sábado, 6 de agosto de 2011

mais um vídeopoema experimental



o polietileno demora milhões de anos pra se decompor; para os humanos de plástico basta um clique: apagar contato.

tenho os lábios sangrados. uma amiga que conta como me quer em suas peripécias sexuais com uma garota, duas, três, quatro ou cinco caras. um amigo que quer fazer sexo comigo e com outra e outras, ao mesmo tempo. tenho um homem que acha que é meu companheiro, que por isso me quer como num filme sérvio. útero, ovários, orifícios vários além do verso. tenho uma lembrança asquerosa, cheiro de sexo junto aos pelos no ralo do banheiro. ganhei poemas cheios de dedos, um afago antes do tapa. quem disse que o sexo é libertação? a poesia, sim, as pessoas que a fizeram segundo o chamamento de mim. mas eu não sou meu duplo.

[elogio ao corpo, nina rizzi]

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Nina Rizzi, Tortografia. v.3, p.2. 2011.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

one box of fifty pounds

Nina Rizzi, Autorretrato, 2005.

lembro do início. eu te achava e te ria e te queria e te comia. você me gostava por causa dos versos: vinde a mim os casados e eu vos aliviarei. então a paixão entornou. me assustei. te ver me rasgou o supercílio, contraiu o ílio. depois ficamos anos nos olhando à distância. um, dois, era a eternidade. então arranjei um jeito surreal de nos juntar sem levantar suspeitas. e te abandonei pra chorar no meio fio. e te encontrei pra chorar minhas inseguranças e vilanias. e te amei e me enrosquei. então parecia que a gente ia se fundir feito cola, eu me solidificava dentro de suas estruturas. mas você só lembrava aqueles primeiros versos, que ironia, diante de tantas orações profanas que fiz com teu nome. então você olhou pra trás, quinze anos e a mesma mulher. quinze anos de cumplicidade diante de nossos encontros que juntados não davam um só dia. e como eu me rastejasse tanto, você acreditou que eu era borboleta, voava alto e morria depois de um dia. você gostava dessa morte, porque abjeta borboletas. e mesmo que você me tenha matado, não te abnego, lembro outros versos: uma caixa de glórias, adeus.

ninar.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

"please put down your hands 'cause I see you"

Nina Rizzi, Fotografia sobre Pop Art do IVAM - Instituto Valenciano de Arte Moderna/ Espanha, 2009.

e como doesse o esquecimento e a inércia, caminho até à praia, que o frio cortante é tão raro como sua imagem de boneca russa, acrobata de filmes antigos, um vermelho vintage.

que seria um desperdício deixar o dia passar assim, depois da noite passada, dos lábios macios e das mãos por dentro da calcinha de florezinhas ou ursinhos ou qualquer dessas coisas delicadas.

então um maço de balões voava pela avenida e eu podia morrer correndo assim atrás de balões. mas todos os carros param pra uma moça passar com seus cabelos e euforia infantil e um homem lhe entrega o bouquet de balões e eu fico pensando nela, se já terá ido à paris, ela que é mais francesa que a menina que eu beijei num campo em construção como prêmio pelo cuspe à distância. 

combina com ela, o chão que nunca vi, as pedras no calçamento como àquelas de copacabana ou de camboriú. o calçamento repleto de murta, os jardins repletos de cheiros que não de morte. e a menina que me acena no poema que recorda: quartier latin, rhümi e japamala.

era um convite à vida, a moça que afasta o caderno, levanta os óculos e diz: o play, tem velvet underground na vitrola. vitrola, sim. e máquina de escrever e uma franja lisa e um falso corpo magro como gostava alberto vargas e eu sublimo.

desço à praia com os balões e essa angústia tão própria de mulher e esses desejos escondidos tão próprios de ser e essa paisagem de cinema. quando a noite cai.

passo os dedos pelas pontas do cabelo e é áspero, como uma resignação profunda, um constatar quase-patético: viver a música, viver o cinema, viver o poema. quando o corpo suspende.
*

sábado, 18 de junho de 2011

experimentos que não podem ser coligidos

                                            Nina Rizzi, Girassol morto pra Schiele. Grafite sobre canson, 2011.


"o que você pensa que vai fazer?"

soavam os destroços de zabumbas. bandeiras, catraias, trapiches.
o tanto desfalar. distância mais emocional que física, cornos, cavalos.
um coice, um ruminar.

isso, só isso. um ir, um vir, se deixar.
uma puta, uma cadela.

(égua não que combina. eu era a estrelinha do papai)

o que eu gosto, o que eu não gosto
a amarelinha, a fêmea, o nasgo, a fumaça.
um ramo de flores, girassóis secos pra schiele, lexandrina e araim.

maquiagem borrada, a noiva de vermelho.
um pouco de preto, um pouco de ranhura, um pouco de tudo.
um pouco de mim, um muito. um pouco de possível, senão, senão.

(há o tempo de comer, há o tempo de tudo, do apodreser)

tango e desamor, extratos, descaminhos.

[l'amour, carmen, 05:02. zambê, nina rizzi]
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