que me tocam tanto, tanto. vê, as repetições, são próprias do meu discurso que preciso todo o tempo lhe dizer. assim como não sei conjugar os verbos, é e não era. e não é que você não saiba, mas é que além do tempo é agora. a colher que estala a farinha d'água alheia ao meu não gostá-la. e eu gosto quando minha gata mais arisca se derrama em minhas folhas. grávida, se contorce e amontoa, ronrona. o homem me disse que gostoso só pode ser comida ou sexo, porque eu dizia que era gostoso o alto-mar e a gata. talvez ele não fosse mergulhador e uma pessoa que não gosta de gatos não entende nada de sensibilidade e gostar. e é gostoso quando chega a outra gata e massageia minha cintura e sexo com as unhas. a vida eterna, amor, disse ele. e lembrei dessa que era a boa vida. a ala das baianas amarelas. as flores amarelas não restituem teus lábios. é uma fera selvagem e eu nunca os vi, mas encontrei no lixo uma mala cor-de-rosa-choque pra carregar toda disritmia. e o homem, sim, você é o homem, nunca mais me escreveu uma linha. uma linha era o que separava minha alma da tua. te viram numa livraria acompanhado de uma mulher, poeta. eu não lembro quando fui mulher e tenho medo de esquecer teus olhos. a mulher era amarela como teus olhos hepáticos. só um girassol ou o miolo das margaridas podem ser verdadeiramente amarelos, belos. e as baianas de todos os santos. um riso puro e solto a contaminar cada um dos dentes até os olhos e garfos e então tudo ser uma só gargalhada. era boa a vida, uma pequena morte todo dia. e você não veio buscar meu fígado ensanguentado. ao invés de te esquecer, lambo do choro às feridas, mostro a faixa litorânea e rio ao homem que diz me querer. ele é amarelo como meu riso. mas aí eu fiquei ríspida, dizia o homem que era você quando eu parecia te amolar, faca de dois gumes. era preciso dizer que te amo, todo tempo. é preciso dizer, você sabe, mas te amo é preciso dizer, que além do tempo é agora. gostoso é o que gosto, araim.


3º movimento: andante

então descruzou as pernas e recostou-se na cadeira. ficou ali mirando as pessoas como se lhes lesse, daquele jeito em que olhar atravessa as gentes sem ver. um minuto ou outro vinha a imagem de dois dedos displicentes a brincar com um lóbulo de orelha ou um lábio superior. a dorzinha do tédio que lhe pressionava a testa em pouco passava, estaria sentada na padaria e chegaria àquela das práticas assustadoras, assim lhe parecia. coisa com coisa era a lembrança dessa; o dia em que a mãe lhe deu um vestido branco e longo como tapa na cara; quando o pai bêbado bulinou suas cobertas; as cobertas e o sujeito a morder os ombros da moça. ah, lamber a mulher e morder até que seu corpo seja uma mancha no seu. a mulher, esparramar-se a mancha. a moça sem mancada a relerrelerrelerreler os diálogos de duras pra hiroshima, mon amour. sem mancada com sua sabinada e aquela mulher ancestral, a mulher ancestral e o tempo em que fazia poesia. agora não, perde os olhos como quem pega piaba. talvez os peixes morram gozando e isso explicava seus olhos. os olhos da moça atravessando as gentes no nada. fica assim amando as coisas que insistentemente existem à sua volta como a virgem maria e, ai, essa virgindade. ali amando o tempo em que só podia amar o etéreo e irrealizável. aqui ardendo pelo em pouco, um enfim, efêmero, fractal e palpável arder, arder, arder. una pequeña viajera.


4º movimento, allegro vivace

parece até uma sessão masoquista, eu aqui sentada nesse banco imundo de rodoviária, as pessoas chegando pros encontros com risos e vindimas e esse calor infernal e tantos letreiros que me dizem tanto de nós. devia ser lindo a gente a se enroscar num canto de nome olhos d'água. ou talvez esse seja o meu lugar e não o nosso, ou só teus olhos d'água.

caridade, motorista? não, as estradas é que deviam me ter caridade. eu aqui, impregnada de tudo que te é (não motorista, já não te falo, não é você que vejo, que não me leva daqui), esses livros e essas cartas e poemas impublicáveis que imprimi na memória e na língua e que me dói a cabeça. esses teus radicalismos que carrego na bolsa pra distribuir nos assentamentos.

um mundinho tão casca de nós e a gente não ter se esbarrado de novo, nesses letreiros e bancos imundos e em meus poemas pra dentes, ó, absurdidade. fazemos inveja aos pregões novaiorquinos. é isso, muita especulação, investimentos de risco e a gente nem gosta de apostas e roletas, só dos russos que dizem desse frio que nos encharca.

ah, menino, me viciei tão baixinho em teus hábitos estúpidos, em teus lábios sujos de me falar e ter e me amarrar e rasgar cada pedacinho e comer em autotrofagia que me pergunto cadê os poemas que te enviei? por que não podia simplesmente devolver cada um dos pelos e pentelhos que te entreguei em histeria? é muito calor, é muito calor e eu tiro os cabelos que me tapam os olhos e me engasgam e a minha cabeça continua a doer. pra onde será que esses ônibus vão se não me levam? de onde vem tanta gente? o nordeste inteiro e a gente nem sol.

você gostava tanto das minhas sandálias de cangaceiro, a gente fazendo moda de sertão alegre e pirilampo e aquelas frutas lindas, com uns nomes de se abocanhar em pelo. pelo apelido, mas era o nome real que me pegava o gosto, mas que agora não lembro de tanto que me dói a cabeça de tanto te lembrar esses pelos que isaías falava que de tão escarlate o pecado, derretia branquinho como a neve. três quilômetros morro abaixo a centetrinta por hora, em menos de um minuto se chegava ao destino e nós nem esqui. sputinik, bolchevique, tecnicolor e eu e você nem lua. minhas pupilas dilatadas e quem sabe também as tuas.

o sujeito da princesa dos inhamuns veio lá de seu guichê à minha plataforma e fica aqui me cortejando e me olhando e me querendo ler tudo e você precisa fazer um transplante e esse meu rim desgraçado tinha que doer justo agora? e essas biomédicas apolíneas e meigas maledetas que não me aceitam a carne mijada. os ônibus lotados, o asfalto derretendo, o pneu furado, o motor arreado, a porra hipócrita da família pequeno-burguesa e feliz, tudo isso no meio do nosso encontro, liquefazendo o rim que devo te entregar, mas que não consigo, não consigo e não me depilo que teus pelos vieram assim, meio que por acaso dentro daquele livro roubado de supermercado e desde então quantas mil vezes minha compulsão me levou a te reler PALAVRA, LETRA escArlate e RaINHA no tabuleiro. você já comeu biscoitos de farinha d'água? é a falácia dos pães-de-queijo que vem sem beijo. quantas bonecas de mestre vitalino, quantas jangadas e eu e tu e eles nem aurora, sei que vou morrer não sei o dia e talvez você nem saberá que os sete orelhões são da rua que não ladrilhei, meu amor, e posso findar qual anunciação do apocalipse se não te entrego esse rim.

por que esse cara insiste tanto que eu lhe compre os óculos e relógios? é assim tão óbvio que meus olhos d'água precisam secar, isso dói mais em mim que nele, pode acreditar e que esse meu rim tá atrasado até ele já sabe que tá escorrendo sangue pelas minhas mãos calejadas de esperar a safra do algodão doce, mas isso não ajuda, não ajuda, assim como não ajuda esse cartão de sorrento que tenho na carteira vazia. claro que na itália fazem docinhos deliciosos de frutas azedas e ESPINHENTAS! sim, feito pequi com arroz, com frango não que detesto frango, digo, sou sensível demais pra detestá-los e não posso comê-los a não ser que te entregasse meu rim a tempo e pudéssemos fazer um charque de galinha, um steak até, nem que fosse lá, naquela minha esquina vizinha, a que me fugiu com a família feliz e netos e onde sua pele brilhava como a de um escravo à venda no mercado de olinda e seu nariz anguloso e eu lá nu em vermelho modinha gli ochi per te. você devia ter me escutado contr'alto:

volevo dirti solo che
sei sempre tu la mia allegria
che quando parli insieme a lei
diventa folle gelosia
per tutto quello che mi dai
anche quando non lo sai
questo io volevo dire a te

di come quando non ci sai
io mi perdo sempre un po'
poi mi accorgo che non so
più divertirmi senza te
invece quando stai con me
anche il grigio intorno a noi
i colora della vita che gli dai

com'è difficile dire tutto questo a te
che d'amore non parli mai
non ne parli mai con me...
hai paura come me...

os ônibus não vêm do carnaval, do natal e eu viro duna, maresia, ruína, olhos d'água. faço cantilhenas, grito e choro e esperneio que nem uma criança cricrinclame com toda força e as estradas interditadas e esse rim em minhas mãos de concha virando ostra. porra... eu encaro o sol. encaro sim. recoloco as pernas que te dei naquela feita gloriosa e vou. cuspo e vou a nado se preciso, é preciso! voltando de canindé via tabapuá é calor eu sei, mas é preciso sonhar sabendo a hora de partir. não tenho cavalo, nem burro brabo ou pau de sebo, mas a princesa dos inhamuns vem, tem que vir, tem que vir e aí sim: rícino, rim, rir, ô sertão sanguidolente.
*

quinta-feira, 3 de maio de 2012

PORANDUBA DIALÉTICA


Duy Huynh (vietnamita, contemporâneo). The Converge On The Branch Of Second Chances. Acrylic on wood, 32"x32", sold, 2011

“A conciliação dos contrários nas coisas e no espírito” - Georg W. F. Hegel

"Quando submetemos ao exame do pensamento a natureza ou a história da humanidade, ou a nossa própria atividade mental, o que se nos oferece, em primeiro lugar, é o quadro de uma confusão infinita de relações, de ações e reações, onde nada permanece o que era, onde era, como era, onde tudo se move, se transforma, vem a ser e passa."
- In: Friedrich Engels, no clássico panfleto O Sr. Eugen Dühring perturba a ciência - Anti-Dühring -, em que faz, pela primeira vez, uma exposição completa do materialismo dialético.

Primeiro, eu achei que me viria com flores. Talvez margaridas, que me cheira alegre e de redundâncias de caiofa. Podia até ver, como em retratos, de miolos amarelos, redondos, largos, de telas pontilistas. E pétalas alongadas, gordas ao centro e se afunilando em alvidez pra fora.

Depois, pensei em maçãs. Que talvez me cresse professorinha Ellena. De alunos dos morros, descalços, das terras ocupadas. Sem maçãs. E gosta de maçãs. Que são práticas e não precisam descascar, só comer. E pude as sentir o gosto. Não àquelas arenosas argentinas, mas as fuji que não são asiáticas. Que estalam às minhas mordidas cavalares e sangram doce. Me saltavam suas formas quase redondas, não fossem mais que terra; quase tão vermelhas, não fossem mais que pêra.

Por fim, pensei nos lápis. Que, miserável, mais que por condição, só escrevo em papel. Que a maresia dos meus dias acabam com minhas canetas em menos de uma semana, mais tempo que meus papéis. Lápis quadrados. Que pressentia minhas suadas mãos e as fatais escorregadas. 5b, que, então, seria estímulo a mais pra superar tamanha frustração por não pintar.

Mas não vieram as margaridas, que giro sóis que sabe melancolia, apesar de toda extroversão. Que não arrancaria da boa terra a flor só pra me alegrar, escravo da luxúria.

E não vieram as maçãs. Elas prosseguiram sem qualquer mudança mecânica. Continuaram maçãs sem um dia terem sido e tendo deixado de ser. Eram maçãs verdes que se tornaram maduras porque deviam amadurecer, que antes mesmo de estarem maduras, eram maçãs e deviam amadurecer autodinâmicas. E antes foram flores, e antes botões e macieiras na primavera. E caíram, rolaram, apodreceram, se decompuseram liberando sementes que, se tudo seguiu bem - conforme as condições do clima, do solo, a ação recíproca que encadeia os processos - rebentos, depois árvores.

Não, tampouco os lápis vieram. E nem sei desenhar mesmo e as letras desaparecem peremptórias. Os lápis não foram afiados, permaneceram inteiros e talvez nunca tenham existido. A prancha nunca saiu da madeira, que nunca deixou de ser árvore e pôde então florescer e frutificar maçãs. Que não sofreram a (injusta?) justaposição da estranha intervenção humana.

Mas também não fui eu com minha impetuosidade, o pulo, o beijo, as pernas na cintura, braços no pescoço no estrangulamento da paixão. Eu fui vontade. E fui escolha. Eu olhos moles, eu transbordada de turbilhonamento e desmesura. E finalmente mulher.

Me veio sujeito histórico, 'inda que beloburguês. Cavalo. Com olhos de me enxergar, palavras, e ouvidos de me querer. Sem retratos-metafísica, idealismos ignorantes. Antes, em movimento-cinema, tudo interligado, em processo, transitando ponte em mim. Me principiando, me sendo e me partindo. E me iniciando. Veio mais que beleza e rumores, noite e azul. Anil lenço de me conter o choro. Grande mão de me limpar os lábios caudalosos.

Sim, evidente, antes de sermos nós, somos um. E não somos fixos, mas movimento de contrárias, fim de um processo e começo de outro, sempre em vias de nos transformar e desenvolver. E somos somas. E somos nós. Dialéticos.
*

segunda-feira, 23 de abril de 2012

amanece que no es poco

viajar con el puntero del ratón sobre su avatar "como una luna en el agua"...

cambie mi nombre a lilia, raísa. algo frío, gris e muy latinoamericano. para pensar en ti cuando el dolor no alcanzar la carne. cuando ya no existen más allá de las etiquetas, diluye el carácter que me hizo y te daré mi nombre, mis confesiones, como si me desmenuza. para acercarse a dios, la sensibilidad más sensible, te doy mis ojos. llame a usted. como la brisa en las hojas. la hermandad de los huesos con la tierra, mientras inventó todo de nuevo, a la satisfacción de nuestros caminos, estos lugares de ensueño y el alba.


*

quarta-feira, 18 de abril de 2012

HGF

A criança esperneia.
E o hospital nao se lhe abre.

Um cérebro entupido de gordura
Não é nada engraçado.

domingo, 15 de abril de 2012

QASAÊD ILA FALASTIN - Poemas para a Palestina


"Aqui sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Famintos
Nus
Provocadores
Declamando poemas
Somos os guardiões da sombra
Das laranjeiras e das oliveiras
Semeamos as idéias como o fermento na massa
Nossos nervos são de gelo
Mas nossos corações vomitam fogo"

- Tawfic Zayyad, Escritos na prisão

Eu estou lá, em ótima companhia! Clique aqui para ler ;-)

domingo, 8 de abril de 2012

ás de copas

um poema pra dentes me atravessa os olhos. podia e queria dizer tudo, mas um poema pra dentes me atravessa a garganta. digo, assim.

sábado, 31 de março de 2012

nouvelle vague, kammerspiel, montagem dialética


videopoema de nina rizzi
película: vivre sa vie, jean-luc godard
música: dancing with myself, nouvelle vague
fotograma: anna karina, vivre sa vie
música final: sous le soleil exactement, composição de serge gainsbourg; interpretação de anna karina
poemas, montagem e edição: nina rizzi
*

sexta-feira, 9 de março de 2012

noturnos: videopoema


[A partir de poemas de Nina Rizzi, o novo filme de Carito Cavalcantii e Joca Soares: NOTURNOS. Direção e fotografia: Carito Cavalcanti e Joca Soares. Roteiro: Carito Cavalcanti. Edição e finalização: Joca Soares. Voz e poemas: Nina Rizzi. Trilha sonora: Paolo Bruno / Sami Tarik Soares e Dudu Campos. Participações: Michelle Régis, Monique Moura, Renata Marques, Civone Medeiros Tassia Consulin, Cibelle Souza & Cia. Shaman Tribal, Adélia Danielli, Joane Luiza. Produção musical da trilha de Paolo Bruno: Vlamir Cruz (Ícone Studio). Apoio: Mudernage. Produção e realização: PRAIEIRA FILMES 2012.]
*

domingo, 26 de fevereiro de 2012

experimento pra burton

1.
nos olhos, apenas furos. cheiros e fedores misturados saiam da ponta dos dedos, dos pés. gostava de ficar numa rua escura, com um bueiro entupido. ou não gostava, que era onde parecia se aderir à paisagem e não lhe riam. não gostava que rissem que era como os palhaços. não gostava desde sempre. e ficava ali, do lado escuro do bueiro entupido pensando na vidinha que levava a gente que descartava a parar no bueiro.

2.
sete limões espremidos e uma espinha de pêra. seus furos esbugalhados saltaram mais. esgalamida. e só olhar lhe matava fome. a mãe gostava de bater frutas com cachaça.

3.
pegou o corpo pequeno e abriu-o. com perícia de médico. mas nada havia além de espuma e o mecanismo enferrujado que um dia a fez funcionar. a boneca era suja como ela. pensou, vazia como ela.

4.
o dia mais feliz - espanto, encontro - foi quando a mulher tinha o vestido o frouxo e sacou agulha e linha. acoxou. os dias que nunca podem existir fora.

5.
delicada, violenta, findava os ossos moles a ouvir e só: que pequito tu tienes.
*

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Balé de dois pra Julya e Huidobro

Aquarela de Nina Rizzi sobre ilustração de Eliége Jachini em Dedo de Moça, uma antologia das escritoras suicidas, 2009.

Julya Rumoreja. Arqueia.

[Huidobro, Inteiro. Invade] 

Aprova. Envia. Aperta. Devora. Bebe. Fuma. Lambe. Grita. Morta.

[Entre tuas pernas]

Sê. Sê. Passando e passando. Manifestes, Ecos, Gruta. Próxima.

[Verbo.]

Sê. Sê. Fogo e fogo. Nom Serviam, Paracaídas, Delícia. Dadá.
*

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

cãnina

Di Cavalcanti (carioca, 1897-1976). O Grande Carnaval, óleo sobre tela, 1953
eu não me lembro das festas carnais. mas tinha aquela vez de dona rita, como todas de cássia, ter quase nove meses completos em meio à greve e nascer uma meninaninaellena. e tenho de primeira lembrança eu menina na avenida levando cascudos na avenida da dona rita como todas de cássia: "samba, menina!". quatro anos, quatro horas da matina e a fantasia da bailarina que nunca fui.

depois só lembro dessas madrugadas em que eu sonho, tu sonhas, ele sonha, nós sonhamos, vós sonhais, eles sonham. de sonhar acordada sem poder apreciar um bom jantar. talvez porquê seja a mulher mais dionisíaca que jamais se conheceu e fique fazendo versos em línguas extintas. versos de se recitar boca-a-boca, "NA BOCA! NA BOCA!", em happening. sim, happhapphapp.

depois não. a febre passa em delírio tardio. o gozo é tão louco e contínuo e profundo, ou sequenciais, leves curtos, sincopados e múltiplos, mas de vindimas tão coloridas que explodo em choro de emoções revolvidas. 

aí eu lembro. lembro que estou sozinha em meio à intervalos e nunca vi um pierrô, arlequina colombina, brasilina, italianina. era um engodo: dissimular uma euforia a despeito de sentí-la deveras. disritmia mesmo. palavra bonita de oscilar estados e extremos. 

mas era bonito também o sonho. nossa, só era. o circo pegando fogo in blue, pululando círculos,abanando o rabo. a ladrar, se aninhar e ganir. cachorro-sem-dono revirando lixo.

nenhum centavo, mas jazz em mim todas as cadelas do mundo. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

YES! We have poesia! Uma Baita Miniantologia

Escrita na Pele das Coisas 
(Novos poetas brasileiros)

A poesia brasileira contemporânea apresenta múltiplas tendências de criação estética, como o minimalismo, voltado ao retrato conciso e fragmentário de paisagens, o neobarroco, que busca imagens e sonoridades raras, a poesia coloquial, que incorpora temas e vocábulos da realidade urbana, a poesia eletrônica, que utiliza os recursos da tecnologia, entre várias outras modalidades criativas (sem nos esquecermos das formas tradicionais que ainda são praticadas hoje, como o haikai, o soneto e o romance de cordel). A Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo apresenta, na edição de fevereiro da Agenda de Programação do CCSP, uma pequena mostra de novos autores brasileiros, representativos do que se faz hoje em nossa cena literária.

Claudio Daniel
Curador de Literatura e Poesia do CCSP

Leia os poemas aqui :-)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

linha da vida

Poemacolagem: composição em vermelho amarelo e azul (de Piet Mondian, 1921), sobre nu azul (de Henri Matisse, 1952).

uma linha
é o que separa
tua alma da minha

ninar.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

sonatina cearense, 3

Gravura de Oswaldo Goeldi (1895-1961). O abandono.

deixa de história, rapá.
repetia, repetia, repetia.

não ouvia. 

que tinha os olhos impregnados
nas flores brancas de mombaça.
*

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

fragmento, 5

Fotograma-colagem de Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain/ O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (França, 2001), de Jean-Pierre Jeunet.

então o poema começava com a moça dizendo que a verdade absoluta é a monogamia. não a contratual, mas àquela excitante. depois dançava. existia uma disputa, o branquelo e o negro, morador de rua. 

a música dizia que nasci em outro planeta, que não posso mesmo ser daqui. eu não atravesso a rua quando vejo marginais ou marginalizados... eu rio de mim mesma e choro sentada de cócoras na privada. eu tomo pelo menos quatro banhos por dia e adoro meu pixaim. eu me preocupo todas as noites, quando me deito, com as andanças e a pedagogia do dia seguinte e eu não sou conteudista. eu não quero ter um mp3, mas adoraria ter pelo menos um radinho a pilha pra ouvir os meus chorinhos e clássicos. gasto a maior parte dos meus 650,00 em lãrouses digitando textos... eu ando, eu quero ter uma bicicleta e não um carro. não me importo de dormir sob uma lona preta e de comer spaghetti sem sal com as mãos... eu te escrevo e sinto vontade de rir, chorar, dançar... o meu planeta devia ser feito de vento e água e era uma ciranda de girassóis...

não importa. eu li uma carta pela manhã e não respondi. "pelo bem ou pelo mal": às vezes me falta a palavra e fico pensando o tempo todo, inclusive enquanto falo do tardio processo de ocupação do ceará e lembro que daqui todo mundo fugia pro forte dos reis magos. bem, eu sou uma puta resoluta e não me deito com ninguém. mas te cheiro o cangote e assopro até me faltar o pouco ar. te beijo esse cangote.

perguntas retóricas: está em surto? estávamos flertando? bobeira! a única expectativa que nutro é receber os tais livros pra me deleitar com poesia. claro que dentro dessas expectativas você me entrega o livro em mãos. ora, o que pode haver de diabólico nisso? o meu olhar doce? vai me privar da sua entrega num dia desses de verão? ôxe, o meu sexo é renascentista e essas vênus renascentistas são todas pudicas! não obstante, não precisava mais que o olhar (precisava, não precisava, bastava, não bastava). eu gosto que me olhem. não como voyer, mas aquele olhar dos doidos quando em ternura. é bonito, como dizer o nome de seu interlocutor.não é flerte, ousadia: é poesia e eu sou movida a poesia.

bem, contrariando todas as expectativas o meu companheiro resolveu deixar de lado o gêlo homérico com acento circunflexo: me escreveu a carta com mais de uma linha pedindo desculpas, mas nada mais que isso e se pergunto o porquê há uma desconversação. as super-esquisitices. talvez isso me atraia, esse nem caga nem sai da moita, ou como se diz, o areamento.

te amo como as auroras selvagens. meu platão, querido, sim. e aqui então já te posso chamar meu pois não sendo aristotélico...

o tempo todo, o tempo todo ficam dançando na minha cabeça imagens, telas, filmes, poesias, textos... o que já vi, li, e os que fico criando. e quando li na carta penúltima "não há expectativas" o que me veio em mente foi justamente o poema de yeats em "nunca te vi, sempre te amei"... então te lembro ou te faço um poemeto nada indecente e bem cavernoso:

um dia, quebro a caverna
junto os tijolos
e te construo

há um consolo: "talvez" nunca nos vejamos. e penso na canção "não diga nunca ou talvez, que machuca o coração"... ainda àquela outra "não dizes não, dizes sim, o não envenena a gente. dizes sim, 'inda que mintas, mintas, mintas". mas neste caso o talvez me mantém na caverna. sigo oníricos idílios.

mundos diferentes. você fala de classe? tempos diferentes... é, minha mãe me deu um presente uma vez. foi uma única vez, então esse dia nunca me sai da memória (como quase nenhum, eu tenho excelente memória). era meu aniversário de 6 anos, morávamos em brasília na época e ela perguntou o que eu queria: um lp. ela me deu  dinheiro do lp, do ônibus e me mandou ir buscar, me ensinando como chegar lá. penso que era um teste, me jogar nos abismos da liberdade. o fato é que logo voltei com o lp nas mãos: dorival caymmi. ela disse eu devia ser mãe dela. e não só por isso e nada não, mas ó: bem que podia. continuo um chamariz de antiguidades.

ontem eu resolvi ligar pra, aliás. havíamos nos falado há umas duas semanas, naquela cata estúpida com um simples me desculpe. e pagando o pior papel possível, feito as esposas insuportáveis que ficam cobrando e cobrando uma posição, claro, não posso ficar empacada por mais que ame os cavalos. aí resolvi ligar ontem... falamos bastante e parecia estar "normal" de novo.. quer dizer, não houve securas e grosserias e novamente me senti como audrey hepburn, happy in burn. disse: quer ouvir uma coisa? - eu te amo... poxa, claro que eu queria ouvir isso, eu tenho apenas 22 anos, e não preciso me sentir desejada (preciso sim) eu preciso me sentir amada!... então fiquei pensando no que estalou de volta à realidade, se eu posso ser uma realidade. lembrei que quando sai da ladeira disse que tem péssima memória, que eu ia virar nuvem em sua cabeça, ou algo assim. acho que foi isso, a distância física acaba por se tornar emocional. mas pra mim a distância física não se torna emocional, não como regra, mas como excessão. eu sou uma menina platonicamente neurótica. eu crio mundos em minha cabecinha, realidades bem mais praticáveis que a "realidade". na verdade, acho que a convivência é que desgosta. não é fácil suportar as mundanalidades dos outros, e essa é primeira vez que moro sozinha. na universidade morava com 96 pessoas. já morei com amigos, amigas, como casal com duas moças diferentes e em tempos diferentes, com duas moças ao mesmo tempo... a gente aprende tanto com o outro, né. e vendo o outro percebo-o: a convivência os desgosta...

vou pra uma cidade onde encontre a santa constanza. constância não existe. lá foi um aldeamento jesuíta. colocavam lá os índios amansados pra os ajudar a combater os selvagens, esses daqui eram bastante hostis, antropófagos. e em seu lugar também preferiria a um amansado.

sigo percorrendo a terra molhada que é o seu corpo. sigo amando assim selvagem e inocente. podemos fazer um filme? a carta podia ser o prelúdio. eu te beijava os olhos, a boca.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

sonatina cearense, 2

Fotografia sem título de Federico Erra.

dente-de-leão. uma frô que dá muito em mombaça, sertão central cearense. mas não importa a cor, o nome, as reticências. importa que não soubesse que já estampei, em partes, assim: [...] a beleza de sua namoradinha - sua constância, me assusta. apavora. importa os olhos lacrimejantes da senhora mombaça sob a lona preta. escravidão e cegueira.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

primeira narrativa, sexta

Ilustração de Di Cavalcanti (Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, carioca, 1897-1976) para O Bébé de Tarlatana Rosa, de João do Rio. Editora Brasileira Lux, 1951.

depois de ouvir atentamente a divina comédia humana, a palhaça de vinil sentou-se à frente do jurista de seminário e lhe disse:

- você me dá cócegas!

e riu, riu, riu. até revirar o bucho. e ficar o papagaio mudo.
*

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

fragmento, 4

Yahima Torres em fotograma de Venus Noire/ Vênus Negra (França/ Bélgica, 2010), de Abdellatif Kechiche.

cinematográfico: ela estará reclinada sobre ele todo convalescente. seus olhos se encontraram e o espírito de deus volta a se mover sobre a face das águas. e quando sua companheira estiver dormindo,  feche os olhos e dê um jeito de arranjar "um hotel discreto"  e enlouqueça só de me olhar. uma loucura momentânea, como um sonho apenas. como um trem que passa quase-vagarosamente a te deixar devanear, esperando pra atravessar os trilhos. aí ele passa, ele se vai, e tudo volta a normalidade...

é, parece que vou à veneza no carnaval. detesto aché, detesto swingueira, detesto forró desse tipo híbrido com a desgraça que fazem hoje. mas eu gosto de alegria, eu preciso de alegria, santa terezinha! eu gosto de sonhar, eu gosto de ser bem tratada, eu gosto de ser amada, eu gosto de ser sonhada, eu gosto que me paguem uma bebida e que me levem pro trio elétrico, como chama aquele sujeito bigodudo que me fez isto e não me lembro seu nome, mas lembro do volume em suas calças, dos seus olhos cor de luxúria, da sua vontade de me impressionar "sou o dono do trio", e do asco que sinto com impressões assim. gosto que me cubram com o manto sagrado e azul do sonho. gosto do que me trata com o carinho de um pai e até mesmo do seu hálito amargo... nos beijamos, sabe. um beijo inocente, mesmo. e só isso, ele gosta é de ouvir minhas histórias de meninas. e ouve uma mulher com quem ele se relaciona que me convidou pra ir pra casa dela, pediu, maliciosamente, que ele me levasse lá. eu não fui, claro. sou uma moça recatada. do tipo fusca, dá no tranco, mas não vai, se excita com as palavras, as cordas e se joga na fossa quando é preciso o contato. gosto que o poeta me diga "você é a eugenia da raça, e eu te daria meus mil-pneus", gosto da canção-preocupação do roberto e de sua companheira que percebe em mim uma moça mais que moça e me pergunta pedagogias. gosto de correr atrás de crianças: "flamenguista merece cócegas". gosto de pensar que o mundo poderia me caber, gosto de desaparecer. gosto do nada e de fugir de mim. gosto da sua terra, camarada.

aquele poeta, augusto diz que minha vida é um salseiro. sim, ontem me deu saudade dele e liguei. foi frio, perguntou porque liguei, ficou mudo e pra não chorar no gancho e ele me ridicularizar, desliguei. não morro de amores por ele. gosto muito dele. me sinto sozinha aqui, e às vezes isso é tão forte que preciso falar com alguém pra não pirar. era tarde já, pra quem eu ligaria sem o medo de acordar? pra quem se as pessoas que amo não existem e não têm telefone? ele. e fui inconveniente. tudo bem, no ano que vem, acho, as coisas vão melhorar. eu já arranjei uma escola pra trabalhar, apesar de ser em outra cidade. às terças e quintas terei que acordar as 3 da manhã pra chegar lá, mas tudo bem. se as freiras continuarem comigo poderei, finalmente, ter uma vida decente. melhor: quem sabe até não precise nunca mais tentar acumular capital pra pagar as  continhas e me mude pra algum acampamento. o abril vermelho tá aí. eu fico lá. são muitas essas as perspectivas pra uma mãe solteira e só.

está tudo bem. continuo um pouco melancólica, mas nem tanto quanto naquele dia ruim. a melancolia vaievém. eu tô bem. acordei ouvindo nina simone. li uns três poemas e vim te encontrar. esse lugar do impossível.

meus seios cresceram nos últimos dias. não sei explicar isso, mas de fato estão maiores. um amigo veio me visitar e levantei a blusa: acha que estão maiores? ele ficou um tanto escandalizado, na sacada do apartamento. as pessoas lá na rua gostam de olhar e eu logo baixei a blusa, me melancolizei. devo ser mesmo uma maluca. visto uma saia jeans e curta. bem curta, não, pouco acima dos joelhos. uma blusa vermelha. eu fico bem de vermelho. meus cabelos estão feito os de uma leoa da africana (todas o são?), eu gosto assim, não tenho maquiagem, às vezes uso lápis e rímel, quando estou muito pálida com batom bem vermelho.

bem, me estendi demais e tenho vontade de fumar um cigarro. vou me atordoar com tantas palavras, e você não aparece, inexiste. é a palavra do dia. isso não foi ciúme, foi apenas um certo medo de perder o meu lugar. o meu lugar de sonho. o inexistir. é isso que sou e é evidente que não é o bastante, que eu sou charmosa, um pouco bonita, inteligente, interessante e mereço muitíssimo mais. a modéstia é um gracejo, quando não hipócrita. mas podia ser suficiente assim, talvez não seja. mas é o que se me oferece e dou um arroto de satisfação, óquei. e me deito novamente em meu devido lugar. mais cedo eu brincava de palavrear:

sinto um comichão, come no chão
compenetrada, me penetra
biscoito, vamos fazer um coito duplo

oh! meu vizinho, de pc, está ouvindo a trilha de pulp fiction, aquela segunda canção, que é justamente um funk-blues. eu sinto muito por essa eu-que-não-sou-eu. eu não sou uma menininha voluntariosa. ou sou: não leve em banho-maria que eu posso ir do líquido ao gasoso, ao sólido gelo, ai eu derreto, que coisa mais triste.  viu, dá pra fazer um dramalhão! acho que meu humor está ótimo. péssimo é olhar à minha voltar, lembrar as realidades. e agora eu coloquei a mão no lábio, levei os olhos pra esquerda lá no alto... queria tannnnnnnnnnnnntooooooooooo o impossível agora. ai, como eu queria. e queria também conjugar os verbos nos tempos exatos: eu quero.

longe, porém perto
lacrimijante, em gala.

domingo, 4 de dezembro de 2011

fragmento, 3

Fotografia sem título de Tanya Shcheglova e Roman Noven.

barquinhos pintados na parede
minha certeza de naufrágio.

bonito isso, te ninarizzar.

lembrei das festas e elas nunca me apateceram muito. piorou, essas de fim de ano. serão como todas as outras: o mais completo tédio e solidão e, acho, este ano será ainda pior, sei lá, tenho me sentido muitíssimo solitárias estes meses últimos. isso nunca foi coisa de me pegar muito, não me zango e até gosto, mas ando aborrecida... então, no natal provavelmente eu tomo uns vinhos e durmo, mas no ano novo eu desço pra praia e tomo um banho (o que aliás devo fazer hoje, em pouco)... nada demais, nada através, tudo de você.

você me perguntava se é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo? creio que sim, em dimensões diferentes, talvez até mesmo dezenas. quanto a mim, se sou envolvente, é um envolvimento psiquico-afetivo: eu não consigo transar. sério, vai uma de cada vez. e como não estarei a trabalhar por uns dias de recesso, serão 10 dias de maresia, virgi santinha de mim, estes dias são terríveis.

tá bem, eu falo rápido. fico feliz em "saber" que não existe uma terceira ou quarta nota lá nas quintas. e não tem essa de espírito natalino mesmo não. minha família, da parte da mamãe, é bem numerosa, e todos muito festeiros, nestas festas todos se juntam na casa de alguém, mas eu nunca participei, a não ser quando bem pequenina. e um dia que resolvi sair à regra e a mãe expôs pra toda família e amigos, tinham lá umas cem pessoas, sério! expôs a menina, justamente a menina.

bem, passei um natal com a minha cadela capitu, que as luas a tenham, fiz uma torta de soja com cenouras pra nós duas e salada de palmito, acho, bebemos espumante, sim, eu e a cadela. ela me lambia as bochechas de de indiferentes lágrimas. mas no fim das contas, mesmo não cabendo ao mundo, isso se catalisa no natal, não pelo natal em si, mas porque todas pessoas se juntam e eu fico me sentindo estranha demais, nem telefonemas, sabe?

estou escrevendo sobre brueghel. pense em provérbios! mas esse fica pra próxima, eu sou tão encantada pelo cabra que acho que vou escrever uma sobre ele. bem, se for assim, levaria uma vida pra escrever sobre você, com meu corpo-todo. será tudo revirado e revigorado. é assim.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

fragmento, 2

Marc Chagall (biélorusso, 1887-1985). O tempo é um rio sem margens, óleo 193?

sonhei com você esta noite. ou delirava no coletivo. me ligava e eu perguntava desesperada porquê tanto tempo sem notícias, que te amava e te queria. e respondia na semana que vem, meu amor, na semana que vem nos veremos finalmente e serei gertrude.

olha que coisa: semana que vem estarei lá, onde você podia me amar e eu ser eu mesma, mesmo trancafiada. apareceu. aparecia pra me ver, virar pelo avesso.

voltei do interior esta madrugada. viajar... quase esqueci que não estava indo te ver. eu queria tanto poder te abraçar. um abraço de amigo... eu te amo tanto. tanto que dói. e acho que é só em português que amar rima com dor. eu não sou portuguesa, de você, não lembro. estrangeiras. tuas mãos brancas e estrangeiras e inalcançáveis a despir as brumas dos meus vestidos.

sonhei com você esta noite. não foi nada bom: dizia pra eu me ligar, a gente já era. mas, como é difícil a gente se desligar de certas. já decorei os números. já me liguei. sei que não, nada, nunca mais. mas ó, vou te levar. pelo que é, pelo que me é, pelo que sou quando com. ou o que fui. os meus beijos mais ternos.

não apareceu. um dia, mais um dia... e dizia te beijo, porque te amo. dizia, será que você pode imaginar o quanto é dilacerante eu não saber sequer como está? por favor, esqueça que não gosta que eu mendigue e escreva. só pra dizer como vão as coisas, tua saúde.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

fragmento, 1


mal deixei a bolsa num canto vim te falar... que cidade longe da porra! peguei o cambão às 17h e demorei 3 horas e meia numa viagem de 150km de distância: isso te dá uma ideia de nossas estradas "o governo estadual trabalha aqui".

mas é tão longe, tão longe, que vim toda mole de lá aqui, sentindo, ora tesão, ora ternura, ora vontade de chorar, como todo dia, toda hora a te querer garrar... melancolia, claro, mas viajar pode dar tesão também, ficar paradinha no assento. tentei ler um livro, mas não ultrapassei duas páginas, lacrimejei os olhos ao lembrar ou ler certas de omissões, de distância... e estou num cafundó que pensei: era aqui que a gente podia se amar até morrer e, mortas, viver em são saruê... e faz um tempo tão gostoso de quente que dá vontade de viver o impossível imutável, pra sempre, no tédio do sempre.

eu não vou morrer de fome! e eu vou pra não aumentar mais a fome. vou pro alojamento. sonhar, te sonhar até me lambuzar de auroras e tangerinas.

domingo, 2 de outubro de 2011

un altro regalo per voglia


fumar, não fumar: alusões e ilusões de nina rizzi from nina rizzi on Vimeo.

se eu não tivesse acendido aquele cigarro com aquela brasa que me disparou feito uma chispa pra mil e uma noites de odisseus e seus espaços acossados, talvez não houvesse a confusão dos livros, nem em mim e nem você e resnais, meu amor. talvez, se eu ascendesse um após o outro no próprio bira e então tivesse rompido nossos encouraçados alcançando os impérios sensoriais e dançavámos um tango nas amérikas. 

certo é que eu devia ter deixado de fumar. mas meu corpo em transe é uma terra árida e precisa precisa de aventuras, júlios e gins, vê se me entende. não tem essa de falácia, são sombras em meio à essas tantas luzes da cidade. né nada disso não. sem essa de ficção científica, deixa disso de me querer ler as entrelinhas e vamos à fricção anatômica. deixa os mecanicismos e me traz umas laranjas que esses cheiros de frutas me deixam na lua, amazona nua. vamos viver a vida, meu bem, que estamos marcados pra morrer, cabra, e é lindo nosso encontro. 

por que não aqui? uma cidade como tantas outras? sim, eu sei que nunca te vi, mas eu sempre te amei. por que te amo? ora, te amo porque devo te amar e isso nada tem com o tabaco. é o nosso filho... aquele filme só nosso que não se encontra em prateleiras dos sonhos idiotas do grande ditador do consumismo e seus cidadãos. 

pode ser assim: quanto mais fervente mais ternurante. você me aparece com uma rosa que se despetala em seus dentes. eu acendo um cigarro porque tremo de saudades de tudo que não vivi. talvez você faça uma careta porque a fumaça embaça, por fora por dentro não. incríveis exércitos se formam à nossa volta porque tudo é um hino ao amor e eles sabem que somos deus e o diabo, bolas de sabão. blow up. 

não. eu não acendo um cigarro. eu sou ninóthcka e o processo é só um: te olho, te caminho. e você lê meu corpo, livro de cabeceira. depois gozamos tudo que aconteceu naquela noite. 

e fumamos um cigarro. 

[fumar, não fumar, nina rizzi] 
*

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

III Feira do Livro do Seridó

Fotografia de João Maria Alves, que estará com exposição fotográfica e lançamento do livro Cidades Seridoenses - Caicó (Sebo Vermelho Edições), nos três dias da Feira.

podia cantar um parabéns ao contrário. 
rejuvenescer o dia ido, assoprar balões,
recolher e recolocar anéis. 

não deixava a vela cair e acabar com a festa. 
até olhava cordial menino lambuzar minha boca 
com seu dedo de creme branco. 

e como nada me deixasse feliz, 
fosse qual o tempo verbal, 

pego uma mochila de políticas pra mulheres,
uns sacos de vestidos, papéis, canetas
e vou dançar em caicó!

[Poema sem título, in: Maria Clara Uni Versos Femininos, Nina Rizzi]
*


Disseminar a riqueza da literatura, discutir novas tendências, incentivar o hábito da leitura e proporcionar o encontro do público com personagens, autores e obras literárias. Essa é a proposta da III edição da Feira do Livro do Seridó, que será realizada entre os dias 22 a 24 de setembro, na Ilha de Santana, em Caicó.

O evento é um projeto idealizado e produzido pela Comunique Editora, empresa associada à Oficina da Notícia, em parceria com o Governo do Estado e a Prefeitura de Caicó. Faz parte do Circuito Literário do Estado desde 2009, quando surgiu a partir dos bons resultados das cinco primeiras edições da Feira do Livro de Mossoró.

Além da larga oferta de livros, a III Feira do Livro do Seridó oferece aos visitantes palestras, oficinas e bate-papos com autores de renome nacional e local, além de uma intensa programação cultural desenvolvida para despertar no público seridoense o gosto pela leitura. 

Grandes nomes da literatura nacional e regional já marcaram presença no evento. Entre eles, podemos destacar: Gabriel, O Pensador, Tarcísio Gurgel, Vicente Serejo, e o poeta popular Antonio Francisco.

A Feira do Livro do Seridó contribui para a formação do novo leitor e promove o aquecimento do mercado editorial com a venda de livros a preços acessíveis, intensificando sua disposição natural para revelar os novos talentos da literatura potiguar, bem como prestigiar os autores locais.

POESIA NO SERTÃO

Eu também estarei lá, sábado, 24, no palco do pavilhão da exposição, às 18:00h, em um bate-papo com Valdenides Cabral sobre Poesia no Sertão! Compareçam!

Confira a programação completa aqui.
*

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

eu quero uma canção que nos seja

godard, gardel, cortázar
giz, pastel, 5b
sapatilhas, coque, bicicleta

trois fois trois est triskle, triptyque
est une métaphore de l'infini-dimensionnel

- une chanson d'amour

ENTREVISTA E DIÁLOGO POÉTICO

Por Marcelo Novaes, in Bloco de Notas [desativado]

Nina Rizzi



MNNina, você não sabe pintar, mas sabe ler arte [inclusive artes plásticas]. Suas postagens são verdadeiros "murais culturais": história, história da arte, traduções de escritores de tempos e línguas diversos, inter-textualidade com tais obras, além dos teus trabalhos autorais. Ainda que você seja bastante contemporânea, há algo de "humanismo renascentista" em Nina Rizzi, ou da forma como te olho. Ao mesmo tempo em que aprecio [e muito!] a articulação implicada em tuas ricas apresentações-murais-postagens, eu me pergunto se tal proposta não esbarraria na pressa e/ ou preguiça do leitor digital médio. Você não escreve para o leitor digital médio, of course. Quem lê Nina Rizzi?


NR: Eu passei quase toda a infância em zonas rurais do interior paulista. Quando tinha cinco anos peguei o grande livro de cabeceira de meu pai e sabe-se lá como decodifiquei aqueles símbolos que tenho, decorados, ainda hoje: “Ora naqueles dias depois daquela aflição: o sol se escurecerá, a lua não dará a sua luz, então verão vir o Homem nas nuvens, com grande poder e glória... [Marcos, 13:16]”. Todas aquelas histórias mexiam comigo, claro, era outra realidade dentro da minha concha, no entanto, peguei certo asco de tal leitura, pois toda vez que alguém aparecia em casa sentia-me uma macaca de circo tendo que ficar lendo os tais versículos... Mudamos em definitivo para a cidade quando tinha onze anos, mas nunca parávamos numa casa, vivíamos como costumo dizer “déu em deu”. A biblioteca da escola onde estudava era um refúgio, em pouco tempo devorei a sessão infanto-juvenil e o anjo da bibliotecária passou a me indicar alguns livros de poesia, o primeiro que li e estabaquei foi uma antologia de Manuel Bandeira. Depois li Germinal, do Zola, que mexeu profundamente com meus anseios, pensava se não me seria possível um dia juntar-me aos “meus” pra mudar aquilo tudo. Mas a chispa que me disparou para novas possibilidades foi Obras Incompletas de Nietzsche, uma belíssima edição encadernada em azul e com gravuras de Goeldi que encontrei na rua. Eu pouco pude entender, mas sua “Canção bêbada”, as reflexões sobre o cristianismo a arte e o “super-homem”, que ali compreendi como o sujeito que não espera as coisas caírem dos céus e se supera, fazendo-me perceber que aquela minha realidade não era a realidade/ verdade fidedigna, mas representações cristalizadas... Eu tinha treze anos e nunca mais fui a mesma. Fui buscar as obras de Goeldi e Nietzsche na biblioteca municipal de Ribeirão Preto, um belíssimo prédio do século XIX, se revelou pra mim um paraíso, onde outras pessoas pensavam como eu ou diferente de meu círculo, e outras realidades eram possíveis, inventadas ou não.


A arte, a filosofia, as letras me salvaram de mim mesma, já que sabia não poder trilhar aqueles caminhos, por pura falta de “talento”. Isso poderia ter ocorrido antes, se na minha casa ou nas escolas onde estudei tivesse acesso à cultura. Em casa, meu único escapismo eram os filmes que via com meu pai. Por outro lado, quando comecei a me engajar nas leituras esbarrei na linguagem, sentia-me a tirar leite de pedra, o que me deixava ainda mais intrigada e com mais vontade de esmiuçar. O Ellenismos é o modo que encontrei de devolver ao mundo, ao meu povo, outras verdades e possibilidades, o belo e o sublime, mas sem academicismos ou linguagem rebuscada, meus “painéis” e análises de artes são de fácil compreensão, até mesmo didáticos, penso que minha poesia chega a ser mais “difícil” que os textos teóricos.


MNEssa tessitura de temas, além de afrontar a pressa/ preguiça do consumo digital [certa "voracidade impaciente"] exige muita concentração e foco da tua parte. Teu empenho encontraria alguma "resistência inercial" ou torpor ao leitor menos habituado com amplos e concatenados painéis? 


NR: Sem dúvida muito do que está ali não é lido (que pena). Há os que só leem os meus poemas, os que só leem os outros poemas, os que só “passam os olhos” e os que procuram imagens... Mas sei que há quem lê as postagens e percebe que tudo está interligado (como você), como também acontece de um dia o sujeito se deparar com um assunto de seu interesse e então perceber que seu passeio virtual pode ser muito mais que flanar, talvez, como eu, tente se concentrar e passe a ver novas possibilidades/ realidades apresentadas pelas artes. Se uma pessoa alienada ou perdida lesse uma edição do blogue e se questionasse, duvidasse, refletisse, criticasse ou simplesmente risse, eu já estava contente.


MNEm corridas de atletismo há o "corredor fundista", aquele que corre de dez mil metros pra mais. Eu te considero uma fundista cultural. Pra correr tanto, tem que se alimentar bem. Desde quando a cultura te alimenta? E em quais fontes e pomares vc se abastece?


NR: Desde os seis anos, quando entrei na escola, nunca mais deixei de ler um só dia, e leio tudo: poesia, prosa, biografias, filosofia, política, até mesmo aquelas letrinhas miúdas da embalagem de papel higiênico quando estou no banheiro. Todos os dias leio dois jornais do estado (Ceará) e a Folha (sic), às vezes o Le Monde Diplomatique; todas as edições da Caros Amigos e Carta Capital, às vezes a Cult, Preá (RN) e Farol (CE), além de algumas revistas de cultura da rede, as que estão na lista de linques lá do Ellenismos.


MNVocê se agrega a muitos grupos de escritoras. Há algum interesse particular numa "literatura de gênero" ou essa aglutinação de mulheres escritoras é contingencial? Você crê num olhar literário que mereça o rótulo de feminista? Essa "etiqueta" [ou classificação] caberia a quais escritoras de hoje? Há algum homem feminista na área?


NR: Meu interesse é a literatura, seja ela feita por mulheres ou homens, àquela cujo sentimento é universal. Mas creio haver sim uma “literatura de gênero”, há um abismo cultural entre os sexos o que se reflete em nosso agire/ pensare e claro na literatura e nas outras artes. Se eu fui criada pra ser “mulherzinha do maridinho que cuida dos filhinhos e sonha com novelas”, logo minha produção será açucarada, bem como o contrário. E tenho uma visão feminista de mundo, feminista e não femista, onde todos são iguais em sonhos, direitos, oportunidades. A mulher está se mostrando, se arriscando, dizendo a que veio e tem muito que dizer.


Hilda Hilst, Leila Míccolis, Elisa Lucinda, Marize Castro, Manuela Amaral são bem feministas, quer dizer, tratam em seus escritos, também, de assuntos pertinentes à mulher, mas não numa posição vitimizada ou “água-com-açúcar”, são os “super-homens” como absorvi do em Nietzsche lido aos treze anos, bem como as Escritoras Suicidas, e lá tem homens! E se feminista é o sujeito que vê os humanos numa horizontal (sem trocadilhos!), há sim muitos escritores feministas, como Frei Betto, Saramago, Gabriel García Márquez, Jarbas Martins e até você, Marcelo.


MNVocê foi umas das primeiras pessoas que eu escolhi para dialogar poeticamente, fazendo "réplicas poéticas" a textos teus, por considerar que "o diálogo evocatório" faz surgir o sub-texto, o inter-texto, e alarga a leitura do texto do próprio autor. Aliás, é essa a minha proposta para qualquer Oficina Literária: algo entre a Evocação e a Crítica, entretecidas em diálogo escrito. Você crê em Oficinas Literárias, Workshops ou Oficinas de Arte de qualquer espécie?


NR: Creio que os textos só pertençam a seus autores no momento da concepção, depois já está em domínio público, quer dizer, ele é de quem o lê, de quem o interpreta e apreende segundo sua história pessoal. Eu posso escrever algo querendo dizer uma coisa e cada um que ler entender uma coisa e se conversar com você sobre meu texto, percebo que disse muito mais do que queria, e certamente queria – conscientemente ou não -; e posso atribuir ainda muitos outros significados se “me ler” tempos depois, quando já não sou a mesma...


Creio nas oficinas e afins como troca e gosto disso, mas não como “curso” ou diretrizes como “pra escrever bem tem que fazer assim ou assado”. Claro que tenho meus gostos e exigências, mas não creio haver um método, técnica ou forma. Como disse o Saramago: para escrever basta escrever.


MNSem favor nenhum, eu te chamaria de uma pessoa vocacionada à "crítica da cultura", dentro de certas balizas e parâmetros que norteiam o seu ver/dizer/pensar. Aí, eu volto ao velho e bom humanismo, que parece ser o élan de bons historiadores, filósofos, cientistas sociais. Penso em Anatol Rosenfeld, Otto Maria Carpeaux, Sérgio Buarque de Holanda, Antônio Cândido, Darcy Ribeiro, Hélio Jaguaribe. Guardadas as devidas proporções, eu te vejo herdeira desse “pulso" e desse "tônus", no teu modo de se posicionar. Ou seja: eu te ponho na estirpe dos pensadores-criadores, que não pensam a literatura em termos estritos, mas como "índice da temperatura cultural de um tempo e de uma sociedade". Você é extremamente ciente desse "índice". Quais as referências que você preza e que contribuíram para dar lastro ao gênero de trabalho que você se propõe a fazer?


NR: (Ancha) Conversar sobre arte, sobre linguagem da arte, pode parecer um diálogo solitário. Mas não, é apenas silencioso, como diz Henri Wallon, temos muitos socius internos, parceiros internalizados: os teóricos que já lemos os professores com quem convivemos, amigos, personagens, enfim, todas experiências vividas, ou os conceitos que construímos, influenciam nosso contato com o mundo e o modo como o lemos. Mesmo frente a essa entrevista atualizo meus sentimentos e pensamentos marcados por tantas outras leituras que já fiz. Assim, a leitura de palavras, de imagens, do mundo, é carregada de sentidos que tanto estão nas imagens, palavras, mundo, como no seu leitor. Gosto dos pensadores iluministas (mas não do liberalismo econômico), a ruptura a que se propuseram fazer, expressa na máxima de Voltaire: “posso não concordar com o que você pensa, mas lutarei até o fim pelo seu direito de dizer”; de Descartes e seu “duvidar e refletir”. Sérgio Buarque de Hollanda e Otto Maria Carpeaux, Antônio Cândido, são alguns dos meus santos, juntamente com Octavio Paz, Michael Foucault, Sartre, Hanna Arendt, Giulio Argan, Ortega Y Gasset, Ernst Gombrich, Paulo Freire, Karl Marx e Engels, Gaston Bachellard, Pierre Bordieu, Pierre Lévy, Maurice Merleau-Ponty, Gilberto Freyre, Walter Benjamin, Teodor Adorno, Howard Gardner, Ernst Fisher, Josué de Castro, Florestan Fernandes, Heidegger, Kant, Schoppenhauer, Deleuze, Lênin, Trotsky... Nossa, é tanta leitura necessária que gostava de crer em reencarnação: uma vida é muito pouco pra tudo o que tenho que ler e escrever e viver e fazer... Ah, o Nietzsche também, claro...


MNSaindo do campo da crítica cultural para a crítica estética, você concebe um crítico de qualquer das artes não-criador? Ou crê que a própria crítica seja um "modo mitigado de criar", algo assim como uma "criação vicária"? Crê num élan crítico-criativo mais reativo do que pró-ativo? Se eu penso em Panofsky, por exemplo, eu caio na categoria acima, dos críticos-pensadores e não dos resenhistas de jornal de hoje. Quem são os críticos de arte dos meios de comunicação de hoje?


NR: Um amigo dizia que a crítica está para o crítico, assim como a arte para o artista (risos), mas não é bem assim. Saber ler um texto, uma imagem, é sim uma arte. Ora, se digo que não sei pintar, mas me proponho a ler uma imagem não será isso arte? Diz com mais justeza Monegal: “Todo o julgamento é relativo, e crítica é também uma atividade tão imaginária quanto a ficção ou a poesia.” Claro que há exceções no silêncio ou na gritaria do crítico, e as que o próprio silêncio cria. Conspirações não prosperam, nem calam a palavra vivente. “Quanto mais oprimem os talentos, maior glória com isso lhes preparam”, escreveu C. Tácito, nos Anais.


Críticos-críticos? Affonso Romano de Sant’anna, Nelson Patriota, Wilson Coutinho, Maurício Dias, Floriano Martins, Claudio Willer... Mas olha, leio tantas críticas boas de gente que faz questão de frisar não ser crítico... Já leu o Substantivo Plural (www.substantivoplural.com.br)?


MNVocê acredita em literatura militante além-panfleto? Pode haver literatura engajada muito além do panfleto, slogan ou das palavras-de-ordem? Conhece alguém que faça boa literatura desse tipo no Brasil, hoje?


NR: “A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse pra quê...”, Jean Cocteau resume aí a necessidade da arte e seu discutível papel no mundo burguês. A alienação pode ser entendida como a alienação da sociedade em relação às próprias origens e desdobramentos da arte. As artes têm sim uma função social no mundo contemporâneo dominado pela ciência e tecnologia; a arte sensibiliza as pessoas para os problemas sociais de dentro pra fora, pela sensibilidade, logo de modo muito mais eficaz e efetivo. Mas a arte não é um substituto, expressa uma relação profunda entre o ser e o mundo, logo não pode ser resumida a uma única fórmula e, se observarmos suas origens, veremos que essa “função” se modificou e novas passaram a existir. Milhões de pessoas leem livros (infelizmente muito menos do que deveria), vão ao cinema, exposições, museus, e não apenas por divertimento, distração, a arte completa uma vida que não nos basta. Mas, como aponta Antônio Cândido, o problema principal da arte de nosso tempo é criar uma ponte entre o povo e o artista, e um dos males dessa sociedade é que a própria angústia da condição humana só pode ser sentida por uns poucos, privilégio dos que dispõe do ócio e que precisa ser estendida a todos.


Preciso ler tanto mais que os clássicos... Mas Ferréz, MV Bill, Paulo Lins, Giuliano Quase (do Noturno Citadino), Jarbas Martins, cordelistas nordestinos, alguns coletivos de arte como o Óbvius Mexidos, o do MST, tem produzido boas, boníssimas coisas, e no caso do último não só em literatura, mas também em música e artes plásticas.


MNHá pessoas que fazem crítica da cultura através de uma "pequena angular", usando um viés [e aqui defino viés no sentido etimológico não-pejorativo do termo, como vértice-de-leitura], como quem olha pela fresta de alguma fechadura. Exemplificaria alguns destes: Millor Fernandes, Nélson Rodrigues, João Antônio, Jaguar Lima Barreto [!], Graciliano Ramos [!], Ziraldo, Yukio Mishima, Jean Genet, Plínio Marcos. Pode haver, além disso, uma literatura de espreita-denúncia sem que o espreitador esteja imerso na realidade descrita. Há malditos de fato, semi-malditos e espreitadores da maldição. Há malditos na tua estante de cabeceira [mesmo que seja uma estante virtual, por falta de espaço em casa...]? Quais?


NR: E o Aluísio Azevedo, né? (risos). Na minha estante, aqui do lado, você encontra Torquato Neto, Rimbaud, Baudelaire, Caio Fernando Abreu, Raduan Nassar, José Alcides Pinto, Guilherme de Almeida (ah, que bendita maldição o seu “Raça”), Henfil, Bukowski (!!!), Kerouac, Burroughs, Ginsberg, Win Dierckxsens, Anaïs Nin, Cefas Carvalho, Moacy Cirne, Rodrigo de Sousa Leão, Sebastião Nunes, Jorge Amado, Knut Hansum, Dostoiévski (?!), George Grosz, além dos soviéticos, angolanos, chineses e moçambicanos... A estante virtual não é por falta de espaço em casa, grande e sem mobília além do essencial, mas pelo giro dos livros e a falta de dinheiro mesmo (risos)... Giuliano Quase do Noturno Citadino, André HP do Formigueiro Comunista, Cisco Zappa do Nasciclovias Insurgentes, Namibiano Ferreira do Ondjira Sul, Adrian Dorado do La Zona Irredenta, Danilo Lima do A ti, poesia, Rubens Pesenti do Poemastigando, Paulo D’auria...


MNQual a importância da estética para uma educação do olho e da sensibilidade? Você acredita [um laivo que seja...] na proposição estético-romântica [e aqui penso, por exemplo, num Schiller] que enxerga a ética quase como que um desdobramento natural [ou um corolário] da educação estética? No caso alemão, podemos ter um forte contraste com tal suposição otimista, uma vez que o pseudo-refinamento da República de Weimar deu seu endosso ao ideário nazista. Diante da complexidade do tema, e sendo você uma pensadora, como vê você a relação entre educação estética e ética?


NR: Os PCN’s sugerem trabalhar com conceitos estéticos e, como dito antes, se é mais fácil sensibilizar, tocar, levar à reflexão e crítica através da arte, logo é mais que fundamental e necessária, num mundo dominado pela competitividade e corrupção – desde os altos escalões até o aluno que paga para outro lhe fazer o trabalho, a arte é urgente para que se crie um mundo mais.. “vivível”.


A formação ética e estética acontece na educação e é possível sim transformar a ética numa estética da vida, citando Deleuze, “o conceito do pássaro deve contemplar a beleza da plumagem para além da classificação da espécie”. O processo educativo ocorre concomitante aos processos econômicos, sociais e culturais, desse modo não cabe somente à escola a educação, mas a toda sociedade. Partindo do pressuposto freireano de que a educação deve ter uma visão global do aluno, com sua realidade e sentimentos particulares, um processo criador e “recreador” ligados às próprias experiências existenciais e origens culturais dos sujeitos históricos... é preciso, portanto, relacionar o eu com o mundo, e a expressão dessa ética se dá na estética, em todas as formas de expressões humanas. Assim, a arte não é e não deve ser privilégio de classe, mas ser construída e compartilhada por todos, engajados em uma produção/ profusão crítica e criativa na construção horizontal do conhecimento. O ato de conhecer, de criar e recriar objetos faz da educação uma arte. A educação é práxis,a teoria na prática, um ato político, ético e estético.
MNO que é uma "puta resoluta" e o que é uma "escritora suicida"?! Pulsões de vida e morte dialogam no teu fazer literário? Tua hipervitalidade te mantém bem enraizada à vida ou, vez por outra, há algum "flerte com a morte"? O que acha dos escritores suicidas de fato?


NR: Uma puta resoluta é uma mulher que não tem medo de ser mulher, que expõe seus desejos e angústias e não fica esperando ligações: liga; não fica choramingando, dá a volta por cima. Já a escritora suicida é aquela que mata tudo o que a impede de ser mulher, que mata a mulherzinha que há em si para ser a “super-homem” (ainda o sentido nietzschiano absorvido aos treze...), para ser a puta resoluta. A Escritora Suicida, a puta resoluta, são mulheres que matam o impossível. Nós somos impossíveis dentro de todas as (im)possibilidades.


Na infância tentei me suicidar uma vez. Minha mãe me levou numa psiquiatra horrível que, não sabendo o que dizer, simplesmente me diagnosticou como “esqueizofrênica” (risos). Algumas outras vezes na adolescência. Uma vez cortei os pulsos e o médico me chamou de estúpida, que estava tirando vagas na emergência de gente que queria viver e que da próxima vez fosse na jugular, que as veias dos pulsos são superficiais (risos). Não tentei mais, sou apaixonada pela vida e nem umas dez me seriam suficientes. Mas talvez eu tenha inúmeras atividades para não sucumbir à melancolia, sim, eu sou muito melancólica, diante das angústias e injustiças do mundo, mas também por razões intrínsecas, e quando estou trabalhando (e aqui num conceito marxista que vai muito além do trabalho remunerado), fujo um pouco dos “passionalismos” e posso ter irmandade com as gentes, como escrito num poema.


Os suicidas? Corajosos.


MNObrigado, Nina.


NR: Um beijo, Marcelo, adorei nossa conversa.
*


Diálogo poético com Nina Rizzi:
I. Chove chuva. Mas só por uma noite.
é impossível dormir com um silêncio desses...


sou palesti (ni) na
desde que nasci.
e há pedaços em mim
por todos os lados.
há cacos de mim
chovendo em is(la)
rael
: gritavam eles
(era um nome. uma criança)


eu era um mapa
re-cortado
pelo capitalismo.
ismo. doente.


queremo-nos juntar?
só os puzzles,
os filhos,
a chuva de mim...


Nina Rizzi




Lamentos árabes


Nina, desde sempre
espalhada em ilhas.
Pedaços, cacos. [Nem
sei se feita da mesma
argila de nossos
carrascos].


Segure o asco e olhe [ainda hoje]
nos meus olhos, sem embaraço...
[e veja como estão baços & quietos.
Parecem sonolentos, por uma noite
tentando decifrar Platão, enquanto
soprava o vento. E longe, na mansa
planície, matavam-se nossos irmãos].


Se chove em ti às vezes,
Nina [ou se, em pedaços,
te desmantelas como puzzle
-quebra-cabeças a nos inflamar
melhores ímpetos...], que chova
em nós, também, a parte infinita e
invisível de tua lágrima, nesta noite
caída. Interminável.


Marcelo Novaes


II. Elementar, caríssima poeta.


elementar


ela não apenas
me faz divagar-viajar
ela está em tudos
: olhos-decote,
dentes-fitas.
[e até nessa dor
desgraçada-insistente
rins-vesícula-ovários-útero]


ela é uma senhorita desaparecida
em todos meus pertences
seres-células.
ela é meu ello
do novo com o antigo,
trágico e belo,
o querer e o dever;
é a dialógicalética de mim.


essa moça vive comigo na irlanda,
ou em qualquer país
na década de 50 do século XX
[confesso
: me fez matar o homem
que a queria longe de minha cama]


ela tem uma cadela.
eu tenho uma filha.
nós temos nós.
[se(i) que a tenho
feito ela de mim]


nós é uma bela palavra
feito afogamento,
esbatelamento-de-ecrã,
quiça ter-me-ás, tu-as-me.


não, ela não zomba de mim!
ela me quer e tem inteira
sen-tidos tudos.


e eu sou feita dela
minguante nela
nova-nos
cheia dum crescente nós
: monstro e pomba;
auto-retrato e painel;
diferentes igualdades;
grande-miúda;
o vento e a água.


seremo-nos ondas
até que nunca amanheça
e permaneça só serenos
nos-sos filhos.


Nina Rizzi


Holográfico


Não me importa que
ela habite teus ossos,
músculos ou vesícula.
Que lhe desperte Eros
[arrepie a pele], ou te
empurre à bile. Desde
que me fite nos olhos
e comigo converse o
Algo [um algo]
desses Abismos
Todos. Somos
Íntimos.


Vou avisando logo:
quero compromisso de
confidente. Não me importa
quantas delas - senhoritas
desaparecidas ou foragidas –
morem na Irlanda ou militem
no IRA.


Sei que em ti, também, habita
uma criança, que, por ora, mora
fora de suas células. E dentro. Como
um holograma-de-afeto, pós-feto.
[E como sei que isso é bonito...]


O fato, irrefutável [e quase
trágico] é que mataste um
homem, no meio do século
passado.


Talvez eu possa [devo confessar
mais que mero esforço para fazê-lo]
conviver com este teu lado, digamos
assim, menos afável e mais disposto.
[E de sangue salpicado].


Se você é minguante ou
crescente, pomba-gira grande ou
miúda, pouco se me importa: isso
é com sua amante. Eu sou gente.


[Serve?!].


Marcelo Novaes


III. Pontes sobre a Dor e o Riso.


dos risíveis amores


bem vindos
todos somos.
uns sós.
não obstante
: moramos na mesma concha


não sabe? pois! que saiba
: não perder as asas,
não ser ilha.


porra, falamos a mesma língua!


vamos de barco
pra o paraíso
quiça o não.


Nina Rizzi


Thirthankaras (“Construtores de Pontes”)


Esqueça os nãos.
[Precisas de Fôlego
e de Crença. De Tanta
Coisa...].


Vamos, de mãos dadas, até
uma Terra Pura, administrada
por um Cristo ou Buda.


Mas há de ser a pé.
E de mãos dadas.


[O barco se deixa à margem
do rio. Não se carrega nas
costas. Mesmo largas].


Por aqui, deixamos o
que é risível: sonhos
ou namoradas. As asas
falsas, o fôlego emprestado
por sintéticas substâncias.


Construiremos uma ponte
sobre o Nada: com Nossos
Passos.


[Thirthankaras: construtores de
pontes, como os jainas: Mahavira,
Mahatma Gandhi. Ou Travessias
por Água: Santa Maria, Pinta e Nina].


Marcelo Novaes


IV.Luxúria a Cem Quilômetros por Hora.


Top Bus Coletivo


o coletivo balança
em uma hora
ele para
: sou a próxima a descer


(dar um bom jeito de fazê-la
me perdoar pelo
mau-humor-tempo-encaixe
pelo que está por vir)


vejo azulejos cabelos
cine-luxúria
e nada é capaz de me demo-ver
do coletivo próximo
: mercados e rios e ervas
e o findar dessas
minhas letras
cAmBaLe-anTEs.


só o coletivo vai parar
(e por um instante mísero)
tudo o mais seguirá
na mais tediante
normalidade
: a fármacia e os vidros
e minha existenciazinha
(se ela não suportar
polite-ísmos
manhãs-descafei-nadas)


até o próximo coletivo.


Nina Rizzi


O Desejo é Riso Amplo no Coletivo Top Top


Você será a próxima
a tentar descer dessa
geringonça que anda
[com mais patas,
dentro, do que
rodas].


Se muito estiverem no teu
caminho, terás de passar à
força.[Quem se importa?!
Cada qual reclama de Cada
Outro para o Terceiro Olhar
Anônimo, do Desencontro a
Três: Certeiro. A Vida - dentro
e fora do Bus Top-Top -, quase
sempre, é pouco mais que viver
num Coletivo Pardieiro].


Prossigamos. Perdoo teu mau
humor e o pouco encaixe de meu
púbis no teu cóccix, do teu perfume
com o meu suor, do meu jeito com o
teu humor. [Mas já está bom, convenhamos.
Vamos que vamos, bem embalados. E esse
ajuste médio, num coletivo top top, já é raro,
e é o que mais prezo. Sou capaz de te seguir
do ponto em que você descer, até o Infinito,
se mantiver, nesse teu rosto de mulher, esse
Amplo e Numinoso Rizzo].


Eu sei. Você vê o que está fora,
e pode ser Tédio o nome que a Isso
melhor se dê. Eu sonho rios e ervas
no cheiro do teu cabelo, arrisco a mão
nas tuas ancas [obras-primas da Criação],
e nada é capaz de demover-me de cambalear
pra dentro de você.


Até sentir as letras cambaleando no
pensamento no que pretendo dizer
pra entrar em você o mais logo o mais
cedo [meu veículo fundo e privado], a
partir de nossa próxima manhã juntos.


[Sim. Dê o sinal, que eu desço...]


Marcelo Novaes


V. Sem Peso.


da insustentável leveza


: assim leve. foi a segunda vez que ouviu alguém dizer exatamente o que pensava (ou queria) sobre si. ela, agora, e aquele garotinho de onze anos. lá um tempo atrás. um ano louco, rumando as sutilezas e subjetividades.


: tranquila. zen. disse o menino. pra o seu ser se encher de todo afeto que há no mundo. e dessa feita foram as lágrimas. a face seca. os olhos doídos de segurar o peso.


apenas olhou com seus olhos-ternura-furta-cor a moça que a via. via.


Nina Rizzi


O Eterno nos Olhos


Eu era um menino de
onze anos, e também era
menina. Como ela queria ou
quisera. Ambos eu era.


E eu a vi leve e a disse leve,
com sutilezas de garotinho que
as faces torna secas, e empilha
flocos de neve [imaginários]
nas férias tão breves.


Mas ela era assim, como eu
Era, ambos os sexos. E todo
o olhar Zen também havia,
sem peso, a preencher-nos
os olhos e os dias.


Desde então, o afeto que era
no mundo, hoje é dobrado. E
não caiu [porque sem peso]
das bordas dos olhos molhados
que éramos nós mesmos.


Continuamos sendo.
Ambos. Vemo-nos, como
se, ali, soubéssemos todo
o Tempo.
Eterno.


Marcelo Novaes


VI. Bússola dos Náufragos.
Ô: pretérito-imperfeito


não quero mais saltar
de abismos tão baixos
não vale medir
(se)
que perna quebra,
se um olho se cala
: a queda sou eu


rodo logo, recuo, retorno
aos meus velhos discos
rebolados em lixos
: ô pretérito-imperfeito


não quero janelas
ah
só um precipício
o mar


: só jogar
em búzios
meu corpo


pensava num voo
pobre-crisálida
: o corpo não basta
tudos. existe


Nina Rizzi


Bússola dos Náufragos


Não basta medir-te
em pedaços: és inteira
mesmo que te quebres
[mãos, tronco, braços].


[E, no mar, pairas:
bússola dos náufragos].


Antes da Queda,
A Pirueta: lagarta
esperneando na
crisálida. Lenta.


Se tiver sorte e teu
corpo se desfizer em
búzios [em transe e
metamorfose], lanço-os
na areia e leio meu Orixá,
antes do mergulho.


Assim, fecho meu corpo
ao teu canto de sereia...].


Marcelo Novaes


VII. Das Gatas da Gata & Outros Gatos.


das antiguidades não obsoletas


-=cecília=-


gemidos da minha gata.
siamesa. miscigenada.
minha lânguida gata
magra se enrola caracol
eu rodopio
lâmbda
lambida...


corre treteira
pra cima do telhado
derruba tinta
em minha camiseta
subo borboleta
até a chaminé.


minha gata é preta.
ainda bem que gosto.


pula de pé
no meu colo,
só atira certeiro.


platão me deu
medéia
minha gata
multi-étnica. ego. cecília


-=uma melodia=-


não posso fazer as coisas
pararem de tremer,
se tudo o que quero
é que o mundo bambeie
ao nosso redor
minimalisticamente como um falso jazz
ao provocar terremotos
em terras férteis e distantes;
não corte o blues!
é que ele estremece


Nina Rizzi


Gatas da Gata & Outros Gatos


Tua gata geme, e eu sei
como. Minha gata e meu
gato ronronam: Zaratustra
e Zara.


Tua gata não parece
tão vetusta: lânguida
e enrolada.


Que idéia boa, esta
[platônico-certeira],
que salta e pula no
seu colo, volta a
saltar e pula no
seu colo.


Lambe a sua cara
e as orelhas.


Tu gemes e o chão
treme - que a carne
e a terra são frágeis,
baby. E afinas, mais,
os teus falsetes.


[Acordando musas,
e animais. Gatas e
serpentes].


Marcelo Novaes
*